{"id":40080,"date":"2024-05-01T09:00:00","date_gmt":"2024-05-01T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=40080"},"modified":"2024-04-29T19:44:16","modified_gmt":"2024-04-29T22:44:16","slug":"sem-crescimento-nao-ha-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/sem-crescimento-nao-ha-paraiso\/","title":{"rendered":"Sem crescimento n\u00e3o h\u00e1 para\u00edso"},"content":{"rendered":"\n<p>A Am\u00e9rica Latina enfrenta numerosos desafios para alcan\u00e7ar um desenvolvimento inclusivo, de longo prazo e com estabilidade pol\u00edtica. S\u00e3o desafios institucionais, pol\u00edticos, sociais, culturais e econ\u00f4micos. Todos inter-relacionados, mas a chave do arco est\u00e1 na economia.<\/p>\n\n\n\n<p>A atual estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na regi\u00e3o desde 2014, que institui\u00e7\u00f5es como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) e a CEPAL definiram como a \u201csegunda d\u00e9cada perdida\u201d (2014\/2023), tornou-se o ponto de inflex\u00e3o para um modelo de desenvolvimento que atingiu seu teto ap\u00f3s o fim do per\u00edodo de bonan\u00e7a (a D\u00e9cada de Ouro, 2003-2013). H\u00e1 dez anos, a Am\u00e9rica Latina vive em meio \u00e0 estagna\u00e7\u00e3o ou \u00e0 fraca expans\u00e3o econ\u00f4mica (2013, 2014, 2015, 2018, 2019, 2022 e 2023) e crise (2016, 2017 e 2020), com a \u00fanica exce\u00e7\u00e3o de 2021, ano at\u00edpico pelo efeito rebote ap\u00f3s a recess\u00e3o pand\u00eamica do ano anterior. A Am\u00e9rica Latina precisa crescer em torno de 5% para absorver as demandas sociais e alcan\u00e7ar o crescimento com desenvolvimento e, assim, evitar a armadilha dos pa\u00edses de renda m\u00e9dia. E esse objetivo est\u00e1 atualmente longe: o FMI estima que o Produto Interno Bruto regional m\u00e9dio da Am\u00e9rica Latina e do Caribe crescer\u00e1 2% este ano, depois de 2,3% no ano passado e 2,5% em 2025.<\/p>\n\n\n\n<p>Como aponta o economista colombiano Jos\u00e9 Antonio Ocampo: \u201cO crescimento m\u00e9dio anual se manteve ligeiramente abaixo de 0,9% durante 2014-23, pior do que a taxa de 1,3% dos anos 1980. Entretanto, \u00e9 previsto um PIB per capita ligeiramente superior em 2023 do que em 2013, devido ao crescimento populacional mais lento. Por outro lado, foi apenas em 1994 que o PIB per capita da regi\u00e3o voltou ao n\u00edvel de 1980. Portanto, a Am\u00e9rica Latina tem um s\u00e9rio problema de crescimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma nova d\u00e9cada perdida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa segunda d\u00e9cada perdida trouxe \u00e0 tona um conjunto de problemas estruturais que assolam os pa\u00edses latino-americanos desde 2013 e at\u00e9 mesmo antes: um modelo econ\u00f4mico e pol\u00edtico disfuncional que n\u00e3o garante um crescimento econ\u00f4mico a longo prazo, nem um desenvolvimento sustent\u00e1vel e inclusivo, nem foi acompanhado por um Estado eficaz e administra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas eficientes na hora de implementar pol\u00edticas p\u00fablicas favor\u00e1veis aos setores vulner\u00e1veis e capaz de canalizar as demandas das classes m\u00e9dias emergentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os efeitos desta segunda d\u00e9cada perdida est\u00e1 o aumento do mal-estar das sociedades, vinculado a essa d\u00e9bil expans\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o social (aumento da inseguran\u00e7a, da pobreza, da desigualdade e, sobretudo, da vulnerabilidade das classes m\u00e9dias), o que deu lugar a um voto de castigo permanente \u00e0 gest\u00e3o do governo \u2013 para quem det\u00e9m o poder \u2013 e, em alguns casos, se traduziu em um voto de respaldo a op\u00e7\u00f5es antisistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, diversos autores, como o peruano Alberto Vergara, tentaram refletir sobre o que e o porqu\u00ea do que ocorre aos cidad\u00e3os: concordam que o mal-estar latino-americano, que tem uma longa tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, exacerbou-se e aumentou, e torna mais evidente o choque entre uma cidadania com crescentes expectativas que acaba defraudada por estados que se dizem republicanos (institucionalizados) e eficientes, mas que diariamente defraudam essa promessa, pois n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 ineficazes, mas tamb\u00e9m se situam longe dos problemas dos cidad\u00e3os. Trata-se de democracias fracas com baixa institucionaliza\u00e7\u00e3o, \u201cmeias rep\u00fablicas\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As consequ\u00eancias da estagna\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de uma din\u00e2mica que se retroalimenta porque os novos governos nascem com uma debilidade que condiciona sua capacidade de a\u00e7\u00e3o: sua fraqueza pol\u00edtica \u00e9 o ponto dominante dos executivos latino-americanos desde 2015, o que os impediu de realizar reformas estruturais essenciais para vincular os pa\u00edses da regi\u00e3o \u00e0 IV Revolu\u00e7\u00e3o Industrial, tornar as economias regionais mais competitivas e canalizar a frustra\u00e7\u00e3o de expectativas. Ademais, essa fraqueza institucional foi alimentada por uma forte fragmenta\u00e7\u00e3o e alta polariza\u00e7\u00e3o, que aumentaram os problemas para se chegar a acordos estatais.