{"id":4559,"date":"2021-04-01T08:45:00","date_gmt":"2021-04-01T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4559"},"modified":"2021-03-30T06:23:53","modified_gmt":"2021-03-30T09:23:53","slug":"os-genocidas-do-mercado-financeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-genocidas-do-mercado-financeiro\/","title":{"rendered":"Os \u2018genocidas\u2019 do mercado financeiro"},"content":{"rendered":"\n<p>Brasil vive um dos momentos mais tr\u00e1gicos da sua hist\u00f3ria, mas em 2020, que terminou com 195 mil mortos pela Covid-19 e um PIB que encolheu 4%, a movimenta\u00e7\u00e3o financeira na Bolsa de Valores (B3) bateu recorde de pontos e de volume negociado. O \u00cdndice Bovespa ultrapassou a marca in\u00e9dita de 120 mil pontos e o volume negociado foi de R$ 35 trilh\u00f5es, quase cinco vezes o PIB do ano. Como isso foi poss\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O capitalismo financeiro brasileiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No caso brasileiro, o pacote do Banco Central de socorro ao sistema financeiro no valor de R$ 1,2 trilh\u00e3o, anunciado em mar\u00e7o de 2020, contribuiu para que os ganhos financeiros crescessem na mesma propor\u00e7\u00e3o das mortes por Covid-19 no Pa\u00eds. Vale dizer, que a justificativa para o tal pacote era garantir a liquidez dos bancos nas suas opera\u00e7\u00f5es com os clientes.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.ie.ufrj.br\/images\/IE\/grupos\/OSF\/osf_restrospectiva2020_20210201_FINAL.pdf\">Estudo do Instituto de Economia da Universidade Federal de Rio de Janeiro (UFRJ)<\/a>, mostra que pouco mais de 10% deste valor foi efetivamente disponibilizado para o cr\u00e9dito a empresas com dificuldades, em meio \u00e0 pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Antonio Gramsci j\u00e1 havia constatado que a fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do fascismo \u00e9 colocar a pequena burguesia e seu discurso antissistema, bases do movimento fascista, a servi\u00e7o do capital monopolista financeiro, em tempos de crise. O \u201cneofascismo\u201d do atual presidente Jair Bolsonaro com seus 20 a 30% de seguidores na popula\u00e7\u00e3o e a condu\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do ministro Paulo Guedes parecem confirmar o diagn\u00f3stico gramsciano.<\/p>\n\n\n\n<p>O que constatamos hoje no capitalismo brasileiro, vem sendo gestado desde a crise de 2008, que chega ao Brasil somente com a queda dos pre\u00e7os das <em>commodities<\/em> em 2011. Assistimos, a partir da\u00ed, a um duplo movimento que redundou no Golpe de 2016: o aprofundamento da financeiriza\u00e7\u00e3o em escala global e no Brasil; e uma renovada expans\u00e3o do capital monopolista internacional sobre a economia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio a um ambiente global de enormes massas de capital excedente em busca de valoriza\u00e7\u00e3o, o Brasil se viu sob a press\u00e3o de grandes grupos econ\u00f4micos por desnacionaliza\u00e7\u00f5es, privatiza\u00e7\u00f5es, flexibiliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho e aprofundamento do ajuste fiscal \u2013 a tal \u201cagenda de reformas\u201d, segundo a m\u00eddia, ou simplesmente \u201cagenda ultraneoliberal\u201d, em curso desde o governo de Michel Temer.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o por acaso, o volume negociado na Bolsa mais que dobrou nos \u00faltimos quatro anos, se descolando aceleradamente da economia real. Em 2016, ano do Golpe contra a ex presidenta Dilma Rousseff, somava um pouco mais de duas vezes o PIB, alcan\u00e7ando hoje a cifra j\u00e1 mencionada de quase cinco vezes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os agentes do mercado financeiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>No controle dos grupos econ\u00f4micos (estrangeiros e dom\u00e9sticos) est\u00e3o, normalmente, institui\u00e7\u00f5es financeiras como bancos, <em>holdings<\/em> e fundos de investimento. S\u00e3o estas institui\u00e7\u00f5es que comandam o cassino financeiro, drenando para os seus acionistas e cotistas a riqueza gerada pela popula\u00e7\u00e3o, por meio do seu trabalho e do pagamento de d\u00edvidas, taxas e tributos. Elas se veem, hoje, plenamente representadas no Minist\u00e9rio da Economia do Paulo Guedes (ex-s\u00f3cio fundador do BTG Pactual) e no, agora \u201caut\u00f4nomo\u201d, Banco Central do Roberto Campos Neto (ex-agente de mercado do Santander).<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o elas, portanto, que sustentam Bolsonaro e sua camarilha das For\u00e7as Armadas, comandadas hoje por uma oficialidade, da gera\u00e7\u00e3o de 1964, intelectualmente indigente e politicamente servil \u00e0 agenda neoliberal. \u00c9, pois, na \u201cFaria Lima\u201d, avenida de S\u00e3o Paulo que re\u00fane a nata do setor financeiro, que est\u00e3o os principais respons\u00e1veis, juntamente com o t\u00edtere Bolsonaro, pelo estado de calamidade em que j\u00e1 se contam mais de 300 mil mortos por Covid-19, fruto do negacionismo bolsonarista.