{"id":44764,"date":"2024-10-21T10:00:00","date_gmt":"2024-10-21T13:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=44764"},"modified":"2024-10-22T13:53:01","modified_gmt":"2024-10-22T16:53:01","slug":"recuperar-o-significado-de-vida-na-conservacao-da-biodiversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/recuperar-o-significado-de-vida-na-conservacao-da-biodiversidade\/","title":{"rendered":"Recuperar o significado de \u201cvida\u201d na conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 cada vez mais evidente que a \u201ccrise ambiental\u201d engloba a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas tamb\u00e9m inclui a perda e a diversidade cultural, a redu\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias pessoais e sociais com a natureza e a distribui\u00e7\u00e3o desigual da contamina\u00e7\u00e3o e da degrada\u00e7\u00e3o ambiental entre as pessoas. Pode-se at\u00e9 argumentar que foi criado um consenso internacional, refletido nos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel ou no Marco Mundial da Biodiversidade de Kunming-Montreal, de que enfrentamos uma \u201ccrise de valores\u201d que traz consigo o desafio de recuperar um sentido mais hol\u00edstico da \u201cvida\u201d que queremos conservar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A constru\u00e7\u00e3o de um novo paradigma<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A partir da d\u00e9cada de 1980, tornou-se predominante na conserva\u00e7\u00e3o o conceito de \u201cbiodiversidade\u201d, termo cunhado por bi\u00f3logos estadunidenses para expressar a \u201cdiversidade da vida\u201d. Essa ideia foi uma inova\u00e7\u00e3o na \u00e9poca, ampliando o foco da conserva\u00e7\u00e3o para al\u00e9m das esp\u00e9cies mais carism\u00e1ticas, vistosas ou grandes, e incluindo a variabilidade gen\u00e9tica, as intera\u00e7\u00f5es tr\u00f3ficas e a heterogeneidade do ecossistema, mas mantendo uma abordagem baseada em grande parte no valor intr\u00ednseco (por exemplo, a import\u00e2ncia da pr\u00f3pria natureza) e nas medi\u00e7\u00f5es biof\u00edsicas (por exemplo, n\u00famero de esp\u00e9cies, hectares de habitat). Depois, na d\u00e9cada de 1990, a economia ecol\u00f3gica surgiu junto com o conceito de \u201cservi\u00e7os ecossist\u00eamicos\u201d, destacando os valores monet\u00e1rios e utilit\u00e1rios (por exemplo, meios para um fim humano) da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, tratar a conserva\u00e7\u00e3o exclusivamente a partir de uma perspectiva ecol\u00f3gica ou econ\u00f4mica pode gerar situa\u00e7\u00f5es de injusti\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas e \u00e0s comunidades locais. Dada a desigualdade no acesso e na distribui\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es da natureza, essas popula\u00e7\u00f5es frequentemente sofreram com as pol\u00edticas ambientais como imposi\u00e7\u00f5es coloniais. Al\u00e9m disso, foi demonstrado que a exclus\u00e3o das pessoas das decis\u00f5es prejudica sua implementa\u00e7\u00e3o em instrumentos pr\u00e1ticos de gest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde os anos 2000, v\u00e1rias iniciativas promovem abordagens mais plurais. Em especial, a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Servi\u00e7os Ecossist\u00eamicos (IPBES, em ingl\u00eas, www.ipbes.net) avan\u00e7ou nesse sentido, desafiando at\u00e9 mesmo a validade dos termos que lhe d\u00e3o nome. Com contribui\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas e pol\u00edticas do Sul Global e, particularmente, da Am\u00e9rica Latina, a IPBES reconhece que a \u201cbiodiversidade\u201d, a \u201cnatureza\u201d e os \u201cservi\u00e7os ecossist\u00eamicos\u201d est\u00e3o enraizados na cultura ocidental. Por exemplo, \u201cnatureza\u201d, em seu uso comum, est\u00e1 associada ao mundo material, incluindo plantas, animais e processos, onde os seres humanos n\u00e3o intervieram.