{"id":4467,"date":"2021-03-24T05:13:00","date_gmt":"2021-03-24T08:13:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4467"},"modified":"2021-03-25T07:10:04","modified_gmt":"2021-03-25T10:10:04","slug":"viver-na-era-da-pos-verdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/viver-na-era-da-pos-verdade\/","title":{"rendered":"Viver na era da p\u00f3s-verdade"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Co-autor Marco Schneider<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A vida humana \u00e9 baseada na credibilidade dos mensageiros que disseminam mensagens e cujo sentido depende do conhecimento pr\u00e9vio daqueles que as recebem. N\u00e3o \u00e9 que n\u00f3s viv\u00edamos na era da verdade e agora vivemos na era da mentira. A diferen\u00e7a \u00e9 que hoje vivemos em uma sociedade na qual o poder de divulgar mensagens e declar\u00e1-las verdadeiras foi massificado gra\u00e7as \u00e0 intera\u00e7\u00e3o oferecida pela rede digital.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta rede, que em seu in\u00edcio foi considerada um desafio para os poderes centralizados, criou novos oligop\u00f3lios acima dos centros pol\u00edticos e legais, ditando suas pr\u00f3prias regras do jogo. A anti-ci\u00eancia, o negacionismo clim\u00e1tico, as teorias da conspira\u00e7\u00e3o ou o discurso do \u00f3dio nada mais s\u00e3o do que <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/teorias-da-conspiracao-na-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">velhos fen\u00f4menos atualizados em novas modalidades<\/a> e cuja dimens\u00e3o nos levou a situa\u00e7\u00f5es perturbadoras, tanto em regimes democr\u00e1ticos como autocr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Quem envia uma mensagem pode faz\u00ea-la acreditando honestamente que o que diz \u00e9 verdade. Mas o emissor pode n\u00e3o s\u00f3 comunicar algo falso, mas tamb\u00e9m tentar prejudicar o receptor, ou seja, mentir. O lugar do qual a veracidade \u00e9 julgada \u00e9 um lugar de poder e quem ocupa esse lugar pode cair na tenta\u00e7\u00e3o de abusar desse poder para enganar o outro, excluindo-o de sua capacidade cr\u00edtica e at\u00e9 mesmo a sua elimina\u00e7\u00e3o. Neste contexto, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2018\/11\/fenomeno-da-pos-verdade-transforma-os-consensos-ja-estabelecidos.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">viver na era da p\u00f3s-verdade<\/a> significa ter consci\u00eancia da precariedade da comunica\u00e7\u00e3o humana, tanto com respeito ao erro como \u00e0 mentira.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta nova era nos levou a viver no meio de alucina\u00e7\u00f5es coletivas, hedonistas e niilistas, mudas ou ignorantes, mediadas por muito investimento em tecnologia da informa\u00e7\u00e3o, comunica\u00e7\u00e3o, vigil\u00e2ncia, minera\u00e7\u00e3o de dados e publicidade em massa. Informa\u00e7\u00e3o personalizada, centrada no consumo de bens e experi\u00eancias ou servi\u00e7os tarifados, para projetos de vida de classe m\u00e9dia que s\u00e3o banais e invi\u00e1veis para a maioria dos sonhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, a p\u00f3s-verdade atualiza como uma farsa as trag\u00e9dias da antiguidade, quando pensar num mundo melhor era imposs\u00edvel em termos racionais a curto ou m\u00e9dio prazo. Hoje, esta trag\u00e9dia se repete como uma farsa, porque as condi\u00e7\u00f5es materiais e culturais para a melhoria social, modesta e universal est\u00e3o em vigor h\u00e1 pelo menos um s\u00e9culo. Mas a l\u00f3gica sist\u00eamica do capitalismo torna o poss\u00edvel imposs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos superar a p\u00f3s-verdade sem nos desconectarmos?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A p\u00f3s-verdade n\u00e3o \u00e9 um problema de indiv\u00edduos isolados, \u00e9 um problema cultural, coletivo, social. E a desconex\u00e3o, em uma escala social, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel nem desej\u00e1vel. A quest\u00e3o \u00e9 ent\u00e3o o que fazer com uma determinada cultura de conex\u00e3o. Trata-se de combater legalmente o controle oligop\u00f3lico e corporativo de fluxos, tempos, conte\u00fados e acessos, enquanto se promove a alfabetiza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica e informacional em larga escala e, em particular, a compet\u00eancia cr\u00edtica em informa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A raiz do problema n\u00e3o est\u00e1 na conex\u00e3o, concebida em termos gerais e abstratos, mas na desconex\u00e3o conectada, ou na conex\u00e3o alienada, expropriada pela comunica\u00e7\u00e3o corporativa, ideologia neoliberal e espionagem. A p\u00f3s-verdade \u00e9 ent\u00e3o, nesta chave anal\u00edtica, o nome sint\u00e9tico para as atuais modalidades de aliena\u00e7\u00e3o &#8211; entendida como a expropria\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m por outro &#8211; globalmente interconectada pela desinforma\u00e7\u00e3o digital em rede.