{"id":40614,"date":"2024-05-17T09:00:00","date_gmt":"2024-05-17T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=40614"},"modified":"2024-05-16T21:26:53","modified_gmt":"2024-05-17T00:26:53","slug":"guiana-e-a-necessaria-discussao-sobre-transicao-justa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/guiana-e-a-necessaria-discussao-sobre-transicao-justa\/","title":{"rendered":"Guiana e a necess\u00e1ria discuss\u00e3o sobre transi\u00e7\u00e3o justa"},"content":{"rendered":"\n<p>Recentemente, circularam fragmentos de uma <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/articles\/cqlp8459lq4o\">entrevista com o atual presidente da Guiana, Irfaan Ali<\/a>, para a BBC, na qual foi questionado sobre as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa (GEE) que a extra\u00e7\u00e3o e consumo de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2023\/09\/petroleo-fez-jorrar-dinheiro-na-guiana-mas-empurra-pais-para-encruzilhada.shtml\">petr\u00f3leo da Guiana<\/a> gerar\u00e1 nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p>A entrevista deixou no ar algumas ideias incompletas sobre a rota para avan\u00e7ar na redu\u00e7\u00e3o das emiss\u00f5es de GEE associadas ao setor energ\u00e9tico. Isso porque o questionamento do entrevistador tenta inferir que a descarboniza\u00e7\u00e3o desse setor se limita a uma redu\u00e7\u00e3o da oferta de combust\u00edveis f\u00f3sseis, quando, na realidade, esses esfor\u00e7os de mitiga\u00e7\u00e3o deveriam fazer parte de um plano organizado para avan\u00e7ar gradualmente na redu\u00e7\u00e3o da demanda por essas fontes de energia.<\/p>\n\n\n\n<p>Contr\u00e1rio ao que se espera para as ind\u00fastrias de energia, h\u00e1 uma grande incerteza sobre a ocorr\u00eancia de um pico na demanda de petr\u00f3leo at\u00e9 2040. Mesmo que isso ocorra, o petr\u00f3leo provavelmente continuar\u00e1 tendo uma participa\u00e7\u00e3o significativa na matriz energ\u00e9tica global. Nesse sentido, o petr\u00f3leo que a Guiana deixar de colocar no mercado internacional ser\u00e1 fornecido por outro pa\u00eds produtor.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desenvolvimento e planos de a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O caso guian\u00eas ilustra perfeitamente o dilema que os pa\u00edses em desenvolvimento com reservas importantes de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural enfrentam: a necessidade de balancear as necessidades de desenvolvimento com os planos de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Guiana \u00e9 um dos pa\u00edses mais pobres das Am\u00e9ricas. As condi\u00e7\u00f5es da economia guianense antes da descoberta de petr\u00f3leo no bloco <em>Stabroek<\/em> mostravam um pequeno pa\u00eds com poucas perspectivas de conseguir impulsionar grandes transforma\u00e7\u00f5es em sua matriz produtiva devido a um s\u00e9rio d\u00e9ficit de recursos financeiros, recursos humanos capacitados e infraestrutura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, o auge das opera\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo guian\u00eas abriu uma janela de oportunidade \u00fanica para impulsionar o desenvolvimento econ\u00f4mico e social do pa\u00eds. Essa oportunidade \u00e9 entendida, com consider\u00e1vel consenso, pelas elites pol\u00edticas guianenses como uma fonte de recursos para avan\u00e7ar na transforma\u00e7\u00e3o do pa\u00eds atrav\u00e9s da implementa\u00e7\u00e3o de planos de diversifica\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e de a\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a Guiana tem uma contribui\u00e7\u00e3o insignificante nas emiss\u00f5es globais de GEE. O petr\u00f3leo produzido, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-china-expande-sua-presenca-na-guiana\/\">quase todo exportado<\/a>, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de boa qualidade, mas tamb\u00e9m tem uma intensidade de emiss\u00f5es de carbono associada \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o muito abaixo da m\u00e9dia global. Isso torna o petr\u00f3leo bruto guianense competitivo frente a outros pa\u00edses produtores em um mercado em que, al\u00e9m do custo de produ\u00e7\u00e3o, os pa\u00edses consumidores tendem a favorecer a importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo com menor intensidade de emiss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alternativas para uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa para a Guiana&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Considerando o exposto, \u00e9 importante