{"id":45214,"date":"2024-11-11T09:00:00","date_gmt":"2024-11-11T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=45214"},"modified":"2024-11-11T14:19:37","modified_gmt":"2024-11-11T17:19:37","slug":"como-os-peruanos-vivenciam-a-desigualdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/como-os-peruanos-vivenciam-a-desigualdade\/","title":{"rendered":"Como os peruanos vivenciam a desigualdade?"},"content":{"rendered":"\n<p>O mundo tem experimentado uma desigualdade crescente nas \u00faltimas d\u00e9cadas; <a href=\"https:\/\/www.bancomundial.org\/es\/news\/feature\/2023\/12\/18\/2023-in-nine-charts-a-growing-inequality\">o Banco Mundial considerou<\/a> 2023 \u201co ano da desigualdade\u201d. Cada vez mais a renda e a riqueza do mundo est\u00e3o concentradas nas m\u00e3os de poucos, deixando uma parcela menor para a maioria, incluindo um enorme bols\u00e3o de pobreza. \u201cMais de dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o mundial vivem em pa\u00edses onde a desigualdade cresceu\u201d, <a href=\"https:\/\/www.un.org\/es\/desa\/world-social-report-2020\">de acordo com as Na\u00e7\u00f5es Unidas<\/a>. Mas como as pessoas afetadas vivenciam essa situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 verific\u00e1vel nos dados? Uma <a href=\"https:\/\/iep.org.pe\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Oxfam-IEP.-ENADES-2024.-II-Encuesta-nacional-de-percepcion-de-desigualdades-version-actualizada.pdf\">pesquisa<\/a> recente do Instituto de Estudos Peruanos e da OXFAM buscou respostas entre os peruanos, com uma amostra de 1.508 entrevistas em todo o pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru \u00e9 o quarto pa\u00eds mais desigual do mundo, de acordo com <a href=\"https:\/\/www.infobae.com\/peru\/2023\/02\/06\/peru-es-el-cuarto-pais-con-mas-desigualdad-en-el-mundo\/\">a an\u00e1lise dispon\u00edvel<\/a>. A pesquisa do IEP-OXFAM constatou que metade dos entrevistados (51%) considerava o pa\u00eds muito desigual economicamente. Ao mesmo tempo, um quarto dos entrevistados (27%) acredita que o pa\u00eds \u00e9 \u201c pouco desigual\u201d e 7% responderam que \u00e9 \u201cnada desigual\u201d! E foi entre os mais pobres que se encontrou a maior parte dessa \u00faltima resposta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando solicitados a qualificar as dist\u00e2ncias econ\u00f4micas, pouco mais da metade dos entrevistados (56%) afirmou que \u201ca diferen\u00e7a de renda entre ricos e pobres \u00e9 muito grande\u201d. Em sentido contr\u00e1rio, pronunciaram-se um em cada quatro entrevistados (27%). Ao analisar as respostas de acordo com os estratos sociais, descobrimos que a percep\u00e7\u00e3o de que essas diferen\u00e7as s\u00e3o excessivas \u00e9 maior no estrato mais alto (69%) do que no mais baixo (48%). Ou, em outras palavras, aqueles que pensam que as diferen\u00e7as entre ricos e pobres n\u00e3o s\u00e3o muito grandes s\u00e3o, surpreendentemente, mais encontrados no estrato mais baixo (33%) do que no mais alto (15%).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma pobreza aceita<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Peru \u00e9 um pa\u00eds em que, <a href=\"https:\/\/www.bancomundial.org\/es\/news\/press-release\/2023\/04\/26\/peru-informe-pobreza-y-equidad-resurgir-fortalecidos\">de acordo com o Banco Mundial<\/a>, \u201csete em cada dez pessoas s\u00e3o pobres ou vulner\u00e1veis a cair na pobreza\u201d; portanto, a pesquisa constatou que mais da metade dos entrevistados (54%) declararam que sua renda n\u00e3o era suficiente, enquanto 14% conseguiam economizar. No entanto, metade dos entrevistados acreditava que \u201cNo Peru, uma pessoa pobre que trabalha duro pode ficar rica\u201d, 38% acreditavam que \u201cNo Peru, todos t\u00eam oportunidades iguais de sair da pobreza\u201d e uma porcentagem quase igual (37%) pensava que \u201cOs pobres s\u00e3o pobres porque perdem oportunidades\u201d. Nenhuma dessas tr\u00eas respostas foi rejeitada pela maioria dos entrevistados.