{"id":3902,"date":"2021-02-12T06:09:51","date_gmt":"2021-02-12T09:09:51","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3902"},"modified":"2021-02-12T06:09:54","modified_gmt":"2021-02-12T09:09:54","slug":"a-popularidade-das-politicas-de-punho-de-ferro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-popularidade-das-politicas-de-punho-de-ferro\/","title":{"rendered":"A popularidade das pol\u00edticas de punho de ferro"},"content":{"rendered":"\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>Co-autor Jonathan D. Rosen<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina e o Caribe v\u00eam lutando h\u00e1 anos com uma epidemia que n\u00e3o \u00e9 a do coronav\u00edrus. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/la-violencia-interminable-en-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">As altas taxas de homic\u00eddios na maioria dos pa\u00edses da regi\u00e3o <\/a>levaram a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade a classificar este flagelo como uma epidemia. De acordo com o Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), entre 2000 e 2010 mais de um milh\u00e3o de pessoas morreram como resultado da viol\u00eancia criminosa. Durante esses anos, a taxa de homic\u00eddios cresceu quase 11%, registrando mais de 100.000 assassinatos por ano. Neste contexto, os governos de ambos os lados do espectro pol\u00edtico implementaram pol\u00edticas de seguran\u00e7a com um aumento na popularidade das pol\u00edticas de punho de ferro.<\/p>\n\n\n\n<p>O endurecimento de senten\u00e7as, o uso discricion\u00e1rio da for\u00e7a por parte da pol\u00edcia, o encarceramento em massa e at\u00e9 mesmo a militariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica dom\u00e9stica t\u00eam sido algumas das iniciativas para enfrentar a viol\u00eancia e os sentimentos de inseguran\u00e7a. Mas, de acordo com diferentes pesquisas, as pol\u00edticas de punho de ferro t\u00eam impacto limitado nas taxas de homic\u00eddios e nos n\u00edveis gerais de criminalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>As redes criminosas se adaptaram a estas estrat\u00e9gias, tornando-se mais violentas e organizadas. Alguns estudos tamb\u00e9m apontam que as pol\u00edticas de punho de ferro implementadas na regi\u00e3o nas \u00faltimas d\u00e9cadas t\u00eam minado a democracia de diferentes maneiras. Neste contexto, por que a m\u00e3o pesada permanece t\u00e3o popular apesar das amplas evid\u00eancias contra ela?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Brasil e Col\u00f4mbia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como em outros pa\u00edses, as percep\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a no Brasil e na Col\u00f4mbia favoreceram a elei\u00e7\u00e3o de candidatos de direita que chegaram ao poder apoiados por propostas radicais contra o crime. Em 2018, os colombianos votaram em Iv\u00e1n Duque, que prometeu relan\u00e7ar muitas das estrat\u00e9gias implementadas pelo ex-presidente \u00c1lvaro Uribe, para que os criminosos em seu pa\u00eds soubessem desde o primeiro dia que &#8220;aqui se faz, aqui se paga&#8221;. Nesse mesmo ano, o Brasil elegeu Jair Bolsonaro, que al\u00e9m de elogiar as d\u00e9cadas de ditadura militar, garantiu sem hesita\u00e7\u00e3o que com seu plano os criminosos &#8220;morreriam na rua como baratas&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nosso <a href=\"https:\/\/link.springer.com\/article\/10.1007\/s12117-020-09396-6\">artigo de pesquisa recentemente publicado no <em>Trends in Organized Crime<\/em>,<\/a> onde usamos dados do Projeto de Opini\u00e3o P\u00fablica da Am\u00e9rica Latina (LAPOP, sua sigla em ingl\u00eas ) da Universidade Vanderbilt, revelamos que a vitimiza\u00e7\u00e3o do crime e a ideologia n\u00e3o s\u00e3o fatores relevantes de apoio \u00e0s pol\u00edticas de punho de ferro no Brasil e na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>As taxas de criminalidade em ambos os pa\u00edses n\u00e3o influenciam diretamente as prefer\u00eancias punitivas das pessoas. O apoio ao punho de ferro parece estar relacionado a fatores emocionais como o medo do crime. Os eleitores conservadores, por outro lado, n\u00e3o s\u00e3o necessariamente mais punitivos, porque o apoio ao punho de ferro se estende a todo o espectro ideol\u00f3gico. Da mesma forma, as pessoas que apoiam as For\u00e7as Armadas, uma