{"id":45438,"date":"2024-11-21T16:00:00","date_gmt":"2024-11-21T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=45438"},"modified":"2024-11-21T15:43:49","modified_gmt":"2024-11-21T18:43:49","slug":"porque-varios-paises-andinos-estao-sofrendo-suas-maiores-crises-hidricas-ao-mesmo-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/porque-varios-paises-andinos-estao-sofrendo-suas-maiores-crises-hidricas-ao-mesmo-tempo\/","title":{"rendered":"Porque v\u00e1rios pa\u00edses andinos est\u00e3o sofrendo suas maiores crises h\u00eddricas ao mesmo tempo?"},"content":{"rendered":"\n<p>Este ano, Col\u00f4mbia e Equador est\u00e3o sofrendo a pior crise h\u00eddrica de sua hist\u00f3ria. Na capital colombiana, a cada nove dias \u00e9 cortado o servi\u00e7o de \u00e1gua pot\u00e1vel por um dia inteiro, e no Equador h\u00e1 cortes de energia \u2013 gerada principalmente com recursos h\u00eddricos \u2013 de at\u00e9 10 horas por dia. A raz\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples quanto dram\u00e1tica: os reservat\u00f3rios de \u00e1gua que abastecem as hidrel\u00e9tricas e fornecem \u00e1gua pot\u00e1vel foram drenados. Como dois pa\u00edses em pleno crescimento econ\u00f4mico chegaram a uma situa\u00e7\u00e3o t\u00e3o extrema? Muito tem a ver com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas ainda mais com o manejo deficiente de um ecossistema natural fundamental: o p\u00e1ramo andino.<\/p>\n\n\n\n<p>O que \u00e9 o p\u00e1ramo andino?<\/p>\n\n\n\n<p>O ecossistema conhecido como p\u00e1ramo est\u00e1 acima do limite da floresta (geralmente a 3.500 metros acima do n\u00edvel do mar) no Norte do Andes (Venezuela, Col\u00f4mbia, Equador e Peru), com extens\u00f5es menores na Costa Rica e no Panam\u00e1. Nessa altitude, o clima \u00e9 muito frio e desenvolve-se um ecossistema aberto, dominado por pastos, arbustos, uma diversidade de pequenas ervas e formas de crescimento espetaculares, como almofadas e rosetas gigantes, bem como os emblem\u00e1ticos frailejones e brom\u00e9lias gigantes. Esse ecossistema \u00e9 um habitat por excel\u00eancia para os animais mais caracter\u00edsticos dos Andes: o urso-de-\u00f3culos, a anta da montanha e o condor andino. Essa riqueza e singularidade da flora e da fauna fazem do p\u00e1ramo um dos ecossistemas de alta montanha mais diversos do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>No total, o p\u00e1ramo cobre cerca de quatro milh\u00f5es de hectares, o que corresponde a menos de 5% da superf\u00edcie dos pa\u00edses que o comp\u00f5em. Entretanto, sua import\u00e2ncia econ\u00f4mica e social \u00e9 proporcionalmente muito maior. A alta montanha tropical, nas latitudes em que os p\u00e1ramos est\u00e3o localizados, geralmente s\u00e3o cobertas por neblina e recebem muita chuva. Isso torna o p\u00e1ramo muito \u00famido e forma-se uma grande biomassa, principalmente de pastos (palha), que cobre o solo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez mortas, as folhas desse manto de plantas s\u00e3o incorporadas ao solo e, devido \u00e0 lenta decomposi\u00e7\u00e3o causada pelas baixas temperaturas, a mat\u00e9ria org\u00e2nica se acumula no solo. A vegeta\u00e7\u00e3o densa e o solo org\u00e2nico fazem com que todo o ecossistema se comporte como uma esponja, retendo grande parte da abundante \u00e1gua que cai, distribuindo-a para \u00e1reas \u00famidas, c\u00f3rregos e rios, formando assim a base do sistema h\u00eddrico de uma parte importante da Am\u00e9rica do Sul. Esse servi\u00e7o ecossist\u00eamico assegura o equil\u00edbrio ecol\u00f3gico muito al\u00e9m da zona montanhosa, e n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que, sem os p\u00e1ramos, os vales interandinos, a floresta amaz\u00f4nica e a floresta tropical do Pac\u00edfico n\u00e3o seriam como os conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p>O papel do p\u00e1ramo no fornecimento de \u00e1gua para o continente n\u00e3o \u00e9 apenas fundamental do ponto de vista ecol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m social e econ\u00f4mico. Mais da metade da popula\u00e7\u00e3o dos Andes do Norte, incluindo toda a popula\u00e7\u00e3o de Bogot\u00e1 e Quito, pega \u00e1gua diretamente do p\u00e1ramo, t\u00e3o pura que quase n\u00e3o precisa de tratamento para potabiliza\u00e7\u00e3o. Em ambos os pa\u00edses, a gera\u00e7\u00e3o de eletricidade depende em grande parte da \u00e1gua originada na alta montanha. E a agricultura andina de flores e batatas, e at\u00e9 mesmo as extensas planta\u00e7\u00f5es de arroz e verduras na costa des\u00e9rtica do norte do Peru, s\u00e3o irrigadas com \u00e1gua dos p\u00e1ramos por meio de sistemas de canais com mais de cem quil\u00f4metros de comprimento.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 a causa da crise h\u00eddrica nos Andes do Norte?