{"id":43221,"date":"2024-08-25T07:00:00","date_gmt":"2024-08-25T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=43221"},"modified":"2024-08-20T17:14:38","modified_gmt":"2024-08-20T20:14:38","slug":"a-america-latina-na-politica-internacional-nao-alinhamento-ativo-ou-oportunismo-periferico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-america-latina-na-politica-internacional-nao-alinhamento-ativo-ou-oportunismo-periferico\/","title":{"rendered":"A Am\u00e9rica Latina na pol\u00edtica internacional: n\u00e3o alinhamento ativo ou oportunismo perif\u00e9rico?"},"content":{"rendered":"\n<p>A guerra na Ucr\u00e2nia teve um grande impacto na pol\u00edtica internacional, e a rea\u00e7\u00e3o dos governos latino-americanos a esse conflito revelou posi\u00e7\u00f5es diferenciadas. Alguns apoiaram abertamente a invas\u00e3o russa, outros foram muito claros em suas cr\u00edticas e condenaram a agress\u00e3o russa, conforme demonstrado por seus votos na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas e na OEA. Al\u00e9m disso, alguns governos fizeram ziguezagues em seus votos e\/ou se ofereceram como mediadores no conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a maioria dos governos latino-americanos tenha condenado a agress\u00e3o russa nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, esses mesmos governos <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-america-latina-64506590\">rejeitaram o fornecimento de armas<\/a> e a imposi\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es e, em alguns casos, at\u00e9 aumentaram o com\u00e9rcio com a R\u00fassia. O que pode parecer um comportamento amb\u00edguo ou at\u00e9 mesmo contradit\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 caprichoso nem acidental; na verdade, representa uma abordagem racional para navegar nas \u00e1guas turbulentas de um mundo multipolar sem comprometer os interesses nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O conceito de n\u00e3o alinhamento ativo se tornou bastante popular nos debates sobre o posicionamento da Am\u00e9rica Latina na pol\u00edtica internacional e no conflito da Ucr\u00e2nia. Mas surge a quest\u00e3o de saber se esse conceito \u00e9 realmente o mais adequado para capturar as pol\u00edticas dos governos latino-americanos e quais vantagens ele oferece em compara\u00e7\u00e3o com outros conceitos. Pol\u00edticos e acad\u00eamicos da \u00cdndia, por exemplo, preferem o conceito de multialinhamento como uma ferramenta para maximizar os interesses nacionais e preservar alguma autonomia estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de falar de n\u00e3o alinhamento ativo, talvez seja mais correto referir-se ao conceito de \u201coportunismo perif\u00e9rico\u201d. Esse termo n\u00e3o tem a inten\u00e7\u00e3o de ser depreciativo, mas sim de descrever como os governos reagem a uma estrutura de oportunidades e riscos em constante mudan\u00e7a. A transi\u00e7\u00e3o para um sistema internacional multipolar ampliou o espa\u00e7o de manobra para os governos da periferia que, ao mesmo tempo, est\u00e3o cientes das realidades do poder. De acordo com o \u201crealismo perif\u00e9rico\u201d desenvolvido por Carlos Escud\u00e9, esses governos reconhecem que h\u00e1 desigualdades estruturais na pol\u00edtica internacional e que, portanto, as grandes pot\u00eancias n\u00e3o devem ser provocadas desnecessariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o posicionamento de um governo perif\u00e9rico em conflitos internacionais por si s\u00f3 n\u00e3o altere o equil\u00edbrio global, assim como o ac\u00famulo de posi\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, ele pode acarretar custos e benef\u00edcios. Portanto, a maioria dos governos segue uma estrat\u00e9gia de minimizar os riscos, mantendo um perfil discreto e protegendo-se das press\u00f5es e da influ\u00eancia exercidas pelas grandes pot\u00eancias. Tal estrat\u00e9gia n\u00e3o exclui a possibilidade de obter ganhos de curto prazo com a concorr\u00eancia das grandes pot\u00eancias e a tenta\u00e7\u00e3o de tomar partido em conflitos internacionais, desde que surja a oportunidade e os benef\u00edcios superem os poss\u00edveis custos. Na literatura de rela\u00e7\u00f5es internacionais, essa estrat\u00e9gia \u00e9 chamada de \u201chedging\u201d. Entretanto, h\u00e1 motivos para se desviar dessa estrat\u00e9gia, especialmente se ela implicar custos muito mais altos do que o alinhamento com uma grande pot\u00eancia, ou se o alinhamento prometer mais benef\u00edcios.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma hierarquia na periferia. As op\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas s\u00e3o diferentes para pot\u00eancias emergentes ou <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-aprofundamento-das-relacoes-entre-brasil-e-china\/\">pot\u00eancias regionais<\/a> (como o Brasil na Am\u00e9rica Latina) que s\u00e3o cortejadas pelas grandes pot\u00eancias e cujo posicionamento tem maior influ\u00eancia na pol\u00edtica internacional. As pot\u00eancias emergentes, como a \u00cdndia ou o Brasil, podem promover uma estrat\u00e9gia mais proativa e preferir um alinhamento m\u00faltiplo. Para as pot\u00eancias emergentes ou regionais, o conflito ucraniano oferece uma oportunidade de aumentar ou consolidar seu status no sistema internacional. Enquanto uma estrat\u00e9gia de \u201chedging\u201d visa ficar fora do conflito e passar despercebida, o alinhamento m\u00faltiplo \u00e9 proativo e pode visar \u00e0 inclus\u00e3o em poss\u00edveis resolu\u00e7\u00f5es do conflito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel argumentar que os conceitos acima capturam e caracterizam melhor as varia\u00e7\u00f5es e diferen\u00e7as nas rea\u00e7\u00f5es dos governos latino-americanos ao conflito da Ucr\u00e2nia do que o conceito de n\u00e3o alinhamento ativo. Esse conceito foi introduzido por Carlos Fortin, Jorge Heine e Carlos Ominami, tr\u00eas conhecidos intelectuais chilenos com carreiras na pol\u00edtica, no meio acad\u00eamico e no servi\u00e7o diplom\u00e1tico, no contexto das crescentes tens\u00f5es entre a China e os Estados Unidos. Posteriormente, os autores trabalharam para disseminar e popularizar o conceito e aplic\u00e1-lo \u00e0s crises atuais, como o conflito na Ucr\u00e2nia ou o conflito entre Israel e o Hamas na Faixa de Gaza.