{"id":4040,"date":"2021-02-24T06:21:13","date_gmt":"2021-02-24T09:21:13","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4040"},"modified":"2021-02-26T21:33:05","modified_gmt":"2021-02-27T00:33:05","slug":"a-agenda-uruguaia-para-tornar-o-mercosul-mais-flexivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-agenda-uruguaia-para-tornar-o-mercosul-mais-flexivel\/","title":{"rendered":"A agenda uruguaia para tornar o Mercosul mais flex\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, o Brasil vem perdendo protagonismo regional. Esse movimento foi acentuado nos anos mais recentes. Ao mesmo tempo, v\u00e1rios presidentes tentaram ocupar o vazio deixado pela omiss\u00e3o brasileira. Todos fracassaram. Seria diferente com o uruguaio Luis Lacalle Pou?<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2017, o peruano Pedro Pablo Kuczynski prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o do Grupo de Lima para tratar da crise da Venezuela. Em 2018, o colombiano Iv\u00e1n Duque decidiu abandonar a Unasul em sua primeira semana de governo. Em 2019, o chileno Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era reuniu outros seis presidentes da regi\u00e3o para criar o F\u00f3rum Prosul com o objetivo de substituir a Unasul.<\/p>\n\n\n\n<p>Os brasileiros Michel Temer e Jair Bolsonaro n\u00e3o se envolveram diretamente em nenhuma dessas iniciativas. Nos tr\u00eas casos, os resultados concretos ap\u00f3s alguns anos ficaram muito aqu\u00e9m do voluntarismo presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>O Grupo de Lima tornou-se in\u00f3cuo depois da aventura venezuelana do autoproclamado Juan Guaid\u00f3. Alguns presidentes eleitos mais recentemente como o argentino Alberto Fern\u00e1ndez e o boliviano Luis Arce e candidatos ao posto como Andr\u00e9s Arauz, que passou ao segundo turno em primeiro lugar no Equador, t\u00eam chamado \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o da Unasul. O F\u00f3rum Prosul fracassou ao n\u00e3o conseguir apresentar resultados na concerta\u00e7\u00e3o regional, nem sequer para coordenar esfor\u00e7os para enfrentar os efeitos da pandemia na sa\u00fade p\u00fablica; Bolsonaro n\u00e3o participou de nenhuma das tr\u00eas reuni\u00f5es virtuais do Prosul organizadas pelo Chile em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora parece ser a vez do Uruguai, liderado por Lacalle Pou, assumir o protagonismo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A agenda uruguaia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante do quadro de desintegra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-racha-no-mercosul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que predomina na Am\u00e9rica do Sul<\/a>, o presidente do Uruguai recebeu Alberto Fern\u00e1ndez em Col\u00f4nia do Sacramento em novembro passado. Neste m\u00eas de fevereiro visitou Bolsonaro para um almo\u00e7o no Pal\u00e1cio da Alvorada e convidou o paraguaio Mario Abdo na ter\u00e7a-feira de carnaval para uma conversa em Punta del Este.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve tra\u00e7os comuns em todos os encontros. Informais, sem declara\u00e7\u00f5es oficiais ou comunicados conjuntos das chancelarias. As agendas das tr\u00eas conversas presenciais foram pautadas pelo Uruguai. Acompanhada de quest\u00f5es menos importantes de interesse dos interlocutores, a flexibiliza\u00e7\u00e3o do Mercosul sempre foi o tema principal.<\/p>\n\n\n\n<p>A agenda uruguaia de flexibilizar o Mercosul \u00e9 um eufemismo para acabar com a tarifa externa comum (TEC), que obriga a que todos os pa\u00edses do bloco cobrem a mesma al\u00edquota de importa\u00e7\u00e3o de produtos de fora do bloco. A TEC \u00e9 o instrumento que garantiu grande crescimento do com\u00e9rcio intrabloco entre 1991 e 2011, mas que perdeu f\u00f4lego pela crise industrial no Brasil e Argentina, fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e aumento da presen\u00e7a chinesa. A alta demanda chinesa por produtos prim\u00e1rios do bloco garantiu divisas abundantes nos \u00faltimos anos e anestesiou o esfor\u00e7o exportador industrial dos pa\u00edses membros.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Deixar cada membro negociar individualmente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No Uruguai, <a href=\"https:\/\/valor.globo.com\/brasil\/noticia\/2020\/12\/17\/uruguai-formaliza-proposta-de-acordo-flexivel-no-mercosul.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a flexibiliza\u00e7\u00e3o do Mercosul<\/a> parece ter legitimidade interna. Afinal, entre 2015 e 2019, esse pa\u00eds apresentou crescimento econ\u00f4mico enquanto Argentina e Brasil estavam estagnados. Lacalle Pou defende que o Mercosul abandone a TEC e que cada s\u00f3cio negocie individualmente acordos comerciais com terceiros pa\u00edses ou blocos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os quatro fundadores do Mercosul, o Uruguai \u00e9 o \u00fanico que tem fronteiras apenas com pa\u00edses originais do bloco e a sua economia era a mais integrada com os vizinhos antes do Tratado de Assun\u00e7\u00e3o de 1991. O pa\u00eds manteve sua tradi\u00e7\u00e3o de n\u00e3o alinhamento autom\u00e1tico com nenhum dos dois vizinhos. A pr\u00f3pria independ\u00eancia do Uruguai pode ser entendida como funcional ao distensionamento entre Brasil e Argentina. Agora parece promover seu afastamento de ambos, o que seria um movimento in\u00e9dito.