<\/p>\n\n\n\n<p>Em nome das tais \u201creformas econ\u00f4micas\u201d, eles se disp\u00f5em a sacrificar princ\u00edpios liberais democr\u00e1ticos e a sustentar sa\u00eddas autocr\u00e1ticas. At\u00e9 porque, sabem que o car\u00e1ter antissocial destas reformas exige <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-que-bolsonaro-tem-na-cabeca-ao-declarar-que-o-brasil-esta-quebrado\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">um governo capaz de imp\u00f4-las a ferro e fogo \u00e0 sociedade<\/a>. \u00c0 exemplo da aprova\u00e7\u00e3o pelo governo da chamada Proposta de Emenda Constitucional (PEC) Emergencial, que, em troca de um aux\u00edlio emergencial de m\u00edseros 250 reais, asfixia ainda mais o gasto p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente, os da Faria Lima atuam para o \u201cgenoc\u00eddio\u201d da popula\u00e7\u00e3o brasileira h\u00e1 tempos, por\u00e9m hoje, o escancaramento deste \u201cnecrogoverno\u201d que sustentam, imp\u00f5e que n\u00e3o haja meias palavras sobre a responsabilidade deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, quem s\u00e3o eles? Uma pista \u00e9 olhar para as institui\u00e7\u00f5es financeiras que se re\u00fanem em torno da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Entidades do Mercado Financeiro e de Capitais (ANBIMA). A ANBIMA \u00e9 respons\u00e1vel por autorregular o mercado financeiro, juntamente com a autarquia p\u00fablica, a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios (CVM).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A regulariza\u00e7\u00e3o do mercado financeiro como tarefa pendente<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 se tornou comum chamar a aten\u00e7\u00e3o para elite financeira como aquela que, de fato, d\u00e1 as cartas na vida pol\u00edtica. Mas, diante da situa\u00e7\u00e3o extrema que vivemos no pa\u00eds, isso se mostra insuficiente. \u00c9 preciso nomear, chamar \u00e0 responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Os endinheirados se acostumaram a ver seus rendimentos se multiplicarem sem se interessarem por saber como tal multiplica\u00e7\u00e3o se faz no mundo real \u2013 como algu\u00e9m j\u00e1 disse, na \u00f3rbita financeira n\u00e3o h\u00e1 qualquer co\u00e1gulo de humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma r\u00e1pida olhada na composi\u00e7\u00e3o da diretoria da ANBIMA, identificamos algumas destas institui\u00e7\u00f5es que comandam a banca. Destaque para os representantes dom\u00e9sticos do Ita\u00fa\/Unibanco, BTG Pactual, Bradesco, XP Investimentos, Votorantim e Safra; e no caso de grupos estrangeiros: Santander, Blackrock, Brookfield, Credit Suisse, JP Morgan e BNP Paribas.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de institui\u00e7\u00f5es poderos\u00edssimas, algumas delas com o capital bem maior que o PIB brasileiro, mas por isso mesmo precisam ser expostas. Retiremos, pois, o v\u00e9u do chamado \u201cmercado financeiro\u201d, que nada mais \u00e9 do que uma organiza\u00e7\u00e3o que, sob a justificativa do direcionamento de poupan\u00e7a interna e externa para o setor produtivo, atua efetivamente como um parasita que corr\u00f3i o organismo hospedeiro.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se tem a expectativa de sensibilizar os agentes financeiros. Como diz, tamb\u00e9m, Gramsci \u00e9 um erro esperar que a pr\u00f3pria burguesia fizesse resist\u00eancia ao fascismo. Seria o mesmo que reconhecer que na recente iniciativa da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2021\/03\/banqueiros-e-economistas-pedem-medidas-efetivas-de-combate-a-pandemia-em-carta-aberta.shtml\">\u201cCarta Aberta \u00e0 Sociedade Referente a Medidas de Combate \u00e0 Covid\u201d<\/a>, a chamada \u201ccarta de economistas e banqueiros\u201d, houvesse um sentido de oposi\u00e7\u00e3o ao governo Bolsonaro.<\/p>\n\n\n\n<p>Se trata de uma carta tardia que se limita, em meio ao colapso no sistema de sa\u00fade, a apontar gargalos na gest\u00e3o da pandemia, conhecidos e propalados h\u00e1 muito tempo. J\u00e1 as proposi\u00e7\u00f5es para garantir renda e prote\u00e7\u00e3o social s\u00e3o superficiais se considerarmos que se tratam de economistas. Talvez isso se deva ao fato de que tais propostas os levariam a ter que expor sua defesa intransigente da redu\u00e7\u00e3o, neste momento t\u00e3o cr\u00edtico, do gasto p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o intuito aqui \u00e9 bem menos pretensioso. Simplesmente, nomear, tirar da sombra, responsabilizar publicamente a elite financeira, para que o debate se instale, pelo menos, de forma mais clara e direta. Com a palavra, universidades, organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais, sobre a urg\u00eancia de se exercer um controle, um monitoramento social do mercado financeiro.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Rafael Matsunaga<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil est\u00e1 passando por um dos momentos mais tr\u00e1gicos de sua hist\u00f3ria e com uma contra\u00e7\u00e3o do PIB de 4%. Mas o movimento financeiro na Bolsa de Valores bateu recordes. 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