{"id":41353,"date":"2024-06-16T06:00:00","date_gmt":"2024-06-16T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=41353"},"modified":"2024-06-15T16:27:32","modified_gmt":"2024-06-15T19:27:32","slug":"presidencias-tuteladas-entre-o-carisma-e-a-legitimidade-legal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/presidencias-tuteladas-entre-o-carisma-e-a-legitimidade-legal\/","title":{"rendered":"Presid\u00eancias tuteladas: entre o carisma e a legitimidade legal"},"content":{"rendered":"\n<p>O carisma \u00e9 uma caracter\u00edstica individual das pessoas que n\u00e3o pode ser transmitida nem herdada, nem mesmo de um presidente para seu vice. Entretanto, nos \u00faltimos anos, observou-se que um candidato pode ganhar as elei\u00e7\u00f5es se for apoiado por uma figura mais popular. Dessa forma, o poder pol\u00edtico pode ser depositado em duas pessoas, o que pode gerar problemas de governan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Por um lado, quem ocupa a presid\u00eancia tem legitimidade legal e, al\u00e9m disso, o apoio popular de ter sido eleito. Mas, por outro lado, mant\u00e9m-se a lideran\u00e7a do ex-l\u00edder, que, segundo Max Weber, baseia-se no carisma, o que lhe confere uma legitimidade que n\u00e3o emana das urnas.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o, na qual duas lideran\u00e7as convivem, leva a disputas, j\u00e1 que uma das lideran\u00e7as tende a se sobrepor \u00e0 outra. Embora, para respeitar a ordem democr\u00e1tica, deva predominar quem foi escolhido pelos votos, existem exemplos na Am\u00e9rica Latina em que o chefe de Estado e uma pessoa com capacidade de incidir na tomada de decis\u00f5es governamentais resultaram em polariza\u00e7\u00e3o e ingovernabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica do Sul presenciou esses casos, principalmente. O mais not\u00f3rio foi <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-fator-regional-na-crise-politica-boliviana\/\">a disputa entre o ex-presidente Evo Morales e o atual presidente Luis Arce<\/a>, ambos militantes do MAS. Ap\u00f3s a crise pol\u00edtico-eleitoral de 2020, quando Morales come\u00e7ou a organizar o partido Movimiento al Socialismo (MAS) em torno de si, come\u00e7aram tamb\u00e9m as cr\u00edticas ao seu correligion\u00e1rio. Por sua vez, Arce iniciou uma batalha de declara\u00e7\u00f5es e foi se posicionando nessa batalha interna que gerou grande instabilidade pol\u00edtica no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Argentina, surgiu uma situa\u00e7\u00e3o semelhante no mandato do governo anterior entre o chefe do executivo Alberto Fern\u00e1ndez e a vice-presid\u00eancia ocupada por Cristina Fern\u00e1ndez. A falta de carisma do primeiro e a forte lideran\u00e7a da segunda tornaram evidente, em poucos meses do novo governo, a duplicidade de poder que terminou em uma ruptura total.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, no Brasil, Luiz In\u00e1cio <em>Lula<\/em> da Silva, que governou entre 2003 e 2011 e contou com forte apoio popular, abriu caminho para que o pa\u00eds tivesse sua primeira mulher presidente, Dilma Rousseff, que o sucedeu no poder. Rousseff n\u00e3o \u00e9 uma pessoa particularmente carism\u00e1tica, mas foi a marca pol\u00edtica de Lula e os resultados do governo que permitiram que lhe permitiram chegar ao poder. No entanto, quando surgiram as investiga\u00e7\u00f5es da Odebrecht e da Lava Jato, a presidente nomeou Lula como ministro da Casa Civil para proteg\u00ea-lo, e depois ele renunciou ao cargo, levando em conta que poderia prejudicar a administra\u00e7\u00e3o de Dilma.<\/p>\n\n\n\n<p>Na regi\u00e3o andina, no Equador, Rafael Correa governou sob a marca da Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 (2007-2017); seu governo \u00e9 o primeiro caso do que \u00e9 conhecido como tecnopopulismo, personagens que t\u00eam uma ret\u00f3rica nacionalista e polarizadora, mas que, em quest\u00f5es econ\u00f4micas, confiam em medidas de disciplina fiscal e perfis t\u00e9cnicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Correa tentou um quarto mandato depois que seu partido Alianza-Pa\u00eds aprovou um projeto de lei para a reelei\u00e7\u00e3o indefinida. A aprova\u00e7\u00e3o gerou controv\u00e9rsia e, para evitar uma crise que prejudicaria sua imagem, ele optou por Lenin Moreno, seu vice-presidente. Moreno