{"id":42790,"date":"2024-08-07T09:00:00","date_gmt":"2024-08-07T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=42790"},"modified":"2024-08-05T11:39:24","modified_gmt":"2024-08-05T14:39:24","slug":"transicao-energetica-e-restricao-externa-para-onde-caminha-a-regiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/transicao-energetica-e-restricao-externa-para-onde-caminha-a-regiao\/","title":{"rendered":"Transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica e restri\u00e7\u00e3o externa: para onde caminha a regi\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>Vivemos tempos dif\u00edceis, conjunturas marcantes. A humanidade cruzou seis dos nove limites do planeta. O agravamento da emerg\u00eancia clim\u00e1tica provoca eventos extremos cada vez mais fortes, exigindo maiores investimentos em adapta\u00e7\u00e3o. Essa urg\u00eancia induz os governos a lan\u00e7ar novos projetos de energia renov\u00e1vel, um investimento em mitiga\u00e7\u00e3o que reduz a voracidade do risco clim\u00e1tico. Entretanto, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/em-que-pe-esta-a-transicao-energetica-na-regiao\/\">avan\u00e7ar na transi\u00e7\u00e3o para uma matriz energ\u00e9tica renov\u00e1vel<\/a> gera um impacto financeiro que nem sempre \u00e9 medido corretamente. Os riscos clim\u00e1ticos j\u00e1 impactam o setor financeiro, tanto no presente imediato (custos gerados por desastres naturais) quanto no m\u00e9dio prazo (custos associados a ativos irrecuper\u00e1veis).<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o presente n\u00e3o requer s\u00f3 grandes investimentos; tamb\u00e9m imp\u00f5e novos desafios, com repercuss\u00f5es de curto, m\u00e9dio e longo prazo. Embora isso inclua diversas quest\u00f5es, a an\u00e1lise aqui se concentra na inter-rela\u00e7\u00e3o entre mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, o modelo de desenvolvimento e a restri\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n\n\n\n<p>A restri\u00e7\u00e3o externa est\u00e1 relacionada a uma vis\u00e3o de desenvolvimento centrada na demanda, associada a uma vis\u00e3o estruturalista e p\u00f3s-keynesiana, destacando o papel das din\u00e2micas de exporta\u00e7\u00e3o e importa\u00e7\u00e3o no desenvolvimento econ\u00f4mico de longo prazo. A balan\u00e7a comercial apresenta ciclos recorrentes, porque os produtos exportados da regi\u00e3o apresentam baixos n\u00edveis de elasticidade, enquanto as importa\u00e7\u00f5es s\u00e3o associadas a bens de alta elasticidade e aumentam ao menor sinal de recupera\u00e7\u00e3o. A falta de divisas \u00e9 uma constante em nossa hist\u00f3ria como regi\u00e3o, o que levou muitos governos a estimular o processo de industrializa\u00e7\u00e3o por substitui\u00e7\u00e3o em meados do s\u00e9culo passado. J\u00e1 nos anos 1970, a ideia era evitar a escassez atrav\u00e9s da abertura financeira, fomentar a entrada de capital estrangeiro, experi\u00eancias que sempre terminaram em crise e novo endividamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando a din\u00e2mica das exporta\u00e7\u00f5es, nos \u00faltimos anos, os recursos naturais dominaram as vendas externas da regi\u00e3o. Enquanto a regi\u00e3o da \u00c1sia-Pac\u00edfico avan\u00e7ava para uma maior diversifica\u00e7\u00e3o produtiva, os projetos extrativistas acabam induzindo uma economia de enclave na Am\u00e9rica do Sul. Extra\u00edmos l\u00edtio e cobre, compramos baterias e telefones celulares, mas tamb\u00e9m vendemos petr\u00f3leo e importamos pain\u00e9is solares. Tal padr\u00e3o de com\u00e9rcio acaba impulsionando um determinado padr\u00e3o de investimento, fundos que chegam em busca das vantagens competitivas oferecidas pela regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltemos nossa aten\u00e7\u00e3o aos fluxos de com\u00e9rcio-investimento em energia. As vantagens associadas \u00e0 presen\u00e7a de reservas de petr\u00f3leo s\u00e3o propostas, as janelas s\u00e3o abertas e a chegada de investidores \u00e9 incentivada. N\u00e3o s\u00f3 lhes oferecem incentivos fiscais e cambiais; em nome da seguran\u00e7a jur\u00eddica, promete-se estabilidade ao setor petrol\u00edfero, o que os blinda de qualquer projeto de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, diferente do observado com outros recursos, nenhum dos pa\u00edses da regi\u00e3o consegue competir com os grandes atores do setor petrol\u00edfero. Em outras palavras, n\u00e3o temos as vantagens comparativas que pa\u00edses como a Ar\u00e1bia Saudita t\u00eam. Isso n\u00e3o deve ser ignorado, sobretudo quando v\u00e1rios \u00e2mbitos nos alertam sobre a proximidade do pico do petr\u00f3leo. Mesmo que a queda na demanda n\u00e3o seja imediata, o que pode ser abrupto \u00e9 a queda no valor dos ativos: quando o pico da demanda estiver pr\u00f3ximo, os investidores vender\u00e3o suas a\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo. Atitudes como essa aceleram a sa\u00edda de capital, o que aumenta a restri\u00e7\u00e3o externa \u2013 al\u00e9m das eventuais a\u00e7\u00f5es judiciais que o setor pode vir a mover devido \u00e0 altera\u00e7\u00e3o de sua equa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-financeira causada pelo surgimento de um ativo ocioso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado,<a href=\"https:\/\/www.bnamericas.com\/es\/reportajes\/regimen-argentino-de-inversiones-alentara-proyectos-orientados-a-la-exportacion-en-vaca-muerta\"> incentivar a entrada de investidores no setor de petr\u00f3leo<\/a> \u00e9 certamente um erro na perspectiva