{"id":39123,"date":"2024-03-21T15:00:00","date_gmt":"2024-03-21T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=39123"},"modified":"2024-03-21T12:20:21","modified_gmt":"2024-03-21T15:20:21","slug":"as-mudancas-climaticas-tambem-provocam-migracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-mudancas-climaticas-tambem-provocam-migracao\/","title":{"rendered":"As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas tamb\u00e9m provocam migra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>As <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-conexoes-inseparaveis-entre-mudanca-climatica-migracao-e-ambiente\/\">migra\u00e7\u00f5es provocadas por inunda\u00e7\u00f5es, inc\u00eandios florestais e secas em pa\u00edses<\/a> como Brasil, Argentina e Chile ou a necessidade de realocar popula\u00e7\u00f5es costeiras devido ao aumento do n\u00edvel do mar, como est\u00e1 ocorrendo na Costa Atl\u00e2ntica e Pac\u00edfica do Panam\u00e1, s\u00e3o alguns dos exemplos de mobilidade humana no contexto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o, assim como no resto do mundo, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o se agravando e provocando danos significativos em todas as esferas, conforme alertou o <a href=\"https:\/\/report.ipcc.ch\/ar6\/wg2\/IPCC_AR6_WGII_FullReport.pdf\">Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC)<\/a>. O aumento nos n\u00edveis de fome e de inseguran\u00e7a alimentar, o aumento de diversas doen\u00e7as e a perda global de biodiversidade est\u00e3o for\u00e7ando milh\u00f5es de pessoas a abandonar suas casas ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n\n\n\n<p>A mudan\u00e7a clim\u00e1tica tem efeitos desiguais e afeta mais intensamente os pa\u00edses do Sul global, que est\u00e3o mais expostos e vulner\u00e1veis aos seus impactos. Al\u00e9m disso, a capacidade desses pa\u00edses de enfrentar e se recuperar de seus efeitos adversos \u00e9 limitada, devido a fatores como pobreza e desigualdade, maior presen\u00e7a de conflitos, escassez de recursos econ\u00f4micos e humanos e fragilidade institucional.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina \u00e9 respons\u00e1vel por apenas 8% das emiss\u00f5es globais de gases de efeito estufa, mas \u00e9 uma regi\u00e3o altamente vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Na regi\u00e3o, esse fen\u00f4meno impacta as migra\u00e7\u00f5es e, particularmente, os deslocamentos internos. De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.internal-displacement.org\/global-report\/grid2023#\/\">Centro de Monitoramento de Deslocamento Interno<\/a> (IDMC, por suas siglas em ingl\u00eas), somente em 2022, foram registrados 2,1 milh\u00f5es de deslocamentos internos decorrentes de desastres nas Am\u00e9ricas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.undrr.org\/es\/publication\/undrr-ocha-panorama-de-los-desastres-en-america-latina-y-el-caribe-2000-2022\">Escrit\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Redu\u00e7\u00e3o do Risco de Desastres<\/a>, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe s\u00e3o a segunda regi\u00e3o mais propensa a desastres no mundo, depois da \u00c1sia e do Pac\u00edfico. No per\u00edodo de 2000 a 2022, mais de 190 milh\u00f5es de pessoas foram afetadas por desastres como enchentes, tempestades, terremotos, deslizamentos de terra e secas. Esse \u00e9 um fen\u00f4meno hist\u00f3rico, cujos efeitos s\u00e3o agravados por fatores de risco como pobreza, desigualdades, fome, inseguran\u00e7a alimentar, crises econ\u00f4micas e instabilidade pol\u00edtica. Mas esses fatores foram recentemente agravados pela crescente degrada\u00e7\u00e3o ambiental e pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, bem como pelo alto n\u00famero de pessoas que vivem em assentamentos informais nas metr\u00f3poles do mundo em desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com as proje\u00e7\u00f5es do <a href=\"https:\/\/openknowledge.worldbank.org\/entities\/publication\/2c9150df-52c3-58ed-9075-d78ea56c3267\">Banco Mundial<\/a>, at\u00e9 2050, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas poder\u00e3o levar a 216 milh\u00f5es de migrantes internos por motivos clim\u00e1ticos em seis regi\u00f5es: \u00c1frica Subsaariana; Leste Asi\u00e1tico e Pac\u00edfico; Sul da \u00c1sia; Norte da \u00c1frica; Am\u00e9rica Latina; e Leste Europeu e \u00c1sia Central. Os cen\u00e1rios clim\u00e1ticos mais pessimistas estimam que 17 milh\u00f5es de pessoas poder\u00e3o ser deslocadas pelos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas na Am\u00e9rica Latina at\u00e9 2050.<\/p>\n\n\n\n<p>As cifras atuais sobre as migra\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e as proje\u00e7\u00f5es para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas levaram a chefe da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM), Amy Pope, a declarar em setembro de 2023 que &#8220;entramos oficialmente na era da migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica&#8221;. A <a href=\"https:\/\/publications.iom.int\/system\/files\/pdf\/iml_34_glossary.pdf7\">OIM<\/a> define esse fen\u00f4meno como o &#8220;movimento de uma pessoa ou grupos de pessoas que, predominantemente por motivos de mudan\u00e7a ambiental s\u00fabita ou progressiva devido \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, s\u00e3o for\u00e7ados a deixar seu local de resid\u00eancia habitual ou optam por faz\u00ea-lo, tempor\u00e1ria ou permanentemente, dentro de um estado ou atrav\u00e9s de uma fronteira internacional&#8221;. A migra\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica \u00e9, portanto, uma subcategoria da migra\u00e7\u00e3o ambiental, mas, para entender suas caracter\u00edsticas e efeitos reais, \u00e9 necess\u00e1rio superar as vis\u00f5es reducionistas e alarmistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Como mostram os <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2023\/nov\/03\/how-migration-really-works-by-hein-de-haas-review-home-truths\">estudos migrat\u00f3rios<\/a>, a mobilidade humana \u00e9 um processo complexo e multifacetado que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem refor\u00e7ar, acelerar ou agravar. Nesse sentido, o foco necess\u00e1rio nas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas como um fator indireto e, muitas vezes, diretamente associado \u00e0 migra\u00e7\u00e3o &#8211; tanto interna quanto internacional &#8211; n\u00e3o pode e n\u00e3o deve obscurecer as for\u00e7as econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais por tr\u00e1s da mobilidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Afinal, fatores como a pobreza, as desigualdades, a escassez de alimentos e de recursos, a urbaniza\u00e7\u00e3o e a falta de emprego continuam a ser os principais impulsionadores do deslocamento populacional e n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que sejam as popula\u00e7\u00f5es do Sul global as principais deslocadas por esse fen\u00f4meno. Entretanto, em um mundo em que a mobilidade humana \u00e9 uma estrat\u00e9gia desejada, mas n\u00e3o dispon\u00edvel para todos, a imobilidade for\u00e7ada e a exist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es presas em seus locais de origem constituem uma maioria silenciosa.<\/p>\n\n\n\n<p>O necess\u00e1rio olhar cient\u00edfico sobre as migra\u00e7\u00f5es, o reconhecimento de que existem estrat\u00e9gias de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e de que seus efeitos podem, muitas vezes, ser evitados e mitigados com pol\u00edticas adequadas, n\u00e3o devem nos impedir de discutir uma quest\u00e3o que merece plena aten\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o entre meio ambiente, mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e migra\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente na Agenda 2030, nos Pactos Globais sobre Migra\u00e7\u00e3o e Ref\u00fagio e em instrumentos espec\u00edficos, como a Iniciativa Nansen, o Marco de A\u00e7\u00e3o de Sendai e os Princ\u00edpios da Pen\u00ednsula sobre Deslocamento Clim\u00e1tico Intraestatal, para citar apenas alguns. A n\u00edvel global, h\u00e1 tamb\u00e9m um movimento importante para ampliar a defini\u00e7\u00e3o de ref\u00fagio para reconhecer as causas ambientais e clim\u00e1ticas que motivam esse processo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, Grupos como a <a href=\"https:\/\/resama.net\/\">RESAMA<\/a> (Red Suramericana de Migraciones Ambientales) v\u00eam trabalhando h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada para tornar essa realidade vis\u00edvel e possibilitaram a formula\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias cient\u00edficas e recomenda\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas p\u00fablicas. H\u00e1 tamb\u00e9m iniciativas como vistos humanit\u00e1rios para pessoas deslocadas por desastres no Brasil e na Argentina, enquanto na Col\u00f4mbia um recente <a href=\"https:\/\/www.camara.gov.co\/dezplazamiento-por-causas-climaticas\">projeto de lei (N. 299\/2022C)<\/a> busca reconhecer de forma pioneira o deslocamento por causas clim\u00e1ticas. H\u00e1 tamb\u00e9m um significativo esfor\u00e7o regional para uma nova leitura da Declara\u00e7\u00e3o de Cartagena sobre Refugiados de 1984, que inclua as causas ambientais desse fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, ao discutir as migra\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, n\u00e3o podemos esquecer a responsabilidade dos Estados diante das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e os efeitos desiguais que esse fen\u00f4meno provoca a n\u00edvel mundial, com \u00eanfase nos pa\u00edses do Sul. Em outras palavras, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel realizar negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas globais ou discutir seriamente seus impactos na mobilidade humana sem reconhecer os v\u00ednculos entre esse fen\u00f4meno e a falta de justi\u00e7a social e ambiental. Em uma regi\u00e3o como a Am\u00e9rica Latina, caracterizada por enormes desigualdades e n\u00edveis crescentes de injusti\u00e7a multidimensional, esse deve ser o ponto de partida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O aumento nos n\u00edveis de fome e de inseguran\u00e7a alimentar, o aumento de diversas doen\u00e7as e a perda global de biodiversidade est\u00e3o for\u00e7ando milh\u00f5es de pessoas a abandonar suas casas ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":39069,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16764],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-39123","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-migracion-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39123","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39123"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39123\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39069"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39123"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39123"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39123"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=39123"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}