analisar alternativas para garantir que a Guiana e outros pa\u00edses em situa\u00e7\u00e3o similar possam atingir seus objetivos de desenvolvimento e contribuir na conten\u00e7\u00e3o das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma alternativa \u00e9 que os principais pa\u00edses consumidores coordenem a\u00e7\u00f5es planejadas para satisfazer sua demanda de energia mediante a compra desses recursos de pa\u00edses em desenvolvimento como a Guiana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, essa op\u00e7\u00e3o tem seus desafios. O primeiro est\u00e1 associado \u00e0 capacidade guianense de gerir de forma adequada a receita do petr\u00f3leo, devido a fen\u00f4menos como a maldi\u00e7\u00e3o dos recursos naturais. Nesse sentido, a compra de petr\u00f3leo bruto poderia ser acompanhada de planos de coopera\u00e7\u00e3o para apoiar os pa\u00edses em desenvolvimento em termos de fortalecimento institucional. O caso guian\u00eas j\u00e1 ilustra esse ponto, dado que nos \u00faltimos anos, recebeu assist\u00eancia financeira e t\u00e9cnica do PNUMA, do Banco Mundial e do governo dos Estados Unidos no processo de implementa\u00e7\u00e3o de seus planos de pol\u00edtica petrol\u00edfera e de desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspecto para considerar s\u00e3o os riscos para a seguran\u00e7a energ\u00e9tica derivados da importa\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. O impacto do conflito na Ucr\u00e2nia nos mercados de energia resgatou a centralidade da seguran\u00e7a no abastecimento na agenda da pol\u00edtica energ\u00e9tica dos Estados. Para mitigar esses riscos, a Guiana deve trabalhar em fortalecer sua reputa\u00e7\u00e3o de provedor confi\u00e1vel que respeita e honra seus compromissos e evita se alinhar em conflitos internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, os pa\u00edses industrializados podem adotar outras iniciativas para compensar a Guiana pela decis\u00e3o de n\u00e3o monetizar parte de suas reservas de petr\u00f3leo e g\u00e1s. Dessa forma, se aceito, o novo petroestado sul-americano tamb\u00e9m poderia encontrar uma fonte de recursos para financiar seus planos de desenvolvimento sustent\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica de baixo carbono j\u00e1 \u00e9 um processo irrevers\u00edvel. Como estabelece o Artigo 2 do Acordo de Paris, a responsabilidade dos Estados por sua implementa\u00e7\u00e3o \u00e9 compartilhada, por\u00e9m diferenciada. Nesse sentido, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que a Guiana tamb\u00e9m deve contribuir para conter a crise clim\u00e1tica descarbonizando sua economia, preservando seus sumidouros naturais e aproveitando os co-benef\u00edcios de tais a\u00e7\u00f5es para melhorar a qualidade de vida de seus cidad\u00e3os.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, em um mundo que seguir\u00e1 demandando petr\u00f3leo para satisfazer suas necessidades energ\u00e9ticas, parece injusto negar ao pequeno pa\u00eds sul-americano a oportunidade de dar um salto ao desenvolvimento a partir do uso e da boa gest\u00e3o de seus recursos naturais.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunidade internacional tem a capacidade de apoiar a Guiana em seu caminho para o desenvolvimento atrav\u00e9s de uma transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica organizada e justa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo que seguir\u00e1 demandando petr\u00f3leo para satisfazer suas necessidades energ\u00e9ticas, parece injusto negar ao pequeno pa\u00eds sul-americano a oportunidade de dar um salto ao desenvolvimento a partir do uso e da boa gest\u00e3o de seus recursos naturais.<\/p>\n","protected":false},"author":266,"featured_media":40595,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17028,17135],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-40614","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-transicion-energetica-pt-br","8":"category-guayana-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40614","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/266"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=40614"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/40614\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/40595"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=40614"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=40614"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=40614"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=40614"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}