<\/p>\n\n\n\n<p>Alguns esclarecimentos sobre as respostas \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o \u201cNo Peru, uma pessoa pobre que trabalha duro pode ficar rica\u201d, que, conforme indicado, obteve 50% de apoio, com porcentagens aproximadamente iguais em todos os estratos sociais. Porcentagens um pouco mais altas de concord\u00e2ncia foram encontradas entre os entrevistados com idade entre 18 e 24 anos (58%), aqueles que se identificaram como \u201cbrancos\u201d (57%) e aqueles que se posicionaram politicamente \u00e0 direita (59%).<\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rias respostas apontam para uma certa conformidade com diversas formas de desigualdade. Isso \u00e9 demonstrado pela \u201cseriedade\u201d atribu\u00edda a algumas desigualdades. Ao analisar os dados de acordo com os estratos, descobrimos que a desigualdade entre ricos e pobres \u00e9 classificada como menos grave nos estratos mais pobres. Por outro lado, a desigualdade entre homens e mulheres foi considerada \u201cs\u00e9ria\u201d por um em cada quatro entrevistados (24%), mas 30% a consideraram \u201cn\u00e3o muito s\u00e9ria\u201d e 17% \u201cnada s\u00e9ria\u201d. Em suma, para quase metade (47%) n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema grave com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 essa desigualdade. E em um pa\u00eds que muitos estudos descrevem como racista, a desigualdade entre pessoas brancas e n\u00e3o brancas foi considerada \u201cs\u00e9ria\u201d por 23%, enquanto 22% a consideraram \u201cn\u00e3o muito s\u00e9ria\u201d e 31% \u201cnada s\u00e9ria\u201d, ou seja, para mais da metade dos entrevistados (53%) tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema grave com essa desigualdade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 desigualdade no acesso ao trabalho e aos servi\u00e7os, a pesquisa encontrou diferen\u00e7as de interesse. O acesso ao trabalho foi classificado como \u201cmuito desigual\u201d por 52,4% dos entrevistados. O acesso \u00e0 justi\u00e7a recebeu a maior porcentagem de respostas indicativas de desigualdade, 75,5%, enquanto o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o recebeu 52,7% de indica\u00e7\u00f5es de desigualdade. Surpreendentemente, <a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2021-06-01\/peru-eleva-de-68000-a-180000-los-muertos-por-la-pandemia-de-la-covid-19.html\">no pa\u00eds com o maior n\u00famero de mortes per capita do mundo<\/a>, n\u00e3o mais do que dois ter\u00e7os dos entrevistados (66,3%) disseram que o acesso \u00e0 sa\u00fade era muito desigual.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessan<\/p>\n\n\n\n<p>te saber qual fator os entrevistados disseram ser o mais importante \u201cpara ter uma boa posi\u00e7\u00e3o no Peru\u201d. A resposta mais popular foi \u201cter uma boa educa\u00e7\u00e3o\u201d (67%), uma suposi\u00e7\u00e3o que replica a antiga ideia de \u201cquem estuda tem sucesso\u201d e que parece ter sido feita com base em uma realidade bem conhecida: a falta de emprego que at\u00e9 mesmo aqueles com forma\u00e7\u00e3o profissional enfrentam no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhando para o futuro, a pesquisa perguntou: Como voc\u00ea acha que ser\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de seus filhos mais novos quando eles se tornarem adultos? As expectativas de melhora foram altas: \u201cmelhor\u201d recebeu 81% das respostas. Entretanto, a op\u00e7\u00e3o \u201cpior\u201d representou 13% nos estratos mais baixos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Certa lucidez, mas muita resigna\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os dados revelam a preemin\u00eancia