institui\u00e7\u00e3o que goza de altos \u00edndices de confian\u00e7a em ambos os pa\u00edses, s\u00e3o mais propensas a favorecer medidas extremas sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das escolhas dos eleitores no Brasil e na Col\u00f4mbia, os determinantes socioecon\u00f4micos subjacentes \u00e0 crescente popularidade dessas medidas n\u00e3o s\u00e3o os mesmos em ambos os pa\u00edses. No Brasil, o regime pol\u00edtico n\u00e3o parece ser uma prioridade se o governo quiser enfrentar o crime, pois tanto os partid\u00e1rios da democracia como os partid\u00e1rios do regime militar concordam que as penas para o crime devem ser aumentadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, o caso brasileiro tamb\u00e9m revela que a demanda por um punho de ferro cresce entre aqueles com n\u00edveis mais altos de educa\u00e7\u00e3o e renda familiar mensal. Isto sugere que as prefer\u00eancias punitivas est\u00e3o ligadas \u00e0 classe social.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Col\u00f4mbia, pelo contr\u00e1rio, as pessoas que acreditam que a democracia \u00e9 o melhor sistema de governo s\u00e3o mais a favor do punho de ferro. Isto explica porque os colombianos n\u00e3o est\u00e3o dispostos a sacrificar a democracia para combater o crime, apesar de suas prefer\u00eancias punitivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os resultados da pesquisa tamb\u00e9m indicam que as pessoas idosas e as que residem em \u00e1reas rurais s\u00e3o mais propensas a apoiar medidas extremas. Enquanto o envelhecimento parece estar ligado a menores riscos de vitimiza\u00e7\u00e3o e ao fato das pessoas mais velhas terem testemunhado a viol\u00eancia da &#8220;guerra \u00e0s drogas&#8221; durante os anos 1980 e 1990, \u00e9 prov\u00e1vel que o punitivismo nas \u00e1reas rurais esteja associado a altos n\u00edveis de tr\u00e1fico de drogas e organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Colombianos e brasileiros compartilham grande preocupa\u00e7\u00e3o com o crime e a inseguran\u00e7a, e os cidad\u00e3os de ambos os pa\u00edses est\u00e3o dispostos a tomar medidas dr\u00e1sticas. A ascens\u00e3o de Bolsonaro e Duque, similar a outros pa\u00edses da regi\u00e3o durante a \u00faltima d\u00e9cada, pode ser entendida como uma resposta \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica e \u00e0 crescente popularidade do punitivismo. Isto em um contexto onde o sistema partid\u00e1rio tradicional e as ideologias pol\u00edticas est\u00e3o perdendo relev\u00e2ncia diante das percep\u00e7\u00f5es de inseguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, os altos n\u00edveis de confian\u00e7a nas For\u00e7as Armadas aceleraram a militariza\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a dom\u00e9stica, apesar das viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e das consequ\u00eancias negativas para a democracia. Apenas algumas d\u00e9cadas ap\u00f3s o processo de democratiza\u00e7\u00e3o que caracterizou a Am\u00e9rica Latina, os cen\u00e1rios na Col\u00f4mbia e no Brasil ilustram muitos dos dilemas que a regi\u00e3o enfrenta hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Photo by canhotagem on Foter.com \/ CC BY-NC<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Jonathan D. Rosen<br \/>\nOs governos de ambos os lados do espectro pol\u00edtico implementaram pol\u00edticas de seguran\u00e7a e as estrat\u00e9gias de &#8220;mano dura&#8221; t\u00eam se tornado cada vez mais populares. Mas de acordo com a pesquisa, estas pol\u00edticas t\u00eam um impacto limitado.<\/p>\n","protected":false},"author":195,"featured_media":3899,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16808,14534,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-3902","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-violencia-policial-pt-br","8":"category-violencia","9":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/195"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3902"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3902\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3899"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3902"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3902"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3902"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=3902"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}