{"id":43227,"date":"2024-08-22T09:00:00","date_gmt":"2024-08-22T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=43227"},"modified":"2024-08-20T17:26:44","modified_gmt":"2024-08-20T20:26:44","slug":"invisiveis-e-indispensaveis-as-trabalhadoras-de-colarinho-rosa-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/invisiveis-e-indispensaveis-as-trabalhadoras-de-colarinho-rosa-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Invis\u00edveis e indispens\u00e1veis: as trabalhadoras de colarinho rosa na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>Luisa trabalha como caixa em uma mercearia. Rosa \u00e9 professora em uma escola de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. Maribel \u00e9 enfermeira h\u00e1 dez anos. Lucia \u00e9 governanta em um hotel 5 estrelas. Andrea \u00e9 recepcionista em uma grande empresa, juntamente com Martha, a secret\u00e1ria. Kathy \u00e9 manicure, e sua filha Alicia cozinha em um restaurante da regi\u00e3o. Clara cuida de crian\u00e7as em um ber\u00e7\u00e1rio. Antonia vende flores no supermercado pela manh\u00e3 e, \u00e0 tarde, costura roupas em uma lavanderia. Maricarmen trabalha como rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para o governo, enquanto se prepara como administradora para procurar emprego em um banco.<\/p>\n\n\n\n<p>O que todas elas t\u00eam em comum? Sim, todas s\u00e3o mulheres. E sim, esses s\u00e3o cargos que n\u00e3o s\u00e3o incomuns para uma mulher ocupar. S\u00e3o cargos em setores econ\u00f4micos associados a servi\u00e7os sociais, varejo, turismo, cosmetologia; geralmente s\u00e3o hiperfeminizados, mal pagos e pouco reconhecidos como fun\u00e7\u00f5es essenciais. Esses s\u00e3o os chamados <em>trabalhos de colarinho rosa<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>De escrit\u00f3rios corporativos a pequenas empresas, essas mulheres sustentam setores importantes com seu trabalho e, ainda assim, enfrentam uma realidade oculta: a discrimina\u00e7\u00e3o que limita suas oportunidades e perpetua desigualdades profundamente enraizadas. Neste artigo, analiso o que \u00e9, como funciona e quais s\u00e3o as causas e consequ\u00eancias desse fen\u00f4meno do colarinho rosa na Am\u00e9rica Latina e sugiro a\u00e7\u00f5es para mitigar seus efeitos negativos na economia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O colarinho rosa discrimina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1930, tornou-se popular nos Estados Unidos classificar os trabalhadores pela cor da gola de seu uniforme no local de trabalho. Naquela \u00e9poca, foi feita uma distin\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores de colarinho azul (aqueles que realizavam trabalhos f\u00edsicos e de manufatura) e os trabalhadores de colarinho branco (aqueles que trabalhavam em cargos mais administrativos e profissionais, considerados mais produtivos, qualificados e com melhores sal\u00e1rios).<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, surgiram outras classifica\u00e7\u00f5es, como empregos de colarinho dourado (altamente qualificados como empres\u00e1rios e cientistas), de colarinho verde (especialistas na produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os para o meio ambiente), de colarinho preto (envolvidos no setor de minera\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, mas tamb\u00e9m em trabalho ilegal) e de colarinho rosa (envolvidos no setor de servi\u00e7os).<\/p>\n\n\n\n<p>Um emprego de colarinho rosa \u00e9 aquele que, tradicionalmente, \u00e9 reservado apenas para mulheres. O termo foi cunhado no final da d\u00e9cada de 1970 pela escritora e cr\u00edtica social Louise Kapp Howe para designar as mulheres que trabalhavam como enfermeiras, secret\u00e1rias e professoras prim\u00e1rias. Esses cargos n\u00e3o eram trabalhos administrativos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o eram trabalhos manuais.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles tamb\u00e9m s\u00e3o chamados de \u201cgueto rosa\u201d&nbsp; (<em>pink ghetto<\/em>) como forma de descrever os limites para o avan\u00e7o das mulheres em suas carreiras, j\u00e1 que esses empregos geralmente s\u00e3o becos sem sa\u00edda. Trata-se de um mecanismo de exclus\u00e3o institucionalizado, uma esp\u00e9cie de segrega\u00e7\u00e3o ocupacional, que impede a ascens\u00e3o a cargos de poder real nas empresas e coloca as mulheres em empregos associados ao fato de serem mulheres. \u00c9 um fen\u00f4meno em que as trabalhadoras entram no mercado de trabalho de forma diferenciada, tendendo a se concentrar em diferentes setores ou ocupa\u00e7\u00f5es com base em seu sexo e n\u00e3o em suas capacidades.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Disparidades laborais por sexo na AL&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Aun cuando los esfuerzos feministas por vencer los estereotipos y roles asignados al sexo han dejado frutos positivos y abierto caminos a muchas mujeres para desempe\u00f1arse en espacios hist\u00f3ricamente hipermasculinizados, se sigue reproduciendo el modelo que las relega a funciones de servicio y apoyo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora os esfor\u00e7os feministas para superar os estere\u00f3tipos e os pap\u00e9is de g\u00eanero tenham dado frutos positivos e aberto caminhos para muitas mulheres trabalharem em espa\u00e7os historicamente hipermasculinizados, o modelo que relega as mulheres a fun\u00e7\u00f5es de servi\u00e7o e apoio continua a ser reproduzido.