{"id":44880,"date":"2024-10-25T09:00:00","date_gmt":"2024-10-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=44880"},"modified":"2024-10-25T11:59:44","modified_gmt":"2024-10-25T14:59:44","slug":"o-culto-a-fertilidade-e-suas-implicacoes-na-autonomia-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-culto-a-fertilidade-e-suas-implicacoes-na-autonomia-das-mulheres\/","title":{"rendered":"O culto \u00e0 fertilidade e suas implica\u00e7\u00f5es na autonomia das mulheres"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Parir, mulheres para parir\u2026Queremos mais beb\u00eas&#8230; Que seja moda ter muitos descendentes\u2026. Somos a favor da fam\u00edlia para que a P\u00e1tria cres\u00e7a&#8230; Precisamos de fam\u00edlias maiores&#8230;<\/em> s\u00e3o express\u00f5es que refletem um tipo de culto \u00e0 fertilidade pronunciado recentemente em discursos de chefes de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O culto \u00e0 fertilidade, um fen\u00f4meno presente em diversas culturas ao longo da hist\u00f3ria, concentrava-se na venera\u00e7\u00e3o da fertilidade como um princ\u00edpio vital atrav\u00e9s de rituais e pr\u00e1ticas que celebravam a abund\u00e2ncia da terra, dos animais e seres humanos. Esse enfoque parece ter ra\u00edzes na necessidade de garantir a sobreviv\u00eancia das comunidades, onde o aumento da popula\u00e7\u00e3o se associa \u00e0 prosperidade e continuidade cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel falar hoje de um culto moderno \u00e0 fertilidade? V\u00e1rios fatores se conjugam para configurar o renascimento de uma cultura a favor da natalidade que, embora possa oferecer certos benef\u00edcios quando associada ao apoio econ\u00f4mico \u00e0s fam\u00edlias, tamb\u00e9m levanta s\u00e9rias preocupa\u00e7\u00f5es sobre <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-direitos-das-mulheres-retrocedem-no-mundo\/\">a autonomia reprodutiva das mulheres<\/a> e seu direito de decidir sobre seus corpos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As raz\u00f5es por tr\u00e1s do culto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em muitas sociedades contempor\u00e2neas, a fertilidade e a maternidade s\u00e3o frequentemente idealizadas na cultura popular, publicidade e nas redes sociais. Em muitas mensagens e imagens observa-se uma glorifica\u00e7\u00e3o da figura materna, que mostram experi\u00eancias idealizadas de maternidade, gerando press\u00e3o social para que as mulheres se tornem m\u00e3es e cumpram os padr\u00f5es heteropatriarcais de reprodu\u00e7\u00e3o como miss\u00e3o vital.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, alguns l\u00edderes pol\u00edticos adotaram um enfoque expl\u00edcito centrado na mensagem que pressionam as mulheres a parir como imperativo social e cultural. Esse fen\u00f4meno ressurgiu no contexto contempor\u00e2neo atrav\u00e9s de pol\u00edticas promovidas por pol\u00edticos como Marine Le Pen na Fran\u00e7a, Viktor Orb\u00e1n na Hungria, Xi Jinping na China, Nicol\u00e1s Maduro na Venezuela, Donald Trump nos EUA e Putin na R\u00fassia, entre outros. A maneira em que essas pol\u00edticas s\u00e3o apresentadas \u00e9 influenciada por narrativas que favorecem certos grupos ou ideologias, sem considerar os direitos e desejos individuais das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>As explica\u00e7\u00f5es que sustentam o renascimento dessas pol\u00edticas s\u00e3o variadas. Em primeiro lugar, as preocupa\u00e7\u00f5es com o <strong>envelhecimento populacional<\/strong> levaram alguns governos a ver o aumento da taxa de natalidade como uma solu\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica e econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>A taxa de fertilidade (n\u00famero m\u00e9dio de filhos por mulher) diminuiu nas \u00faltimas d\u00e9cadas a n\u00edvel mundial. Esse decl\u00ednio foi observado em muitas regi\u00f5es, especialmente nos pa\u00edses em desenvolvimento. Fatores como o acesso a m\u00e9todos contraceptivos, a educa\u00e7\u00e3o das mulheres, a urbaniza\u00e7\u00e3o e as mudan\u00e7as nas expectativas sociais contribu\u00edram para essa tend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A n\u00edvel global, a taxa global de fertilidade (TGF) caiu abaixo dos n\u00edveis de reposi\u00e7\u00e3o, que \u00e9 de aproximadamente 2,1 filhos por mulher, e \u00e9 previsto que continue diminuindo no futuro. <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\/noticias\/america-latina-caribe-perdio-casi-3-anos-esperanza-vida-al-nacer-2019-2021-consecuencia-la#:~:text=La%20tasa%20global%20de%20fecundidad,nivel%20de%20reemplazo%20desde%202015.