{"id":39593,"date":"2024-04-10T08:00:00","date_gmt":"2024-04-10T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=39593"},"modified":"2024-04-09T12:06:41","modified_gmt":"2024-04-09T15:06:41","slug":"china-equador-e-a-hidreletrica-de-coca-codo-sinclair","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/china-equador-e-a-hidreletrica-de-coca-codo-sinclair\/","title":{"rendered":"China, Equador e a hidrel\u00e9trica de Coca Codo Sinclair"},"content":{"rendered":"\n<p>A usina hidrel\u00e9trica de Coca Codo Sinclair, no Equador, \u00e9 um dos mais antigos, maiores e pol\u00eamicos projetos chineses na Am\u00e9rica Latina. Destinado a fornecer aproximadamente 20-30% da produ\u00e7\u00e3o el\u00e9trica di\u00e1ria do Equador, o projeto hidrel\u00e9trico foi constru\u00eddo pela empresa estatal chinesa Sinohydro e financiado por meio de um empr\u00e9stimo do Banco de Exporta\u00e7\u00e3o e Importa\u00e7\u00e3o da China. No entanto, ap\u00f3s sua inaugura\u00e7\u00e3o em novembro de 2016, a presen\u00e7a de fissuras nos tubos de distribui\u00e7\u00e3o da central el\u00e9trica, as amea\u00e7as \u00e0 obra de capta\u00e7\u00e3o devido \u00e0 severa eros\u00e3o regressiva e uma investiga\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o multimilion\u00e1ria envolvendo o ex-presidente do Equador, Len\u00edn Moreno, geraram in\u00fameras manchetes na m\u00eddia internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, oito anos ap\u00f3s sua inaugura\u00e7\u00e3o formal, o projeto ainda n\u00e3o foi formalmente &#8220;recebido&#8221; pelo governo equatoriano da empreiteira Sinohydro, que deveria concluir o contrato chave na m\u00e3o. Apesar dos repetidos procedimentos de soldagem, as fissuras mencionadas ainda n\u00e3o foram totalmente reparadas e questiona-se se \u00e9 poss\u00edvel um reparo duradouro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Equador e a Sinohydro est\u00e3o atualmente envolvidos em um processo de arbitragem internacional para determinar como as fissuras ser\u00e3o resolvidas. Enquanto isso, h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es de que est\u00e3o em andamento negocia\u00e7\u00f5es entre o governo equatoriano e a Sinohydro para concluir um acordo no qual o Equador cederia a opera\u00e7\u00e3o do projeto \u00e0 Sinohydro em troca de &#8220;liquidez&#8221;. A usina hidrel\u00e9trica \u00e9 atualmente operada pela empresa p\u00fablica estrat\u00e9gica Corporaci\u00f3n El\u00e9ctrica del Ecuador por meio de uma unidade de neg\u00f3cios espec\u00edfica para o complexo Coca Codo Sinclair.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a Sinohydro assumir as opera\u00e7\u00f5es da Coca Codo Sinclair, isso pode fazer soar o alarme entre os cr\u00edticos dos projetos de infraestrutura chineses que alertam os pa\u00edses do Sul Global contra a &#8220;diplomacia da armadilha da d\u00edvida&#8221;. Embora a narrativa da &#8220;armadilha da d\u00edvida&#8221; da China tenha sido repetidamente refutada por acad\u00eamicos, o debate continua proeminente, principalmente entre os atores estadunidenses. Parte da narrativa \u00e9 que a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/china-a-proxima-dona-do-interruptor-na-america-latina\/\">China pode assumir o controle de projetos de infraestrutura vitais<\/a>, amea\u00e7ando assim a soberania dos pa\u00edses (o porto de Hambantota, no Sri Lanka, \u00e9 o principal exemplo citado pelos defensores da armadilha da d\u00edvida).<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o poss\u00edvel arrendamento da Coca Codo Sinclair para a Sinohydro n\u00e3o \u00e9 a hist\u00f3ria de uma armadilha de d\u00edvidas. Muitos equatorianos estariam ansiosos para que a Sinohydro assumisse a responsabilidade por esse projeto arriscado, que, de acordo com alguns engenheiros, corre o risco de entrar em colapso devido a fissuras (na casa de m\u00e1quinas) e, separadamente, \u00e0 eros\u00e3o regressiva do rio Coca (nas obras de capta\u00e7\u00e3o).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a Sinohydro, e o governo chin\u00eas por delega\u00e7\u00e3o, est\u00e3o concentrados no controle de danos \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o, em vez de buscar apoio geoestrat\u00e9gico no Equador. Os diversos esc\u00e2ndalos do projeto colocaram a m\u00eddia chinesa na defensiva, e a Sinohydro Ecuador at\u00e9 lan\u00e7ou uma campanha nas redes sociais para moderar as duras cr\u00edticas. Com base em m\u00faltiplas fontes, as partes interessadas chinesas est\u00e3o muito atentas \u00e0 m\u00e1 publicidade gerada pelo projeto, bem como aos altos custos de manter o status quo. O acordo poderia resolver um dilema tanto para a Sinohydro quanto para o Estado equatoriano: a Sinohydro n\u00e3o deixaria para tr\u00e1s um projeto muito difamado e supostamente &#8220;em ru\u00ednas&#8221;, e o Equador ganharia dinheiro em vez de correr o risco de novos esc\u00e2ndalos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os rumores sobre a poss\u00edvel concess\u00e3o da Coca Codo Sinclair por parte do Equador come\u00e7aram a circular em novembro de 2022, quando o ent\u00e3o ministro da Energia, Fernando Santos, declarou que o ideal seria que a Sinohydro &#8220;ficasse&#8221; com o projeto. Em dezembro de 2022, Santos explicou que essa possibilidade havia sido discutida pela administra\u00e7\u00e3o da Sinohydro, pelo ent\u00e3o presidente do Equador, Guillermo Lasso, e pelo embaixador chin\u00eas no Equador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a Sinohydro seria respons\u00e1vel pelo reparo, opera\u00e7\u00e3o