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, estudos etnoecol\u00f3gicos demonstram que, para a maioria dos 1.000 idiomas ainda falados nas Am\u00e9ricas, n\u00e3o h\u00e1 distin\u00e7\u00e3o entre o natural e o social, mas sim uma \u00fanica esfera inter-relacionada de \u201cvida\u201d, como evidenciado pelo trabalho da venezuelana Egle\u00e9 Zent em conjunto com os Jot\u00ef que habitam a Amaz\u00f4nia. Outro exemplo vem da cosmovis\u00e3o andina com seu conceito de \u201cPachamama\u201d, que se baseia em uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o meio ambiente, pois n\u00e3o est\u00e1 simplesmente usando outro nome para a \u201cnatureza\u201d, mas a entende como um indiv\u00edduo, o que implica outras responsabilidades, como acontece com uma m\u00e3e. Nesse sentido, a IPBES tamb\u00e9m ampliou o conceito de \u201cbens e servi\u00e7os\u201d dos ecossistemas, com sua forte conota\u00e7\u00e3o economicista e utilitarista, e cunhou \u201ccontribui\u00e7\u00f5es da natureza para as pessoas\u201d (CNG) para ser mais receptivo a outras vis\u00f5es de mundo, sistemas de conhecimento, culturas e idiomas a partir de uma perspectiva mais relacional e contextual.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Que aspectos ainda precisam ser incorporados?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos avan\u00e7os, ainda \u00e9 necess\u00e1rio institucionalizar a avalia\u00e7\u00e3o pluralista da natureza com seus aspectos ecol\u00f3gicos, monet\u00e1rios, socioculturais e de sa\u00fade. Historicamente, os debates sobre conserva\u00e7\u00e3o eram principalmente da esfera cient\u00edfica do Norte Global, mas sempre com implica\u00e7\u00f5es para as pol\u00edticas ambientais em n\u00edvel global. Atualmente, a conserva\u00e7\u00e3o mais inclusiva incorpora ideias com um cunho \u201cdo Sul\u201d. Por exemplo, a Estrutura Global de Kunming-Montreal n\u00e3o s\u00f3 busca conservar 30% da superf\u00edcie do planeta at\u00e9 2030 (conhecida como a meta \u201c30&#215;30\u201d), mas tamb\u00e9m fazer isso com sistemas de governan\u00e7a equitativos que reconhe\u00e7am os m\u00faltiplos valores e vis\u00f5es de mundo da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora estamos enfrentando o desafio de implementar essa mudan\u00e7a de paradigma, e \u00e9 justamente na COP16, que est\u00e1 sendo realizada em Cali, Col\u00f4mbia, de 21 de outubro a 1\u00ba de novembro, que um sistema de monitoramento para as <em>Estrat\u00e9gias Nacionais de Biodiversidade e Planos de A\u00e7\u00e3o<\/em> (<em>NBSAPs<\/em>, em ingl\u00eas) est\u00e1 sendo negociado e, portanto, dando um passo significativo para a institucionaliza\u00e7\u00e3o da conserva\u00e7\u00e3o inclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O papel da Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a Am\u00e9rica Latina tem um papel privilegiado a desempenhar, pois conta com pensadores de destaque que abriram espa\u00e7os conceituais que permitem essa diversidade de vozes, ou o que o colombiano Arturo Escobar chama de \u201cpluriversos\u201d, em oposi\u00e7\u00e3o ao pensamento ocidental que pressup\u00f5e uma \u00fanica forma de pensar &#8211; fazer o \u201cuniverso\u201d. Al\u00e9m disso, a regi\u00e3o tem nutrido processos sociopol\u00edticos de base relacionados a iniciativas ind\u00edgenas, camponesas e afrodescendentes, cujos referentes alcan\u00e7aram altos cargos governamentais em pa\u00edses como a Col\u00f4mbia e o Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, na Am\u00e9rica Latina, vemos o efeito de um \u201cPapa do Sul\u201d liderando a Igreja Cat\u00f3lica, propondo outra rela\u00e7\u00e3o com a natureza no<em> Laudato Si<\/em>, ou o primeiro acordo ambiental latino-americano chamado Acordo de Escaz\u00fa, que garante acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e justi\u00e7a em quest\u00f5es ambientais, o que representa um exemplo de relev\u00e2ncia a n\u00edvel global.