{"id":43552,"date":"2024-09-05T09:00:00","date_gmt":"2024-09-05T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=43552"},"modified":"2024-09-04T16:01:39","modified_gmt":"2024-09-04T19:01:39","slug":"as-chaves-da-sustentacao-de-maduro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-chaves-da-sustentacao-de-maduro\/","title":{"rendered":"As chaves da sustenta\u00e7\u00e3o de Maduro"},"content":{"rendered":"\n<p>Como \u00e9 poss\u00edvel hoje em dia cometer uma fraude eleitoral grosseira como a perpetrada na Venezuela? Como \u00e9 poss\u00edvel que um regime pol\u00edtico consiga se manter de p\u00e9 ap\u00f3s cometer tal crime? Perguntas como essas circularam o mundo nas \u00faltimas semanas. E n\u00e3o parecem ter uma resposta plaus\u00edvel. Entretanto, por mais inacredit\u00e1vel que a situa\u00e7\u00e3o pare\u00e7a, as chaves que explicam a <a href=\"https:\/\/www.expansion.com\/economia\/financial-times\/2024\/08\/20\/66c47b1a468aeb8d718b4599.html\">sustentabilidade do regime<\/a> ileg\u00edtimo de Maduro podem ser investigadas. Examinemos algumas delas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Possuir uma base social de apoio (minguante)<\/strong>. O regime de Maduro n\u00e3o est\u00e1 socialmente isolado. H\u00e1 um velho mito de que as ditaduras carecem de base social de apoio, algo que a realidade prova continuamente err\u00f4nea. De Franco a Pinochet, para mencionar ditadores conhecidos, n\u00e3o careciam de uma base social consider\u00e1vel, sobretudo no in\u00edcio de seu regime.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do regime chavista, percebe-se dois componentes tradicionais: o apoio social de um cidad\u00e3o comum que, em algum momento, sentiu simpatia pela fachada bolivariana do governo e o apoio de minorias militantes, cada vez mais enquadradas em destacamentos de choque. \u00c9 evidente que, atualmente, a popula\u00e7\u00e3o simpatizante reduziu drasticamente, o que aumentou a relev\u00e2ncia dos n\u00facleos militantes ativistas. As \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es indicam que o regime de Maduro ainda tem um quarto do eleitorado, o que significa que teria perdido as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es de forma definitiva, mas ainda pode encher uma pra\u00e7a ocasional com grupos militantes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apoio de poderes constitu\u00eddos minimamente coesos.<\/strong> Maduro conta com uma arquitetura institucional moldada por seu antecessor, com pessoal operante e aderente, que comp\u00f5e as hierarquias dos poderes executivo, legislativo e judici\u00e1rio, cujos comandantes est\u00e3o dispostos a apoiar corrup\u00e7\u00f5es pol\u00edticas de graus variados, tanto para se beneficiar delas quanto para evitar a incerteza que a queda do regime acarretaria. Tamb\u00e9m conta com o apoio da atual c\u00fapula militar, embora a atitude dos jovens oficiais que implementaram o Plano Venezuela, que evitou a destrui\u00e7\u00e3o das atas nas se\u00e7\u00f5es eleitorais, indique que nem todos os militares est\u00e3o convencidos de apostar em um futuro chavista.<\/p>\n\n\n\n<p>Um poderoso fator aglutinante, n\u00e3o diretamente ideol\u00f3gico, tem rela\u00e7\u00e3o com o temor dos comandantes pol\u00edticos e militares de que, inevitavelmente, enfrentariam repres\u00e1lias ap\u00f3s a queda de Maduro. E os esfor\u00e7os da oposi\u00e7\u00e3o que o governo aceite a derrota eleitoral em troca de garantias de que n\u00e3o haver\u00e1 retalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis para os membros do regime ou seguem percebendo um alto risco nesse sentido.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Manuten\u00e7\u00e3o de um certo grau de ades\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/strong> A ideologia que aglutina os diferentes componentes do regime tem duas refer\u00eancias. Uma espec\u00edfica procedente da revolu\u00e7\u00e3o bolivariana de seu fundador, Chaves, que retoma o impulso soberanista e anti-imperialista do passado para associ\u00e1-lo a uma perspectiva socialista de mudan\u00e7a social. E outro componente, mais difuso, que \u00e9 uma heran\u00e7a direta da cultura pol\u00edtica autorit\u00e1ria que permeou a maioria da esquerda latino-americana no s\u00e9culo XX. A ess\u00eancia dessa cultura pol\u00edtica consiste em desprezar o valor da democracia, considerada como uma <em>nota bene<\/em> da