{"id":4333,"date":"2021-03-16T05:43:31","date_gmt":"2021-03-16T08:43:31","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4333"},"modified":"2021-03-17T12:39:11","modified_gmt":"2021-03-17T15:39:11","slug":"um-novo-giro-a-esquerda-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/um-novo-giro-a-esquerda-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Novo giro \u00e0 esquerda na Am\u00e9rica Latina?"},"content":{"rendered":"\n<p>Para responder \u00e0 pergunta que encabe\u00e7a este artigo, \u00e9 preciso focar nos resultados eleitorais dos \u00faltimos anos. O centro-esquerda e a esquerda conquistaram os seus rivais de direita em v\u00e1rios pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, em maio de 2018, Carlos Alvarado, de centro-esquerda, ganhou, numa elei\u00e7\u00e3o acirrada, a presid\u00eancia da Costa Rica. Em julho do mesmo ano, Manuel L\u00f3pez Obrador chegou ao poder no M\u00e9xico. Em 2019, o centro-esquerda ganhou a presid\u00eancia do Panam\u00e1 com Laurentino Cortizo. Em outubro de 2019, Alberto Fern\u00e1ndez p\u00f4s fim ao governo de Mauricio Macri e \u00e0 sua tentativa de ser reeleito na Argentina. Mais recentemente, em outubro de 2020, Luis Arce do MAS venceu claramente as elei\u00e7\u00f5es presidenciais na Bol\u00edvia e, em fevereiro de 2021, o candidato apoiado por Rafael Correa no Equador, Andr\u00e9s Arauz, venceu o primeiro turno no Equador.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto no M\u00e9xico L\u00f3pez Obrador p\u00f4s fim a um longo per\u00edodo de presid\u00eancias que podem ser colocadas no espectro centro-direita, nos casos da Argentina, Bol\u00edvia e Equador as for\u00e7as de esquerda que venceram n\u00e3o eram novidade para os cidad\u00e3os. Estes processos eleitorais parecem indicar que estes n\u00e3o s\u00e3o bons tempos para a direita na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, \u00e9 conveniente qualificar esta tese uma vez que, neste mesmo per\u00edodo -de 2018 a 2020- houve tamb\u00e9m importantes triunfos de candidatos de centro-direita e da direita, como os que ocorreram ao longo de 2018 nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais do Paraguai, Col\u00f4mbia e Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, em 2019, a vit\u00f3ria de Luis Lacalle Pou p\u00f4s fim a 15 anos de governos de esquerda no Uruguai. Em 2020, Luis Abinader, candidato de um novo partido dominicano (PRM) que ainda \u00e9 dif\u00edcil de localizar ideologicamente, mas com fortes liga\u00e7\u00f5es ao mundo empresarial da ilha, terminou o per\u00edodo de tr\u00eas quinqu\u00eanios de governos do PLD.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cen\u00e1rios eleitorais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, se olharmos globalmente para a regi\u00e3o e, enquanto se aguarda o que acontece nos pr\u00f3ximos meses em que se realizar\u00e3o diferentes elei\u00e7\u00f5es presidenciais (Peru, Nicar\u00e1gua, Chile, Honduras e o segundo turno no Equador), n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer conclusivamente que a &#8220;mar\u00e9 rosa&#8221; &#8211; que caiu na primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo &#8211; est\u00e1 de volta.<\/p>\n\n\n\n<p>As elei\u00e7\u00f5es previstas para este ano ser\u00e3o realizadas novamente &#8211; como em muitos dos exemplos anteriores &#8211; num clima de crise econ\u00f4mica e social aguda, agravada pelos efeitos da pandemia. Neste sentido, vale a pena reformular a quest\u00e3o e tentar revelar se este cen\u00e1rio \u00e9 mais favor\u00e1vel para a esquerda ou para a direita.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazer este exerc\u00edcio em termos transversais \u00e9 arriscado, devido \u00e0 heterogeneidade e pluralidade de for\u00e7as pol\u00edticas \u00e0 esquerda e \u00e0 direita em cada pa\u00eds. Embora os pa\u00edses possam partilhar um ciclo e um contexto em termos econ\u00f4micos, as diferen\u00e7as s\u00e3o marcadas e cada caso tem a sua particularidade inevit\u00e1vel. Por esta raz\u00e3o, os par\u00e1grafos seguintes s\u00e3o uma reflex\u00e3o sobre tend\u00eancias e sequ\u00eancias pol\u00edticas e n\u00e3o uma an\u00e1lise exaustiva que deve necessariamente concentrar-se em cada pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O giro \u00e0 esquerda anterior<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Entre as v\u00e1rias causas do giro \u00e0 esquerda na primeira d\u00e9cada dos anos 2000, foram mencionados os efeitos causados pelos ajustamentos estruturais enquadrados pelo neoliberalismo dos anos anteriores, que levaram a um aumento da pobreza, da desigualdade e do descontentamento social.