{"id":44956,"date":"2024-10-30T09:00:00","date_gmt":"2024-10-30T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=44956"},"modified":"2024-10-29T14:53:13","modified_gmt":"2024-10-29T17:53:13","slug":"a-falacia-do-dano-antropologico-na-venezuela-um-conceito-inutil-e-derrotista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-falacia-do-dano-antropologico-na-venezuela-um-conceito-inutil-e-derrotista\/","title":{"rendered":"A fal\u00e1cia do dano antropol\u00f3gico na Venezuela: um conceito in\u00fatil e derrotista"},"content":{"rendered":"\n<p>Atualmente, ouve-se e l\u00ea-se muito sobre o conceito de <em>dano antropol\u00f3gico<\/em>. Essa no\u00e7\u00e3o descreveria o profundo dano que o chavismo causou em seus 25 anos de domina\u00e7\u00e3o sobre os venezuelanos. O conceito \u00e9 de um analista cubano, <a href=\"https:\/\/www.programacuba.com\/impacto-del-da%C3%B1o-antropol%C3%B3gico-en-la-gob\">Dagoberto Vald\u00e9s<\/a>. Pretende explicar certos comportamentos de seus compatriotas submetidos ao longo calv\u00e1rio da revolu\u00e7\u00e3o comunista. Vald\u00e9s resume o dano antropol\u00f3gico assim: \u201cO enfraquecimento, a les\u00e3o ou o dano aos elementos essenciais da pessoa humana\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse conceito tem algum fundamento? Serve para entender as situa\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o em Cuba e na Venezuela? Se nos determos \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do autor cubano, veremos que ele apela para uma \u201cess\u00eancia humana\u201d que, em contraste com seu enfraquecimento, les\u00e3o ou dano, seria originalmente \u201cboa\u201d. Ou seja, os cubanos ou venezuelanos antes da era revolucion\u00e1ria teriam sido muito bons no sentido moral, mas foram pervertidos pelos regimes totalit\u00e1rios ou autorit\u00e1rios em Cuba (j\u00e1 h\u00e1 65 anos) e na Venezuela (h\u00e1 um quarto de s\u00e9culo).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 verdade? N\u00e3o. Nem Cuba nem a Venezuela eram para\u00edsos morais antes de suas respectivas rupturas sociopol\u00edticas, nem eram um inferno. Eram sociedades com seus momentos virtuosos e seus momentos sombrios. De qualquer forma, o que Vald\u00e9s procurou descrever como dano antropol\u00f3gico (uma esp\u00e9cie de corrup\u00e7\u00e3o do DNA moral e ps\u00edquico dos cubanos) n\u00e3o \u00e9 produto das pervers\u00f5es induzidas por seu regime corrupto e corruptor. Em vez disso, \u00e9 o resultado de uma combina\u00e7\u00e3o de t\u00e9cnicas de exacerba\u00e7\u00e3o das mis\u00e9rias humanas (usadas por regimes tir\u00e2nicos) e as caracter\u00edsticas da sociedade cubana pr\u00e9-fidelista. Antropologicamente, os seres humanos t\u00eam tend\u00eancias boas e ruins que j\u00e1 existiam muito antes de os comunistas cubanos ou os chavistas venezuelanos chegarem ao poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O aspecto venezuelano do chavismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O chavismo \u00e9 uma express\u00e3o sociopol\u00edtica e cultural muito venezuelana. Hugo Ch\u00e1vez, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/uma-radiografia-sociologica-da-venezuela-apos-25-anos-de-chavismo\/\">a c\u00fapula chavista e seus seguidores<\/a> (os de outrora e os de agora, muito reduzidos) eram e s\u00e3o venezuelanos, n\u00e3o extraterrestres. Esse \u00e9 o substrato que gera um movimento pol\u00edtico com defeitos bem reconhecidos na psique coletiva venezuelana. Um deles, t\u00e3o antigo quanto as guerras civis desde a independ\u00eancia at\u00e9 as guerrilhas da d\u00e9cada de 1960, \u00e9 o ressentimento, como demonstrou <a href=\"https:\/\/www.elnacional.com\/papel-literario\/el-resentimiento-como-motor-de-la-historia\/\">Carlos Lizarralde<\/a> em seu ensaio <em>Venezuela&#8217;s collapse: The long story of how things fell apart<\/em> (2024).