de uma vers\u00e3o ideologizada de uma realidade em que as desigualdades s\u00e3o not\u00f3rias. \u00c9 evidente que a resigna\u00e7\u00e3o tem um certo peso entre os pobres. Eles parecem assumir a culpa por sua situa\u00e7\u00e3o, ou seja, que n\u00e3o saem da pobreza porque n\u00e3o se esfor\u00e7am quando poderiam. Nada poderia estar mais longe de um ambiente prop\u00edcio a uma revolu\u00e7\u00e3o ou, menos ainda, a uma eclos\u00e3o social. A vis\u00e3o do \u201cempreendedorismo\u201d parece ter neutralizado a amea\u00e7a \u00e0 ordem social que, como se pensava antes, a pobreza constitu\u00eda.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa preval\u00eancia de um certo conformismo entre os entrevistados foi rotulada na pesquisa como \u201ctoler\u00e2ncia \u00e0 desigualdade\u201d. Para a pergunta \u201cAt\u00e9 que ponto a desigualdade no Peru \u00e9 aceit\u00e1vel?\u201d, metade (51%) a considerou \u201cinaceit\u00e1vel\u201d e, por outro lado, 30% disseram que a consideravam \u201caceit\u00e1vel\u201d, enquanto o restante preferiu n\u00e3o escolher entre uma ou outra op\u00e7\u00e3o. A rejei\u00e7\u00e3o da desigualdade foi maior (61%) no estrato mais alto e menor (48%) no mais baixo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 interessante observar que essa \u201ctoler\u00e2ncia\u201d n\u00e3o ignora a desigualdade de poder. A op\u00e7\u00e3o \u201cOs ricos t\u00eam muita influ\u00eancia sobre as decis\u00f5es que afetam o pa\u00eds\u201d foi escolhida por dois ter\u00e7os dos entrevistados (67%) e, no geral, 90% dos entrevistados afirmaram que o pa\u00eds \u201c\u00e9 governado por alguns grupos poderosos para seu pr\u00f3prio benef\u00edcio\u201d. A sa\u00edda? Trinta e um por cento argumentaram que \u201cum pa\u00eds mais igualit\u00e1rio\u201d exige \u201cum Estado mais justo\u201d. Outras respostas receberam porcentagens menores. Al\u00e9m disso, foi apontado que as receitas fiscais mais altas deveriam ser usadas principalmente para educa\u00e7\u00e3o (32%) e sa\u00fade (28%).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na dram\u00e1tica pobreza que caracteriza o pa\u00eds, de acordo com diversas medi\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis, parece n\u00e3o haver sinais de rebeli\u00e3o, como imaginado pelos movimentos subversivos h\u00e1 quarenta anos. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 entre os mais pobres que a esperan\u00e7a repousa em seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os e, at\u00e9 certo ponto, no apoio de um Estado que, hoje mais do que nunca, \u00e9 ineficiente e cuja atua\u00e7\u00e3o \u00e9 permeada pela corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apesar da dram\u00e1tica pobreza que caracteriza o pa\u00eds, parece n\u00e3o haver sinais de rebeli\u00e3o Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 entre os mais pobres que a esperan\u00e7a repousa em seus pr\u00f3prios esfor\u00e7os e, at\u00e9 certo ponto, no apoio de um Estado<\/p>\n","protected":false},"author":54,"featured_media":45209,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16738,16716],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-45214","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-peru-pt-br","8":"category-desigualdad-es-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45214","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/54"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45214"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45214\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45209"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45214"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45214"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45214"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=45214"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}