<\/p>\n\n\n\n<p>Os presidentes de esquerda desse per\u00edodo, mas tamb\u00e9m os de direita, uma vez que estes \u00faltimos continuaram governando em diferentes pa\u00edses, foram favorecidos em termos econ\u00f4micos pelo aumento do pre\u00e7o das mat\u00e9rias-primas no mercado internacional. O rendimento gerado foi fundamental &#8211; em muitos casos &#8211; para levar a cabo pol\u00edticas redistributivas que reduziram a pobreza e a desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica come\u00e7ou a deteriorar-se a partir de 2012, causando uma desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica na regi\u00e3o. Na arena pol\u00edtica, este ciclo econ\u00f4mico foi acompanhado pela sa\u00edda do poder de alguns dos expoentes do giro \u00e0 esquerda, quer atrav\u00e9s de derrotas eleitorais ou atrav\u00e9s de ju\u00edzos pol\u00edticos question\u00e1veis como o que ocorreu no Paraguai em 2012 ou no Brasil em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado destes acontecimentos, o debate come\u00e7ou a centrar-se no esgotamento dos governos de esquerda e na mudan\u00e7a para uma lideran\u00e7a de direita. Embora, mais do que um giro, o que ocorreu foi um voto de castigo para com aqueles que tinham estado no poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Crise e pandemia: o papel do Estado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2016\/03\/23\/opinion\/the-death-of-the-latin-american-left.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O fim do <em>boom<\/em> das mat\u00e9rias primas tem tido efeitos vis\u00edveis na economia latino-americana<\/a> desde 2014 e efeitos dram\u00e1ticos em termos sociais. A percentagem da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis cresceu, aumentando o n\u00famero de pessoas sem prote\u00e7\u00e3o social na regi\u00e3o mais desigual do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, no campo dos valores pol\u00edticos, a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o escapou da tend\u00eancia global de descontentamento com a pol\u00edtica e de questionamento das elites pol\u00edticas atormentadas por numerosos casos de corrup\u00e7\u00e3o. O desconforto com a democracia representativa e as pol\u00edticas desenvolvidas, bem como o aumento da desafei\u00e7\u00e3o, refletiram-se numa escalada de protestos que levou com que 2019 fosse um ano de enormes explos\u00f5es sociais em diferentes pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o cen\u00e1rio em que surge a COVID-19, que vem agravar a desigualdade social ao mesmo tempo que torna vis\u00edvel o impacto negativo que teve as pol\u00edticas de cortes na despesa p\u00fablica no setor da sa\u00fade e privatiza\u00e7\u00f5es defendidas pelo neoliberalismo e, em termos gerais, pelos atores pol\u00edticos mais pr\u00f3ximos da direita.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste sentido, se os cidad\u00e3os associarem os n\u00edveis de desempenho do Estado no tratamento da pandemia com os ajustamentos estruturais do neoliberalismo, a direita pode decair nas prefer\u00eancias dos cidad\u00e3os.<\/p>\n\n\n\n<p>Do mesmo modo, a probabilidade de que os protestos sociais se reproduzam quando a incid\u00eancia do v\u00edrus cair \u00e9 elevada, porque os problemas n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o desapareceram, como foram agravados durante este ano muito duro. Assim, os governos ter\u00e3o de se adaptar \u00e0s exig\u00eancias dos diferentes setores sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a direita seria uma estrat\u00e9gia perigosa manter a defesa da austeridade e do status quo ante \u00e0s exig\u00eancias e necessidades sociais em tempos t\u00e3o dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>Vale a pena lembrar que a emerg\u00eancia de novos atores e <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-dilema-nicaraguense-para-a-esquerda-latino-americana\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">lideran\u00e7as que questionam a democracia liberal, e na Am\u00e9rica Latina h\u00e1 exemplos tanto \u00e0 direita como \u00e0 esquerda<\/a>, est\u00e1 relacionada -entre outras causas- com a incapacidade de canalizar as exig\u00eancias dos setores que n\u00e3o encontram representa\u00e7\u00e3o nos partidos tradicionais. Neste sentido, os indicadores de descontentamento dos cidad\u00e3os com a democracia representativa na regi\u00e3o s\u00e3o extremamente alarmantes e devem preocupar tanto a esquerda como a direita, se quiserem sobreviver \u00e0 investida do populismo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar de forma conclusiva que a &#8220;mar\u00e9 rosa&#8221; &#8211; que caiu na primeira d\u00e9cada do presente s\u00e9culo &#8211; est\u00e1 de volta. 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