<\/p>\n\n\n\n<p>Se o ressentimento \u00e9 o motivador do surgimento chavista, seu complemento perfeito \u00e9 a viol\u00eancia, outra caracter\u00edstica da hist\u00f3ria venezuelana. A irrup\u00e7\u00e3o de Ch\u00e1vez na cena p\u00fablica foi com a viol\u00eancia de 4 de fevereiro de 1992, seguida pela viol\u00eancia de novembro do mesmo ano. Depois viriam outros epis\u00f3dios violentos, como o de 11 de abril de 2002, com seu lament\u00e1vel n\u00famero de mortos, e uma s\u00e9rie de assassinatos pol\u00edticos fora e dentro do pr\u00f3prio chavismo. Tamb\u00e9m deve-se considerar aqui a grande onda de delinqu\u00eancia que teve epis\u00f3dios de converg\u00eancia entre criminalidade e controle pol\u00edtico-social desde a \u00e9poca de Ch\u00e1vez. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos esquecer da recente viol\u00eancia policial e militar contra manifestantes e opositores ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 28 de julho. Tudo isso faz parte do mesmo substrato antropol\u00f3gico da sociedade venezuelana, seu autoritarismo quase cong\u00eanito e sua correspondente viol\u00eancia exercida pelo poder formal do Estado e por gangues irregulares, criminosas ou guerrilheiras.<\/p>\n\n\n\n<p>Corrup\u00e7\u00e3o? Essa \u00e9 outra caracter\u00edstica da sociedade venezuelana desde que se consolidou o coletivo que depois seria o Estado-na\u00e7\u00e3o conhecido como Venezuela. O chavismo construiu o est\u00e1gio mais corrupto da hist\u00f3ria da Venezuela sobre esse substrato. Mas n\u00e3o o fez produzindo \u201cdanos antropol\u00f3gicos\u201d, mas sim exacerbando a base hist\u00f3rico-social corrupta que estava ali.<\/p>\n\n\n\n<p>Vald\u00e9s aponta que o medo e a submiss\u00e3o s\u00e3o parte do dano antropol\u00f3gico induzido por esses regimes autorit\u00e1rios. No entanto, \u00e9 bom recorrer \u00e0 evid\u00eancia hist\u00f3rica para saber que, na Venezuela, a mesma sociedade do \u201cpovo\u201d ressentido e reativo, tamb\u00e9m testemunhamos momentos em que a sociedade preferiu o sil\u00eancio cauteloso e a aparente submiss\u00e3o para evitar ser objeto de repress\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o. Como explicar, ent\u00e3o, que a maioria do povo que votou pela primeira vez em elei\u00e7\u00f5es diretas e universais para eleger o escritor R\u00f3mulo Gallegos como presidente, em dezembro de 1947, n\u00e3o moveu nenhum dedo para protestar o golpe militar contra o autor de Do\u00f1a B\u00e1rbara, que ocorreu apenas alguns meses depois, em 1948? O medo sempre esteve ali. O chavismo soube como ger\u00e1-lo e conseguir a submiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder\u00edamos tamb\u00e9m considerar uma caracter\u00edstica muito venezuelana que tem a ver com humor e cinismo, inclusive em momentos muito dif\u00edceis. Uni as duas caracter\u00edsticas (humor e cinismo) porque n\u00e3o podem ser dissociadas. Rir da trag\u00e9dia \u00e9, at\u00e9 certo ponto, saud\u00e1vel. Um certo cinismo frente ao poder e aos poderosos tamb\u00e9m \u00e9 desej\u00e1vel. Mas h\u00e1 um lado perverso no humor e no cinismo. Provavelmente, o exemplo mais claro \u00e9 a recente declara\u00e7\u00e3o de Nicol\u00e1s Maduro de que antecipou o Natal para outubro, diante de uma popula\u00e7\u00e3o empobrecida. O cinismo da alegria artificial decretada \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o mais clara do poderoso zombando da maioria sofredora, um prazer cruel do ditador e de seu entorno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Modificar o substrato antropol\u00f3gico?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essa pergunta n\u00e3o serve para muito, j\u00e1 que n\u00e3o parto da fal\u00e1cia de um suposto dano antropol\u00f3gico, mas do reconhecimento de que a grande maioria dos tra\u00e7os problem\u00e1ticos dos venezuelanos sempre esteve l\u00e1. Ent\u00e3o, deve-se ir \u00e0 raiz dessas caracter\u00edsticas para modific\u00e1-las? Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho certeza de que isso seja poss\u00edvel. Isso exigiria uma generaliza\u00e7\u00e3o absurda (h\u00e1 de tudo na vinha do Senhor) e, se pudesse ser feito, exigiria um grande plano de engenharia social que seria pior do que a pr\u00f3pria submiss\u00e3o comunista ou chavista.