{"id":42256,"date":"2024-07-17T09:00:00","date_gmt":"2024-07-17T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=42256"},"modified":"2024-07-17T13:43:24","modified_gmt":"2024-07-17T16:43:24","slug":"mulheres-negras-desigualdades-e-racismo-oculto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/mulheres-negras-desigualdades-e-racismo-oculto\/","title":{"rendered":"Mulheres negras, desigualdades e racismo oculto"},"content":{"rendered":"\n<p>Relat\u00f3rios da<a href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\/64204-pobreza-possui-v%C3%ADnculo-profundo-com-discrimina%C3%A7%C3%A3o-e-racismo-diz-relator-especial-da-onu#:~:text=Grupos%20discriminados%20como%20os%20afrodescendentes,em%20condi%C3%A7%C3%B5es%20justas%2C%20seguran%C3%A7a%20social%2C\"> Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a> apontam que a ra\u00e7a determina a composi\u00e7\u00e3o da base das novas formas de pobreza e miserabilidade mundial. Por consequ\u00eancia, mulheres negras ocupam posi\u00e7\u00f5es ainda mais dr\u00e1sticas de vulnerabilidade extrema e s\u00e3o as mais impactadas quando tratamos da privatiza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo<a href=\"https:\/\/oi-files-cng-v2-prod.s3.eu-west-2.amazonaws.com\/lac.oxfam.org\/s3fs-public\/Informe%20Econonuestra%20ES.pdf?VersionId=HyEYobUlpgrpqLIiFMpTctzo7Vejqxfo\"> OXFAM<\/a>, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe \u00e9 a regi\u00e3o mais desigual do mundo e o lugar onde os ricos representam a maior parte da riqueza total, depois do Oriente M\u00e9dio e do Norte da \u00c1frica, e onde os 50% mais pobres t\u00eam t\u00e3o pouca riqueza quanto a \u00c1frica Subsaariana. Em um grande sinal das vulnerabilidades impostas pela ra\u00e7a, as pessoas e fam\u00edlias negras aparecem entre aqueles que s\u00e3o expulsos do mercado de trabalho ou, aqueles que, uma vez empregados, s\u00e3o explorados, sub-remunerados, com frequentes abusos e viola\u00e7\u00f5es de direitos. De acordo com o<a href=\"https:\/\/repositorio.cepal.org\/server\/api\/core\/bitstreams\/1a94f5e8-aed0-44ed-bcc7-8802eb56f87c\/content\"> Centro Demogr\u00e1fico da Am\u00e9rica Latina e do Caribe<\/a> (CELADE), na Am\u00e9rica Latina, a popula\u00e7\u00e3o afrodescendente \u00e9 estimada em 153,7 milh\u00f5es de pessoas, o que representa 23,7% de sua popula\u00e7\u00e3o total&#8221;.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro deste grupo, as mulheres negras <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-exclusao-das-mulheres-afrodescendentes-na-america-latina\/\">&nbsp;experimentam m\u00faltiplas condi\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o, desigualdade e d\u00e9ficit de cidadania<\/a>. Apesar das conquistas, persistem a pobreza e lacunas significativas na renda que as penalizam. Nos Estados Unidos, por exemplo, \u201co patrim\u00f4nio de uma fam\u00edlia negra comum equivale a apenas 15,8% ao de uma fam\u00edlia branca comum\u201d, enquanto, no Brasil, \u201cem m\u00e9dia, o rendimento dos brancos \u00e9 mais de 70% superior \u00e0 renda de pessoas negras\u201d, revela o<a href=\"https:\/\/www.oxfam.org.br\/forum-economico-de-davos\/desigualdade-s-a\/\"> relat\u00f3rio anual da Oxfam Internacional<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Agregando o recorte de g\u00eanero, no Brasil, de acordo com o monitoramento e avalia\u00e7\u00e3o divulgados pelo<a href=\"https:\/\/www.gov.br\/igualdaderacial\/pt-br\/composicao\/secretaria-de-gestao-do-sistema-nacional-de-promocao-da-igualdade-racial\/diretoria-de-avaliacao-monitoramento-e-gestao-da-informacao\/informativos\/informe-edicao-mulheres-negras.pdf\"> Minist\u00e9rio da Igualdade Racial<\/a>, mulheres negras s\u00e3o 38,5% das pessoas constantes no Cadastro \u00danico (Cad\u00danico). Do mesmo modo, s\u00e3o as que apresentam os menores \u00edndices de escolaridade e, como desdobramento, as piores posi\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho quando comparadas \u00e0s mulheres brancas.