{"id":42787,"date":"2024-08-05T09:00:00","date_gmt":"2024-08-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=42787"},"modified":"2024-08-05T11:26:19","modified_gmt":"2024-08-05T14:26:19","slug":"a-inteligencia-artificial-pode-superar-as-barreiras-da-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-inteligencia-artificial-pode-superar-as-barreiras-da-desigualdade\/","title":{"rendered":"A intelig\u00eancia artificial pode superar as barreiras da desigualdade?"},"content":{"rendered":"\n<p>Em uma sociedade mais conectada do que nunca, ser\u00e1 que todos n\u00f3s seremos alfabetizados digitalmente? No Brasil, onde os pagamentos em massa s\u00e3o feitos por meio do PIX, as consultas m\u00e9dicas \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00e3o cada vez mais populares, onde o n\u00famero de trabalhadores de aplicativos, como entregadores e motoristas, s\u00f3 aumenta e onde <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/inteligencia-artificial-deveriamos-correr-o-risco-de-perder-o-controle-de-nossa-civilizacao\/\">o uso de ferramentas de Intelig\u00eancia Artificial<\/a> est\u00e1 crescendo, esse parece ser o pr\u00f3ximo destino no horizonte tecnol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, de acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Market Analysis Brasil, 36% da popula\u00e7\u00e3o nunca ouviu falar da ferramenta de Intelig\u00eancia Artificial (IA) mais popular atualmente, o ChatGPT. Al\u00e9m disso, 40% dos brasileiros n\u00e3o sentem a necessidade de ferramentas de IA em suas vidas di\u00e1rias. Entre eles, 53% t\u00eam pouca ou nenhuma escolaridade e 36% pertencem a classes sociais de baixa renda. Ainda de acordo com dados da \u00faltima Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios &#8211; PNAD Cont\u00ednua, <a href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/es\/geral\/noticia\/2023-10\/brasil-el-95-de-ninos-y-adolescentes-de-9-17-anos-usan-la-internet\">24 milh\u00f5es de brasileiros nunca acessaram a Internet<\/a>. A maioria deles se encontra em \u00e1reas rurais, nas regi\u00f5es Norte e Nordeste do pa\u00eds. Esses grupos s\u00e3o identificados como \u201canalfabetos digitais\u201d, pois n\u00e3o est\u00e3o familiarizados com as tecnologias de intelig\u00eancia artificial ou mesmo com a internet.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um cen\u00e1rio tecnol\u00f3gico em que cada vez mais se discute a cria\u00e7\u00e3o de dados sint\u00e9ticos por meio da Intelig\u00eancia Artificial Generativa e sua utiliza\u00e7\u00e3o em estudos de opini\u00e3o p\u00fablica, qual o impacto desse importante setor da popula\u00e7\u00e3o digitalmente exclu\u00edda? Seria o digital capaz de prever, simular ou mesmo influenciar os comportamentos e as opini\u00f5es daqueles que s\u00f3 participam do mundo anal\u00f3gico?<\/p>\n\n\n\n<p>Um experimento recente do estudo World Values Survey (WVS), realizado no Brasil pelos professores Henrique de Castro e Daniel Capistrano, demonstrou a dificuldade dos algoritmos de IA em criar dados sint\u00e9ticos que representem a popula\u00e7\u00e3o com menos instru\u00e7\u00e3o e pertencente a classes sociais mais baixas. Assim, vemos que \u00e9 justamente a popula\u00e7\u00e3o com menos instru\u00e7\u00e3o e renda que mais desafia os recursos preditivos da IA. Os chamados \u201canalfabetos digitais\u201d s\u00e3o, portanto, tamb\u00e9m aqueles que s\u00e3o \u201cindomados\u201d pela tecnologia, imprevis\u00edveis para os dados sint\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>As implica\u00e7\u00f5es desse fen\u00f4meno s\u00e3o profundas e, de certa forma, paradoxais. Em uma sociedade cada vez mais monitorada e em que se tenta controlar e moldar opini\u00f5es por meio de prefer\u00eancias antecipadas ou artificialmente constru\u00eddas por meio de algoritmos de IA, \u00e9 justamente entre as pessoas com menos escolaridade e renda que a influ\u00eancia dessas tecnologias encontra maior resist\u00eancia. Esses indiv\u00edduos, geralmente exclu\u00eddos das amostras de pesquisa e menos presentes nas plataformas digitais, permanecem mais \u201cinvis\u00edveis\u201d para os algoritmos e desafiam a capacidade preditiva das pesquisas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que a tecnologia avan\u00e7a e se torna mais sofisticada, aqueles que est\u00e3o \u00e0 margem desse avan\u00e7o podem se tornar verdadeiros agentes invis\u00edveis de mudan\u00e7a, influenciando decisivamente a dire\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social do pa\u00eds, especialmente em uma sociedade polarizada como a brasileira, onde 2 milh\u00f5es de votos decidiram a \u00faltima disputa presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, embora menos influenciados pela tecnologia, esses grupos n\u00e3o est\u00e3o imunes \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o. Outros meios tradicionais de influ\u00eancia, como a televis\u00e3o, l\u00edderes religiosos e l\u00edderes locais, ainda exercem influ\u00eancia significativa e podem moldar opini\u00f5es de forma eficaz, muitas vezes compensando a falta de impacto direto dos meios digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos vetores de influ\u00eancia a ser considerado hoje \u00e9 tamb\u00e9m a Internet por meio da televis\u00e3o. A televis\u00e3o \u00e9 atualmente o segundo meio de acesso dos brasileiros \u00e0 Internet (47,5% a utilizam), ultrapassando, pela primeira vez, o computador pessoal (35,5% a utilizam). Com o surgimento de servi\u00e7os de streaming, canais do