{"id":3981,"date":"2021-02-20T06:26:46","date_gmt":"2021-02-20T09:26:46","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3981"},"modified":"2021-02-20T06:26:49","modified_gmt":"2021-02-20T09:26:49","slug":"o-apagamento-do-social-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-apagamento-do-social-no-brasil\/","title":{"rendered":"O apagamento do social no Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>O <em>think thank<\/em> australiano Lowy Institute realizou uma pesquisa sobre a capacidade de resposta dos pa\u00edses \u00e0 pandemia. A partir dos dados coletados, organizaram um ranking cujo resultado demonstra que s\u00e3o muitos os pa\u00edses que v\u00eam enfrentando dificuldades e atuando de forma ineficaz no controle da pandemia. Entre eles, o Brasil ocupa a pior posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O ranking foi elaborado considerando a quantidade de casos e mortes confirmadas; a propor\u00e7\u00e3o de casos e mortes por milh\u00e3o de habitantes; a quantidade de casos confirmados versus a propor\u00e7\u00e3o de testes aplicados, e de testes por mil habitantes. O Brasil figura na pior posi\u00e7\u00e3o entre os 98 pa\u00edses com dados dispon\u00edveis avaliados. Na ordem, os cinco piores s\u00e3o: Brasil, M\u00e9xico, Col\u00f4mbia, Ir\u00e3 e EUA.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A atua\u00e7\u00e3o do governo brasileiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A atua\u00e7\u00e3o do governo brasileiro n\u00e3o \u00e9 apenas ineficaz, h\u00e1 uma inten\u00e7\u00e3o de n\u00e3o combate \u00e0 pandemia, com o estabelecimento de <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2021-01-21\/pesquisa-revela-que-bolsonaro-executou-uma-estrategia-institucional-de-propagacao-do-virus.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma estrat\u00e9gia institucional de propaga\u00e7\u00e3o do coronav\u00edrus<\/a>, como mostrou pesquisa do CEPEDISA (USP)\/Conectas Direitos Humanos.<\/p>\n\n\n\n<p>As a\u00e7\u00f5es em sa\u00fade foram inicialmente conflituosas e d\u00fabias, oscilaram entre a promo\u00e7\u00e3o da preven\u00e7\u00e3o e a nega\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a estrat\u00e9gia brasileira se consolidou e se desenrolou da nega\u00e7\u00e3o do v\u00edrus e da pandemia, passando pela minimiza\u00e7\u00e3o da gravidade da Covid-19, desembocando em um sistem\u00e1tico desest\u00edmulo ao uso das m\u00e1scaras e desincentivo \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o, tudo refor\u00e7ado pela venda de uma grande ilus\u00e3o: a promessa de um tratamento profil\u00e1tico e curativo encarnado pelo chamado \u201cKit Covid-19\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Estrat\u00e9gia exitosa. A Pesquisa PNAD COVID-19, realizada em setembro de 2020, mostra que dos 8,3 milh\u00f5es de pessoas que tiveram sintomas de s\u00edndrome gripal, apenas 2 milh\u00f5es buscaram atendimento m\u00e9dico. Do restante, 71,6% optaram por ficar em casa como uma provid\u00eancia, e 57,8% declararam que se automedicaram.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O Kit Covid-19<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo sem qualquer comprova\u00e7\u00e3o cientifica o Kit Covid-19 \u201cviralizou\u201d, principalmente porque foi recomendado, produzido e distribu\u00eddo pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, receitado por muitos m\u00e9dicos, enquanto Bolsonaro nunca perdeu uma oportunidade para promover o pretenso potencial curativo desses medicamentos, e de aparecer publicamente sem m\u00e1scara e em aglomera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A ivermectina, rem\u00e9dio contra piolho, \u00e9 um deles. Foi indicada para uso profil\u00e1tico, e inclusive distribu\u00edda gratuitamente para a popula\u00e7\u00e3o por algumas secretarias de sa\u00fade municipais. Recomendou-se uso cont\u00ednuo \u201cao longo da pandemia\u201d. O medicamento deveria ser tomado, em dose indicada por m\u00e9dico, a cada 15 dias, frequ\u00eancia necess\u00e1ria para manter o \u201cn\u00edvel plasm\u00e1tico do medicamento no organismo das pessoas enquanto durar a pandemia\u201d. N\u00e3o \u00e9 raro encontrar pessoas que adotaram a pr\u00e1tica, sem qualquer acompanhamento m\u00e9dico e ignorando completamente os riscos aos quais est\u00e3o expondo sua sa\u00fade. &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Kit Covid-19 faz sucesso em uma sociedade de cultura curativa, habituada a automedica\u00e7\u00e3o, \u00e9 verdade. Mas seu maior \u00eaxito \u00e9 libertar as pessoas: para o trabalho (claro!), mas tamb\u00e9m para uma livre circula\u00e7\u00e3o, para a organiza\u00e7\u00e3o de festas, das comemora\u00e7\u00f5es familiares \u00e0s grandes aglomera\u00e7\u00f5es, do Ano-Novo ao Carnaval.