{"id":3984,"date":"2021-02-17T06:31:00","date_gmt":"2021-02-17T09:31:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=3984"},"modified":"2021-02-20T07:38:50","modified_gmt":"2021-02-20T10:38:50","slug":"quo-vadis-equador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quo-vadis-equador\/","title":{"rendered":"Quo Vadis, Equador?"},"content":{"rendered":"\n<p>As recentes elei\u00e7\u00f5es equatorianas t\u00eam sido uma das mais atropeladas da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds. A fragmenta\u00e7\u00e3o do voto e a desconfian\u00e7a institucional, presente hoje mais do que nunca, funcionam como um obst\u00e1culo \u00e0 governabilidade. Entretanto, al\u00e9m disso, a incompet\u00eancia do Conselho Nacional Eleitoral e a ascens\u00e3o do movimento ind\u00edgena s\u00e3o dois dos tra\u00e7os mais caracter\u00edsticos do processo eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a convoca\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es, as disputas entre o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), o \u00f3rg\u00e3o encarregado de organizar o processo, e o Tribunal Contencioso Eleitoral (TCE), respons\u00e1vel por resolver as controv\u00e9rsias em mat\u00e9ria eleitoral, provocaram demoras na confirma\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas autorizadas a concorrer nas elei\u00e7\u00f5es gerais de 7 de fevereiro. Os dois partidos que enfrentaram mais problemas para sua aprova\u00e7\u00e3o foram o &#8220;Centro Democr\u00e1tico&#8221; (CD), liderado por Andr\u00e9s Arauz e apoiado pelo ex-presidente Rafael Correa, e o &#8220;Movimiento Justicia Social&#8221;, do v\u00e1rias vezes candidato \u00c1lvaro Noboa Port\u00f3n. Enquanto o primeiro conseguiu apresentar seus candidatos, o partido de Noboa foi deixado de fora da corrida, mas seu processo ante ao TCE vai continuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, esta n\u00e3o tem sido a \u00fanica controv\u00e9rsia. No in\u00edcio de janeiro, e com cerca de 40% dos votos para a elei\u00e7\u00e3o do Presidente e Vice-Presidente impressos, tornou-se evidente que havia um erro neles, pois o nome e o logotipo do &#8220;Movimiento Amigo&#8221; tinham erros. Isto resultou em uma perda econ\u00f4mica de 500 mil d\u00f3lares para o Estado, al\u00e9m de numerosas cr\u00edticas por sua inefici\u00eancia. Da mesma forma, durante o in\u00edcio do dia da elei\u00e7\u00e3o houve alguns inconvenientes, como a aus\u00eancia dos membros das Juntas Receptoras dos Votos (JRV), a demora na sua instala\u00e7\u00e3o e longas filas para entrar nos recintos eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ascens\u00e3o do movimento ind\u00edgena<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos obst\u00e1culos e dificuldades, agravados ainda mais por um contexto de pandemia, as elei\u00e7\u00f5es foram realizadas em 7 de fevereiro. Nessa mesma noite, ap\u00f3s uma r\u00e1pida contagem realizada pela CNE, foi anunciado que a coaliz\u00e3o &#8220;Uni\u00e3o pela Esperan\u00e7a&#8221;, liderada por Arauz, havia obtido 31% do total de votos v\u00e1lidos. <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/el-enfrentamiento-es-entre-las-izquierdas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A surpresa veio com o segundo candidato mais apoiado<\/a>, Yaku Perez de Pachakutik, que teve 20,04% dos votos. Em terceiro lugar, com 19,97% dos votos, estava Guillermo Lasso, cabe\u00e7a do Movimento CREO. Entretanto, com o avan\u00e7o do escrut\u00ednio, Perez caiu para o terceiro lugar e com apenas 20.000 votos de diferen\u00e7a, Lasso foi para o segundo turno.<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de Yaku Perez alcan\u00e7ar o segundo turno gerou grandes expectativas para a possibilidade de ter, pela primeira vez, um presidente ind\u00edgena. Por esta raz\u00e3o, quando a contagem dos votos avan\u00e7ou e a Lasso ultrapassou o l\u00edder de Pachakutik, algumas vozes expressaram d\u00favidas sobre a confiabilidade do processo. Esta desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos resultados n\u00e3o \u00e9 algo novo: j\u00e1 em 2017, na vota\u00e7\u00e3o entre o mesmo Guillermo Lasso e Lenin Moreno, uma suposta fraude do primeiro candidato foi denunciada. No entanto, o assunto n\u00e3o foi mais longe devido \u00e0 aus\u00eancia de provas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desconfian\u00e7a institucional e eixos de fratura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.primicias.ec\/noticias\/firmas\/instituciones-para-que-sirven-como-estan-ecuador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Equador \u00e9 um pa\u00eds cujas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas n\u00e3o t\u00eam gozado tradicionalmente de altos n\u00edveis de credibilidade<\/a>. Portanto, se a esta desconfian\u00e7a estrutural forem acrescentados os cont\u00ednuos erros log\u00edsticos e de comunica\u00e7\u00e3o que t\u00eam acompanhado o processo eleitoral atual, n\u00e3o seria estranho que, para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 11 de abril, aumentassem as d\u00favidas sobre o resultado das elei\u00e7\u00f5es. Isto n\u00e3o s\u00f3 afetaria a percep\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os sobre as institui\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m colocaria o pr\u00f3ximo presidente da Rep\u00fablica em uma situa\u00e7\u00e3o delicada.