{"id":44889,"date":"2024-10-26T09:00:00","date_gmt":"2024-10-26T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=44889"},"modified":"2024-10-31T09:46:39","modified_gmt":"2024-10-31T12:46:39","slug":"o-que-e-a-sindrome-da-floresta-vazia-e-por-que-devemos-nos-preocupar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-e-a-sindrome-da-floresta-vazia-e-por-que-devemos-nos-preocupar\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 a \u2018s\u00edndrome da floresta vazia\u2019 e por que devemos nos preocupar"},"content":{"rendered":"\n<p>A perda de diversidade da fauna e flora e a fragmenta\u00e7\u00e3o dos ecossistemas desencadearam o fen\u00f4meno conhecido como <em>s\u00edndrome da floresta vazia<\/em> ou <a href=\"https:\/\/www.ambientum.com\/ambientum\/biodiversidad\/el-sindrome-del-bosque-vacio.asp\"><em>floresta silenciosa<\/em><\/a>. Isso se refere a florestas que parecem estar intactas, mas que perderam grande parte de sua fauna, o que afeta processos ecol\u00f3gicos como a poliniza\u00e7\u00e3o e a dispers\u00e3o de sementes, vitais para sua sobreviv\u00eancia. Essa perda de biodiversidade \u00e9 um fen\u00f4meno generalizado na Am\u00e9rica Latina e no mundo, e avan\u00e7a atualmente, em grande medida, devido \u00e0 expans\u00e3o da ind\u00fastria por tr\u00e1s das \u201cenergias renov\u00e1veis\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo <em>Evidencia de uma crise de dispers\u00e3o de sementes na Europa<\/em>, publicado recentemente pela revista cient\u00edfica <em>Science<\/em>, afirma que, se os animais frug\u00edvoros desaparecerem, o colapso das florestas ser\u00e1 inevit\u00e1vel, j\u00e1 que mais de 85% das esp\u00e9cies de \u00e1rvores nas florestas tropicais dependem deles para dispersar suas sementes. Em nossa regi\u00e3o, pesquisas como <em>Estudo da S\u00edndrome da Floresta Vazia<\/em>, de Iv\u00e1n Bladimir Morillo, mostram que em regi\u00f5es da Am\u00e9rica Latina como o Choc\u00f3 Andino \u2013 florestas nubladas no noroeste do Equador \u2013 mais de 90% dos vertebrados de m\u00e9dio e grande porte desapareceram. E em toda a Am\u00e9rica Latina, at\u00e9 88% das florestas tropicais enfrentam a amea\u00e7a de defauna\u00e7\u00e3o, o que tem efeitos colaterais n\u00e3o s\u00f3 nas comunidades humanas que dependem da fauna para sua subsist\u00eancia, mas tamb\u00e9m sobre a capacidade das florestas de armazenar metano e carbono e manter sua integridade ecol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>O exterm\u00ednio da fauna foi causado pela substitui\u00e7\u00e3o das florestas por pastagens para o gado, pela abertura de estradas sem levar em conta a conectividade ecossist\u00eamica, pela ca\u00e7a e pela expans\u00e3o urbana. Mas, acima de tudo, pelo desmatamento para a expans\u00e3o de culturas como milho, soja e outras necess\u00e1rias para a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, a constru\u00e7\u00e3o de represas hidrel\u00e9tricas, inc\u00eandios florestais e a explora\u00e7\u00e3o de minerais necess\u00e1rios para a mudan\u00e7a na matriz energ\u00e9tica do Norte Global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Frear as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e0 custa da biodiversidade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A fragmenta\u00e7\u00e3o e a desertifica\u00e7\u00e3o das florestas \u00e9 um processo iniciado h\u00e1 d\u00e9cadas, muito antes do surgimento das energias renov\u00e1veis, e \u00e9 uma consequ\u00eancia de um modelo extrativista e do mal chamado desenvolvimento. A minera\u00e7\u00e3o e as monoculturas v\u00eam isolando \u00e1reas naturais, criando ilhas de florestas ou leitos de rios isolados, incapazes de sustentar popula\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis de fauna e flora. Al\u00e9m disso, a infraestrutura, como estradas, urbaniza\u00e7\u00f5es e hidrel\u00e9tricas, subdivide os ecossistemas, bloqueando o fluxo de esp\u00e9cies e fragmentando os habitats.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, nos \u00faltimos anos, a minera\u00e7\u00e3o nas florestas e selvas da regi\u00e3o evoluiu de uma atividade artesanal de baixo impacto para uma ind\u00fastria de escala, enquanto os monocultivos para a produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis se expandem sem controle. Essa atividade n\u00e3o s\u00f3 destroi grandes extens\u00f5es de floresta, mas tamb\u00e9m fragmenta ecossistemas e contamina rios com merc\u00fario, \u00e1cido sulf\u00farico e outros produtos qu\u00edmicos t\u00f3xicos, afetando gravemente a biodiversidade e as comunidades locais que dependem desses recursos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, o conceito de \u201cenergia limpa\u201d, embora se apresente como uma solu\u00e7\u00e3o para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, n\u00e3o resolve os problemas subjacentes da explora\u00e7\u00e3o dos bens comuns do planeta, chamados erroneamente de \u201crecursos naturais\u201d. As energias renov\u00e1veis mant\u00eam uma l\u00f3gica extrativista e continuam a afetar novas \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a MiningWatch Canada, o auge da demanda de cobre pode aumentar entre 200 e 300% at\u00e9 2050, impulsionado principalmente pela eletrifica\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos e pelas energias renov\u00e1veis. E grande parte das reservas inexploradas de cobre est\u00e1 localizada em regi\u00f5es de alta biodiversidade, como as florestas tropicais da Amaz\u00f4nia e de Choc\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que est\u00e1 sendo feito?