{"id":41022,"date":"2024-06-04T09:00:00","date_gmt":"2024-06-04T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=41022"},"modified":"2024-06-03T16:50:30","modified_gmt":"2024-06-03T19:50:30","slug":"populistas-populares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/populistas-populares\/","title":{"rendered":"Populistas populares"},"content":{"rendered":"\n<p>Falar de democracia nos dias de hoje \u00e9 falar de suas crises. E, quando nos referimos a elas, a palavra t\u00e3o em voga nos \u00faltimos anos entra rapidamente no debate: <em>populismo<\/em>. Sim, o populismo se tornou popular. <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/messianismo-eleitoral-religiao-e-politica\/\">Os populistas s\u00e3o populares<\/a>. Eles representam com profunda convic\u00e7\u00e3o &#8211; \u00e0s vezes com um radicalismo preocupante &#8211; os desconfortos de uma sociedade que n\u00e3o encontra solu\u00e7\u00e3o diante de op\u00e7\u00f5es \u201csensatas\u201d ou \u201crazo\u00e1veis\u201d e deposita sua f\u00e9 &#8211; porque o populismo exige, acima de tudo, f\u00e9 &#8211; em l\u00edderes com discursos messi\u00e2nicos. Entretanto, nos detemos demais nessa fotografia do l\u00edder de bra\u00e7os abertos, deixando de <em>pertencer a si mesmo<\/em>, e n\u00e3o tanto naqueles seres que o cercam e o seguem fielmente &#8211; porque o populista tamb\u00e9m exige fidelidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A identifica\u00e7\u00e3o com o l\u00edder n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o ideol\u00f3gica ou de patroc\u00ednio, mas de trajet\u00f3ria. L\u00edderes como o presidente mexicano Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador, proveniente de \u00e1reas humildes, com apar\u00eancia humilde e linguagem humilde, representam a hist\u00f3ria de muitos no M\u00e9xico. Porque sua biografia \u00e9 a de muitos: homens e mulheres insatisfeitos com um sistema que falhou com eles; inimigos, imagin\u00e1rios e reais, contra os quais lutar; vit\u00f3rias e derrotas que deixaram sua marca. Em uma sociedade desprovida de entusiasmo, a necessidade de um l\u00edder populista &#8211; uma biografia, uma <em>autobiografia<\/em> que represente &#8211; torna-se a \u00fanica esperan\u00e7a de transcend\u00eancia, torna-se a esperan\u00e7a do M\u00e9xico, como foi o slogan da campanha de AMLO em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>O populismo, observa a cientista pol\u00edtica \u00edtalo-americana Nadia Urbinati, \u00e9 um \u201cmajoritarismo extremo\u201d. Seu povo, n\u00e3o porque perten\u00e7a a ele, mas porque ele o limita \u00e0 sua vis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 apenas o \u00fanico povo, mas o aut\u00eantico. Se o Estado tem o monop\u00f3lio da for\u00e7a, ele tamb\u00e9m busca o monop\u00f3lio da narrativa. A \u00fanica biografia que importa \u00e9 a do l\u00edder &#8211; ou seja, o \u201cpovo\u201d &#8211; e, portanto, qualquer um que conteste essa narrativa \u00e9 rotulado como inimigo. Mas, diferentemente do fascismo, o populismo n\u00e3o elimina seus advers\u00e1rios; pelo contr\u00e1rio, ele os alimenta e precisa deles. Por um lado, h\u00e1 a legitimidade que o l\u00edder populista recebe de seus seguidores &#8211; de seus eleitores, porque o populismo sustenta essa legitimidade democraticamente &#8211; e, por outro, a dos inimigos: sem eles, o populismo fica sem os respons\u00e1veis por seus fracassos, e um populista que aceita seus erros n\u00e3o \u00e9 um populista.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os inimigos habituais do populismo est\u00e3o a m\u00eddia, os \u00f3rg\u00e3os aut\u00f4nomos e qualquer contrapeso que surja. O que \u00e9 preocupante n\u00e3o \u00e9 apenas o fato de o l\u00edder populista no poder atacar e questionar, muitas vezes por meio de acusa\u00e7\u00f5es falsas, os cr\u00edticos de seu governo, mas tamb\u00e9m o fato de isso ser transferido para seus seguidores. Trabalhos recentes sobre os seguidores de L\u00f3pez Obrador mostram que eles s\u00e3o mais propensos a censurar a m\u00eddia. O fato de se identificarem como parte do povo tamb\u00e9m depende do fato de sentirem ou n\u00e3o simpatia por L\u00f3pez Obrador. Para L\u00f3pez Obrador, a \u00fanica realidade leg\u00edtima \u00e9 a que ele nomeia: a m\u00eddia que o questiona quer prejudic\u00e1-lo; as institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es aut\u00f4nomas s\u00e3o um ataque \u00e0 sua chamada Quarta Transforma\u00e7\u00e3o; os grupos ambientalistas, feministas e intelectuais, etc., s\u00e3o produto do neoliberalismo e das elites que tanto buscam afetar seu governo. A disputa narrativa \u00e9, como sempre foi, uma disputa de fic\u00e7\u00f5es; uma disputa para pertencer a uma fic\u00e7\u00e3o; uma luta, portanto, de idiomas: n\u00f3s falamos <em>peje\u00f1ol<\/em>, escreveu o jornalista e escritor mexicano Jes\u00fas Silva Herzog.