{"id":4275,"date":"2021-03-13T10:43:00","date_gmt":"2021-03-13T13:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4275"},"modified":"2021-03-13T21:14:38","modified_gmt":"2021-03-14T00:14:38","slug":"nao-houve-falsos-positivos-houve-terrorismo-de-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/nao-houve-falsos-positivos-houve-terrorismo-de-estado\/","title":{"rendered":"N\u00e3o houve falsos positivos, houve terrorismo de Estado"},"content":{"rendered":"\n<p>&#8220;Se olharmos para a esquerda, vemos os insurgentes. Se olharmos para a direita, vemos os paramilitares. Se olhamos para o c\u00e9u para rogar a Deus, vemos os helic\u00f3pteros do Governo\u201d. T\u00e3o lapid\u00e1ria quanto dram\u00e1tica, esta frase foi inclu\u00edda em um dos informes do Secret\u00e1rio Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas publicado h\u00e1 14 anos sobre os direitos humanos das pessoas deslocadas internamente. Foi no auge da popularidade de \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez em 2006, quando ele havia acabado de ser reeleito presidente da Col\u00f4mbia com uma maioria esmagadora. Sua popularidade era absoluta. Gra\u00e7as \u00e0 sua proximidade com o c\u00f3digo geopol\u00edtico americano e sua proximidade com George W. Bush, ele redefiniu um Plano Col\u00f4mbia que, com mais de 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, transformaria e modernizaria as capacidades operacionais das for\u00e7as de seguran\u00e7a colombianas como nunca antes. Durante esse per\u00edodo, 6.402 civis inocentes foram assassinados por agentes do Estado e membros das for\u00e7as de seguran\u00e7a, que foram apresentados ao p\u00fablico como falsos ex-guerrilheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Naqueles anos, o ciclo expansivo da economia colombiana, ap\u00f3s anos de crise, foi acompanhado por uma rejei\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria das guerrilhas, especialmente das FARC-EP, ap\u00f3s o retumbante <a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2012\/09\/entenda-as-negociacoes-de-paz-com-as-farc-na-colombia.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">fracasso do processo de di\u00e1logo de Cagu\u00e1n <\/a>desenvolvido sob a presid\u00eancia de Andr\u00e9s Pastrana, entre 1999 e 2002. Uribe, consciente do contexto pol\u00edtico e social particular que herdou, foi claro desde o in\u00edcio. Como ele me disse certa vez em uma entrevista em 2015, o problema da Col\u00f4mbia n\u00e3o era o conflito armado ou as guerrilhas, pois eles s\u00f3 surgem em contexto de ditaduras. A Col\u00f4mbia era uma democracia formal e, portanto, seu problema era o narcoterrorismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta transforma\u00e7\u00e3o discursiva no alvorecer da ordem geopol\u00edtica afetada pelos atentados de 11 de setembro de 2001 era, na realidade, muito mais do que um artif\u00edcio sem\u00e2ntico. Era para negar <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/es\/las-multiples-guerras-de-colombia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a dimens\u00e3o estrutural da viol\u00eancia<\/a> e, por extens\u00e3o, a corresponsabilidade do Estado na mesma. Era tamb\u00e9m para privar o conflito armado de qualquer sinal de reconhecimento e, portanto, negar seu significado pol\u00edtico. Diante desta situa\u00e7\u00e3o, como era de se esperar, n\u00e3o s\u00f3 foi anulada qualquer possibilidade formal de negocia\u00e7\u00e3o, mas a aspira\u00e7\u00e3o final do Estado teve que ser a derrota total das guerrilhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tal efeito, o fim justificava os meios. Nada melhor do que militarizar a vida cotidiana. Para evitar qualquer sugest\u00e3o de cr\u00edtica, na medida em que qualquer questionamento \u00e0 Pol\u00edtica de Seguran\u00e7a Democr\u00e1tica era suscet\u00edvel de ser considerada como colaboracionismo em favor da guerrilha. Este fervor patri\u00f3tico, cujo \u00eaxtase era a derrota militar daqueles que haviam sido concebidos como inimigos do Estado por d\u00e9cadas, conseguiu se estabelecer em quase todos os extremos da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00eddia pr\u00f3-Uribe tentou abrir seus espa\u00e7os informando de novos golpes aos guerrilheiros e evocando uma imagem quase messi\u00e2nica de Uribe. A popula\u00e7\u00e3o civil, atrav\u00e9s de diferentes programas governamentais, foi incorporada ao processo de luta contra as guerrilhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Dentro das For\u00e7as Armadas havia diferentes