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora, as consequ\u00eancias da <em>s\u00edndrome da floresta vazia<\/em> foram pouco pesquisadas. Entretanto, em resposta a essa crise, surgiram v\u00e1rias iniciativas regenerativas, que podem ser alternativas para conectar ecossistemas. Por exemplo, a permacultura e a agricultura sintr\u00f3pica buscam, junto a outras estrat\u00e9gias, n\u00e3o s\u00f3 a sustentabilidade, mas a regenera\u00e7\u00e3o integral de ecossistemas degradados. Essas propostas visam restaurar a biodiversidade e as fun\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas perdidas, promovendo um equil\u00edbrio mais harm\u00f4nico entre as atividades humanas e a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A agricultura sintr\u00f3pica, desenvolvida por Ernst G\u00f6tsch no Brasil na d\u00e9cada de 1980, \u00e9 um sistema agr\u00edcola regenerativo que imita os processos naturais de sucess\u00e3o ecol\u00f3gica para restaurar solos degradados e aumentar a biodiversidade. Esse m\u00e9todo que promove a fertilidade do solo e aumenta a biodiversidade est\u00e1 sendo replicado em v\u00e1rias regi\u00f5es do Brasil e da Am\u00e9rica Latina como uma alternativa regenerativa \u00e0 agricultura tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p>A permacultura, como \u00e9 conhecido o sistema de agricultura sustent\u00e1vel que busca harmonizar a produ\u00e7\u00e3o de alimentos e o entorno, imitando os padr\u00f5es da natureza, tem sido adotada em v\u00e1rias regi\u00f5es para restaurar terras degradadas pela minera\u00e7\u00e3o e monoculturas. Na Col\u00f4mbia, a Funda\u00e7\u00e3o Permacultura Col\u00f4mbia regenerou mais de 100 hectares em Antioquia afetados pela minera\u00e7\u00e3o de ouro e, no Brasil, o Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado recuperou mais de 50 hectares em Goi\u00e1s ap\u00f3s anos de monocultura de soja.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra forma de combater esse problema \u00e9 a resist\u00eancia da comunidade. Na Amaz\u00f4nia, os povos ind\u00edgenas estabeleceram territ\u00f3rios aut\u00f4nomos para conservar seus recursos naturais, como o Povoado de Sarayaku, conhecido por sua firme resist\u00eancia \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, e no Equador os coletivos de cidad\u00e3os Quito sin Miner\u00eda e Yasunidos promoveram e venceram consultas populares que prop\u00f5em um novo paradigma social e econ\u00f4mico baseado nos direitos da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas uma das respostas mais eficazes ao extrativismo tem sido a governan\u00e7a local. Atrav\u00e9s de acordos volunt\u00e1rios de conserva\u00e7\u00e3o, as comunidades lideraram iniciativas que protegem corredores biol\u00f3gicos essenciais para a fauna, baseados em processos democr\u00e1ticos em n\u00edvel local e nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Diante dessa crise ambiental e civilizat\u00f3ria, \u00e9 necess\u00e1rio ir al\u00e9m das a\u00e7\u00f5es que buscam reverter os danos. Devemos repensar o conceito de energia limpa e questionar a l\u00f3gica do extrativismo verde, que, sob a promessa de solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas para mitigar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, continua explorando os recursos do planeta. \u00c9 necess\u00e1ria uma mudan\u00e7a de paradigma que desconstrua a l\u00f3gica extrativista e adote uma vis\u00e3o regenerativa da rela\u00e7\u00e3o entre os seres humanos e a natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>A <em>s\u00edndrome da floresta vazia<\/em> \u00e9 um lembrete de que os ecossistemas n\u00e3o s\u00e3o apenas recursos a serem explorados, mas sistemas vivos que exigem cuidado e respeito. As solu\u00e7\u00f5es para a crise ambiental devem se basear no decrescimento, na desacelera\u00e7\u00e3o, na restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas, na regenera\u00e7\u00e3o da biodiversidade, na revaloriza\u00e7\u00e3o da vida e na defesa dos direitos da natureza.<\/p>\n\n\n\n<p>Em vez de promover energias limpas que n\u00e3o s\u00e3o ambientalmente sustent\u00e1veis nem socialmente justas para as comunidades e que perpetuam a explora\u00e7\u00e3o, devemos investir em modelos regenerativos que respeitem os ciclos naturais e promovam a justi\u00e7a ecol\u00f3gica e a paz, que atualmente \u00e9 um bem escasso para a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Texto produzido em conjunto com o Instituto Interamericano de Pesquisa sobre Mudan\u00e7as Globais (IAI). As opini\u00f5es expressas nesta publica\u00e7\u00e3o s\u00e3o dos autores e n\u00e3o necessariamente das suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p> Isso se refere a florestas que parecem estar intactas, mas que perderam grande parte de sua fauna, o que afeta processos ecol\u00f3gicos como a poliniza\u00e7\u00e3o e a dispers\u00e3o de sementes, vitais para sua sobreviv\u00eancia. <\/p>\n","protected":false},"author":676,"featured_media":44867,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17102,16751],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-44889","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-biodiversidad-pt-br","8":"category-medioambiente-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/676"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=44889"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/44889\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/44867"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=44889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=44889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=44889"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=44889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}