{"id":447,"date":"2018-11-01T10:20:50","date_gmt":"2018-11-01T13:20:50","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=447"},"modified":"2022-12-23T21:08:45","modified_gmt":"2022-12-24T00:08:45","slug":"brasil-luzes-e-sombras-de-uma-disputa-anunciada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/brasil-luzes-e-sombras-de-uma-disputa-anunciada\/","title":{"rendered":"Brasil, luzes e sombras de uma disputa anunciada"},"content":{"rendered":"\n<p>No segundo turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial no Brasil, do total de 147 milh\u00f5es de eleitores, 31 milh\u00f5es se abstiveram e 11 milh\u00f5es votaram em branco ou anularam seus votos. Ou seja, 42 milh\u00f5es de brasileiros n\u00e3o votaram nem em Fernando Haddad (PT) e nem em Jair Bolsonaro (PSL). <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/eleicoes-depois-de-uma-punhalada\/\">Bolsonaro<\/a> recebeu 57 milh\u00f5es de votos, e Haddad obteve 47 milh\u00f5es de ades\u00f5es, apenas cinco milh\u00f5es a mais que a soma dos votos nulos e brancos, e das absten\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a decis\u00e3o estritamente racional de se abster, anular o voto ou votar em branco foi muito significativa. Foi uma tomada de decis\u00e3o e uma escolha concreta da parte daqueles que se negaram a participar ou escolher entre os candidatos determinados pela conjuntura hist\u00f3rica e eleitoral do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, \u00e9 question\u00e1vel a tese de que o Brasil se encontra\ndividido em duas partes perfeitamente identific\u00e1veis, e que est\u00e1 submetido a\numa f\u00e9rrea polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica: o petismo ou lulismo, de um lado, e o\nantipetismo do outro. O que existe \u00e9 um comportamento pol\u00edtico e eleitoral\nfraturado em tr\u00eas partes.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se pode, a priori, conhecer as motiva\u00e7\u00f5es dos eleitores\nque n\u00e3o votaram em qualquer dos dois candidatos; mas \u00e9 poss\u00edvel partir da ideia\nde que o fervor coletivo constru\u00eddo em torno dessa polariza\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi\ncombust\u00edvel suficiente para motiv\u00e1-los. <\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, no segundo turno, a op\u00e7\u00e3o por um dos dois\ncandidatos poderia representar uma simples ades\u00e3o contingente, que n\u00e3o\nnecessariamente faria do eleitor parte das fileiras do petismo ou do\nantipetismo. Presume-se, por exemplo, que nos votos em Haddad, havia, mais que\nades\u00e3o ao lulismo ou petismo, uma rejei\u00e7\u00e3o a Bolsonaro e ao que este\nrepresenta. <\/p>\n\n\n\n<p>Tende-se a crer, portanto, que a polariza\u00e7\u00e3o, em termos\nquantitativos, \u00e9 ainda menor na hora de contabilizar os cidad\u00e3os brasileiros\nque embarcaram na defesa do ciclo pol\u00edtico lulista ou petista.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma maneira, entre os 57 milh\u00f5es de ades\u00f5es a Bolsonaro, n\u00e3o se pode afirmar que todos os eleitores eram necessariamente fi\u00e9is ao discurso, aos ditos e ao pensamento do candidato. Bolsonaro canalizou, fundamentalmente, o intenso antipetismo presente em certas camadas da popula\u00e7\u00e3o do Brasil. O que significa que, considerando o exposto, n\u00e3o se pode afirmar que o pa\u00eds deu uma virada r\u00e1pida e fatal para a direita. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio relativizar a vis\u00e3o de que os brasileiros despertaram de um dia para outro como politicamente de direita&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio relativizar a vis\u00e3o de que os brasileiros despertaram\nde um dia para outro como politicamente de direita, conservadores ou fascistas.\nDiante desse panorama, algumas reflex\u00f5es podem oferecer esclarecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, n\u00e3o existe uma polariza\u00e7\u00e3o clara entre\npetismo\/lulismo e antipetismo. Esse \u00e9 um cen\u00e1rio criado artificialmente por\nnarrativas pol\u00edticas que h\u00e1 anos desenham um pa\u00eds dividido em duas partes (por\nexemplo, n\u00f3s contra eles, elite contra o povo), e representa uma fase populista\ndo discurso pol\u00edtico. E quem n\u00e3o se &#8220;enquadrasse&#8221; seria definido como\nfascista ou de direita. Da mesma forma, para o outro polo, quem n\u00e3o votasse\n&#8220;na direita&#8221; correria o risco de ser definido como petista, de\nesquerda. Portanto, a narrativa dessa polariza\u00e7\u00e3o conseguiu tamanho poder que\nela n\u00e3o apenas constr\u00f3i &#8220;o pol\u00edtico&#8221; mas tamb\u00e9m subjetividades.