<\/p>\n\n\n\n<p>No pa\u00eds, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-exclusao-das-mulheres-afrodescendentes-na-america-latina\/\">negros<\/a>, de forma geral, s\u00e3o presen\u00e7a majorit\u00e1ria no trabalho informal, compreendido pelo Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (<a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/boletimespecial\/2024\/mulheres2024.pdf\">DIEESE<\/a>) como \u201cempregados no setor privado sem carteira de trabalho assinada; empregado dom\u00e9stico sem carteira de trabalho assinada; empregador sem registro no Cadastro Nacional de Pessoa Jur\u00eddica (CNPJ); trabalhador por conta pr\u00f3pria sem registro no CNPJ; e trabalhador familiar auxiliar\u201d. Mas, se considerarmos, entre os trabalhadores informais, apenas os 5,8 milh\u00f5es de trabalhadores dom\u00e9sticos,<a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/infografico\/2023\/trabalhoDomestico2023.html\"> mais de 91,4% s\u00e3o mulheres, sendo 67% s\u00e3o mulheres negras<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O impacto da privatiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Neste cen\u00e1rio, o<a href=\"https:\/\/lac.oxfam.org\/publicaciones\/econonuestra\"> relat\u00f3rio da Oxfam<\/a> sobre desigualdade global, apresentado no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial em Davos, agrega que o futuro pode ser ainda mais sombrio: \u201cser\u00e3o necess\u00e1rios 230 anos para acabar com a pobreza, mas poderemos ter o nosso primeiro trilion\u00e1rio em 10 anos\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>O mundo ocidental vive uma nova era de acirramento de desigualdades e injusti\u00e7as sociais, com aumento dr\u00e1stico de divis\u00e3o social, fortalecimento do poder monopolista e empoderamento de grandes empresas, indicados pelo relat\u00f3rio que assegura: a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos \u00e9 pr\u00e1tica relevante para este processo.<\/p>\n\n\n\n<p>No primeiro plano, a privatiza\u00e7\u00e3o traria inequ\u00edvoca lucratividade de grandes empresas. E, adiante, potencializaria a exclus\u00e3o e o empobrecimento, dos quais os mais prejudicados s\u00e3o os grupos definidos por g\u00eanero, ra\u00e7a e etnia, sobretudo, mulheres racializadas. Em contexto da din\u00e2mica geopol\u00edtica, com rela\u00e7\u00f5es estabelecidas nos pa\u00edses do Norte Global, as imigrantes. Para o caso interno de pa\u00edses, como o Brasil, formados sob heran\u00e7a da escraviza\u00e7\u00e3o e coloniza\u00e7\u00e3o, as negras, sobretudo.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi por outra raz\u00e3o que a representa\u00e7\u00e3o da Oxfam Brasil, ao compor a coalis\u00e3o pela Reforma Tribut\u00e1ria 3S e participar de audi\u00eancia p\u00fablica realizada pelo Grupo de Trabalho sobre a Regulamenta\u00e7\u00e3o da Reforma Tribut\u00e1ria, decretou: \u201c<a href=\"https:\/\/www.oxfam.org.br\/noticias\/a-fome-no-brasil-tem-cara-de-mulher-preta\/\">a fome no Brasil tem cara de mulher preta<\/a>\u201d, corroborando o relat\u00f3rio divulgado, para o qual todas as desigualdades verificadas em n\u00edvel global s\u00e3o acirradas quando atravessadas por condi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, ra\u00e7a,&nbsp; origem (para os casos de imigrantes); enfim, por marcadores sociais de diferen\u00e7a que fundamentam pr\u00e1ticas de discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos e a vulnerabiliza\u00e7\u00e3o de mulheres negras<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os incentivos para que os Estados nacionais invistam em pr\u00e1ticas de privatiza\u00e7\u00f5es de empresas e servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o estrat\u00e9gicos para este modelo global de produ\u00e7\u00e3o de poder atrav\u00e9s do fortalecimento de grandes empresas privadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tais privatiza\u00e7\u00f5es podem se apresentar pela venda de empresas ou passagem de fornecimento de servi\u00e7os para o setor privado, como <em>luz <\/em>e <em>\u00e1gua<\/em>. Ou, ainda, pela precariza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os b\u00e1sicos, como <em>educa\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>sa\u00fade<\/em> e <em>seguran\u00e7a<\/em>, de forma a favorecer a concorr\u00eancia com ofertantes privados do mesmo