{"id":39166,"date":"2024-03-24T05:00:00","date_gmt":"2024-03-24T08:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=39166"},"modified":"2024-03-22T17:43:17","modified_gmt":"2024-03-22T20:43:17","slug":"militarismo-militarizacao-e-civis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/militarismo-militarizacao-e-civis\/","title":{"rendered":"Militarismo, militariza\u00e7\u00e3o e civis"},"content":{"rendered":"\n<p>A eros\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o envolve apenas a ascens\u00e3o de l\u00edderes populistas, baixos n\u00edveis de participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es e respaldo a figuras autorit\u00e1rias. H\u00e1 uma vari\u00e1vel que est\u00e1 se tornando cada vez mais vis\u00edvel em v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos, que \u00e9 a predomin\u00e2ncia dos militares sobre o poder civil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de entrar no assunto, \u00e9 necess\u00e1rio diferenciar dois conceitos: militariza\u00e7\u00e3o, entendida como o crescimento da <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-preocupantes-consequencias-da-militarizacao-e-da-policializacao\/\">presen\u00e7a militar em atividades que historicamente correspondiam a civis<\/a>, e militarismo, a doutrina de algumas na\u00e7\u00f5es para fazer valer seus interesses nacionais atrav\u00e9s da for\u00e7a sobre recursos naturais ou sobre algum outro pa\u00eds. Neste texto, vou me referir ao conceito de militariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em perspectiva hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os militares na hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina t\u00eam uma esp\u00e9cie de dupla face. Durante o s\u00e9culo XX, os generais governaram pa\u00edses e promoveram programas nacionalistas desenvolvimentistas, como Juan Domingo Per\u00f3n na Argentina, Get\u00falio Vargas no Brasil, Jacobo Arbenz na Guatemala ou L\u00e1zaro C\u00e1rdenas no M\u00e9xico. Eles s\u00e3o vistos como s\u00edmbolos da soberania latino-americana e vozes anti-imperialistas da regi\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, as for\u00e7as armadas tamb\u00e9m s\u00e3o vistas com receio devido aos golpes de Estado que ocorreram em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, como no Chile de Augusto Pinochet, no Paraguai de Alfredo Stroessner, na Bol\u00edvia de Juan Jos\u00e9 Torres ou no Peru de Francisco Morales Berm\u00fadez. Essas figuras foram vistas como um s\u00edmbolo da repress\u00e3o e da influ\u00eancia dos Estados Unidos na regi\u00e3o, juntamente com as persegui\u00e7\u00f5es e repress\u00f5es que ocorreram, como a Opera\u00e7\u00e3o Condor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, durante a terceira onda de democratiza\u00e7\u00e3o, de acordo com Samuel Huntington, as for\u00e7as armadas foram submetidas ao poder civil ap\u00f3s as transi\u00e7\u00f5es para a democracia que ocorreram. Embora elas nunca tenham deixado a arena pol\u00edtica e desempenhem um papel de equil\u00edbrio dentro do sistema, isso permitiu que a maioria das na\u00e7\u00f5es mantivesse a estabilidade pol\u00edtica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do s\u00e9culo XXI, uma nova gera\u00e7\u00e3o de presidentes chegou ao poder, tanto militares quanto guerrilheiros, como Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela (1999-2012), Daniel Ortega (2006-atual) na Nicar\u00e1gua e a ditadura dos irm\u00e3os Castro em Cuba (1959-2019). Nesses casos, os executivos vieram da luta armada; portanto, os militares se identificaram com seus projetos, e os ex\u00e9rcitos foram politizados e deixaram de lado sua imparcialidade para aderir a um projeto pol\u00edtico espec\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um fen\u00f4meno contempor\u00e2neo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, por\u00e9m, surgiu um novo fen\u00f4meno, em que presidentes civis deram \u00e0s for\u00e7as armadas fun\u00e7\u00f5es mais importantes. Por exemplo, na Am\u00e9rica Central, a presidente hondurenha Xiomara Castro militarizou a seguran\u00e7a p\u00fablica em uma tentativa de replicar a abordagem mano dura contra as gangues de El Salvador e, assim, reduzir os altos \u00edndices de criminalidade. Esse caso espec\u00edfico \u00e9 paradigm\u00e1tico, j\u00e1 que se trata de um governo de esquerda, que tende a apoiar o fortalecimento de \u00f3rg\u00e3os n\u00e3o militares.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A oeste, em El Salvador, o presidente Nayib Bukele n\u00e3o apenas militarizou a seguran\u00e7a, mas as for\u00e7as armadas tamb\u00e9m foram usadas para exercer press\u00e3o sobre a oposi\u00e7\u00e3o, por exemplo, quando esta se recusou a aprovar seu plano de combate ao crime. Trata-se de um caso sem precedentes porque, nos anais hist\u00f3ricos, s\u00e3o os militares que pressionam o presidente em exerc\u00edcio a deixar o poder e n\u00e3o o executivo em exerc\u00edcio que pressiona os congressistas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A relev\u00e2ncia que os militares ganharam no pa\u00eds centro-americano mostra que houve um crescimento exponencial no poder das for\u00e7as armadas, n\u00e3o apenas em fun\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m em viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e um incremento nos recursos econ\u00f4micos para que elas cumpram suas fun\u00e7\u00f5es. As for\u00e7as armadas se tornaram um pilar do regime punitivo salvadorenho, no qual Bukele mant\u00e9m o controle.