{"id":39225,"date":"2024-03-25T08:00:00","date_gmt":"2024-03-25T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=39225"},"modified":"2024-03-25T13:32:49","modified_gmt":"2024-03-25T16:32:49","slug":"entardeceres-inseguros-mobilidade-urbana-e-a-condenacao-das-mulheres-a-ficarem-em-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/entardeceres-inseguros-mobilidade-urbana-e-a-condenacao-das-mulheres-a-ficarem-em-casa\/","title":{"rendered":"Entardeceres inseguros: mobilidade urbana e a condena\u00e7\u00e3o das mulheres a ficarem em casa"},"content":{"rendered":"\n<p>No \u00e2mbito do M\u00eas da Mulher, \u00e9 imperativo abordar a desigualdade de g\u00eanero na mobilidade, um aspecto crucial, mas muitas vezes negligenciado no projeto e planejamento das cidades latino-americanas e nas discuss\u00f5es sobre desigualdade de g\u00eanero. A mobilidade reflete desigualdades enraizadas em pap\u00e9is sociais historicamente atribu\u00eddos a homens e mulheres, j\u00e1 que as cidades s\u00e3o, em sua maioria, concebidas e constru\u00eddas por homens e para homens, o que apresenta desafios significativos para as mulheres em sua vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres fazem viagens mais complexas devido \u00e0 persist\u00eancia de pap\u00e9is tradicionais. Enquanto os homens realizam trajetos mais lineares, geralmente de casa para o trabalho e vice-versa, as tarefas dom\u00e9sticas e de cuidado imp\u00f5em uma carga adicional \u00e0 mobilidade feminina, influenciando a diversidade de seus trajetos di\u00e1rios. Assim, em bairros vulner\u00e1veis, \u00e9 muito mais comum que as mulheres saiam menos do per\u00edmetro do bairro do que os homens devido \u00e0s restri\u00e7\u00f5es de mobilidade, diminuindo seu mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Percep\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a das mulheres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A percep\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a das mulheres nos espa\u00e7os p\u00fablicos e nos meios de transporte \u00e9 uma das barreiras que dificultam tanto a experi\u00eancia de deslocamento quanto a viv\u00eancia do espa\u00e7o urbano, chegando a limitar a autonomia, a livre circula\u00e7\u00e3o e o acesso \u00e0s oportunidades de educa\u00e7\u00e3o, trabalho, cultura e lazer que as cidades oferecem.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a pesquisa \u201cEla se Move Segura\u201d do CAF e da Funda\u00e7\u00e3o FIA em tr\u00eas cidades latino-americanas, a maior presen\u00e7a de homens, o fato de viajar sozinha e a falta de luz do dia aumentam seu temor ao viajar. A viol\u00eancia e o ass\u00e9dio est\u00e3o entre os principais problemas que as mulheres sofrem no transporte p\u00fablico. De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), na Cidade do M\u00e9xico, uma das cidades mais populosas da regi\u00e3o, estima-se que 96% desse grupo tenha sido v\u00edtima de viol\u00eancia e ass\u00e9dio pelo menos uma vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Um novo estudo global de opini\u00e3o p\u00fablica da WIN sobre igualdade de g\u00eanero, seguran\u00e7a e viol\u00eancia, divulgado recentemente para o Dia da Mulher de 2024, explora opini\u00f5es e cren\u00e7as em 39 pa\u00edses e conclui que metade das mulheres pesquisadas a n\u00edvel global se sente insegura ao andar sozinha \u00e0 noite em seu pr\u00f3prio bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a \u00e9 mais frequente entre mulheres jovens. \u00c9 interessante notar que, embora esse tipo de inseguran\u00e7a seja um fen\u00f4meno que tamb\u00e9m afeta os homens, ele o faz em um grau muito menor. A n\u00edvel global, 26% dos homens contra 46% das mulheres n\u00e3o se sentem seguros ou confiantes andando sozinhos \u00e0 noite em seu bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao observar os n\u00fameros por regi\u00e3o, vemos que em algumas zonas geogr\u00e1ficas as mulheres se sentem mais inseguras do que em outras, sendo a Am\u00e9rica o continente com a maior porcentagem de mulheres que relatam isso (64% em compara\u00e7\u00e3o, por exemplo, com a Europa, com 45%). Por outro lado, alguns pa\u00edses latino-americanos est\u00e3o entre as maiores porcentagens de mulheres que relatam n\u00e3o se sentir seguras ou confiantes ao andar sozinhas \u00e0 noite em sua vizinhan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ranking de 39 pa\u00edses, os sete primeiros s\u00e3o ocupados por pa\u00edses latino-americanos, e todos os pa\u00edses latino-americanos est\u00e3o acima da m\u00e9dia global. No Chile, 83% da popula\u00e7\u00e3o feminina se considera insegura nas estradas, no M\u00e9xico 81%, no Equador 75%, no Brasil 71%, na Argentina 69%, no Paraguai 65% e no Peru 64%. Na Europa, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e&nbsp; Irlanda t\u00eam a maior porcentagem de mulheres que relatam se sentir inseguras e, na \u00c1sia-Pac\u00edfico, a Mal\u00e1sia e a Coreia do Sul s\u00e3o os pa\u00edses com as maiores porcentagens.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como as mulheres se cuidam?