revolu\u00e7\u00e3o social. Essa cultura pol\u00edtica ainda se mant\u00e9m em importantes partidos da esquerda comunista ou radical da regi\u00e3o. A Frente Sandinista nicaraguense e o MAS boliviano s\u00e3o bons exemplos. Mas a refer\u00eancia final ainda \u00e9 o Partido Comunista cubano. Portanto, \u00e9 um ato de coer\u00eancia o fato de esses partidos terem aceitado automaticamente a fraude eleitoral na Venezuela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Posse de importantes apoios internacionais (autorit\u00e1rios)<\/strong>. Alega-se que o regime de Maduro est\u00e1 isolado internacionalmente. Mas essa \u00e9 uma verdade parcial. O atual governo venezuelano <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-cumplices-da-fraude-eleitoral-na-venezuela\/\">tem o apoio de regimes autorit\u00e1rios da regi\u00e3o<\/a> e, fora dela, tem a alian\u00e7a de pot\u00eancias mundiais como China e R\u00fassia, al\u00e9m de alguns governos autorit\u00e1rios de segundo escal\u00e3o, como Ir\u00e3 e Coreia do Norte. Na conjuntura internacional atual, o regime de Maduro \u00e9 um claro locat\u00e1rio do que tem-se chamado de retorno da Guerra Fria. Isso n\u00e3o significa que ele n\u00e3o sofra os efeitos do isolamento em boa parte do mundo ocidental, mas \u00e9 aconselh\u00e1vel n\u00e3o extrapolar essa circunst\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, uma revis\u00e3o das chaves de sustenta\u00e7\u00e3o do regime de Maduro mostra que sua queda n\u00e3o \u00e9 exatamente f\u00e1cil. Diante dessa evid\u00eancia, v\u00e1rias abordagens s\u00e3o propostas para alcan\u00e7\u00e1-la. Um segmento da oposi\u00e7\u00e3o, sobretudo no ex\u00edlio, favorece solu\u00e7\u00f5es violentas (atentados, invas\u00f5es, etc.). Mas h\u00e1 um amplo consenso de que isso justificaria ainda mais a repress\u00e3o violenta do regime, aglutinando ainda mais os poderes constitu\u00eddos. Outro setor, na dire\u00e7\u00e3o oposta, argumenta que deve-se continuar aceitando a realidade chavista na espera da eventual cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para uma negocia\u00e7\u00e3o. Talvez o expoente mais conhecido dessa orienta\u00e7\u00e3o seja o l\u00edder do PSOE, Rodr\u00edguez Zapatero, mas tamb\u00e9m h\u00e1 apoiadores na esquerda brasileira e colombiana que pressionam seus governos a suavizar as cr\u00edticas ao governo de Maduro.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, h\u00e1 um amplo setor democr\u00e1tico e progressista que \u00e9 partid\u00e1rio de manter uma firme demanda pela transpar\u00eancia do resultado eleitoral, enquanto busca uma estrat\u00e9gia robusta para debilitar o regime de Maduro. Essa abordagem exige um esfor\u00e7o consider\u00e1vel da oposi\u00e7\u00e3o interna, que enfrenta todos os recursos que Maduro tem para se sustentar e, ao mesmo tempo, eleva a press\u00e3o internacional. Tamb\u00e9m requer um processo de acordos espec\u00edficos articulados e um uso adequado do tempo. E, sobretudo, ler com precis\u00e3o os sinais que surgem do nada. Deve-se lembrar que, em muitos casos, o prov\u00e9rbio eslavo de que o peixe sempre apodrece pela cabe\u00e7a se mostrou verdadeiro. N\u00e3o \u00e9 exagero pensar que muitos quadros do regime percebem cada vez mais que n\u00e3o haver\u00e1 um futuro chavista para a Venezuela.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maduro conta com uma arquitetura institucional moldada por seu antecessor, com pessoal operante e aderente, que comp\u00f5e as hierarquias dos poderes executivo, legislativo e judici\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":300,"featured_media":43543,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16721,16708],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-43552","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-venezuela-pt-br","8":"category-politica-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43552","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/300"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=43552"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/43552\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/43543"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=43552"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=43552"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=43552"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=43552"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}