{"id":41872,"date":"2024-07-02T09:00:00","date_gmt":"2024-07-02T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=41872"},"modified":"2024-07-01T21:15:06","modified_gmt":"2024-07-02T00:15:06","slug":"adeus-invernos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/adeus-invernos\/","title":{"rendered":"Adeus invernos?"},"content":{"rendered":"\n<p>A Am\u00e9rica do Sul est\u00e1 se esquecendo dos invernos, assim como grande parte do resto do mundo. As imagens emblem\u00e1ticas de nevascas, aglomera\u00e7\u00f5es abrigadas, programa\u00e7\u00f5es para o tempo frio e paisagens geladas est\u00e3o se tornando escassas. E quanto menos frio, mais chuva. Em alguns casos, cada vez mais frequentes, as chuvas est\u00e3o dando lugar a dil\u00favios. Como os causados pelas tremendas enchentes no estado do Rio Grande do Sul, no Brasil, cujas cenas de arranha-c\u00e9us alagados trouxeram de volta como realidade inescap\u00e1vel as hip\u00f3teses alarmistas de document\u00e1rios como <em>Uma Verdade Inconveniente<\/em> ou filmes como <em>Tempestade: Um Planeta em F\u00faria<\/em>. &#8220;Para cada grau a mais de calor, \u00e9 produzido sete vezes mais vapor de \u00e1gua&#8221;, explica Andrew Schwartz, cientista-chefe da Universidade de Berkeley. Portanto, invernos quentes e \u00famidos se tornar\u00e3o o novo normal clim\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p>Com as mudan\u00e7as radicais do clima, deveriam mudar tamb\u00e9m os h\u00e1bitos, as percep\u00e7\u00f5es e as rea\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s causas que provocam tal problema. Mas \u00e9 isso que os dados da opini\u00e3o p\u00fablica nos indicam?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa anual da WIN, a maior rede internacional de ag\u00eancias independentes, que entrevistou cerca de 33.900 adultos em 39 pa\u00edses diferentes entre fevereiro e mar\u00e7o de 2024, revela que as preocupa\u00e7\u00f5es com as evid\u00eancias da crise clim\u00e1tica n\u00e3o diminu\u00edram. De fato, a Am\u00e9rica Latina se destaca como a regi\u00e3o que expressa a maior ang\u00fastia ambiental, com valores pr\u00f3ximos a 90%, portanto com pouqu\u00edssimas diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, partid\u00e1rias, geracionais, de classe ou educacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m h\u00e1 clareza sobre os gatilhos que levaram aos dist\u00farbios de clima excepcionalmente quente, invernos m\u00ednimos, chuvas torrenciais e ciclones fora de \u00e9poca. Em contraste com o negacionismo predominante nos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m em pa\u00edses de baixa renda e com alta vulnerabilidade ambiental, como Paquist\u00e3o, Indon\u00e9sia, Nig\u00e9ria ou Costa do Marfim, onde entre 25% e 40% dos cidad\u00e3os atribuem as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas a fen\u00f4menos naturais, os pa\u00edses latino-americanos culpam fortemente o desenvolvimento industrial ou o estilo de vida das pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A atribui\u00e7\u00e3o de responsabilidade individual est\u00e1 entre as mais fortes no Brasil, com 54% culpando as escolhas pessoais dos consumidores como a fonte dos dist\u00farbios ambientais. Entretanto, o que pode parecer um sinal de alta conscientiza\u00e7\u00e3o esconde a ast\u00facia dos setores que estimulam o desmatamento, como a pecu\u00e1ria e a agricultura, bem como a explora\u00e7\u00e3o madeireira e a minera\u00e7\u00e3o. Entre os brasileiros, apenas 3% culpam o setor prim\u00e1rio pelos desequil\u00edbrios clim\u00e1ticos, apesar de relat\u00f3rios de importantes <em>think tanks<\/em> com respaldo cient\u00edfico, como o Observat\u00f3rio do Clima, revelarem que 80% das emiss\u00f5es brasileiras s\u00e3o provenientes da ocupa\u00e7\u00e3o indiscriminada dos solos pela pecu\u00e1ria e da consequente destrui\u00e7\u00e3o das florestas para esse fim.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Peruanos, mexicanos, equatorianos e argentinos t\u00eam uma no\u00e7\u00e3o um pouco mais realista de como o extrativismo prim\u00e1rio e a explora\u00e7\u00e3o rural geram emiss\u00f5es, oscilando entre 18% para os primeiros e 11% para os \u00faltimos. Em contrapartida, eles tendem a suavizar o dedo acusat\u00f3rio sobre o consumo individual (embora na Argentina e no Chile mais de 40% apontem nessa dire\u00e7\u00e3o para reconhecer um culpado pelos gases que alteram as temperaturas e os ciclos de chuva e seca). Essa responsabilidade individual revela a assimila\u00e7\u00e3o de discursos que expurgam outros setores, como o energ\u00e9tico e o prim\u00e1rio, convertendo o consumidor individual no principal destinat\u00e1rio das orienta\u00e7\u00f5es educativas para uma vida com menor impacto ecol\u00f3gico. At\u00e9 que ponto isso desvia a aten\u00e7\u00e3o de muitos dos culpados?