<\/p>\n\n\n\n<p>As considera\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas subjacentes ao conceito s\u00e3o muito simples, mas sobrecarregadas de simbolismo: no conflito entre os EUA e a China, os governos latino-americanos n\u00e3o devem tomar partido, mas devem ser guiados exclusivamente por seus interesses nacionais e tirar proveito da competi\u00e7\u00e3o entre as duas superpot\u00eancias. Para seus defensores, o n\u00e3o alinhamento n\u00e3o implica abster-se de expressar uma opini\u00e3o e \u00e9 perfeitamente compat\u00edvel com a tomada de uma posi\u00e7\u00e3o (cr\u00edtica ou de apoio) em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s decis\u00f5es tomadas por qualquer uma das grandes pot\u00eancias. \u00c9 por isso que eles o chamam de n\u00e3o alinhamento \u201cativo\u201d. O posicionamento \u00e9 baseado em convic\u00e7\u00f5es e \u00e9 determinado principalmente pelos interesses nacionais. Essa linha de racioc\u00ednio n\u00e3o \u00e9 muito convincente. Decidir de caso a caso e de quest\u00e3o a quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um n\u00e3o alinhamento ativo, mas sim um n\u00e3o alinhamento seletivo ou um alinhamento m\u00faltiplo, como definem os pol\u00edticos da \u00cdndia. Essa descri\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grandiloquente quanto&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para os autores do n\u00e3o-alinhamento ativo, os governos latino-americanos devem articular uma posi\u00e7\u00e3o comum diante dos desafios globais. Mas tal postura n\u00e3o leva em conta as diferentes posi\u00e7\u00f5es internacionais, os interesses divergentes de pol\u00edtica externa e as diferentes depend\u00eancias dos pa\u00edses latino-americanos. Al\u00e9m disso, implicaria em um alinhamento permanente das pol\u00edticas externas dos governos latino-americanos e, portanto, contradiria uma pol\u00edtica de n\u00e3o-alinhamento ativo da perspectiva de cada Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 desconcertante \u00e9 a falta de integra\u00e7\u00e3o desse conceito em debates te\u00f3rico-conceituais mais amplos no campo das rela\u00e7\u00f5es internacionais, bem como o conhecimento insuficiente e o envolvimento com debates em outras regi\u00f5es do Sul Global (especialmente na \u00c1sia) e com os conceitos anal\u00edticos desenvolvidos l\u00e1. Isso atesta um certo paroquialismo latino-americano por parte dos defensores dessa abordagem. Outra defici\u00eancia do conceito de n\u00e3o-alinhamento ativo \u00e9 que ele combina uma abordagem anal\u00edtica com uma postura normativa para exigir e justificar um reposicionamento da Am\u00e9rica Latina na pol\u00edtica internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, os porta-vozes do conceito de n\u00e3o alinhamento ativo revelam uma vis\u00e3o de mundo altamente simplificada e distorcida que n\u00e3o diferencia suficientemente os interesses e a orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa dos pa\u00edses do Sul Global. Eles argumentam que a principal divis\u00e3o no mundo de hoje \u00e9 entre o Norte Global e o Sul Global, entre o Ocidente e o resto. Essa vis\u00e3o de mundo contrasta com outra, segundo a qual a ordem internacional \u00e9 caracterizada por duas clivagens, uma entre o Ocidente Global e o Oriente Global, e a outra entre ambos e o Sul Global, que \u00e9 visto como bastante heterog\u00eaneo e diverso em termos de recursos, configura\u00e7\u00f5es de poder, regimes pol\u00edticos, modelos econ\u00f4micos e sociais, valores e culturas. Para entender como os governos latino-americanos navegam nesse mundo multipolar cada vez mais complexo e conflituoso, s\u00e3o necess\u00e1rios conceitos que fa\u00e7am jus a essa complexidade e levem em conta tanto a multipolaridade quanto as desigualdades estruturais persistentes na pol\u00edtica internacional entre o centro (ou centros) e a periferia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No conflito entre os EUA e a China, os governos latino-americanos n\u00e3o devem tomar partido, mas devem ser guiados exclusivamente por seus interesses nacionais e tirar proveito da competi\u00e7\u00e3o entre as duas superpot\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"author":463,"featured_media":43191,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16980,16762],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-43221","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-guerra-de-ucrania-es-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43221","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/463"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43221"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43221\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43221"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43221"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43221"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=43221"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}