servi\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A consequ\u00eancia direta \u00e9 a fragiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, sobretudo, quando associada \u00e0s pol\u00edticas de flexibiliza\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas; em uma associa\u00e7\u00e3o que, frequentemente, empurra grande parte da for\u00e7a laboral para a condi\u00e7\u00e3o de trabalho terceirizado e precarizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em ambos os modelos, trabalhadores pauperizados e mal remunerados s\u00e3o levados a atuarem na condi\u00e7\u00e3o de consumidores de segunda categoria em um sistema de ofertas voltado para a rentabilidade e enriquecimento de empresas. Sendo clientes e consumidores de segunda categoria, veem sua condi\u00e7\u00e3o de cidadania reduzida; e, com ela, o acesso \u00e0 direitos fundamentais, outrora garantidos, com seguran\u00e7a, pelos Estados nacionais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Se as privatiza\u00e7\u00f5es dos servi\u00e7os p\u00fablicos atingem toda a popula\u00e7\u00e3o que se encontra na base das rela\u00e7\u00f5es sociais, com escasso estoque de capitais fundamentais para sua automanuten\u00e7\u00e3o, tais como capital educacional, pol\u00edtico e econ\u00f4mico, certamente, agudizam a situa\u00e7\u00e3o daquelas que integram o conjunto mais vulner\u00e1vel desta essa base desprovida: as mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Mulheres negras, frequentemente, s\u00e3o levadas a verem o Estado e a acesso aos servi\u00e7os p\u00fablicos como uma possibilidade real de garantia de qualidade m\u00ednima de vida, para si e sua fam\u00edlia. No Brasil, de acordo com<a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101748.pdf\"> Pesquisa Nacional de Sa\u00fade<\/a>, mulheres negras foram 60,9% do p\u00fablico que utilizou servi\u00e7o do Servi\u00e7o \u00danico de Sa\u00fade (SUS). Do mesmo modo, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, servi\u00e7o de justi\u00e7a e demais servi\u00e7os p\u00fablicos s\u00e3o acessados em grande parte por pessoas e fam\u00edlias negras, frequentemente, chefiadas por mulheres negras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um cen\u00e1rio global, processos de privatiza\u00e7\u00e3o as atingem diretamente: as vulnerabilizam fazendo com que integrem o trabalho informal, sobretudo o de limpeza; as destituem de sua condi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de cidadania, com priva\u00e7\u00e3o de direitos; e, as pauperizam, dificultando o acesso \u00e0 servi\u00e7os fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por esta raz\u00e3o, tanto quanto uma pe\u00e7a na engrenagem da produ\u00e7\u00e3o de assimetrias econ\u00f4micas, as privatiza\u00e7\u00f5es devem ser entendidas como sutis e potenciais mecanismos a ocultar<a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/violencia-letal-no-brasil-as-vitimas-sao-negras-mas-o-crime-nunca-e-por-raca\/\"> a face de um racismo que se reproduz, livremente<\/a>, organizando o mundo e mantendo mulheres negras em estrutural condi\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As mulheres negras t\u00eam os menores \u00edndices de escolaridade e, como desdobramento, as piores posi\u00e7\u00f5es no mercado de trabalho quando comparadas \u00e0s mulheres brancas.<\/p>\n","protected":false},"author":170,"featured_media":42253,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16786,16716],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-42256","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-racismo-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42256","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/170"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42256"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42256\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42253"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42256"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42256"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42256"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=42256"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}