{"id":41916,"date":"2024-07-04T09:00:00","date_gmt":"2024-07-04T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=41916"},"modified":"2024-07-04T22:51:45","modified_gmt":"2024-07-05T01:51:45","slug":"genero-e-interseccionalidade-das-injusticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/genero-e-interseccionalidade-das-injusticas\/","title":{"rendered":"G\u00eanero e interseccionalidade das injusti\u00e7as"},"content":{"rendered":"\n<p>A humanidade enfrenta uma d\u00e9cada de crescente desigualdade marcada por uma pandemia global, novas guerras, crises de custo de vida e colapso clim\u00e1tico. De acordo com o <a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/Davos%202024%20Report%20-%20Spanish.pdf?VersionId=cYZrlWJ_4e4HS6PDoZtwQdJbRdwQeXcH\">Relat\u00f3rio de Desigualdade SA da OXFAM (2024)<\/a>, 4,8 bilh\u00f5es de pessoas, principalmente mulheres, pessoas racializadas e grupos exclu\u00eddos, s\u00e3o mais pobres hoje do que em 2019, e a desigualdade entre o Norte e o Sul global continua aumentando. \u00c0 medida que os pre\u00e7os ultrapassam os sal\u00e1rios, provocando protestos e greves, os governos dos pa\u00edses de baixa e m\u00e9dia renda lutam para manter suas finan\u00e7as funcionando devido ao aumento das d\u00edvidas e dos pagamentos de juros. Mas a desigualdade n\u00e3o \u00e9 simplesmente uma equa\u00e7\u00e3o. A compreens\u00e3o de suas v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es nos ajudar\u00e1 a criar solu\u00e7\u00f5es abrangentes para priorizar os mais exclu\u00eddos.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, existem desigualdades socioecon\u00f4micas baseadas no ac\u00famulo ou na falta de bens materiais e simb\u00f3licos. De fato, a maior parte da riqueza mundial e os super-ricos est\u00e3o concentrados no Norte global, um legado do colonialismo europeu baseado na escravid\u00e3o e na desapropria\u00e7\u00e3o de povos ind\u00edgenas e afrodescendentes. <a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/Davos%202024%20Report%20-%20Spanish.pdf?VersionId=cYZrlWJ_4e4HS6PDoZtwQdJbRdwQeXcH\">Essas rela\u00e7\u00f5es neocoloniais persistem at\u00e9 hoje, perpetuando desequil\u00edbrios econ\u00f4micos que favorecem o Norte<\/a>, que, apesar de representar apenas 21% da popula\u00e7\u00e3o mundial, possui 69% da riqueza mundial e 74% da fortuna dos trilion\u00e1rios do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, as desigualdades \u00e9tnico-raciais e culturais se revertem em estigmas e estere\u00f3tipos negativos decorrentes da invas\u00e3o colonial que criou um eixo de domina\u00e7\u00e3o cultural baseado na ra\u00e7a, justificando a inferioridade dos &#8220;n\u00e3o brancos&#8221;. No Brasil, por exemplo, <a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/Davos%202024%20Report%20-%20Spanish.pdf?VersionId=cYZrlWJ_4e4HS6PDoZtwQdJbRdwQeXcH\">a renda da popula\u00e7\u00e3o branca atualmente supera em 70% a da popula\u00e7\u00e3o afrodescendente<\/a>. Enquanto o racismo naturalizou as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o, o capitalismo gerou novas estruturas para o controle do trabalho, sustentando a colonialidade e o eurocentrismo do capital mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, temos as desigualdades de g\u00eanero que colocam as mulheres e as meninas em um papel subordinado ao dos homens, independentemente de classe, pa\u00eds ou cultura. Os feminismos tornaram essas desigualdades vis\u00edveis em m\u00faltiplos \u00e2mbitos: em casa, onde as mulheres realizam atividades n\u00e3o reconhecidas e n\u00e3o remuneradas; no trabalho, onde enfrentam diferen\u00e7as salariais e ocupam empregos mais prec\u00e1rios e com sal\u00e1rios mais baixos; e na esfera p\u00fablica, com baixa representa\u00e7\u00e3o em cargos hier\u00e1rquicos, apesar de serem maioria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Alguns dados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em 2019, <a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/Davos%202024%20Report%20-%20Spanish.pdf?VersionId=cYZrlWJ_4e4HS6PDoZtwQdJbRdwQeXcH\">as mulheres ganharam a n\u00edvel mundial apenas 51 centavos para cada d\u00f3lar ganhado pelos homens, que det\u00eam US$ 105 trilh\u00f5es a mais de riqueza do que as mulheres<\/a>. Mas essas desigualdades s\u00e3o agravadas pela discrimina\u00e7\u00e3o com base na ra\u00e7a e na condi\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria, afetando especialmente as trabalhadoras migrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse cen\u00e1rio complexo, o <a href=\"https:\/\/www.law.columbia.edu\/news\/archive\/kimberle-crenshaw-intersectionality-more-two-decades-later\">conceito de interseccionalidade<\/a>, origin\u00e1rio dos feminismos afro e latino-americano, ajuda a entender e nomear as m\u00faltiplas desigualdades que se cruzam quando se pertence simultaneamente a v\u00e1rios coletivos vulner\u00e1veis e oprimidos. \u00c9 fundamental compreender as injusti\u00e7as experimentadas por aqueles que, al\u00e9m de &#8220;serem pobres&#8221;, enfrentam obst\u00e1culos no acesso a direitos b\u00e1sicos por &#8220;serem negros&#8221;, &#8220;pardos&#8221;, &#8220;mulheres&#8221;, &#8220;l\u00e9sbicas&#8221;, &#8220;trans&#8221; ou por viverem em bairros segregados no sul global, onde a degrada\u00e7\u00e3o ambiental \u00e9 combinada com a exclus\u00e3o socioecon\u00f4mica. A justi\u00e7a social, econ\u00f4mica, racial e de g\u00eanero deve ser entendida como parte de um sistema complexo de opress\u00f5es e desigualdades.