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o provoca a incapacidade dos governos de p\u00f4r em pr\u00e1tica os processos de reforma e de prolongar o descontentamento dos cidad\u00e3os, que acabam votando a favor de um voto de puni\u00e7\u00e3o ou de elementos fora do sistema nas pr\u00f3ximas urnas. Os partidos que vencem as elei\u00e7\u00f5es tendem a faz\u00ea-lo ap\u00f3s formar coaliz\u00f5es negativas. Re\u00fanem mais um voto conjuntural e emprestado do que verdadeiras ades\u00f5es, com pouco apoio em Parlamentos fragmentados e polarizados, com capacidade reduzida de alcan\u00e7ar consensos. N\u00e3o contam com a paci\u00eancia muito reduzida de sociedades atingidas por uma d\u00e9cada de baixo ou nulo crescimento (ou mesmo decl\u00ednio), aumento da pobreza e deteriora\u00e7\u00e3o das oportunidades de melhoria.<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru, que deixou de crescer no ritmo chin\u00eas para flertar com a crise e a estagna\u00e7\u00e3o, \u00e9 um exemplo dessa conjuntura. Na verdade, a ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o S&amp;P Global Ratings acaba de rebaixar a classifica\u00e7\u00e3o soberana de longo prazo de \u201cBBB\u201d para \u201cBBB-\u201d devido \u00e0 incerteza pol\u00edtica que limita o crescimento econ\u00f4mico. Esse rebaixamento implica um risco para o Peru porque, diante um novo rebaixamento, perderia sua classifica\u00e7\u00e3o de grau de investimento e passaria para o grau especulativo. A S&amp;P aponta que \u201cum Congresso fragmentado e o capital pol\u00edtico limitado do governo\u201d pesam sobre a confian\u00e7a dos investidores privados e sup\u00f5em um custo de oportunidade para o crescimento, o que \u201climita a capacidade do Peru de reconstruir o espa\u00e7o fiscal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os desafios da democracia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para sobreviver na terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, as democracias possuem muitos desafios: o primeiro \u00e9 elaborar um novo contrato social. Um novo pacto que torne os Estados mais eficazes na hora de implementar as pol\u00edticas p\u00fablicas que resolvam os problemas mais urgentes dos cidad\u00e3os nas \u00e1reas sociais (educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, seguran\u00e7a e transporte), econ\u00f4micas (investimento em capital humano e f\u00edsico) e pol\u00edticas (reformas eleitorais e partid\u00e1rias, maior representa\u00e7\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, racionaliza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas governamentais etc.). A institucionalidade democr\u00e1tica perdeu seu atrativo porque n\u00e3o resolve os problemas mais pr\u00f3ximos dos cidad\u00e3os, que se inclinam a votar contra os governos (\u201cvoto de castigo aos governantes\u201d) ou em alternativas alheias ao respeito \u00e0 institucionalidade democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A atual crise das democracias se deve a um longo per\u00edodo de paralisia e baixo crescimento. Enquanto a regi\u00e3o n\u00e3o encontrar o caminho para uma expans\u00e3o elevada, sustent\u00e1vel e inclusiva do PIB, as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas ser\u00e3o deslegitimadas diante uma cidadania que prefere ouvir outros cantos de sereia. De fato, o terreno f\u00e9rtil para essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 o aumento da pobreza e, sobretudo, da <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/uma-economia-a-servico-de-poucos\/\">desigualdade social<\/a>, o que gera frustra\u00e7\u00e3o social, desafei\u00e7\u00e3o com as institui\u00e7\u00f5es e polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Como mostra o Relat\u00f3rio Latinobar\u00f3metro 2023, o apoio aos regimes autorit\u00e1rios aumentou ligeiramente desde 2010 e, em particular, a indiferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao tipo de regime aumentou 12 pontos, de acordo com a deteriora\u00e7\u00e3o da economia regional e as expectativas de melhoria pessoal e intergeracional. O apoio \u00e0 democracia, por outro lado, caiu de 63% em 2010 para os atuais 48%.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem retomar um crescimento elevado, de longo prazo e inclusivo, o para\u00edso do desenvolvimento \u00e9 inating\u00edvel para os pa\u00edses latino-americanos. Pior ainda: a sobreviv\u00eancia da democracia est\u00e1 em jogo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A atual estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica da regi\u00e3o tornou-se um ponto de inflex\u00e3o para um modelo de desenvolvimento que atingiu seu teto ap\u00f3s acabar o tempo de bonan\u00e7a. <\/p>\n","protected":false},"author":398,"featured_media":40070,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16708,16750],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-40080","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-politica-pt-br","9":"category-economia-pt-br","10":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40080","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/398"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40080"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40080\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40070"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40080"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40080"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40080"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=40080"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}