<\/p>\n\n\n\n<p>Em segundo lugar, o Brasil n\u00e3o \u00e9 mais conservador em seus\ncostumes, cultura e pensamento do que era uma d\u00e9cada atr\u00e1s. Se muita gente se\nsurpreendeu com a cena do presidente eleito, Jair Bolsonaro, rezando com o pastor\ne ex-senador Magno Malta, e veio a imaginar que o pa\u00eds estaria ingressando em\numa esp\u00e9cie de &#8220;governo teocr\u00e1tico&#8221;, \u00e9 porque n\u00e3o se lembra desse\nmesmo senador trocando abra\u00e7os com Lula, ou posando com a ent\u00e3o presidente\nDilma Rousseff. <\/p>\n\n\n\n<p>As <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/categorias\/188-noticias-2018\/583771-os-evangelicos-no-brasil-ocuparam-o-espaco-do-estado-entrevista-com-lamia-oualalou\">igrejas evang\u00e9licas<\/a> cumpriram papel fundamental no di\u00e1logo e contato com as regi\u00f5es mais empobrecidas, durante o ciclo lulista (2003-2015), e ajudaram o presidente em sua conquista de votos em sucessivas elei\u00e7\u00f5es, apoiando al\u00e9m disso o programa de complementa\u00e7\u00e3o de renda Bolsa Fam\u00edlia, que foi fundamental para a conten\u00e7\u00e3o da pobreza. Por isso, Bolsonaro em dado momento expressou apoio \u00e0 sua continua\u00e7\u00e3o, caso viesse a ser eleito, em uma decis\u00e3o claramente influenciada por considera\u00e7\u00f5es eleitorais.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi a &#8220;agenda da identidade&#8221;, principalmente desde\n2008, com aspectos como a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto ou do casamento gay, que\ncome\u00e7ou a erodir a rela\u00e7\u00e3o entre o governo e as igrejas, levando o lulismo e o\npetismo a perder terreno cultural, em alguns casos de maneira irrevers\u00edvel.\nIsso explica, em parte, a migra\u00e7\u00e3o de muitas igrejas desse tipo a outras\nfileiras pol\u00edticas, e seu abandono da narrativa petista de inclus\u00e3o social da\nd\u00e9cada de 2000. <\/p>\n\n\n\n<p>Assim, para al\u00e9m da import\u00e2ncia que a presen\u00e7a da\nreligiosidade tenha no discurso do presidente eleito, as igrejas j\u00e1 haviam\npenetrado no tecido social da popula\u00e7\u00e3o mais pobre, que antes engrossava o voto\npetista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, a agenda verdadeiramente conservadora da maioria dos eleitores de Bolsonaro (e duvido que algumas das pessoas que terminaram votando nele estejam plenamente convencidas quanto a ela) est\u00e1 vinculada \u00e0 flexibiliza\u00e7\u00e3o das armas de fogo, \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal (o que contraria o conhecimento acumulado sobre a inefic\u00e1cia dessas medidas) e \u00e0 percep\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas educativas em vigor no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em quarto lugar, Bolsonaro ganhou apesar de Bolsonaro,\nporque a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica terminou por escolh\u00ea-lo como antagonista do\nstatus desenhado desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da d\u00e9cada de 1980. Se bem\nn\u00e3o seja um verdadeiro outsider, o eleitorado assim o quis perceber. E sua\npresen\u00e7a p\u00fablica limitada, j\u00e1 que ele se limitou a ocupar as redes sociais e a\nse comunicar por meio de fases isoladas em plataformas digitais, terminou\njogando em seu favor.<\/p>\n\n\n\n<p>Houve momentos em que ele injetou alguma dose de radicalismo\nde ultradireita, dirigido ao seu n\u00facleo duro de seguidores virtuais, para quem\ntudo parecia um simples jogo. As frustra\u00e7\u00f5es individuais encontraram eco em\nvibra\u00e7\u00f5es coletivas de discursos inflamados pela intoler\u00e2ncia e pela falta de\nrespeito ao outro. Finalmente, no que parecia inicialmente um cap\u00edtulo da s\u00e9rie\nde fic\u00e7\u00e3o Black Mirror, as &#8220;fake news&#8221; se converteram em realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Como \u00faltima reflex\u00e3o, existe entre os brasileiros uma\nesp\u00e9cie de consenso de que a hist\u00f3ria do pa\u00eds jamais viu uma campanha eleitoral\nmais tensa, mas paradoxalmente mais t\u00edbia, do que a recente. Dez dias antes do\npleito, ningu\u00e9m mais queria falar de elei\u00e7\u00f5es ou de pol\u00edtica. O cansa\u00e7o e a\nindiferen\u00e7a haviam tomado a maioria dos cidad\u00e3os, como bem poderiam dizer os 42\nmilh\u00f5es de brasileiros que escolheram n\u00e3o apoiar qualquer dos candidatos. A\ndisputa eleitoral, anunciada \u00e0 saciedade, j\u00e1 se havia produzido como\nacontecimento. \u00c9 a precess\u00e3o dos simulacros, como dizia Jean Baudrillard.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por isso, a decis\u00e3o estritamente racional de se abster, anular o voto ou votar em branco foi muito significativa. 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