<\/p>\n\n\n\n<p>O debate sobre justi\u00e7a clim\u00e1tica tamb\u00e9m nos for\u00e7a a considerar as desigualdades ambientais, que apontam para o impacto diferencial da crise ecol\u00f3gica entre regi\u00f5es e popula\u00e7\u00f5es. Por exemplo, de acordo com os c\u00e1lculos da OXFAM, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/por-que-debemos-hablar-de-justicia-climatica\/\">o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o mundial gera tanta emiss\u00e3o de carbono quanto os dois ter\u00e7os mais pobres da humanidade<\/a>. De uma perspectiva interseccional, observamos que, embora os ricos contribuam para a crise, as pessoas dos pa\u00edses de baixa renda e as que vivem na pobreza s\u00e3o as mais afetadas; e as mulheres e meninas t\u00eam menos probabilidade de sobreviver a desastres naturais devido aos pap\u00e9is de g\u00eanero que limitam sua capacidade de tomar decis\u00f5es vitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, as pessoas racializadas, especialmente nas Am\u00e9ricas, geralmente vivem em bairros com menor cobertura de \u00e1rvores e temperaturas mais altas do que os residentes &#8220;brancos&#8221;. Os povos ind\u00edgenas tamb\u00e9m s\u00e3o gravemente afetados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas: suas formas ancestrais de gest\u00e3o da terra e sua estreita rela\u00e7\u00e3o com o ambiente natural foram amea\u00e7adas pelas ind\u00fastrias extrativas, pela discrimina\u00e7\u00e3o e pela marginaliza\u00e7\u00e3o sist\u00eamicas.<\/p>\n\n\n\n<p>A abordagem interseccional nos permite entender os sistemas de opress\u00e3o vinculados: colonialismo, capitalismo, extrativismo e patriarcado. As <a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/file_attachments\/Paper%20Justicia%20Climatica-Justicia%20Ge%CC%81nero..pdf\">estruturas de explora\u00e7\u00e3o da natureza est\u00e3o intrinsecamente relacionadas \u00e0s opress\u00f5es patriarcais, racistas e euroc\u00eantricas que sustentam o capitalismo<\/a>. Esses padr\u00f5es de poder e os modelos econ\u00f4micos atuais continuam promovendo a desigualdade e a injusti\u00e7a social e ambiental. Ao se concentrarem no crescimento e na produ\u00e7\u00e3o, tornam invis\u00edvel o fato de que a economia \u00e9 sustentada pelo trabalho de cuidado, geralmente relegado \u00e0s mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quanto vale o trabalho de cuidados n\u00e3o remunerado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/Davos%202024%20Report%20-%20Spanish.pdf?VersionId=cYZrlWJ_4e4HS6PDoZtwQdJbRdwQeXcH\">O valor econ\u00f4mico do trabalho de cuidados n\u00e3o remunerados das mulheres \u00e9 estimado em US$ 10,8 bilh\u00f5es por ano<\/a>, tr\u00eas vezes o tamanho da ind\u00fastria tecnol\u00f3gica mundial. As mulheres vulner\u00e1veis realizam tarefas essenciais para a manuten\u00e7\u00e3o da vida: desde cuidar de crian\u00e7as, doentes e idosos at\u00e9 proteger os ecossistemas e a sa\u00fade da comunidade em territ\u00f3rios degradados. Elas tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pela limpeza e higieniza\u00e7\u00e3o de bairros populares, pela cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os recreativos, pelo apoio \u00e0s v\u00edtimas e pela prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade, al\u00e9m de liderar as demandas perante o Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto quase metade da humanidade vive abaixo da linha da pobreza, os modelos econ\u00f4micos extrativistas causam uma crise clim\u00e1tica global que est\u00e1 sendo enfrentada pelas pessoas mais afetadas e com menos poder. Portanto, a justi\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 insepar\u00e1vel da justi\u00e7a social, econ\u00f4mica, racial e de g\u00eanero. Em face dessa crescente desigualdade, \u00e9 necess\u00e1rio agir com urg\u00eancia. Economistas como <a href=\"https:\/\/elpais.com\/economia\/negocios\/2023-09-24\/desigualdad-y-democracia.html\">Joseph Stiglitz<\/a> prop\u00f5em o estabelecimento de objetivos claros para reduzir a desigualdade: a redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza e a educa\u00e7\u00e3o integral (ambiental, antirracista e feminista) s\u00e3o duas grandes medidas. \u00c9 essencial enfrentar as injusti\u00e7as extremas e escolher entre uma era de supremacia da elite ou um poder p\u00fablico transformador baseado na igualdade e na dignidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O valor econ\u00f4mico do trabalho de cuidados n\u00e3o remunerados das mulheres \u00e9 tr\u00eas vezes o tamanho da ind\u00fastria tecnol\u00f3gica mundial.<\/p>\n","protected":false},"author":628,"featured_media":41908,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16716,16782],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-41916","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desigualdad-es-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41916","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/628"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41916"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41916\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41908"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41916"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41916"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41916"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=41916"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}