venceu as elei\u00e7\u00f5es e rapidamente rompeu com seu antecessor, o que gerou uma disputa com o ex-presidente que acabou dividindo o partido. Esse foi um fator determinante para a vit\u00f3ria de Guillermo Lasso nas elei\u00e7\u00f5es seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro caso \u00e9 o do Panam\u00e1. O ex-presidente Ricardo Martinelli buscava a presid\u00eancia do pa\u00eds; no entanto, uma investiga\u00e7\u00e3o por lavagem de dinheiro e seu asilo na Nicar\u00e1gua o impediram de concorrer. Um perfil pr\u00f3ximo a ele, Jos\u00e9 Ra\u00fal Mulino, foi indicado como seu substituto e ganhou a presid\u00eancia. Embora Mulino n\u00e3o tivesse um forte apoio popular, ao se tornar o porta-estandarte de Martinelli, conseguiu canalizar simpatia. Ap\u00f3s a vit\u00f3ria de Mulino, a quest\u00e3o que surge \u00e9 se o presidente conseguir\u00e1 se desvincular do ex-presidente ou se o poder permanecer\u00e1 nas m\u00e3os de duas pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O caso mais recente \u00e9 o do M\u00e9xico, onde o partido Morena voltou a ganhar a presid\u00eancia com Claudia Sheinbaum, que ser\u00e1 a primeira mulher a governar o pa\u00eds. L\u00f3pez Obrador termina seu governo com uma aprova\u00e7\u00e3o de 60% e foi a for\u00e7a motriz por tr\u00e1s da campanha de Sheinbaum, j\u00e1 que a presidente eleita n\u00e3o tem a tra\u00e7\u00e3o ou a for\u00e7a de L\u00f3pez Obrador.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora, a principal d\u00favida \u00e9 se haver\u00e1 uma ruptura entre presidente e presidenta eleita ou se a marca AMLO ser\u00e1 o reposit\u00f3rio do poder popular. A tens\u00e3o escalou nos \u00faltimos dias pela iniciativa de reforma judicial, que busca que os ministros e magistrados sejam eleitos mediante voto popular, como no sistema boliviano. Enquanto o executivo pressiona para que a reforma seja aprovada em setembro, um m\u00eas antes do final de seu mandato de seis anos, a presidente eleita diz que haver\u00e1 di\u00e1logo e an\u00e1lise. Ambas posturas s\u00f3 causaram a desvaloriza\u00e7\u00e3o do peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, pode-se corroborar que as presid\u00eancias tutelares geralmente geram conflitos sobre quem det\u00e9m o poder. Em alguns casos, o sucessor acaba rompendo com seu antecessor e desafia a figura da tutela que se acreditava estar preestabelecida. Em outros casos, a presen\u00e7a do l\u00edder carism\u00e1tico \u00e9 mantida como marca do pr\u00f3ximo governo e da continuidade do projeto pol\u00edtico, e a figura do presidente serve para viabilizar a vit\u00f3ria por meio de votos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, as presid\u00eancias tuteladas s\u00e3o um fen\u00f4meno que pode ser associado, embora nem sempre, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/caudilhos-mais-do-que-lideres\/\">ao caudilhismo ou ao populismo<\/a>. L\u00edderes carism\u00e1ticos tendem a superar seus governos e se tornar motores de projetos pol\u00edticos, enquanto quem assumem o poder pela via legal, mas n\u00e3o t\u00eam carisma, enfrentam o desafio de criar uma aura pr\u00f3pria. E, em alguns casos, manter ou romper os la\u00e7os com o projeto original, o que pode levar a disputas dentro do pr\u00f3prio movimento pol\u00edtico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os l\u00edderes carism\u00e1ticos tendem a superar seus governos e se tornam motores de projetos pol\u00edticos; enquanto que quem assume o pode pela via legal enfrenta o desafio de criar uma \u00e1urea pr\u00f3pria.<\/p>\n","protected":false},"author":404,"featured_media":41362,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16708],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-41353","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-politica-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41353","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/404"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41353"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41353\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41353"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41353"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41353"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=41353"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}