{"id":43334,"date":"2024-08-27T09:00:00","date_gmt":"2024-08-27T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=43334"},"modified":"2024-08-26T14:04:49","modified_gmt":"2024-08-26T17:04:49","slug":"o-calcanhar-de-aquiles-da-renovada-politica-externa-de-lula-as-crises-na-venezuela-e-na-nicaragua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-calcanhar-de-aquiles-da-renovada-politica-externa-de-lula-as-crises-na-venezuela-e-na-nicaragua\/","title":{"rendered":"O calcanhar de Aquiles da renovada pol\u00edtica externa de Lula: as crises na Venezuela e na Nicar\u00e1gua"},"content":{"rendered":"\n<p>Durante os dois primeiros mandatos de Lula, sua pol\u00edtica externa, elaborada por seu ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e principal estrategista, Celso Amorim, foi constantemente descrita como \u201cativa e audaciosa\u201d. Por um lado, era \u201cativa\u201d por causa de suas ambi\u00e7\u00f5es globais, demonstradas pelo envolvimento do Brasil n\u00e3o apenas em assuntos regionais, mas tamb\u00e9m em assuntos internacionais, \u00e0s vezes at\u00e9 em quest\u00f5es n\u00e3o diretamente relacionadas ao pa\u00eds, como a tentativa de intermediar um acordo com o Ir\u00e3 sobre seu programa nuclear. Por outro lado, era foi \u201caudaciosa\u201d na busca de objetivos importantes, como a reforma do Conselho de Seguran\u00e7a das Na\u00e7\u00f5es Unidas, e no tratamento das pot\u00eancias mundiais e dos pa\u00edses em desenvolvimento com igual respeito diplom\u00e1tico. Parafraseando o cantor e compositor brasileiro Chico Buarque, o Brasil n\u00e3o deveria falar mais alto com a Bol\u00edvia nem mais baixo com os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Um aspecto fundamental dessa abordagem, com o objetivo de evitar interven\u00e7\u00f5es externas que pudessem comprometer o objetivo de longa data de autonomia do Brasil, era posicionar o Brasil como l\u00edder regional. Isso implicava esfor\u00e7os cont\u00ednuos para construir pontes entre o eixo Norte-Sul e mediar conflitos regionais por meio da diplomacia. \u00c9 por isso que o Brasil buscou um di\u00e1logo estrat\u00e9gico com as administra\u00e7\u00f5es estadunidenses de George W. Bush (2001-2008) e Barack Obama (2009-2016), ao mesmo tempo em que manteve rela\u00e7\u00f5es estreitas com a Venezuela de Hugo Ch\u00e1vez (1999-2013).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Panorama pol\u00edtico atual<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, no panorama pol\u00edtico atual, atuar como um l\u00edder regional capaz de abordar as quest\u00f5es latino-americanas tem se tornado cada vez mais dif\u00edcil. As crises na Nicar\u00e1gua e na Venezuela exemplificam essas dificuldades. Apesar das rela\u00e7\u00f5es inicialmente positivas com ambos os pa\u00edses durante os dois primeiros mandatos de Lula, em grande parte devido aos v\u00ednculos hist\u00f3ricos entre seu Partido dos Trabalhadores e o Partido Socialista Unificado da Venezuela, bem como a Frente Sandinista de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, as rela\u00e7\u00f5es do Brasil com essas na\u00e7\u00f5es se deterioraram devido \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o de seus regimes autorit\u00e1rios de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Nicar\u00e1gua, <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/es\/minuto-a-minuto\/20240809-crisis-diplom%C3%A1tica-entre-el-brasil-de-lula-y-la-nicaragua-de-ortega\">o Brasil tentou reabrir os canais diplom\u00e1ticos<\/a> no in\u00edcio do terceiro mandato de Lula, e o novo governo estava disposto a fazer concess\u00f5es para adotar uma \u201cpostura construtiva\u201d, como disse o atual ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, Mauro Vieira. No ano passado, em um esfor\u00e7o para evitar um conflito direto com o governo do presidente Ortega, o Brasil permaneceu em sil\u00eancio sobre as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos na Nicar\u00e1gua em uma reuni\u00e3o do Conselho de Direitos Humanos da ONU.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao mesmo tempo, o Brasil se ofereceu para receber mais de 300 nicaraguenses expulsos por motivos pol\u00edticos, mantendo seu papel de intermedi\u00e1rio. Mais recentemente, durante uma visita ao Vaticano, Lula respondeu positivamente ao pedido do Papa Francisco para mediar o conflito entre o governo Ortega e a Igreja Cat\u00f3lica, especialmente com rela\u00e7\u00e3o ao Bispo Rolando Jos\u00e9 \u00c1lvarez. No entanto, o crescente isolacionismo da Nicar\u00e1gua ficou evidente quando Lula revelou que Ortega n\u00e3o havia respondido aos seus chamados.<\/p>\n\n\n\n<p>A abordagem moderada de Lula em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Nicar\u00e1gua sofreu um rev\u00e9s significativo quando Man\u00e1gua expulsou o embaixador brasileiro Breno da Souza Costa depois que o Brasil, seguindo instru\u00e7\u00f5es de seu Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, recusou um convite para participar do 45\u00ba anivers\u00e1rio da Revolu\u00e7\u00e3o Sandinista. Em repres\u00e1lia, o Brasil expulsou a embaixadora nicaraguense Fulvia Patricia Castro Matu, o que estremeceu ainda mais as rela\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>A situa\u00e7\u00e3o na Venezuela \u00e9 ainda mais complexa devido ao seu tamanho, import\u00e2ncia regional, crise humanit\u00e1ria em andamento e escrut\u00ednio internacional. Em um esfor\u00e7o para restaurar os la\u00e7os diplom\u00e1ticos que