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente, a mudan\u00e7a mais significativa que o chavismo produziu na sociedade venezuelana foi a emigra\u00e7\u00e3o em grande escala de milh\u00f5es de seus cidad\u00e3os ao redor do mundo. E mais do que um dano antropol\u00f3gico, o que a emigra\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de venezuelanos produziu foi uma consci\u00eancia de desenraizamento e de fazer parte de uma di\u00e1spora longe da terra natal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um bom amigo me perguntou o que os venezuelanos poderiam aprender com a experi\u00eancia judaica do ex\u00edlio. Minha resposta foi que era dif\u00edcil para os venezuelanos aprenderem algo com a experi\u00eancia do ex\u00edlio em massa, que \u00e9 bastante recente em sua curta hist\u00f3ria como na\u00e7\u00e3o. O povo judeu passou por s\u00e9culos de ex\u00edlio. Sua consci\u00eancia \u00e9 marcada pelo trauma do ex\u00edlio e pelo desejo de se redimir para superar o ex\u00edlio territorial e espiritual. A \u00fanica coisa que um judeu poderia ensinar a um venezuelano \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel forjar la\u00e7os de solidariedade a partir do ex\u00edlio. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil para os exilados que agora (como os venezuelanos) t\u00eam de pensar em sua sobreviv\u00eancia individual e na de suas fam\u00edlias, as que sa\u00edram e as que ficaram no pa\u00eds. Provavelmente, mais importante do que o ex\u00edlio \u00e9 a consci\u00eancia de ter um patrim\u00f4nio comum, imaterial e transcendente, mas isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o evidente para uma na\u00e7\u00e3o jovem como a Venezuela. Haver\u00e1 solidariedade enquanto os venezuelanos se virem como um coletivo que merece preservar seu patrim\u00f4nio intang\u00edvel mesmo al\u00e9m de suas fronteiras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a mudan\u00e7a da Venezuela em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia se beneficie um pouco da di\u00e1spora venezuelana. N\u00e3o creio que muitos retornar\u00e3o, embora existam v\u00ednculos que est\u00e3o sendo criados nos campos comercial, cultural, educacional e de pesquisa que poderiam beneficiar o pa\u00eds. Como muitos processos sociais paradoxais, a expuls\u00e3o de milh\u00f5es de venezuelanos poderia produzir uma mudan\u00e7a de mentalidade no pa\u00eds. Isso n\u00e3o \u00e9 uma garantia, mas uma probabilidade. O conhecimento e as experi\u00eancias dos venezuelanos que vivem foram podem, de muitas maneiras, beneficiar aqueles que ficaram para tr\u00e1s. Tamb\u00e9m pode haver investimento por parte daqueles que conseguiram prosperar fora da Venezuela e que desejar\u00e3o fazer neg\u00f3cios quando o pa\u00eds retornar \u00e0 democracia. Do ponto de vista comercial, as redes de venezuelanos podem beneficiar as exporta\u00e7\u00f5es de produtos venezuelanos, o que, de certa forma, j\u00e1 est\u00e1 acontecendo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que o chavismo deixe um legado misto. Explorou o pior que j\u00e1 existia na sociedade venezuelana, levando-a a n\u00edveis de pervers\u00e3o nunca vistos na chamada rep\u00fablica civil. Apesar de sua pol\u00edtica de ressentimento e vingan\u00e7a, tamb\u00e9m gerou coisas positivas, como a organiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade civil, apesar da bota autocr\u00e1tica que a esmaga. E as redes globais de venezuelanos t\u00eam o potencial de promover mudan\u00e7as internas se a desconfian\u00e7a, o medo e a inveja que permearam esses tempos sombrios forem superados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem Cuba nem a Venezuela eram para\u00edsos morais antes de suas respectivas rupturas sociopol\u00edticas, nem eram um inferno. 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