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta aliena\u00e7\u00e3o ocorre quando se expropriam a terra, o corpo, o pensamento e as ferramentas do indiv\u00edduo e se privatiza o comum. Hoje em dia, al\u00e9m de tudo, os dados e tra\u00e7os digitais s\u00e3o alienados na escala do <em>big data<\/em>. Estes dados, obtidos ap\u00f3s cuidadosa vigil\u00e2ncia, guiadas por fins econ\u00f4micos mercantis e objetivos pol\u00edticos de um tenor predominantemente neoliberal, retornam semioticamente de forma personalizada, mas em escala maci\u00e7a na forma de publicidade, propaganda e not\u00edcias falsas, forjando em grande parte a p\u00f3s-verdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Particularidades na Am\u00e9rica Latina?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, a manifesta\u00e7\u00e3o mais preocupante da p\u00f3s-verdade tem sido o &#8220;<em>lawfare<\/em>&#8221; que opera a servi\u00e7o dos interesses do grande capital. Assim se conhece a a\u00e7\u00e3o programada e conjunta de setores do poder judici\u00e1rio e legislativo, juntamente com certos meios de comunica\u00e7\u00e3o corporativos, para mobilizar a opini\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s da satura\u00e7\u00e3o de not\u00edcias ideologicamente tendenciosas contra as lideran\u00e7as populares que v\u00e3o contra seus interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>A derrubada de governos populares de centro-esquerda sem interven\u00e7\u00e3o militar tem sido um fen\u00f4meno repetido na Am\u00e9rica Latina na \u00faltima d\u00e9cada, como no caso de Honduras, Equador, Bol\u00edvia ou Brasil. No caso do Brasil, em particular, foi forjada uma imagem p\u00fablica violenta contra o PT (Partido dos Trabalhadores) que n\u00e3o corresponde aos fatos.<\/p>\n\n\n\n<p>O apelido distorcido &#8211; &#8220;kit gay&#8221; &#8211; dado a um panfleto preparado pelo \u00faltimo governo do PT com o objetivo de prevenir a homofobia entre os adultos, procurou estabelecer a ideia de que ele incentivava a homossexualidade infantil. Mas ainda mais grave foi a campanha para associar a imagem do PT com a do partido da corrup\u00e7\u00e3o, quando os dados mostraram que os crimes tinham sido muito menores do que os dos partidos acusadores.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta distor\u00e7\u00e3o na percep\u00e7\u00e3o p\u00fablica dos fatos serviu de terreno f\u00e9rtil para o golpe contra Dilma Rousseff e a pris\u00e3o de Lula. A raz\u00e3o legal dada para o impeachment de Rousseff, as supostas &#8220;pedaladas fiscais&#8221;, al\u00e9m de insuficientemente comprovadas, tinham sido uma pr\u00e1tica cont\u00e1bil comum de todos os governos p\u00f3s-ditadura no Brasil. E a proibi\u00e7\u00e3o da candidatura de Lula para as elei\u00e7\u00f5es de 2018, que acaba de ser oficialmente desmascarada pelo Supremo Tribunal Federal do Brasil, permitiu o triunfo do atual governante do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, o Dicion\u00e1rio Oxford entronizou o neologismo p\u00f3s-verdade como palavra do ano, pois foi o termo usado para tentar descrever fen\u00f4menos inesperados como Brexit ou a vit\u00f3ria de Donald Trump. O fato de que as cren\u00e7as influenciam a opini\u00e3o p\u00fablica mais do que evid\u00eancias ou argumentos racionais \u00e9 um fato antigo. A novidade da p\u00f3s-verdade, como novo modo multifacetado de engano, \u00e9 a media\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica de fluxos de desinforma\u00e7\u00e3o cuja velocidade, ubiquidade, capilaridade e custo relativamente baixo, desde a captura e extra\u00e7\u00e3o de dados at\u00e9 a circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tem precedentes.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Marco Schneider \u00e9 pesquisador do Instituto Brasileiro de Informa\u00e7\u00e3o em Ci\u00eancia e Tecnologia (IBICT) e Professor de Comunica\u00e7\u00e3o da Univ. Federal Fluminense (UFF). D. em Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o pela Univ. de S\u00e3o Paulo.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Marco Schneider<br \/>\nA vida humana \u00e9 baseada na credibilidade dos mensageiros. 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