{"id":45601,"date":"2024-11-28T09:00:00","date_gmt":"2024-11-28T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=45601"},"modified":"2024-11-27T16:07:29","modified_gmt":"2024-11-27T19:07:29","slug":"milei-e-trump-um-remake-das-relacoes-carnais-da-era-menemista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/milei-e-trump-um-remake-das-relacoes-carnais-da-era-menemista\/","title":{"rendered":"Milei e Trump: um remake das \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d da era menemista?"},"content":{"rendered":"\n<p>A recente reelei\u00e7\u00e3o de Donald Trump nos Estados Unidos gerou descontentamento em v\u00e1rios governos latino-americanos de centro-esquerda &#8211; seja em pa\u00edses de peso, como Brasil, M\u00e9xico e Col\u00f4mbia, ou em na\u00e7\u00f5es menores, como Guatemala e Honduras &#8211; que sentiram que a continuidade, representada pela f\u00f3rmula Harris-Walz, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/harris-o-trump-que-es-mejor-para-latinoamerica\/\">oferecia mais possibilidades de di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o<\/a>. Entretanto, nem todos os governantes da regi\u00e3o receberam com desagrado a vit\u00f3ria do ex-presidente republicano. Na Argentina, a elei\u00e7\u00e3o de Trump foi recebida com entusiasmo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Um c\u00famplice na Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio da maioria de seus vizinhos regionais, o presidente da Argentina, Javier Milei, nunca escondeu sua simpatia pelo republicano. Em uma reuni\u00e3o recente na CPAC (Confer\u00eancia de A\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Conservadora), Milei abra\u00e7ou Trump com entusiasmo e se declarou parte do movimento \u201cMAGA\u201d, que, de acordo com o presidente argentino, significa n\u00e3o apenas \u201cMake America Great Again\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cMake Argentina Great Again\u201d. Depois de eleito, Trump n\u00e3o apenas convidou Milei para uma recep\u00e7\u00e3o em sua resid\u00eancia em Mar-a-Lago, mas <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/trump-e-milei-se-encontram-em-evento-na-florida\/\">ambos apareceram sorridentes ao lado de Elon Musk, propriet\u00e1rio do X (antigo Twitter)<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>A proximidade entre Milei e os Estados Unidos, no entanto, n\u00e3o \u00e9 nova nem se limita \u00e0 figura de Trump. Inclusive, durante a administra\u00e7\u00e3o de Joe Biden, o governo argentino mostrou um alinhamento not\u00e1vel com a pol\u00edtica externa dos Estados Unidos, especialmente em f\u00f3runs como a ONU. De fato, quando a representante da Argentina, Diana Mondino, votou contra o embargo estadunidense a Cuba na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas, ela foi imediatamente substitu\u00edda como ministra das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores. Essa mudan\u00e7a mais uma vez enfatizou a centralidade dos Estados Unidos na pol\u00edtica externa do governo Milei.<\/p>\n\n\n\n<p>Dada a evidente afinidade pessoal e ideol\u00f3gica entre Milei e Trump, vale a pena perguntar se esta \u00e9 uma nova era de \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d entre a Argentina e os Estados Unidos. A express\u00e3o, cunhada pelo ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Carlos Menem (1989-1999), Guido Di Tella, na d\u00e9cada de 1990, referia-se ao estreito alinhamento com os Estados Unidos, no contexto da hegemonia global norte-americana, com o objetivo de obter benef\u00edcios pol\u00edticos e econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora essa postura tenha encontrado apoio te\u00f3rico no \u201crealismo perif\u00e9rico\u201d do cientista pol\u00edtico Carlos Escud\u00e9, na pr\u00e1tica implicava um alinhamento quase total com as pol\u00edticas dos Estados Unidos, fosse no governo republicano de George H. W. Bush (1989-1993) ou no governo democrata de Bill Clinton (1993-2001). Esse alinhamento incluiu o apoio constante \u00e0s posturas estadunidenses nas Na\u00e7\u00f5es Unidas e a promo\u00e7\u00e3o de iniciativas controversas, como a ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas) e a participa\u00e7\u00e3o da Argentina na coaliz\u00e3o liderada pelos Estados Unidos durante a Guerra do Golfo (1990-1991), com apoio militar direto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Milei, um reflexo de Menem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Milei se declarou abertamente um admirador do governo de Menem. Recentemente, o presidente argentino, acompanhado por Zulema Menem, filha do ex-presidente, <a href=\"https:\/\/www.casarosada.gob.ar\/slider-principal\/50489-el-gobierno-nacional-coloco-el-busto-presidencial-de-carlos-menem-en-el-hall-de-honor-de-casa-rosada\">inaugurou um busto do ex-presidente na Casa Rosada<\/a>. Ao longo de sua carreira, Milei fez in\u00fameras refer\u00eancias ao per\u00edodo Menem, destacando particularmente a figura de Domingo Cavallo, Ministro da Economia entre 1991 e 1999, conhecido por promover reformas econ\u00f4micas liberais e por estabelecer o regime de conversibilidade, que estabeleceu uma paridade fixa entre o peso argentino e o d\u00f3lar, aproximando-se de fato a uma dolariza\u00e7\u00e3o da economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Milei, Cavallo \u00e9 \u201co melhor ministro da economia de toda a hist\u00f3ria\u201d, e seu modelo de dolariza\u00e7\u00e3o continua sendo uma refer\u00eancia central na agenda econ\u00f4mica do presidente. Portanto, fica claro que a associa\u00e7\u00e3o entre Milei e Menem vai muito al\u00e9m da coincid\u00eancia de suas iniciais e