<\/p>\n\n\n\n<p>Junto com o aumento da desconfian\u00e7a, os resultados refletem outras tr\u00eas din\u00e2micas evidentes na pol\u00edtica atual do Equador: a persist\u00eancia da divis\u00e3o regional, uma profunda crise no espectro centro-direita, e que a &#8220;invencibilidade&#8221; do Corre\u00edsmo desapareceu. A clivagem regional \u00e9 evidente na distribui\u00e7\u00e3o de votos entre os candidatos: enquanto Arauz concentrou a maioria de seus votos na costa, onde obteve uma m\u00e9dia de 42,94% dos votos, na regi\u00e3o serrana Yaku P\u00e9rez foi o vencedor na maioria das prov\u00edncias. Assim, apesar de no discurso dos atores pol\u00edticos persistir o eixo do Correa-anticorre\u00edsmo, na pr\u00e1tica a distribui\u00e7\u00e3o do voto responde em maior medida \u00e0s diferen\u00e7as regionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 crise nos partidos de direita e centro-direita, ap\u00f3s oito anos de campanha e tr\u00eas elei\u00e7\u00f5es consecutivas, Lasso n\u00e3o conseguiu consolidar sua proposta conservadora como a grande alternativa pol\u00edtica ao partido no governo. Em compara\u00e7\u00e3o com os resultados das elei\u00e7\u00f5es de 2017, onde obteve 28% dos votos no primeiro turno, em cinco anos ele perdeu quase 10% do seu eleitorado. Os resultados das elei\u00e7\u00f5es legislativas refor\u00e7am a crise das for\u00e7as conservadoras. Das 137 cadeiras, apenas 23,33% ser\u00e3o compostas por legisladores desta tend\u00eancia (Movimento CREO, Partido Social Crist\u00e3o, Movimento Equador Unido e Construye).<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, o corre\u00edsmo n\u00e3o \u00e9 mais uma for\u00e7a imbat\u00edvel. Seu candidato, Andr\u00e9s Arauz, obteve cerca de 7% menos de apoio do que seu antecessor, apesar da presen\u00e7a cont\u00ednua de Correa em sua campanha. Apesar das expectativas de vencer na primeira rodada, ser\u00e1 necess\u00e1rio um segundo turno. Al\u00e9m disso, se ele ganhar no segundo turno, ser\u00e1 um governo minorit\u00e1rio, pois n\u00e3o conseguiu obter os 69 deputados necess\u00e1rios para controlar o parlamento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Fragmenta\u00e7\u00e3o e desencanto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Estas elei\u00e7\u00f5es, al\u00e9m das sombras geradas pelo p\u00e9ssimo desempenho do Conselho Nacional Eleitoral, caracterizam-se por deixar um cen\u00e1rio pol\u00edtico diferente do que o Equador teve na \u00faltima d\u00e9cada. Por um lado, a divis\u00e3o das vota\u00e7\u00f5es \u00e9 clara. Por outro lado, o surgimento do movimento ind\u00edgena como uma op\u00e7\u00e3o eleitoral s\u00f3lida que n\u00e3o s\u00f3 tem op\u00e7\u00f5es nas prov\u00edncias com maior popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena (Cotopaxi, Chimborazo, Tungurahua, Ca\u00f1ar), mas tamb\u00e9m conquista votos nos centros urbanos populares (por exemplo, no centro sul da cidade de Quito ou na prov\u00edncia de Azuay).<\/p>\n\n\n\n<p>O eleitor de direita ou centro-direita tem poucos motivos para ter esperan\u00e7a. Desde 1998, nenhum partido desta tend\u00eancia ganhou uma elei\u00e7\u00e3o presidencial. Os corre\u00edstas t\u00eam motivos para se preocupar. O ex-presidente Correa n\u00e3o \u00e9 mais seu antigo \u201ceu\u201d e os candidatos de seu movimento nem sempre s\u00e3o a escolha vencedora. Arauz ter\u00e1 que competir no segundo turno sabendo que seus detratores tentar\u00e3o estimular a vota\u00e7\u00e3o de qualquer outra op\u00e7\u00e3o para evitar que o ex-presidente e sua longa sombra retornem ao pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0s elei\u00e7\u00f5es mais atropeladas dos \u00faltimos 20 anos, com a distribui\u00e7\u00e3o do poder entre quatro for\u00e7as pol\u00edticas do poder legislativo, o que gerar\u00e1 um governo muito fraco, e sob uma sombra de desconfian\u00e7a institucional. Quo Vadis, Equador?<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Montserrat Boix<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As recentes elei\u00e7\u00f5es no Equador foram uma das mais prejudicadas da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds. 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