de longo prazo. Em termos de tecnologia, s\u00e3o as energias renov\u00e1veis que prometem as maiores inova\u00e7\u00f5es; \u00e9 o setor disruptivo. \u00c9 da\u00ed que vir\u00e3o as receitas futuras, que s\u00e3o fundamentais para garantir um processo de desenvolvimento inclusivo e sustent\u00e1vel. Inexoravelmente, a descarboniza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a em distintos cantos do mundo; se nada for feito (ou se o modelo do petr\u00f3leo persistir), mais cedo ou mais tarde isso afetar\u00e1 o esquema produtivo e a inser\u00e7\u00e3o externa da regi\u00e3o. Prosseguir com os projetos petrol\u00edferos implica instaurar um caminho errado de desenvolvimento, um bloqueio tecnol\u00f3gico que condena o pa\u00eds ao passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, alguns economistas seguem pensando na demanda agregada com incid\u00eancia conjuntural que as decis\u00f5es de hoje n\u00e3o influenciam nas a\u00e7\u00f5es de amanh\u00e3. O aprofundamento do modelo extrativista pode, no curto prazo, levar a uma sobrevaloriza\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio, a t\u00e3o falada \u201cdoen\u00e7a holandesa\u201d, com graves consequ\u00eancias na estrutura produtiva. Essa resolu\u00e7\u00e3o (tempor\u00e1ria) da restri\u00e7\u00e3o externa bloqueia o surgimento de projetos verdes, bem como o investimento em energias renov\u00e1veis; o pa\u00eds se torna um \u201cpara\u00edso da polui\u00e7\u00e3o\u201d. Portanto, qualquer pol\u00edtica que evite a supervaloriza\u00e7\u00e3o da moeda nacional \u00e9 bem-vinda, sobretudo aquelas que induzem \u00e0 mudan\u00e7a estrutural, como uma pol\u00edtica de industrializa\u00e7\u00e3o verde.<\/p>\n\n\n\n<p>As inova\u00e7\u00f5es verdes induzem processos de inova\u00e7\u00e3o aberta e promovem um trabalho em rede. De uma perspectiva macro, avan\u00e7ar com a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica implica reduzir a incerteza que caracteriza o mercado de petr\u00f3leo, fortemente afetado por tens\u00f5es geopol\u00edticas e especula\u00e7\u00e3o financeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa transforma\u00e7\u00e3o produtiva, por outro lado, vincula as urg\u00eancias do presente com as restri\u00e7\u00f5es de longo prazo. Avan\u00e7ar \u00e0 \u201cindustrializa\u00e7\u00e3o verde\u201d implica oferecer produtos com alta elasticidade, que geram renda e ajudam a resolver a restri\u00e7\u00e3o externa. A descarboniza\u00e7\u00e3o da matriz de produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 transforma a cesta de exporta\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m protege o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>A urg\u00eancia da crise clim\u00e1tica nos conecta com esse \u00faltimo cen\u00e1rio: os limites do planeta nos obrigam a mudar de modelo produtivo tanto quanto a abandonar padr\u00f5es de consumo. Certos fatores n\u00e3o podem ser substitu\u00eddos e, em tempos de emerg\u00eancia clim\u00e1tica, o conceito de sustentabilidade r\u00edgida prevalece. A economia deve reconhecer a restri\u00e7\u00e3o imposta pela natureza. Isso requer menos press\u00e3o sobre o meio ambiente, mas tamb\u00e9m a avan\u00e7ar para processos produtivos com tecnologias, produtos e servi\u00e7os que reduzam o risco ambiental e minimizem o uso de recursos. \u00c9 imperativo avan\u00e7ar para uma \u201ceconomia verde\u201d, para novos padr\u00f5es de consumo e produ\u00e7\u00e3o. Essa mudan\u00e7a implica um novo enfoque de desenvolvimento, uma mudan\u00e7a estrutural verde, inclusiva e sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Um coment\u00e1rio final sobre a inter-rela\u00e7\u00e3o acima. Nossas sociedades devem enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em um contexto de grande incerteza: o momento em que ocorrer\u00e1 um colapso e romper\u00e1 o equil\u00edbrio do ecossistema em quest\u00e3o (derretimento das calotas polares, desertifica\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, perda do permafrost) \u00e9 desconhecido. Para evitar essa ocorr\u00eancia, \u00e9 preciso agir, investir em projetos de mitiga\u00e7\u00e3o. O fato de isso n\u00e3o acontecer, de os projetos de petr\u00f3leo continuarem a ser incentivados, \u00e9 explicado tanto pelas ambi\u00e7\u00f5es desenfreadas da classe empresarial quanto pela falta de vis\u00e3o da classe dominante. Em resumo: gan\u00e2ncia e poder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossas sociedades devem enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas em um contexto de grande incerteza: o momento em que ocorrer\u00e1 um colapso e romper\u00e1 o equil\u00edbrio do ecossistema em quest\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":213,"featured_media":42770,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,17028],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-42790","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-transicion-energetica-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42790","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/213"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=42790"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/42790\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/42770"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=42790"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=42790"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=42790"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=42790"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}