de seus estilos pessoais caracter\u00edsticos. Ambos representam uma combina\u00e7\u00e3o de liberalismo econ\u00f4mico radical e um v\u00ednculo estreito com os Estados Unidos em mat\u00e9ria de pol\u00edtica externa. De fato, mesmo durante a presid\u00eancia de Biden, j\u00e1 era poss\u00edvel falar de uma vers\u00e3o renovada das \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d entre a Argentina e os Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, essa disposi\u00e7\u00e3o de se alinhar com os Estados Unidos se tornou ainda mais evidente com a elei\u00e7\u00e3o de Trump. Essa mudan\u00e7a n\u00e3o se deve apenas ao contexto pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m a uma coincid\u00eancia ideol\u00f3gica significativa entre o presidente republicano e o argentino. O movimento MAGA n\u00e3o \u00e9 apenas um acr\u00f4nimo, mas uma agenda pol\u00edtica compartilhada por ambos os governos. Internamente, inclui uma rejei\u00e7\u00e3o extrema da esquerda &#8211; identificada na pr\u00e1tica pela desqualifica\u00e7\u00e3o de qualquer advers\u00e1rio pol\u00edtico como \u201csocialista\u201d ou \u201ccomunista\u201d, incluindo os aliados do PRO (Proposta Republicana) de Mauricio Macri, que Milei <a href=\"https:\/\/x.com\/JMilei\/status\/924968484286685184\">descreveu como \u201csocialistas amarelos\u201d <\/a>-; uma oposi\u00e7\u00e3o frontal aos direitos reprodutivos e LGBT; e a promo\u00e7\u00e3o de uma economia desregulamentada e desburocratizada.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito externo, essa agenda se reflete em um forte apoio a Israel, um endurecimento da ret\u00f3rica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 China e um desd\u00e9m pelas institui\u00e7\u00f5es multilaterais associadas \u00e0 ordem internacional liberal, como as Na\u00e7\u00f5es Unidas e a OMC.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, embora possamos falar de \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d entre o governo de Milei e o de Trump, elas n\u00e3o s\u00e3o as mesmas da d\u00e9cada de 1990. As rela\u00e7\u00f5es de Menem com os Estados Unidos eram guiadas por um pragmatismo estrat\u00e9gico que buscava benef\u00edcios concretos por meio da proximidade com a pot\u00eancia hegem\u00f4nica. Em contraste, as que est\u00e3o sendo forjadas entre Milei e Trump baseiam-se na afinidade ideol\u00f3gica e em uma vis\u00e3o de mundo compartilhada que busca desafiar os princ\u00edpios da ordem internacional liberal da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa nova era de rela\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m ter\u00e1 implica\u00e7\u00f5es significativas para a pol\u00edtica externa da Argentina na regi\u00e3o e no mundo. \u00c9 prov\u00e1vel que os conflitos com governos de esquerda se intensifiquem, sejam eles autocr\u00e1ticos, como os de Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela, ou democr\u00e1ticos, como os do M\u00e9xico e da Col\u00f4mbia, cujos presidentes<a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/internacional\/exclusivo-cnn-milei-chama-gustavo-petro-de-assassino-terrorista-e-lopez-obrador-de-ignorante\/\"> foram descritos por Milei como \u201cignorantes\u201d e \u201cassassinos\u201d, respectivamente.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, em seu alinhamento com Washington, o governo argentino poderia discordar cada vez mais de parceiros estrat\u00e9gicos como o Brasil, o Chile e agora tamb\u00e9m o Uruguai, ao contr\u00e1rio da pol\u00edtica externa de Menem, dadas as necessidades comerciais do momento. Por outro lado, embora o v\u00ednculo com o <a href=\"https:\/\/www.argentina.gob.ar\/noticias\/el-fmi-aprobo-un-desembolso-para-argentina-de-usd-4700-millones-y-destaco-el-plan-de\">FMI continue forte<\/a>, a Argentina ter\u00e1 que se distanciar progressivamente de outras organiza\u00e7\u00f5es multilaterais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, as novas \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d entre a Argentina e os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o um simples retorno ao passado, mas um reflexo de um contexto global profundamente transformado. Enquanto Milei retoma parte da agenda econ\u00f4mica menemista, o relacionamento com os Estados Unidos parece estar cada vez mais orientado por uma cr\u00edtica radical dos valores universais da d\u00e9cada de 1990 e da ordem internacional liberal que eles sustentavam. Essa mudan\u00e7a marca um novo est\u00e1gio no relacionamento bilateral, no qual a converg\u00eancia ideol\u00f3gica desempenha um papel central.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As novas \u201crela\u00e7\u00f5es carnais\u201d entre a Argentina e os Estados Unidos n\u00e3o s\u00e3o um simples retorno ao passado, mas um reflexo de um contexto global profundamente transformado.<\/p>\n","protected":false},"author":653,"featured_media":45594,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16960,16758,16762],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-45601","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-javier-milei-pt-br","8":"category-donald-trump-pt-br","9":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","10":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45601","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/653"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45601"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45601\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45594"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45601"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=45601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}