YouTube e podcasts, surge a pergunta: esses conte\u00fados digitais, assistidos na televis\u00e3o, s\u00e3o os formadores de opini\u00e3o de uma sociedade com uma alfabetiza\u00e7\u00e3o digital parcial? Essa pergunta \u00e9 fundamental para entender a din\u00e2mica do consumo de informa\u00e7\u00f5es e da forma\u00e7\u00e3o de opini\u00f5es em diferentes segmentos da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio ampliar o debate sobre vigil\u00e2ncia e controle social por meio da IA. A ideia de que \u00e9 poss\u00edvel um monitoramento abrangente da sociedade pode ser ilus\u00f3ria se n\u00e3o considerarmos as limita\u00e7\u00f5es inerentes ao alcance da tecnologia. A resist\u00eancia natural dos segmentos menos conectados pode servir como um lembrete de que a diversidade e a complexidade humanas sempre encontrar\u00e3o maneiras de se manifestar, mesmo em um mundo cada vez mais digitalizado. Esse aspecto deveria ser fundamental em qualquer discuss\u00e3o sobre o futuro da tecnologia e da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa situa\u00e7\u00e3o abre espa\u00e7o para questionar o papel da tecnologia em nossa sociedade e a necessidade de pol\u00edticas inclusivas. \u00c9 essencial que as pol\u00edticas p\u00fablicas e privadas sobre IA considerem esses grupos marginalizados, n\u00e3o apenas como um desafio a ser superado, mas como uma oportunidade para uma abordagem mais equitativa e inclusiva. A inclus\u00e3o digital deve ser vista como um direito fundamental, necess\u00e1rio para a participa\u00e7\u00e3o plena na sociedade contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que a inclus\u00e3o digital se torne uma realidade integral, \u00e9 necess\u00e1rio um esfor\u00e7o concentrado que v\u00e1 al\u00e9m da mera disponibilidade de tecnologia. \u00c9 imperativo um investimento significativo em infraestrutura, educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o. As \u00e1reas rurais e as regi\u00f5es Norte e Nordeste do Brasil, que sofrem o maior d\u00e9ficit de conectividade, precisam de iniciativas espec\u00edficas que incentivem a expans\u00e3o da rede de Internet de alta velocidade. Al\u00e9m disso, a educa\u00e7\u00e3o digital deve ser integrada aos curr\u00edculos escolares desde as s\u00e9ries iniciais, garantindo que as novas gera\u00e7\u00f5es desenvolvam habilidades tecnol\u00f3gicas desde cedo. Os programas de alfabetiza\u00e7\u00e3o digital para adultos tamb\u00e9m s\u00e3o essenciais para que a popula\u00e7\u00e3o possa usar as ferramentas digitais de forma efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de promover uma sociedade mais igualit\u00e1ria e participativa, \u00e9 fundamental que esse acesso tamb\u00e9m seja cr\u00edtico e reflexivo. A educa\u00e7\u00e3o digital n\u00e3o deve se concentrar apenas em habilidades t\u00e9cnicas, mas tamb\u00e9m no desenvolvimento de uma compreens\u00e3o cr\u00edtica da tecnologia e de seus impactos sociais, \u00e9ticos e pol\u00edticos. Isso inclui ensinar como identificar e combater a desinforma\u00e7\u00e3o, compreender as implica\u00e7\u00f5es da privacidade e da seguran\u00e7a on-line e refletir sobre o papel das grandes corpora\u00e7\u00f5es de tecnologia em nossa vida cotidiana. Ao promover uma abordagem cr\u00edtica, garantimos que os cidad\u00e3os n\u00e3o sejam meros consumidores passivos de tecnologia, mas agentes ativos que podem questionar, influenciar e moldar o desenvolvimento tecnol\u00f3gico de forma consciente e \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma abordagem cr\u00edtica tamb\u00e9m envolve a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre os preconceitos inerentes \u00e0s tecnologias de intelig\u00eancia artificial e a import\u00e2ncia de uma representa\u00e7\u00e3o justa nos dados usados para treinar esses sistemas. Por exemplo, as ferramentas de intelig\u00eancia artificial que utilizam como fonte textos que consagram o preconceito racial ou a l\u00f3gica sexista reproduzir\u00e3o esses vieses como sabedoria convencional. Sem essa conscientiza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o risco de perpetuar as desigualdades existentes e criar novas formas de exclus\u00e3o. Portanto, as pol\u00edticas p\u00fablicas e as iniciativas educacionais devem incluir debates sobre a \u00e9tica na tecnologia, promovendo uma cultura de questionamento e responsabilidade. Ao capacitar as pessoas a pensar criticamente sobre a tecnologia, n\u00e3o apenas empoderamos os indiv\u00edduos, mas tamb\u00e9m fortalecemos a democracia, garantindo que a evolu\u00e7\u00e3o digital seja inclusiva, justa e reflita criticamente sobre a sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As ferramentas de intelig\u00eancia artificial que utilizam como fonte textos que consagram o preconceito racial ou a l\u00f3gica sexista reproduzir\u00e3o esses vieses como sabedoria convencional.<\/p>\n","protected":false},"author":588,"featured_media":42775,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17078,16716],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-42787","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-inteligencia-artificial-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/588"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42787"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42787\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42775"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42787"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=42787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}