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mais ao sul, no Equador, o presidente Daniel Noboa enfrenta uma crise de inseguran\u00e7a acompanhada de atos terroristas depois que criminosos atacaram esta\u00e7\u00f5es de televis\u00e3o e universidades e assassinaram funcion\u00e1rios do sistema penitenci\u00e1rio. O presidente optou por decretar estado de exce\u00e7\u00e3o e colocou os militares no comando da seguran\u00e7a para fazer frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como podemos ver nesses casos, as for\u00e7as armadas foram usadas para lidar com a onda de viol\u00eancia que varre o pa\u00eds. Entretanto, a presen\u00e7a crescente dos militares na seguran\u00e7a p\u00fablica pode gerar problemas maiores para o poder civil, j\u00e1 que a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Central e do Sul \u00e9 marcada pela presen\u00e7a dos militares em v\u00e1rias esferas da vida p\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A utiliza\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas no M\u00e9xico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, <a href=\"https:\/\/www.gaceta.unam.mx\/alertan-por-mayor-participacion-de-militares-en-tareas-civiles\/\">o caso mexicano \u00e9 preocupante<\/a> porque a hist\u00f3ria pol\u00edtica do pa\u00eds se baseia na despolitiza\u00e7\u00e3o dos militares desde 1945, quando as for\u00e7as armadas foram exclu\u00eddas do ent\u00e3o partido do Estado, o Partido Revolucion\u00e1rio Institucional. Os militares t\u00eam sido um equil\u00edbrio no sistema pol\u00edtico. Embora durante a era do partido hegem\u00f4nico (1929-1997) tenham sido usadas como for\u00e7a de seguran\u00e7a para reprimir manifesta\u00e7\u00f5es de trabalhadores, estudantes ou sindicatos, nunca romperam com a ordem constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a transi\u00e7\u00e3o e a era dos governos divididos (1997-2018), o ex\u00e9rcito n\u00e3o recebeu outras fun\u00e7\u00f5es al\u00e9m das militares e, a partir de 2006, foi encarregado de apoiar as tarefas de seguran\u00e7a p\u00fablica. Desde 2018, o governo do presidente Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador deu a eles maiores compet\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O ex\u00e9rcito \u00e9 respons\u00e1vel pela vigil\u00e2ncia aduaneira e pela deten\u00e7\u00e3o de migrantes na fronteira, constroem obras como aeroportos, refinarias e trens, entregaram vacinas para combater a pandemia de Covid-19, distribuem livros did\u00e1ticos e administram projetos de infraestrutura. Agora, sob o governo de L\u00f3pez Obrador, as for\u00e7as armadas assumiram um papel mais importante, o que levanta uma preocupa\u00e7\u00e3o: algu\u00e9m conseguir\u00e1 tirar o poder delas e elas estar\u00e3o dispostas a ced\u00ea-lo?<\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o est\u00e1 passando por momentos de desconforto com a democracia, mas a crescente militariza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um alerta para todos os pa\u00edses. Conferir poder aos militares \u00e9 desconhecer a hist\u00f3ria pol\u00edtica da regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode ser interpretado como uma a\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria por parte de alguns pol\u00edticos que tentam proteger um projeto pol\u00edtico espec\u00edfico. A literatura nesse campo \u00e9 geralmente escassa, mas a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nos obriga, como cientistas sociais, a analisar esse novo fen\u00f4meno que est\u00e1 se desenvolvendo em v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A eros\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o envolve apenas a ascens\u00e3o de l\u00edderes populistas, baixos n\u00edveis de participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es e respaldo a figuras autorit\u00e1rias. Em v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos, observa-se a crescente influ\u00eancia dos militares sobre o poder civil.<\/p>\n","protected":false},"author":404,"featured_media":39178,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16773,16854],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-39166","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-autoritarismo-pt-br","9":"category-militarizacion-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39166","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/404"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39166"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39166\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39178"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39166"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39166"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39166"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=39166"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}