\">Estimativas e proje\u00e7\u00f5es da CEPAL e da Divis\u00e3o de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a> confirmam um crescimento cada vez menor da popula\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o latino-americana, consequ\u00eancia da diminui\u00e7\u00e3o da fertilidade. A TFR da Am\u00e9rica Latina e do Caribe em 2022 \u00e9 estimada em 1,85 nascidos vivos por mulher, cifra que est\u00e1 abaixo do n\u00edvel de reposi\u00e7\u00e3o desde 2015. A proje\u00e7\u00e3o indica que seguir\u00e1 caindo e chegar\u00e1 a 1,68 nascidos vivos por mulher em 2100.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que as taxas de fertilidade diminuem, a propor\u00e7\u00e3o de pessoas idosas na popula\u00e7\u00e3o aumenta. Isso pode gerar desafios econ\u00f4micos, como uma for\u00e7a de trabalho menor e maiores gastos em sa\u00fade e aposentadoria. Portanto, alguns governos veem o aumento da taxa de natalidade como uma solu\u00e7\u00e3o para manter uma economia din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A maternidade como destino<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos elementos demogr\u00e1ficos, outros motivos para o culto \u00e0 fertilidade incluem a emerg\u00eancia de muitos movimentos conservadores que promovem a ideia de que a maternidade \u00e9 o principal papel das mulheres, muitas vezes em conson\u00e2ncia com os valores tradicionais que defendem o princ\u00edpio da fam\u00edlia como a c\u00e9lula fundamental da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.dw.com\/es\/maduro-invita-a-todas-las-venezolanas-a-parir-por-la-patria\/a-52642403\">\u201cParir, para parir! Todas as mulheres ter\u00e3o seis filhos! Todas! Que a p\u00e1tria cres\u00e7a!\u201d<\/a>, exclamou o presidente venezuelano Nicol\u00e1s Maduro em um evento sobre um plano de assist\u00eancia a gr\u00e1vidas. \u201c<em>A mulher foi feita para parir<\/em>\u201d, assegurou o presidente em 2020, embora a Venezuela esteja mergulhada em uma grave crise econ\u00f4mica h\u00e1 anos e o grupo de mulheres gr\u00e1vidas, em particular, seja um dos mais vulner\u00e1veis, como a <a href=\"https:\/\/es.aleteia.org\/2018\/10\/25\/caritas-venezuela-48-de-las-embarazadas-evaluadas-presentan-desnutricion-aguda\">ONG Caritas<\/a> p\u00f4de denunciar ao revelar que 48% das mulheres gr\u00e1vidas avaliadas em seis estados do pa\u00eds estavam com desnutri\u00e7\u00e3o aguda.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 um exemplo claro de ret\u00f3rica pol\u00edtica que usa a maternidade como s\u00edmbolo de patriotismo ou devo\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade, vinculando a fertilidade \u00e0 responsabilidade c\u00edvica. Mas a inten\u00e7\u00e3o dessas declara\u00e7\u00f5es \u00e9 refor\u00e7ar o papel da mulher centrado na maternidade e no cuidado do lar. Estimular \u00e0 fertilidade \u00e9 parte de uma agenda mais ampla usada para afian\u00e7ar estere\u00f3tipos de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mais soldados e mais beb\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outra raz\u00e3o para promover esse neoculto tem a ver com a guerra. Nos \u00faltimos dias, <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/es\/2024\/10\/03\/espanol\/mundo\/rusia-ucrania-guerra-putin.html\">Vladimir Putin, do Kremlin<\/a>, decretou o aumento da taxa de natalidade como uma prioridade nacional. Analistas pol\u00edticos relacionam esse prop\u00f3sito com o recrutamento agressivo de soldados para cobrir as quase mil baixas di\u00e1rias registradas no confronto contra a Ucr\u00e2nia, que se arrastar. \u201c<em>\u00c9 necess\u00e1rio cuidar da popula\u00e7\u00e3o, aumentar a taxa de fertilidade<\/em>\u201d, disse Putin, \u201c<em>tornar moda ter muitos filhos, como ocorria na R\u00fassia no passado: sete, nove, dez pessoas nas fam\u00edlias<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em maio deste ano, Putin declarou que um dos principais objetivos