{"id":4064,"date":"2021-02-26T06:41:31","date_gmt":"2021-02-26T09:41:31","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4064"},"modified":"2021-02-26T07:00:13","modified_gmt":"2021-02-26T10:00:13","slug":"convergencia-de-rendimentos-historia-de-umfracasso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/convergencia-de-rendimentos-historia-de-umfracasso\/","title":{"rendered":"Converg\u00eancia de rendimentos: hist\u00f3ria de fracasso?"},"content":{"rendered":"\n<p>Uma ideia popular em economia sustenta que os pa\u00edses pobres tendem a crescer mais rapidamente do que os pa\u00edses ricos. Portanto, as economias do mundo acabam convergindo em seus n\u00edveis de renda. A vantagem mais importante que os retardat\u00e1rios t\u00eam \u00e9 copiar os melhores padr\u00f5es e pr\u00e1ticas institucionais, tecnol\u00f3gicas e produtivas dos que est\u00e3o \u00e0 frente.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, segundo a teoria, os pobres recebem grandes quantidades de capital dos ricos, o que significa que, apesar de investirem cada vez mais capital na forma\u00e7\u00e3o de sua for\u00e7a de trabalho ou em suas ind\u00fastrias, os retornos que obt\u00eam com esses investimentos s\u00e3o cada vez menores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como \u00e9 a teoria \u00e0 luz da hist\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial Inglesa e o crescimento econ\u00f4mico moderno que ela gerou em meados do s\u00e9culo XVIII, uma d\u00fazia de pa\u00edses ocidentais atingiu n\u00edveis de renda semelhantes aos ingleses nos cem anos seguintes. Primeiro vieram a Holanda e a B\u00e9lgica. Depois Fran\u00e7a, Su\u00ed\u00e7a, Dinamarca, Alemanha, Nova Zel\u00e2ndia, Austr\u00e1lia, Canad\u00e1 e Argentina. No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, <a href=\"https:\/\/www.rug.nl\/ggdc\/historicaldevelopment\/maddison\/releases\/maddison-project-database-2020?lang=en\">o grupo dos ricos foi completado pela Noruega e Su\u00e9cia<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Estados Unidos merecem uma men\u00e7\u00e3o especial, pois ultrapassaram a Inglaterra para se tornarem o pa\u00eds mais rico do mundo, o l\u00edder tecnol\u00f3gico e o poder pol\u00edtico hegem\u00f4nico global \u00e0 beira da Primeira Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, tem havido pouca converg\u00eancia. Durante os chamados &#8220;anos dourados&#8221; do per\u00edodo p\u00f3s-guerra, o crescimento econ\u00f4mico acelerado experimentado pela \u00c1ustria, Finl\u00e2ndia, It\u00e1lia e Espanha os trouxe para o clube de elite. A Irlanda e Portugal somaram-se ao grupo recentemente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>E a Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A regi\u00e3o n\u00e3o tem sido completamente imune ao fen\u00f4meno. Entretanto, as experi\u00eancias hist\u00f3ricas de converg\u00eancia t\u00eam sido amargas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Argentina era uma das 12 economias mais pr\u00f3speras do mundo durante o primeiro ter\u00e7o do s\u00e9culo XX e desde ent\u00e3o come\u00e7ou um longo decl\u00ednio gradual (relativo) de seu PIB per capita at\u00e9 os anos 2000. Foi superada pela Venezuela nos anos 50, cuja economia cresceu rapidamente por mais duas d\u00e9cadas, apenas para sofrer uma grande retra\u00e7\u00e3o e mais 30 anos de estagna\u00e7\u00e3o. Assim, a Venezuela apresenta uma evolu\u00e7\u00e3o de sua renda pr\u00f3xima \u00e0 forma de um sino de distribui\u00e7\u00e3o normal. Evidentemente, em nenhum dos casos a converg\u00eancia foi cimentada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gr\u00e1fico 1. Um s\u00e9culo de converg\u00eancia (ou diverg\u00eancia) na Am\u00e9rica Latina, anos 1920 \u2013 anos&nbsp; 2010<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>(Evolu\u00e7\u00e3o do PIB real p\/c, US$ de \u00a0&#8211; Raz\u00f5es de pa\u00edses selecionados em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Uidos)<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4065\" width=\"445\" height=\"268\" srcset=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-2.png 361w, https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-2-300x180.