<\/p>\n\n\n\n<p>Recentemente, ganharam destaque na m\u00eddia banhistas nas praias da cidade de Santos afirmando que a Covid-19 n\u00e3o existe, ou que um m\u00e9dico de confian\u00e7a teria dito que \u00e9 s\u00f3 fazer uso do Kit-Covid-19, pois a doen\u00e7a n\u00e3o passaria de uma gripezinha. Alguns entrevistados reverberam o discurso de Bolsonaro, que n\u00e3o cansa de nos lembrar que \u201cvamos todos morrer um dia\u201d! Mas o \u201cvamos todos morrer\u201d reverberado nas areias das praias vem seguido de: \u201cse eu posso andar de \u00f4nibus, trem ou metr\u00f4 para trabalhar, eu posso frequentar a praia aos finais de semana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o risco individualizado e a naturaliza\u00e7\u00e3o da morte se imp\u00f5em como condi\u00e7\u00e3o para sobreviv\u00eancia, estrat\u00e9gias preventivas e coletivas de sa\u00fade como as necess\u00e1rias para a preserva\u00e7\u00e3o da vida durante a pandemia perdem sentido. \u00c9 a ess\u00eancia do Sistema \u00danico de Sa\u00fade (SUS) posta em xeque.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pandemia e desigualdades<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/campanha-eleitoral-de-vacinacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Decis\u00f5es e discursos pol\u00edticos importam<\/a>. Eles conduzem comportamentos, t\u00eam o potencial de promover o caos, ou a coes\u00e3o social. Em tempos pand\u00eamicos, seus impactos s\u00e3o absolutamente evidentes. No Brasil, o comportamento induzido se traduz em vertiginoso aumento do n\u00famero de casos, no surgimento de novas variantes do v\u00edrus, na falta de insumos essenciais (a exemplo do oxig\u00eanio em Manaus), na explos\u00e3o do n\u00famero de mortos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 apenas a ponta do <em>iceberg<\/em>. Dados da PNAD COVID-19 e do banco de interna\u00e7\u00f5es por S\u00edndrome Respirat\u00f3ria Aguda Grave (SRAG), analisados pelas pesquisadoras L\u00edgia Bahia e J\u00e9ssica Pronestino, evidenciam as desigualdades reproduzidas e aprofundadas pelo caos, e a fal\u00e1cia contida no \u201cvamos todos morrer\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a PNAD, 28,6 milh\u00f5es de pessoas no Brasil fizeram testes de infec\u00e7\u00e3o por coronav\u00edrus, das quais 6,3 milh\u00f5es testaram positivo. Dentre aqueles com renda entre \u00bd e 1 sal\u00e1rio m\u00ednimo, 9,9% fizeram o teste; entre 1 e 2 sal\u00e1rios m\u00ednimos 14,4%; entre aqueles que ganham 4 ou mais sal\u00e1rios m\u00ednimos observamos um salto: 29,3% foram testados.<\/p>\n\n\n\n<p>A letalidade foi mais alta justamente entre os mais pobres. A an\u00e1lise mencionada mostra que dentre os pacientes internados com casos confirmados de SRAG, considerando sua cor\/ra\u00e7a, a letalidade foi de 56% entre os brancos, e de 79% entre os n\u00e3o brancos. Quando olhamos a propor\u00e7\u00e3o de mortos por n\u00edvel de escolaridade, verificamos maior letalidade dentre aqueles que cursaram at\u00e9 o fundamental II: 71,3% de \u00f3bitos entre os sem escolaridade; 59,1% entre os que cursaram at\u00e9 o fundamental I; 47,6% entre os que cursaram at\u00e9 o fundamental II. Nos n\u00edveis m\u00e9dio e superior vemos a letalidade cair: 35% dentre aqueles que t\u00eam n\u00edvel m\u00e9dio, 22,5% para os que t\u00eam n\u00edvel superior.<\/p>\n\n\n\n<p>A morte por Covid-19 tem cor, classe, renda e escolaridade. \u00c9 social e politicamente determinada. A sa\u00fade \u00e9 socialmente determinada. Ao que parece, o governo desaprendeu essa valiosa li\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 uma evid\u00eancia observada tamb\u00e9m em outros pa\u00edses, mas agravada no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Neoliberalismo e sa\u00fade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia, e a atua\u00e7\u00e3o de pa\u00edses como o Brasil, nos colocam perante dois desafios urgentes e complementares, especialmente sens\u00edveis para os sistemas p\u00fablicos de sa\u00fade: o primeiro \u00e9 compreender a pot\u00eancia e os impactos do projeto neoliberal em nossas sociedades e buscar caminhos que permitam uma rea\u00e7\u00e3o; o segundo, \u00e9 resgatar e renovar o debate conceitual e pol\u00edtico dos determinantes sociais da sa\u00fade e afirmar para os cidad\u00e3os a import\u00e2ncia de os gestores p\u00fablicos atuarem a partir de, e sobre eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o neoliberalismo se manifesta na falta de horizontes, individuais e coletivamente partilhados; no presentismo que prende as pessoas nas urg\u00eancias do cotidiano. Com as possibilidades de sobreviv\u00eancia reduzidas \u00e0 gest\u00e3o individual do risco, o indiv\u00edduo dispensa o coletivo, \u00e9 respons\u00e1vel por sua sorte e, perversamente, por sua sa\u00fade, o que torna encantadora a falaciosa promessa de cura do Kit Covid-19.<\/p>\n\n\n\n<p>O apagamento do social paulatinamente promovido pelo projeto neoliberal no Brasil est\u00e1 no centro da crise que enfrentamos hoje. \u00c9 preciso resgatar a centralidade da comunidade se quisermos que a morte n\u00e3o seja o \u00fanico horizonte poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Pala\u0301cio do Planalto en Foter.com \/ CC BY<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O instituto australiano Lowy Institute realizou uma pesquisa sobre a capacidade dos pa\u00edses para responder \u00e0 pandemia, incluindo, entre outros par\u00e2metros, o n\u00famero de casos e mortes confirmadas. 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