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres desenvolveram t\u00e1ticas cotidianas e estrat\u00e9gias de autocuidado para gerenciar sua seguran\u00e7a, desde avaliar as roupas que usam, evitar certos lugares ou hor\u00e1rios, avisar amigos ou familiares via mensagens ou telefonemas em que est\u00e1gio da viagem est\u00e3o para se sentirem acompanhadas, carregar itens de autodefesa, ficar na casa de algu\u00e9m para evitar viajar \u00e0 noite, evitar caminhar, evitar o transporte p\u00fablico e usar t\u00e1xis, entre outras medidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na Argentina, em 2019, ap\u00f3s o feminic\u00eddio de uma jovem de 17 anos que voltava de uma boate para casa, a campanha \u201cAmiga, \u00bfllegaste?\u201d se tornou viral, destacando a rede de apoio e companheirismo que existe entre as mulheres que pedem a suas amigas que reportem ao&nbsp; chegar por medo de que algo aconte\u00e7a com elas no trajeto do local de encontro at\u00e9 suas casas. A tecnologia pode ser uma aliada fundamental para melhorar a seguran\u00e7a. Compartilhar a localiza\u00e7\u00e3o em tempo real \u00e9 uma ferramenta crescente. E, muitas vezes, diante do medo, ficar em casa \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E no que diz respeito aos servi\u00e7os de transporte, h\u00e1 v\u00e1rias melhorias poss\u00edveis para aumentar a qualidade das viagens. Desde um menor tempo de espera, paradas e esta\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas \u00e0 origem e ao destino, ou pessoal de seguran\u00e7a durante a viagem, at\u00e9 rotas mais diretas. Outras sugest\u00f5es de especialistas incluem motoristas que permitem que as mulheres des\u00e7am do \u00f4nibus em qualquer ponto da rota; expans\u00e3o da rede e todas as a\u00e7\u00f5es relativas a melhorias gerais de seguran\u00e7a, como melhor ilumina\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os aplicativos de mobilidade de transporte com hor\u00e1rios em tempo real, alertas de servi\u00e7o e rotas seguras podem reduzir o tempo de espera e proporcionar informa\u00e7\u00f5es vitais para as mulheres. No Brasil, por exemplo, uma iniciativa in\u00e9dita foi lan\u00e7ada em S\u00e3o Paulo para que as mulheres n\u00e3o esperem sozinhas pelo \u00f4nibus no meio da noite, chamada <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2023\/08\/pontos-de-onibus-de-sp-conectam-mulheres-sozinhas-a-central-de-atendimento.shtml\">Abrigo Amigo<\/a>, transformando os pontos de \u00f4nibus em pain\u00e9is sens\u00edveis ao toque capazes de fazer chamadas de v\u00eddeo com uma central de atendimento onde s\u00e3o atendidas por uma equipe de mulheres especificamente treinadas para saber como agir em poss\u00edveis situa\u00e7\u00f5es de risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m \u00e9 \u00fatil treinar motoristas de transporte sobre ass\u00e9dio sexual e como prevenir e agir nessas situa\u00e7\u00f5es. Recentemente, em diferentes pa\u00edses da regi\u00e3o, um app de viagens lan\u00e7ou uma iniciativa de conscientiza\u00e7\u00e3o dirigida aos motoristas de sua rede para prevenir condutas inadequadas por parte dos motoristas, a fim de sensibiliz\u00e1-los quanto \u00e0s condutas e coment\u00e1rios que possam ser inc\u00f4modos ou perturbadores para as usu\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres se sentem mais seguras quando a motorista do servi\u00e7o p\u00fablico \u00e9 mulher. Entretanto, na Am\u00e9rica Latina, um grande n\u00famero de mulheres n\u00e3o tem carteira de motorista e a idade em que elas a adquirem \u00e9 maior do que a dos homens. Assim, elas tamb\u00e9m podem ter mais dificuldade para se imaginar em fun\u00e7\u00f5es profissionais vinculadas \u00e0 condu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, \u00e9 essencial que os governos nacionais e locais promovam uma maior participa\u00e7\u00e3o das <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/desigualdades-violencias-e-negligencias-com-genero-definido\/\">mulheres na tomada de decis\u00f5es<\/a> sobre mobilidade. Seu conhecimento \u00fanico sobre seguran\u00e7a, infraestrutura e modos de transporte pode contribuir para um planejamento mais inclusivo e seguro.<\/p>\n\n\n\n<p>No M\u00eas Internacional da Mulher, um apelo ressoa: n\u00e3o deixe que o p\u00f4r do sol mande as mulheres latino-americanas para casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mobilidade reflete desigualdades enraizadas em pap\u00e9is sociais historicamente atribu\u00eddos a homens e mulheres, j\u00e1 que as cidades s\u00e3o, em sua maioria, concebidas e constru\u00eddas por homens e para homens, o que apresenta desafios significativos para as mulheres em sua vida cotidiana.<\/p>\n","protected":false},"author":448,"featured_media":39203,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16741,16716,16782],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-39225","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mujeres-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"category-genero-pt-br","10":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39225","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/448"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39225"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39225\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39203"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39225"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39225"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39225"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=39225"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}