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 445px) 100vw, 445px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria a partir do Maddison Project Database (2020). G10+ (m\u00e9dia do grupo de pa\u00edses ricos mencionados acima, dos quais Argentina e Venezuela fizeram parte temporariamente em diferentes d\u00e9cadas). <a href=\"https:\/\/www.rug.nl\/ggdc\/historicaldevelopment\/maddison\/releases\/maddison-project-database-2020?lang=en\">https:\/\/www.rug.nl\/ggdc\/historicaldevelopment\/maddison\/releases\/maddison-project-database-2020?lang=en<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Embora os casos do Chile e da Col\u00f4mbia sejam semelhantes, j\u00e1 que ambos terminam suas trajet\u00f3rias em n\u00edveis de renda muito pr\u00f3ximos aos de seus pontos de partida h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s, o Chile fica marcadamente atr\u00e1s do G10+ por 50 anos (1930 a 1970), e s\u00f3 come\u00e7a a se recuperar na d\u00e9cada de 1980. A Col\u00f4mbia, entretanto, permaneceu praticamente est\u00e1tica desde a d\u00e9cada de 1940, com uma reviravolta na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil \u00e9 diferente. Mostra uma tend\u00eancia ascendente apenas desacelerada pela crise da d\u00edvida dos anos 80 e a subsequente &#8220;d\u00e9cada perdida&#8221;. Em 100 anos, a renda dos brasileiros passou de representar pouco mais de 10% da renda dos Estados Unidos para 28%. A este ritmo, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/incerteza-america-latina-economia-mundia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a converg\u00eancia com o l\u00edder levar\u00e1 cerca de 300 anos<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O sucesso dos pa\u00edses asi\u00e1ticos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fracasso da Am\u00e9rica Latina em convergir \u00e9 claro e contundente. Mas nem todos sofreram este destino. As experi\u00eancias do Jap\u00e3o, Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Cor\u00e9ia do Sul (os &#8220;tigres&#8221; asi\u00e1ticos) representam casos de converg\u00eancia bem-sucedidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ando com o Jap\u00e3o nos anos 60, e sucessivamente com diferen\u00e7as de cerca de uma d\u00e9cada entre os anos 70 e 2000, os quatro casos restantes na ordem acima atingiram os n\u00edveis de renda do G10+. Enquanto o fizeram com taxas de crescimento diferentes, Hong Kong e Jap\u00e3o com taxas muito altas e a Cor\u00e9ia a um ritmo mais lento, todos eles alcan\u00e7aram a terra prometida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><sub>Gr\u00e1fico 2. Um s\u00e9culo de converg\u00eancia na \u00c1sia Oriental, anos 1920 \u2013 anos 2010<\/sub><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><sub>(Crescimento real do PIB p\/c, US$ de 2011 &#8211; Raz\u00f5es de pa\u00edses selecionados em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos)<\/sub><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-3.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-4066\" width=\"433\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-3.png 361w, https:\/\/latinoamerica21.com\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/image-3-300x180.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 433px) 100vw, 433px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p><sub>Fonte: Ver nota Gr\u00e1fico 1. Em diferentes d\u00e9cadas os &#8220;tigres&#8221; asi\u00e1ticos se tornaram parte do G10+.<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Onde est\u00e1 a diferen\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fator decisivo para entender a raz\u00e3o das diferentes experi\u00eancias nas duas regi\u00f5es reside na natureza da integra\u00e7\u00e3o com a economia internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, a Am\u00e9rica Latina foi integrada atrav\u00e9s de exporta\u00e7\u00f5es prim\u00e1rias. Ao longo do s\u00e9culo, as matrizes de exporta\u00e7\u00e3o das cinco economias foram dominadas por <a href=\"https:\/\/publications.iadb.org\/es\/publicacion\/16284\/progreso-pobreza-y-exclusion-una-historia-economica-de-america-latina-en-el-siglo\">commodities: caf\u00e9, trigo, carne, borracha, l\u00e3, soja, cobre, nitrato, carv\u00e3o e petr\u00f3leo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, os &#8220;tigres&#8221; transformaram gradualmente suas matrizes, afastando-se da exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios para se concentrarem no desenvolvimento das exporta\u00e7\u00f5es de bens industriais (e servi\u00e7os comerciais e financeiros em Cingapura e Hong Kong). Os anos de r\u00e1pido crescimento e converg\u00eancia foram anos de dinamismo e consolida\u00e7\u00e3o em setores como o automotivo, m\u00e1quinas de alta precis\u00e3o, fibras sint\u00e9ticas, pl\u00e1sticos, semicondutores, <em>software <\/em>de computador e produtos eletr\u00f4nicos. Todos esses competindo nos mercados internacionais. Em outras palavras, <a href=\"https:\/\/oxford.universitypressscholarship.com\/view\/10.1093\/0195139690.001.0001\/acprof-9780195139693\">estas economias deram um grande impulso \u00e0 sua industrializa\u00e7\u00e3o<\/a>, redirecionando-a <a href=\"https:\/\/www.cambridge.org\/core\/journals\/american-political-science-review\/article\/abs\/pathways-from-the-periphery-the-politics-of-growth-in-newly-industrializing-countries-by-stephan-haggard-ithaca-cornell-university-press-1990-276p-1295-paper\/EB91272EA1AE0A5A7DF75FC10122DE35\">para a exporta\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A industrializa\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es estimulou a demanda por atividades dom\u00e9sticas ligadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o no exterior, gerou um trabalho formal cada vez mais qualificado, e permitiu que a acumula\u00e7\u00e3o de economias fosse recanalizada como investimento em infraestrutura e outros setores \u00e1vidos de recursos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, acima de tudo, este compromisso de exporta\u00e7\u00e3o exigiu a forma\u00e7\u00e3o de um sistema tecnol\u00f3gico nacional capaz de inova\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, tanto nos produtos quanto nos processos de produ\u00e7\u00e3o. Assim, empresas e trabalhadores asi\u00e1ticos se tornaram mais produtivos e agregaram cada vez mais valor aos bens e servi\u00e7os oferecidos. Como resultado, eles recebiam maiores rendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ser justo, os latino-americanos conseguiram exportar produtos industriais. Mas eles o fizeram em propor\u00e7\u00f5es menores, na maioria das vezes regionalmente e episodicamente. Em vez de criar tecnologia em casa, ela foi importada e o c\u00edrculo virtuoso foi rompido.<\/p>\n\n\n\n<p>As <em>commodities<\/em> tra\u00e7aram outro caminho, com problemas estruturais antigos: vulnerabilidade externa, desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda, volatilidade do crescimento e escassez de est\u00edmulos e liga\u00e7\u00f5es com outras atividades.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo mudou e as not\u00edcias n\u00e3o s\u00e3o boas. As condi\u00e7\u00f5es para saltar adiante s\u00e3o mais dif\u00edceis agora do que <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/j.ctv346sp7\">eram para os &#8220;tigres&#8221; h\u00e1 quatro ou cinco d\u00e9cadas<\/a>. Os acordos comerciais bilaterais, as regras do jogo regulat\u00f3rio do com\u00e9rcio internacional e a ubiquidade dos direitos de propriedade intelectual reduziram significativamente o espa\u00e7o para <a href=\"https:\/\/www.jstor.org\/stable\/25124050?refreqid=excelsior%3Ae3ddc68c48a97a63a0ec878f56f09ff3&amp;seq=1\">desenvolver o tipo de pol\u00edticas industriais<\/a> que os agora ricos implementaram quando procuraram sair da pobreza.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina parece condenada a contribuir para as teorias da diverg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>Foto por cliff.hellis em Foter.com \/ CC BY-NC-ND<\/em><\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma id\u00e9ia popular em economia sustenta que os pa\u00edses pobres tendem a crescer mais rapidamente do que os pa\u00edses ricos. Portanto, as economias do mundo acabam convergindo em seus n\u00edveis de renda. 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