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da expia\u00e7\u00e3o parcial de certos setores, como o industrial e o agropecu\u00e1rio, os latino-americanos revelam que as coisas s\u00e3o complicadas quando se trata de converter essas ansiedades em a\u00e7\u00f5es individuais que favore\u00e7am uma menor pegada ambiental ou impacto clim\u00e1tico. Quando questionados sobre as a\u00e7\u00f5es que realizam em seu cotidiano para viver dentro dos limites planet\u00e1rios, a grande maioria se refere a atividades ligadas ao fim do ciclo de consumo, ao descarte de bens consumidos, muito mais do que a modera\u00e7\u00f5es ou neutraliza\u00e7\u00f5es na aquisi\u00e7\u00e3o e no uso de bens a serem consumidos. Quando dois ter\u00e7os dos entrevistados colocam todo o seu envolvimento com a mitiga\u00e7\u00e3o do clima na reciclagem, eles n\u00e3o est\u00e3o pensando em consumir menos ou melhor, o que, na pr\u00e1tica, seria uma abordagem mais radicalmente eficaz para reverter as causas individuais do aquecimento global. Em contraste com os pa\u00edses europeus, apenas 25% dos latino-americanos consideram parar de comprar <em>fast fashion<\/em> (contra mais de 40% dos alem\u00e3es ou franceses ou 50% dos suecos). Da mesma forma, menos de 25% dos latino-americanos planejam parar de viajar de avi\u00e3o (contra um ter\u00e7o ou at\u00e9 mais de 40% dos alem\u00e3es, finlandeses, poloneses e uma porcentagem semelhante de holandeses). Sem mencionar a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-comercio-dos-agroalimentos-america-latina-na-encruzilhada-da-mudanca-climatica\/\">interrup\u00e7\u00e3o do consumo de carne<\/a> em favor de uma dieta com menos impactos ambientais negativos, algo que apenas 1 em cada 10 latino-americanos est\u00e1 disposto a fazer (contra o dobro ou mais de escandinavos, brit\u00e2nicos, franceses e italianos).<\/p>\n\n\n\n<p>Para aqueles que estudam como facilitar a transi\u00e7\u00e3o de comportamento em uma dire\u00e7\u00e3o mais amig\u00e1vel ao clima, por tr\u00e1s dessas inconsist\u00eancias e lacunas entre percep\u00e7\u00f5es e condutas, h\u00e1 uma comunica\u00e7\u00e3o ineficaz ou pouco inspiradora. O recente <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=Sut2PD9Gs74&amp;t=7s\">webinar da se\u00e7\u00e3o latino-americana da WAPOR<\/a>, a Associa\u00e7\u00e3o Mundial de Pesquisas de Opini\u00e3o P\u00fablica, discutiu como mobilizar mentes e cora\u00e7\u00f5es de forma mais eficaz quando se trata de gerar condi\u00e7\u00f5es que evitem um desastre clim\u00e1tico maior. A jornalista e comunicadora Pearl Maravall, do Yale Program on Climate Change Communication, enfatizou que n\u00e3o se trata de bombardear as pessoas com dados, mesmo que isso seja necess\u00e1rio para informar, nem de gerar culpa ou medo sobre o tamanho da trag\u00e9dia, pois essas estrat\u00e9gias acabam paralisando as pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Parte do segredo est\u00e1 em inspir\u00e1- las a realizar a\u00e7\u00f5es em uma escala vi\u00e1vel para elas, enfatizando a aprova\u00e7\u00e3o social que obteriam ao adotar esses comportamentos, contando hist\u00f3rias que conectem as respostas que elas podem incorporar aos benef\u00edcios e solu\u00e7\u00f5es que essas rea\u00e7\u00f5es podem trazer. Assim, surgem com for\u00e7a as narrativas de m\u00e3es que ajudam seus filhos a ter uma vida mais saud\u00e1vel ou que recuperam tradi\u00e7\u00f5es de divers\u00e3o e socializa\u00e7\u00e3o isentas de gastos luxuosos ou de media\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, cujos dispositivos s\u00e3o caros, extraem recursos naturais e afastam as novas gera\u00e7\u00f5es das mais velhas. Ou relatos de empatia e solidariedade com outras esp\u00e9cies, reconhecendo sua intelig\u00eancia e companheirismo, ao mesmo tempo em que recuperam a beleza da paisagem intocada pela cria\u00e7\u00e3o em larga escala de prote\u00ednas, cujas repercuss\u00f5es de polui\u00e7\u00e3o e empobrecimento do ecossistema s\u00e3o f\u00e1ceis de mostrar. Assim como hist\u00f3rias de indiv\u00edduos que tiveram de enfrentar consequ\u00eancias concretas das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, como uma enchente que levou todos os seus bens e destruiu comunidades, obrigando-os a pensar n\u00e3o s\u00f3 nos h\u00e1bitos individuais, mas tamb\u00e9m no planejamento urbano para que o curso original dos rios seja respeitado, ou para que o lixo n\u00e3o seja jogado nos c\u00f3rregos ou na rua &#8211; o que entope os bueiros -, ou em defesa das \u00e1reas verdes pr\u00f3ximas aos cursos d&#8217;\u00e1gua. Em suma, hist\u00f3rias inspiradoras e instigantes com foco em solu\u00e7\u00f5es, resili\u00eancia da comunidade e l\u00edderes comuns pr\u00f3ximos de onde os desafios ocorrem.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Conectar informa\u00e7\u00f5es com experi\u00eancias, destacar a natureza dos problemas, mas tamb\u00e9m a possibilidade de solu\u00e7\u00f5es ao alcance de indiv\u00edduos comuns, e facilitar a execu\u00e7\u00e3o de ajustes em nossos estilos de vida e escolhas, abrir\u00e1 caminho para um futuro menos oneroso e recuperar\u00e1 &#8211; em algum momento &#8211; os invernos p\u00e1lidos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com as mudan\u00e7as radicais do clima, deveriam mudar os h\u00e1bitos, as percep\u00e7\u00f5es e as rea\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s causas que as provocam. 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