batalh\u00f5es e estruturas que n\u00e3o hesitaram em se unir contra o paramilitarismo, pois compartilhavam um inimigo comum: as guerrilhas FARC-EP e ELN. Inclusive, a partir da Diretiva 029 de 2005 emitida pelo ent\u00e3o Ministro da Defesa, Camilo Ospina, foram reconhecidas as remunera\u00e7\u00f5es e retribui\u00e7\u00f5es pela realiza\u00e7\u00e3o de baixas dentro dos grupos armados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, tudo isso, somado a uma coopta\u00e7\u00e3o de boa parte do poder judici\u00e1rio e a criminaliza\u00e7\u00e3o de posi\u00e7\u00f5es cr\u00edticas da cidadania, que eram t\u00e3o marginais quanto pouco protegidas, serviam de tessitura ideal para a materializa\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica de seguran\u00e7a que, longe de ser democr\u00e1tica, fez uso do terror, patrimonializou suas institui\u00e7\u00f5es e operou sob uma perigosa m\u00e1xima simplista: seguran\u00e7a primeiro, depois, se necess\u00e1rio, o resto dos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Se era justificada alian\u00e7as com grupos paramilitares, o uso de um aparelho de intelig\u00eancia como o Departamento Administrativo de Seguran\u00e7a para realizar escutas ilegais e obter provas para pressionar as vozes cr\u00edticas de jornalistas ou magistrados, qualquer coisa valia. Entretanto, pelo menos 6.402 assassinatos de civis inocentes foram cometidos. Gra\u00e7as ao trabalho da Jurisdi\u00e7\u00e3o Especial para a Paz (JEP), soubemos que eles foram perpetrados por agentes estatais e membros das for\u00e7as de seguran\u00e7a e apresentados ao p\u00fablico como falsos ex-guerrilheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>O car\u00e1ter violento, impune, deliberado, em nome da institucionalidade, sistem\u00e1tico e amparado sob uma natureza extorsiva que desnaturaliza a ess\u00eancia do Estado de direito, tem uma defini\u00e7\u00e3o t\u00e3o ilustrativa quanto indiscut\u00edvel: terrorismo de estado. A maioria dos 6.402 assassinatos que foram revelados nestes dias foram cometidos sob a presid\u00eancia de \u00c1lvaro Uribe e quase triplicaram os n\u00fameros oficiais de assassinatos extrajudiciais que at\u00e9 agora a Procuradoria Geral tinha conseguido, n\u00e3o sem dificuldade, investigar.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto requer um tratamento jur\u00eddico diferente, baseado na sistem\u00e1tica e na responsabilidade de comando, para o qual a velha ideia de &#8220;pequenas ma\u00e7\u00e3s podres&#8221; n\u00e3o \u00e9 mais v\u00e1lida, que \u00e9 como, at\u00e9 agora, tem sido a principal forma de lidar com um assunto t\u00e3o s\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 hora de seguir avan\u00e7ando no esclarecimento da responsabilidade, na rastreabilidade das decis\u00f5es e na acusa\u00e7\u00e3o dos infratores. Talvez seja devido a tudo isso que \u00c1lvaro Uribe &#8211; uma esp\u00e9cie de Fujimori colombiano &#8211; e o atual presidente, Iv\u00e1n Duque, como bons sabotadores do Acordo de Paz assinado com as FARC-EP, sempre se opuseram a respaldar qualquer institui\u00e7\u00e3o que, como a JEP ou a Comiss\u00e3o da Verdade, tenha como miss\u00e3o saber o que realmente aconteceu durante os anos mais dif\u00edceis do conflito armado na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante a presid\u00eancia de \u00c1lvaro Uribe, 6.402 civis inocentes foram assassinados por agentes do Estado e membros das for\u00e7as de seguran\u00e7a, que foram apresentados \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica como guerrilheiros. \u00c9 hora de continuar avan\u00e7ando no esclarecimento da responsabilidade, na rastreabilidade das decis\u00f5es e na acusa\u00e7\u00e3o dos infratores.<\/p>\n","protected":false},"author":125,"featured_media":4273,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16717,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-4275","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-colombia-pt-br","8":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4275","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/125"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4275"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4275\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4273"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4275"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4275"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4275"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=4275"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}