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com um relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), 70% das mulheres t\u00eam empregos em setores de colarinho rosa, como servi\u00e7os de alimenta\u00e7\u00e3o e cosm\u00e9ticos. Especificamente, as economias latino-americanas apresentam disparidades significativas em seus mercados de trabalho, o que impede seu crescimento produtivo ao limitar o potencial produtivo das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/webapps.ilo.org\/wcmsp5\/groups\/public\/---americas\/---ro-lima\/documents\/publication\/wcms_920315.pdf\">Um estudo da OIT<\/a>, que abrange pa\u00edses como Brasil, Col\u00f4mbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Guatemala, M\u00e9xico e Uruguai, revela que a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/a-este-ritmo-nos-tomara-casi-300-anos-lograr-la-igualdad-de-genero\/\">segrega\u00e7\u00e3o ocupacional de g\u00eanero<\/a>, marcada pela preval\u00eancia de ocupa\u00e7\u00f5es predominantemente femininas ou masculinas, persiste em n\u00edveis significativos na Am\u00e9rica Latina. A segrega\u00e7\u00e3o de g\u00eanero tem efeitos negativos ao perpetuar estere\u00f3tipos, influenciar decis\u00f5es educacionais e afetar o desenvolvimento do capital humano. Al\u00e9m disso, contribui para aumentar as diferen\u00e7as salariais entre os g\u00eaneros e a incompatibilidade entre habilidades e empregos, o que impacta a efici\u00eancia dos mercados de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>As <a href=\"https:\/\/foroalc2030.cepal.org\/2024\/sites\/foro2024\/files\/presentations\/indicadoresgenero_dag.pdf\">mulheres est\u00e3o sobrerrepresentadas nos servi\u00e7os n\u00e3o comerciais na Am\u00e9rica Latina<\/a>, que incluem os setores de cuidados e turismo, com baixos sal\u00e1rios e altas taxas de informalidade. Por outro lado, nos setores de minera\u00e7\u00e3o e energia, apenas 2 em cada 10 empregados s\u00e3o mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres na Am\u00e9rica Latina t\u00eam empregos de qualidade inferior \u00e0 dos homens, com uma diferen\u00e7a de 16 pontos no <a href=\"https:\/\/www.iadb.org\/es\/noticias\/en-america-latina-y-el-caribe-hay-empleo-pero-es-urgente-aumentar-su-calidad\">\u00cdndice de Melhores Empregos do Banco Interamericano de Desenvolvimento<\/a> (BID): \u201cDe 2010 a 2022, o \u00cdndice de Melhores Empregos para mulheres cresceu a uma taxa de 0,8% ao ano. A esse ritmo, seriam necess\u00e1rios mais de 47 anos para que o \u00edndice das mulheres atingisse o n\u00edvel de qualidade e quantidade de emprego que os homens t\u00eam\u201d, afirma o BID. Essa situa\u00e7\u00e3o leva a uma diminui\u00e7\u00e3o significativa do potencial produtivo das mulheres na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Eliminar o g\u00eanero nas ocupa\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, v\u00e1rios pa\u00edses elaboraram e implementaram pol\u00edticas para promover a igualdade de g\u00eanero no mercado de trabalho e melhorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho das mulheres em setores tradicionalmente femininos. Essas pol\u00edticas incluem leis de igualdade salarial, o estabelecimento de cotas de g\u00eanero, medidas de concilia\u00e7\u00e3o entre trabalho e fam\u00edlia, bem como programas de capacita\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e programas de treinamento para mulheres em carreiras cient\u00edficas e de inform\u00e1tica. Eles tamb\u00e9m oferecem servi\u00e7os de aconselhamento, certifica\u00e7\u00e3o de compet\u00eancias e a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es igualit\u00e1rias em termos de informa\u00e7\u00e3o e contrata\u00e7\u00f5es mais justas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada disso funcionar\u00e1 se os preconceitos que sustentam a ideia da cor rosa como identificador das voca\u00e7\u00f5es e da dedica\u00e7\u00e3o das mulheres continuarem definindo a cultura laboral, pois envolvem cren\u00e7as baseadas em g\u00eanero que s\u00e3o arbitr\u00e1rias e injustas. Qualquer coisa que reforce estere\u00f3tipos baseados em preconceitos \u00e9 prejudicial \u00e0 economia e \u00e0 sociedade como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p>Os setores de assist\u00eancia, sa\u00fade ou educa\u00e7\u00e3o s\u00e3o essenciais para a sociedade, mas em nossos pa\u00edses o emprego nesses setores \u00e9 desvalorizado e suas fun\u00e7\u00f5es oferecem poucas oportunidades de avan\u00e7o na carreira. O caminho a seguir, portanto, \u00e9 mais conscientiza\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o para desmantelar os preconceitos que fazem com que pare\u00e7a \u201cnatural\u201d que uma mulher se envolva nesse tipo de trabalho de suporte e para que mais homens se envolvam nessas tarefas. Mas tamb\u00e9m para revaloriz\u00e1-las, pois s\u00e3o fun\u00e7\u00f5es que agregam valor econ\u00f4mico e, portanto, suas atividades e perfis ocupacionais podem e devem ser mais bem considerados e remunerados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eles tamb\u00e9m s\u00e3o chamados de \u201cgueto rosa\u201d como forma de descrever os limites para o avan\u00e7o das mulheres em suas carreiras, j\u00e1 que esses empregos geralmente s\u00e3o becos sem sa\u00edda.<\/p>\n","protected":false},"author":626,"featured_media":43208,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16716,16782],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-43227","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desigualdad-es-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43227","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/626"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43227"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43227\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43208"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43227"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43227"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43227"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=43227"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}