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o obstante o exposto, tamb\u00e9m vale lembrar que, apesar do potencial da regi\u00e3o para co-construir esse novo paradigma, a Am\u00e9rica Latina continua sendo o continente mais perigoso para os defensores do meio ambiente, com 85% dos assassinatos em todo o mundo, de acordo com o relat\u00f3rio Global Witness 2023. Essa trag\u00e9dia mostra que, apesar de sua lideran\u00e7a em quest\u00f5es socioambientais, ainda h\u00e1 muito a ser feito para materializar a recupera\u00e7\u00e3o do sentido da \u201cvida\u201d em todos os territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, h\u00e1 muitos aliados e encontramos formas complementares de vida em regi\u00f5es t\u00e3o diversas quanto o Jap\u00e3o, onde o conceito de <em>satoyama<\/em> se refere a paisagens culturais e ecol\u00f3gicas integradas, na \u00c1frica subsaariana, com o <em>ubuntu<\/em> que liga o indiv\u00edduo aos outros e ao entorno f\u00edsico, ou na Nova Zel\u00e2ndia, onde foi desenvolvida uma defini\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica de bem-estar nacional que incorpora a cosmovis\u00e3o Maori, orientada pelos princ\u00edpios de kotahitanga (trabalhar de forma coordenada), <em>tikanga<\/em> (tomar decis\u00f5es alinhadas com os valores corretos), <em>manaakitanga<\/em> (aumentar o poder e a capacidade de ag\u00eancia dos outros por meio do respeito e do cuidado) e <em>tiakitanga<\/em> (administra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel). Parece que a busca por \u201cviver bem\u201d tem manifesta\u00e7\u00f5es semelhantes em todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No final de seu discurso na C\u00fapula Rio+20, o ent\u00e3o presidente uruguaio Pepe Mujica afirmou que \u201cquando lutamos pelo meio ambiente, temos que lembrar que o primeiro elemento do meio ambiente se chama felicidade humana\u201d. Em seguida, ele citou fil\u00f3sofos romanos, gregos e aimar\u00e1s. Essas palavras mostram o potencial da Am\u00e9rica Latina para repensar a conserva\u00e7\u00e3o. A regi\u00e3o deve agora aproveitar essa oportunidade para integrar a diversidade biol\u00f3gica e cultural e combinar as cosmovis\u00f5es ancestrais com as perspectivas ocidentais.<\/p>\n\n\n\n<p>Um novo paradigma baseado em equidade, diversidade, inclus\u00e3o e justi\u00e7a para as m\u00faltiplas vozes da conserva\u00e7\u00e3o nos permitir\u00e1 repensar o que \u00e9 \u201cviver bem\u201d. Dessa forma, estaremos mais bem preparados para lidar com a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e a perda das contribui\u00e7\u00f5es da natureza para as pessoas, mas tamb\u00e9m para lidar com a redu\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias com a natureza e a amea\u00e7a \u00e0 diversidade cultural. Como um todo, essa \u201ccrise de valores\u201d exige a recupera\u00e7\u00e3o de um sentido hol\u00edstico de \u201cvida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Texto produzido em conjunto com o Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Globais (IAI). As opini\u00f5es expressas nesta publica\u00e7\u00e3o s\u00e3o dos autores e n\u00e3o necessariamente das suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar dos avan\u00e7os, ainda \u00e9 necess\u00e1rio institucionalizar a avalia\u00e7\u00e3o pluralista da natureza com seus aspectos ecol\u00f3gicos, monet\u00e1rios, socioculturais e de sa\u00fade.<\/p>\n","protected":false},"author":674,"featured_media":44728,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,17102],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-44764","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-biodiversidad-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44764","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/674"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44764"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44764\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44764"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44764"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44764"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=44764"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}