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As anomalias nos padr\u00f5es de precipita\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos anos, causadas pelo aquecimento global e por fen\u00f4menos El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a mais irregulares do que antes, contribu\u00edram para que esse ano fosse extremamente seco em toda a cordilheira andina. Esse volume menor de \u00e1gua na forma de chuva e neblina no p\u00e1ramo, por sua vez, resultou em menos \u00e1gua sendo distribu\u00edda para c\u00f3rregos, rios e reservat\u00f3rios de \u00e1gua pot\u00e1vel e energia hidrel\u00e9trica. Isso levou ao esgotamento das reservas das torres de \u00e1gua nas montanhas, o que est\u00e1 causando cortes nos servi\u00e7os p\u00fablicos b\u00e1sicos do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a culpa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 apenas da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, que s\u00f3 acelerou a crise. Durante d\u00e9cadas, os p\u00e1ramos receberam pouca aten\u00e7\u00e3o da sociedade andina e de seus governos. Enquanto isso, in\u00fameras atividades agr\u00edcolas descontroladas, como o cultivo mal planejado de batatas, o sobrepastoreio e a queima associada da vegeta\u00e7\u00e3o, devastaram a vegeta\u00e7\u00e3o natural do p\u00e1ramo e corroeram seus solos negros e org\u00e2nicos, danificando assim a esponja natural das altas montanhas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, os agricultores dos altos Andes, marginalizados pelas institui\u00e7\u00f5es governamentais, n\u00e3o conseguiram aplicar pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis em suas fazendas e foram for\u00e7ados a ir ainda mais longe no p\u00e1ramo para encontrar outras terras para suas planta\u00e7\u00f5es e animais. Por fim, projetos de investimento econ\u00f4mico, como minera\u00e7\u00e3o de metais, constru\u00e7\u00e3o de estradas e barragens hidrel\u00e9tricas, contribu\u00edram para a degrada\u00e7\u00e3o do p\u00e1ramo. Essa destrui\u00e7\u00e3o ambiental tem sido a verdadeira causa da perda da capacidade dos p\u00e1ramos de regular a \u00e1gua nos Andes, e a mudan\u00e7a clim\u00e1tica \u00e9 \u201capenas\u201d um fator que acelera essa crise.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma mudan\u00e7a de rumo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00faltima d\u00e9cada, ap\u00f3s muitos alertas do meio acad\u00eamico e de ONGs, e gra\u00e7as \u00e0s revoltas das comunidades rurais andinas em defesa do territ\u00f3rio e da \u00e1gua e, principalmente, contra a minera\u00e7\u00e3o, os problemas que afetam o p\u00e1ramo come\u00e7aram a se tornar mais vis\u00edveis. Hoje, grande parte dos andinos est\u00e1 ciente da rela\u00e7\u00e3o entre o p\u00e1ramo e o acesso \u00e0 \u00e1gua e de que \u00e9 necess\u00e1rio cuidar da torre de \u00e1gua com suas esponjas naturais. Finalmente, o p\u00e1ramo atrai a aten\u00e7\u00e3o do sistema pol\u00edtico e da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas ser\u00e1 que \u00e9 tarde demais? Perdemos a batalha contra a degrada\u00e7\u00e3o ambiental? Felizmente, n\u00e3o. O setor p\u00fablico, as comunidades rurais, o meio acad\u00eamico e as ONGs est\u00e3o investindo esfor\u00e7os e recursos na gest\u00e3o sustent\u00e1vel do p\u00e1ramo. Mais da metade desse ecossistema j\u00e1 est\u00e1 inclu\u00edda em diferentes formas de conserva\u00e7\u00e3o, e o restante est\u00e1 sob legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para proteg\u00ea-lo. Atualmente, h\u00e1 compensa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel para os agricultores que decidem conservar ou restaurar suas terras, e h\u00e1 cada vez mais iniciativas ecologicamente corretas baseadas em agricultura sustent\u00e1vel ou ecoturismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora estejamos no caminho certo, ainda falta um pacto entre todos os setores da sociedade para reconhecer a responsabilidade coletiva e individual de manejar os recursos h\u00eddricos e energ\u00e9ticos inteligentemente, apoiar os habitantes rurais da alta montanha a serem aliados na gest\u00e3o ambiental e para dar ao p\u00e1ramo o status que merece: um ecossistema fundamental para o futuro dos Andes.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Texto produzido em conjunto com o Instituto Interamericano de Pesquisas sobre Mudan\u00e7as Globais (IAI). As opini\u00f5es expressas nesta publica\u00e7\u00e3o s\u00e3o de responsabilidade dos autores e n\u00e3o necessariamente de suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O papel do p\u00e1ramo no fornecimento de \u00e1gua para o continente n\u00e3o \u00e9 apenas fundamental do ponto de vista ecol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m social e econ\u00f4mico.<\/p>\n","protected":false},"author":684,"featured_media":45416,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16715,16717,17102],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-45438","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ecuador-pt-br","8":"category-colombia-pt-br","9":"category-biodiversidad-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/684"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45438"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45438\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45416"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45438"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=45438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}