haviam sido tensionados durante as administra\u00e7\u00f5es de Michel Temer (2016-2018) e Jair Bolsonaro (2019-2022), Lula convidou o presidente Nicol\u00e1s Maduro para vir a Bras\u00edlia para a C\u00fapula Sul-Americana de 2023 e realizou uma reuni\u00e3o bilateral com ele antes. No entanto, as tens\u00f5es aumentaram poucas semanas antes das elei\u00e7\u00f5es gerais na Venezuela. Em uma tentativa de se posicionar como um mediador confi\u00e1vel, Lula expressou preocupa\u00e7\u00e3o com as declara\u00e7\u00f5es de Maduro sobre um poss\u00edvel \u201cbanho de sangue\u201d se a oposi\u00e7\u00e3o vencesse as elei\u00e7\u00f5es, afirmando: \u201cFiquei assustado com a declara\u00e7\u00e3o de Maduro de que, se ele perder as elei\u00e7\u00f5es, haver\u00e1 um banho de sangue. Quem perde as elei\u00e7\u00f5es sofre um banho de sangue. Maduro precisa aprender que, quando voc\u00ea ganha, voc\u00ea fica; quando voc\u00ea perde, voc\u00ea sai.\u201d Maduro respondeu com desd\u00e9m, sugerindo que Lula \u201ccomesse uma ma\u00e7\u00e3\u201d se estivesse com medo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a pol\u00eamica vit\u00f3ria de Maduro, declarada pelo Conselho Eleitoral da Venezuela sem divulgar os resultados da vota\u00e7\u00e3o, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/venezuela-e-as-relacoes-diplomaticas-rompidas\/\">a posi\u00e7\u00e3o do Brasil como mediador<\/a> tornou-se ainda mais prec\u00e1ria. O regime de Maduro violou abertamente os compromissos assumidos nos Acordos de Barbados de realizar elei\u00e7\u00f5es livres e justas e intensificou a repress\u00e3o \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o, testando seriamente o papel do Brasil como mediador imparcial. V\u00e1rios governos latino-americanos, incluindo Argentina, Chile, Costa Rica, Peru, Panam\u00e1, Rep\u00fablica Dominicana e Uruguai, recusaram-se a reconhecer a vit\u00f3ria de Maduro, o que levou \u00e0 expuls\u00e3o de seus embaixadores da Venezuela.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil, que continua se esfor\u00e7ando para atuar como l\u00edder regional e mediador do conflito, absteve-se de reconhecer a vit\u00f3ria de Maduro ou as reivindica\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o. Em vez disso, juntamente com o M\u00e9xico e a Col\u00f4mbia, o Brasil pediu uma resolu\u00e7\u00e3o institucional da crise para evitar mais viol\u00eancia. Em uma declara\u00e7\u00e3o conjunta, os tr\u00eas governos exigiram total transpar\u00eancia do Conselho Eleitoral da Venezuela em rela\u00e7\u00e3o aos resultados das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 o momento, a postura moderada do Brasil produziu resultados mistos. Do lado positivo, tanto o governo quanto a oposi\u00e7\u00e3o continuam a ver o Brasil como um parceiro em potencial para o di\u00e1logo. A l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, Mar\u00eda Corina Machado, que foi impedida de concorrer \u00e0s elei\u00e7\u00f5es, expressou gratid\u00e3o a Lula por sua \u201cposi\u00e7\u00e3o firme\u201d sobre o processo eleitoral. Al\u00e9m disso, o Brasil chegou a um acordo com o governo venezuelano para representar os interesses peruanos e argentinos no pa\u00eds e proteger suas embaixadas. A Casa Branca tamb\u00e9m reconheceu o papel mediador do Brasil, e o presidente Biden expressou seu apoio em uma liga\u00e7\u00e3o com Lula.<\/p>\n\n\n\n<p>Do lado negativo, o Brasil, o M\u00e9xico e a Col\u00f4mbia n\u00e3o conseguiram convencer a Venezuela a divulgar totalmente o processo de vota\u00e7\u00e3o ou a interromper a repress\u00e3o aos protestos em andamento. Isso coloca a posi\u00e7\u00e3o do Brasil em risco \u00e0 medida que a viol\u00eancia se intensifica, n\u00e3o surge nenhuma solu\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica para o impasse eleitoral e o regime de Maduro demonstra pouca disposi\u00e7\u00e3o para conter sua radicaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, se o atual governo brasileiro deseja continuar com uma pol\u00edtica externa grandiosa, \u00e9 fundamental encontrar solu\u00e7\u00f5es para as crises na Venezuela e na Nicar\u00e1gua. Esses dois pa\u00edses representam talvez os aspectos mais desafiadores da pol\u00edtica externa de Lula &#8211; seu calcanhar de Aquiles. A supera\u00e7\u00e3o bem-sucedida desses desafios diplom\u00e1ticos solidificaria a posi\u00e7\u00e3o do Brasil como l\u00edder regional e global.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se o atual governo brasileiro deseja continuar com uma pol\u00edtica externa grandiosa, \u00e9 fundamental encontrar solu\u00e7\u00f5es para as crises na Venezuela e na Nicar\u00e1gua.<\/p>\n","protected":false},"author":653,"featured_media":43320,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16753,16728],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-43334","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-exterior-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43334","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/653"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43334"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43334\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43320"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43334"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43334"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43334"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=43334"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}