<\/p>\n\n\n\n<p>A senha de Lacalle Pou j\u00e1 fora dada em seu discurso na reuni\u00e3o virtual do Mercosul de julho de 2020 que transmitia a presid\u00eancia do bloco do Paraguai para o Uruguai. Ele concentrou seu discurso na defesa de rela\u00e7\u00f5es \u201cdesideologizadas\u201d com a China e na import\u00e2ncia da especializa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola das economias da regi\u00e3o. A rea\u00e7\u00e3o foi de baixa intensidade. As aten\u00e7\u00f5es estavam voltadas para o Acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia, cujas negocia\u00e7\u00f5es se arrastam por mais de duas d\u00e9cadas, n\u00e3o teve nenhum avan\u00e7o no \u00faltimo ano e perdeu espa\u00e7o nas preocupa\u00e7\u00f5es presidenciais.<\/p>\n\n\n\n<p>O com\u00e9rcio exterior uruguaio \u00e9 cada vez menos sul-americano e cada vez mais chin\u00eas. Em 2000, 49% das exporta\u00e7\u00f5es do Uruguai tinham como destino os pa\u00edses vizinhos da Am\u00e9rica do Sul, ap\u00f3s uma d\u00e9cada de forte crescimento do com\u00e9rcio dentro do Mercosul. Em 2010, o patamar da Am\u00e9rica do Sul no total das exporta\u00e7\u00f5es uruguaias estava em 39,4%; em 2020, o n\u00edvel ficou abaixo de 25%. H\u00e1 dez anos, o Brasil comprava 24% das exporta\u00e7\u00f5es uruguaias e a China apenas 5%. Hoje, a China compra sozinha 28% do que o Uruguai vende e o Brasil apenas metade disso (14%).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A China anestesiou a integra\u00e7\u00e3o regional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O dinamismo chin\u00eas anestesiou a integra\u00e7\u00e3o regional. Para o Brasil, comercialmente, o Uruguai tamb\u00e9m representa cada vez menos. Se em 2018 o Brasil teve um super\u00e1vit de 1,8 bilh\u00e3o de d\u00f3lares, em 2020 foi de apenas 600 milh\u00f5es. As exporta\u00e7\u00f5es brasileiras para o Uruguai ca\u00edram 40% em dois anos.<\/p>\n\n\n\n<p>As exporta\u00e7\u00f5es uruguaias para a China s\u00e3o concentradas em apenas em dois produtos agropecu\u00e1rios, carne e soja, em contraste com as exporta\u00e7\u00f5es industrializadas e diversificadas para o Brasil e a Argentina. O com\u00e9rcio intrarregional \u00e9 mais acess\u00edvel \u00e0s pequenas empresas e gera mais e melhores empregos. A especializa\u00e7\u00e3o propagada pelo presidente uruguaio implica em desindustrializa\u00e7\u00e3o e menos empregos vinculados ao com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u00c9 melhor negociar em conjunto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lacalle Pou acerta em fomentar o di\u00e1logo regional e em se preocupar com os custos de uma pol\u00edtica ideologizada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China, principal parceira comercial do Mercosul. Erra, por\u00e9m, ao entender que o Uruguai sozinho negociar\u00e1 de forma mais favor\u00e1vel com parceiros extrarregionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A tend\u00eancia de constru\u00e7\u00e3o de blocos regionais, ainda que com instabilidade nos \u00faltimos anos, continua se fortalecendo. Em toda parte, os custos de deixar um acordo regional \u00e9 muito maior do que o de se manter nele.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado concreto da flexibiliza\u00e7\u00e3o do Mercosul seria mais especializa\u00e7\u00e3o produtiva e maior interdepend\u00eancia com a China. Mesmo com a China o Mercosul poderia negociar melhor em conjunto. Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai respondem juntos por 75% das importa\u00e7\u00f5es totais de soja da China, al\u00e9m 37% das carnes e 25% da celulose. Todos esses produtos muito intensivos em terra e \u00e1gua. A China depende do Mercosul para garantir o aumento de seu consumo de prote\u00edna, mas, por inabilidade pol\u00edtica, at\u00e9 agora o bloco n\u00e3o tirou vantagens indiretas dessa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O di\u00e1logo pol\u00edtico \u00e9 especialmente importante no Mercosul porque boa parte de seu com\u00e9rcio \u00e9 administrado. Quando os ministros da economia de Brasil e Argentina n\u00e3o conversam, as trocas entre os dois pa\u00edses diminuem significativamente. Parte da queda do com\u00e9rcio intrarregional \u00e9 fruto da fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. H\u00e1 outros instrumentos de integra\u00e7\u00e3o regional que deveriam ser modernizados, como o Conv\u00eanio de Cr\u00e9ditos Rec\u00edprocos da ALADI, cuja sede tamb\u00e9m est\u00e1 em Montevid\u00e9u.<\/p>\n\n\n\n<p>No atual quadro de <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/desintegracao-economica-e-fragmentacao-politica-na-america-do-sul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">desintegra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Am\u00e9rica do Sul<\/a>, o Uruguai pode parecer uma ilha de prosperidade em um mar de instabilidade. Mas a sua estabilidade no m\u00e9dio prazo ser\u00e1 comprometida pela falta de harmonia entre Argentina e Brasil. Lacalle Pou pode conseguir colocar Alberto Fern\u00e1ndez e Jair Bolsonaro pela primeira vez em uma mesma mesa, mas dificilmente teria o mesmo \u00eaxito tratando com economias 200 vezes maiores do que a sua. O Uruguai teria muito mais a ganhar viabilizando o bom di\u00e1logo entre seus dois vizinhos e ajudando a construir uma agenda de consenso na Am\u00e9rica do Sul do que negociando sozinho com China, Estados Unidos ou Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Esteban Collazo<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, o Brasil tem perdido o protagonismo regional e v\u00e1rios presidentes t\u00eam tentado preencher este vazio. Todos falharam. 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