do governo era aumentar a taxa total de fertilidade da R\u00fassia, estabelecendo metas de 1,6 em 2030 e 1,8 em 2036. Em 2023, a taxa era de 1,41 na R\u00fassia, frente ao 1,62 dos Estados Unidos. Para isso, est\u00e1 recorrendo a recompensas financeiras para incentivar os nascimentos: as mulheres russas que t\u00eam seu primeiro filho recebem um pagamento \u00fanico de 6700 d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Implica\u00e7\u00f5es para as mulheres<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favidas, essas pol\u00edticas podem ter efeitos adversos nas mulheres. A press\u00e3o para ser m\u00e3e limita suas op\u00e7\u00f5es de vida e pode levar \u00e0 estigmatiza\u00e7\u00e3o daquelas que escolhem n\u00e3o ter filhos. Essa press\u00e3o cria um entorno em que as decis\u00f5es reprodutivas s\u00e3o influenciadas por expectativas sociais e pol\u00edticas, gerando ansiedade e conflitos internos, especialmente em contextos em que a maternidade \u00e9 valorizada como um dever ou um objetivo primordial.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, a carga das responsabilidades familiares geralmente recai desproporcionalmente sobre elas, perpetuando os papeis tradicionais e desiguais de g\u00eanero no trabalho e na vida pessoal. Nesse sistema, as mulheres s\u00e3o vistas principalmente como reprodutoras e cuidadoras, o que limita sua participa\u00e7\u00e3o em outros \u00e2mbitos, como o trabalhista e o pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A promo\u00e7\u00e3o da fertilidade obviamente entra em conflito com o direito ao aborto, criando uma dicotomia que limita a autonomia das mulheres. Em contextos em que a maternidade \u00e9 enfatizada como um imperativo social, o aborto \u00e9 visto como uma escolha negativa, punindo e criminalizando a pr\u00e1tica. As posi\u00e7\u00f5es pr\u00f3-fertilidade de l\u00edderes pol\u00edticos e religiosos que advogam pela defesa da vida desde a concep\u00e7\u00e3o geralmente refor\u00e7am essa tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora algumas pol\u00edticas possam oferecer recursos \u00e0s m\u00e3es, a falta de um sistema de cuidados e o pouco envolvimento dos pais, da escola e da comunidade tornam essas medidas insuficientes e repletas de desigualdades. A maternidade, nesse culto \u00e0 fertilidade, \u00e9 instrumentalizada como uma ferramenta para promover agendas pol\u00edticas, o que tira das mulheres a capacidade de ver a possibilidade de ter filhos como uma escolha pessoal. Isso n\u00e3o \u00e9 novidade. Historicamente, as decis\u00f5es reprodutivas e familiares t\u00eam sido dominadas por normas patriarcais, instrumentalizando a maternidade como um valor sob o controle masculino. Em \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 uma quest\u00e3o de poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Livre escolha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As feministas alertaram que a insist\u00eancia na maternidade como um dever restringe o direito das mulheres de decidir sobre seus pr\u00f3prios corpos, perpetua os papeis tradicionais de g\u00eanero e condena quem optam por n\u00e3o ser m\u00e3es, sobretudo porque as pol\u00edticas pr\u00f3-fertilidade n\u00e3o levam em conta as realidades econ\u00f4micas enfrentadas por muitas mulheres, como o custo da cria\u00e7\u00e3o dos filhos e a falta de apoio no local de trabalho. \u00c9 fundamental que as pol\u00edticas de sa\u00fade reprodutiva sejam elaboradas de maneira integral, considerando todas as op\u00e7\u00f5es e direitos das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Os l\u00edderes pol\u00edticos devem adotar um enfoque mais equitativo, menos manipulador e mais respeitoso em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o e \u00e0 maternidade, que reconhe\u00e7a e valorize as escolhas das mulheres sem impor papeis tradicionais ou limita\u00e7\u00f5es \u00e0 autonomia pol\u00edtica. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a verdadeira libera\u00e7\u00e3o das mulheres implica garantir sua capacidade de tomar decis\u00f5es informadas e livres sobre suas vidas e seu papel na sociedade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 poss\u00edvel falar hoje de um culto moderno \u00e0 fertilidade? 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