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da m\u00e1 gest\u00e3o da pandemia, da viol\u00eancia e da deteriora\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade, entre outros problemas enfrentados pelo governo de L\u00f3pez Obrador, sua popularidade continua alta. Embora tenham sido implementados diversos programas sociais que sugerem o motivo pelo qual o presidente continua tendo grande estima, pode-se pensar que, devido aos diversos fracassos de sua administra\u00e7\u00e3o, sua popularidade estaria em baixa a essa altura. No entanto, desde o in\u00edcio de maio deste ano, cerca de 60% aprovam o presidente, com resultados question\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O que acontece quando um populista obt\u00e9m resultados em aspectos fundamentais para a sociedade? Ou seja, o que acontece quando o populista n\u00e3o apenas acerta o diagn\u00f3stico, mas \u00e9 eficaz em resolv\u00ea-lo? Ou, mais complicado ainda, o que acontece quando um populista, com fortes tend\u00eancias autorit\u00e1rias, \u00e9 eficaz? Esse \u00e9 o caso de Nayib Bukele, presidente de El Salvador, que, por meio de um perfil populista e severamente autorit\u00e1rio, construiu uma narrativa baseada na efic\u00e1cia, como demonstrou em sua luta contra a viol\u00eancia das gangues que causou tantos danos ao pa\u00eds centro-americano. Apesar dos muitos questionamentos nacionais e internacionais sobre as medidas implementadas pelo presidente salvadorenho, sua enorme popularidade \u00e9 inquestion\u00e1vel. Em uma sociedade em que um discurso representativo n\u00e3o \u00e9 suficiente, a efic\u00e1cia se torna a \u00fanica forma poss\u00edvel de representa\u00e7\u00e3o. O fato de o presidente Bukele ter contornado a Constitui\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds para ser reeleito, de ter invadido o Congresso acompanhado por militares ou de perseguir qualquer cr\u00edtico de seu governo n\u00e3o \u00e9 suficiente para neutralizar os resultados e a efic\u00e1cia que ele demonstrou. A \u201c<em>eficr\u00e1cia<\/em>\u201d, como a chama o escritor argentino Mart\u00edn Caparr\u00f3s. Como podemos falar de democracia para uma sociedade devastada pela viol\u00eancia como a salvadorenha? Como podemos apontar que o caminho populista n\u00e3o \u00e9 o ideal se o caminho que o precedeu foi justamente o que o provocou? E essas perguntas apontam, em vez de respostas, para mais perguntas: para quem a academia fala? E ela n\u00e3o cai em uma esp\u00e9cie de mon\u00f3logo coletivo? Ao mesmo tempo, diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o, em vez de alertar, rotulam como populista qualquer ator pol\u00edtico que n\u00e3o lhes agrade. Embora muitos n\u00e3o gostem, os populistas s\u00e3o populares e, sem cair na mesma din\u00e2mica populista, \u00e9 necess\u00e1rio, mais do que nunca, ouvi-los e lev\u00e1-los a s\u00e9rio, antes que esse tipo de lideran\u00e7a se torne mais apreciado e popular do que a pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os populistas s\u00e3o populares e \u00e9 necess\u00e1rio, mais do que nunca, ouvi-los e lev\u00e1-los a s\u00e9rio, antes que esse tipo de lideran\u00e7a se torne mais apreciado e popular do que a pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n","protected":false},"author":618,"featured_media":41016,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16748],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-41022","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-populismo-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41022","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/618"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41022"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41022\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41022"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41022"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41022"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=41022"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}