e gerenciamento da instala\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica e, em troca, devolveria parte do dinheiro investido pelo Equador. Ele resumiu o acordo da seguinte forma: &#8220;Eles assumem o risco, porque \u00e9 alt\u00edssimo. Eles dizem que a obra vai durar 50 anos. Isso \u00e9 perfeito. Devolvam-nos o dinheiro e n\u00f3s lhes devolveremos a obra&#8221;. O gerente geral da empresa p\u00fablica de eletricidade do Equador, a CELEC, disse que o acordo hipot\u00e9tico com a PowerChina, a matriz, delegaria seu funcionamento por aproximadamente 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de concessionar o maior projeto de infraestrutura do Equador provocou, compreensivelmente, um debate interno. Os cr\u00edticos alegaram que esse acordo representaria um fracasso para o Estado equatoriano, pois significaria pre\u00e7os mais altos de eletricidade para os cidad\u00e3os. Ele privatizaria de fato a infraestrutura p\u00fablica que \u00e9 fundamental para o desenvolvimento nacional. O governo teria de negociar o pre\u00e7o da concess\u00e3o, sua dura\u00e7\u00e3o (provavelmente de 20 a 30 anos) e o pre\u00e7o por quilowatt-hora pelo qual o Estado compraria de volta a eletricidade da Coca Codo Sinclair. O fato de a concess\u00e3o do projeto ajudar ou prejudicar os interesses do Equador depende desses pre\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, em mar\u00e7o de 2023, a Sinohydro decidiu adiar as negocia\u00e7\u00f5es sobre a Coca Codo Sinclair em fun\u00e7\u00e3o da acusa\u00e7\u00e3o da Procuradoria Geral da Rep\u00fablica de 25 pessoas sob a acusa\u00e7\u00e3o de suborno em torno do projeto, incluindo quatro representantes da Sinohydro e um ex-embaixador chin\u00eas. O Ministro de Energia Fernando Santos afirmou repetidamente que as negocia\u00e7\u00f5es iriam avan\u00e7ar, mas elas avan\u00e7aram lentamente, especialmente quando o ex-presidente Lasso dissolveu a Assembleia Nacional e convocou elei\u00e7\u00f5es antecipadas (morte cruzada).<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es nacionais em agosto de 2023, foi realizada uma reuni\u00e3o entre o Minist\u00e9rio de Energia e a PowerChina, mas depois que o novo presidente Daniel Noboa assumiu o cargo em novembro, ele logo substituiu Santos pelo atual Ministro de Energia, Andrea Arrobo. N\u00e3o ficou claro se o governo de Noboa daria continuidade \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es da Coca Codo Sinclair. Mais recentemente, em fevereiro de 2024, a ministra das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Equador, Gabriela Sommerfield, afirmou em uma entrevista que a concess\u00e3o de Coca Codo Sinclair, juntamente com a barragem de Toachi-Pilat\u00f3n, ainda estava em negocia\u00e7\u00e3o. Ela afirmou que entidades chinesas operariam as represas em troca de &#8220;liquidez&#8221;, embora n\u00e3o tenha dado mais detalhes.<\/p>\n\n\n\n<p>A Coca Codo Sinclair forneceu um total de 40% da produ\u00e7\u00e3o de eletricidade do Equador em 11 de mar\u00e7o, de acordo com o Operador Nacional de Eletricidade CENACE. O impacto desse projeto sobre a confiabilidade e o custo da eletricidade no Equador dificilmente pode ser subestimado, especialmente em um contexto em que a escassez de eletricidade j\u00e1 \u00e9 um problema cr\u00edtico e provavelmente se tornar\u00e1 ainda maior como resultado das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, os termos do acordo negociado entre a Sinohydro e o Estado equatoriano (sobre o pre\u00e7o da concess\u00e3o, sua dura\u00e7\u00e3o e o pre\u00e7o da eletricidade) s\u00e3o fundamentais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O verdadeiro debate \u00e9 se o povo equatoriano se beneficiar\u00e1 da concess\u00e3o de um projeto p\u00fablico a uma empresa internacional, e n\u00e3o os objetivos geopol\u00edticos do Estado chin\u00eas. Se for poss\u00edvel chegar a um acordo que satisfa\u00e7a ambas as partes, bem como o povo equatoriano, os observadores devem concentrar sua an\u00e1lise nos termos do acordo e resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de encaixar o destino da Coca Codo Sinclair em uma narrativa mal concebida de armadilha da d\u00edvida.<\/p>\n\n\n\n<p><em>* Este texto fue publicado originalmente na p\u00e1gina da<\/em><a href=\"http:\/\/chinayamericalatina.com\/\"><em> REDCAEM<\/em><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A usina hidrel\u00e9trica Coca Codo Sinclair, que forneceria de 20 a 30% da produ\u00e7\u00e3o de eletricidade, \u00e9 um dos mais antigos, maiores e mais controversos projetos chineses na Am\u00e9rica Latina, marcado por falhas t\u00e9cnicas e corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":600,"featured_media":39579,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16738,17112,16761],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-39593","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-peru-pt-br","8":"category-energia-pt-br","9":"category-china-es-pt-br","10":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39593","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/600"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=39593"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/39593\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/39579"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=39593"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=39593"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=39593"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=39593"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}