{"id":45814,"date":"2024-12-13T09:00:00","date_gmt":"2024-12-13T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=45814"},"modified":"2024-12-12T14:59:24","modified_gmt":"2024-12-12T17:59:24","slug":"como-os-brasileiros-percebem-a-emergencia-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/como-os-brasileiros-percebem-a-emergencia-climatica\/","title":{"rendered":"Como os brasileiros percebem a emerg\u00eancia clim\u00e1tica?"},"content":{"rendered":"\n<p>O Brasil enfrenta um aumento alarmante de eventos clim\u00e1ticos extremos, mais intensos, frequentes e destrutivos. Em 2024, o pa\u00eds foi palco de desastres clim\u00e1ticos de grande magnitude. No Rio Grande do Sul, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/brasil-um-desastre-ambiental-anunciado\/\">enchentes entre abril e maio<\/a> afetaram mais de 875 mil pessoas, gerando muitas mortes e perdas econ\u00f4micas no \u00e2mbito local. Em S\u00e3o Paulo, milh\u00f5es de pessoas ficaram sem energia el\u00e9trica ap\u00f3s fortes chuvas. No Rio de Janeiro, 100 mil pessoas foram impactadas por inunda\u00e7\u00f5es em janeiro. No segundo semestre, a seca recorde na Amaz\u00f4nia e os inc\u00eandios florestais no Centro-Oeste, Norte e Sudeste cobriram 60% do territ\u00f3rio nacional com fuma\u00e7a em setembro, agravando problemas ambientais e de sa\u00fade p\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Essa sequ\u00eancia de eventos n\u00e3o \u00e9 isolada: 2023 j\u00e1 havia sido marcado por chuvas torrenciais em S\u00e3o Paulo e no Rio Grande do Sul e por ondas de calor hist\u00f3ricas. O que antes poderia ser interpretado como exce\u00e7\u00e3o agora se apresenta como regra.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa realidade foi capturada em uma <a href=\"https:\/\/obsinterclima.eco.br\/oimc-e-opel-lancam-relatorio-mapeando-a-percepcao-da-emergencia-climatica-nos-municipios\/\">pesquisa realizada<\/a> pelo Observat\u00f3rio Interdisciplinar das Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (OIMC) da UERJ e pelo Observat\u00f3rio Pol\u00edtico e Eleitoral (OPEL), vinculado \u00e0 UFRJ e UFRRJ, no primeiro semestre de 2024. Utilizando a metodologia de grupos focais, a pesquisa, financiada pelo <a href=\"https:\/\/climaesociedade.org\/\">Instituto Clima e Sociedade<\/a>, analisou as percep\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o sobre a crise clim\u00e1tica em seis cidades brasileiras: Rio de Janeiro, Duque de Caxias, Niter\u00f3i (no estado do Rio de Janeiro), S\u00e3o Paulo, Diadema e Osasco (em S\u00e3o Paulo). Os resultados do estudo s\u00e3o muito reveladores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, as pessoas entrevistadas demonstram amplo reconhecimento social da gravidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e de sua origem antropog\u00eanica. No entanto, os sentimentos que emergem dessa compreens\u00e3o oscilam entre pessimismo e impot\u00eancia, por um lado, e disposi\u00e7\u00e3o a agir individualmente, por outro, evidenciando a quase inexist\u00eancia de formas de engajamento coletivo diante dos desafios clim\u00e1ticos atuais. As a\u00e7\u00f5es mencionadas envolvem a economia de \u00e1gua no cotidiano e a reciclagem de res\u00edduos, enquanto a confian\u00e7a em solu\u00e7\u00f5es coletivas ou em pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 minada por um sentimento de desilus\u00e3o com o poder p\u00fablico, como veremos a seguir.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, a pesquisa revela amplo reconhecimento da gravidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e, complementarmente, percep\u00e7\u00f5es compartilhadas de que as pessoas mais pobres s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis aos impactos, tais como enchentes, ondas prolongadas e mais frequentes de calor extremo, secas e queimadas. Essa constata\u00e7\u00e3o deriva diretamente das experi\u00eancias concretas de vida das pessoas entrevistadas, que relatam como os desastres clim\u00e1ticos j\u00e1 afetam suas rotinas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, a resposta pol\u00edtica e social a essa emerg\u00eancia clim\u00e1tica tem sido marcada por contradi\u00e7\u00f5es. O Brasil ainda lida com o legado de desmonte ambiental promovido pelo governo de Jair Bolsonaro, que enfraqueceu institui\u00e7\u00f5es e fragilizou pol\u00edticas ambientais. O governo Lula III, por sua vez, tenta reconstruir esse terreno institucional, adotando medidas como a cria\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima, a funda\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio dos Povos Ind\u00edgenas e a confirma\u00e7\u00e3o do Brasil como sede da COP 30, em Bel\u00e9m, em 2025. Embora esses esfor\u00e7os representem avan\u00e7os, eles convivem com tens\u00f5es internas da coaliz\u00e3o governamental e com a press\u00e3o de setores econ\u00f4micos ligados ao agroneg\u00f3cio e \u00e0 economia f\u00f3ssil. Exemplo emblem\u00e1tico dessa press\u00e3o \u00e9 a proposta de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo na Margem Equatorial Amaz\u00f4nica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Isso nos leva a um terceiro resultado desta pesquisa que aponta para as limita\u00e7\u00f5es do Estado na produ\u00e7\u00e3o de respostas. Muitos expressaram frustra\u00e7\u00e3o com a falta de a\u00e7\u00f5es concretas por parte dos governos, especialmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 preven\u00e7\u00e3o de desastres e \u00e0 adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica. Isso se soma \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de abandono, sobretudo nas periferias urbanas, onde as condi\u00e7\u00f5es estruturais prec\u00e1rias amplificam os impactos dos eventos clim\u00e1ticos extremos. O pessimismo quanto \u00e0 capacidade do poder p\u00fablico de promover mudan\u00e7as reais \u00e9, em certa medida, reflexo desses processos de vulnerabiliza\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos, classes e grupos sociais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O atual predom\u00ednio de pessimismo e impot\u00eancia dificulta a constru\u00e7\u00e3o de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais ativa e engajada, exigindo, por parte dos governos e da sociedade civil, esfor\u00e7os conjuntos para criar estrat\u00e9gias que fortale\u00e7am o senso de pertencimento e a capacidade de a\u00e7\u00e3o coletiva. \u00c9 fundamental que as pol\u00edticas clim\u00e1ticas sejam mais acess\u00edveis e conectadas \u00e0s realidades locais, reconhecendo as particularidades das periferias urbanas e das popula\u00e7\u00f5es jovens, que enfrentam desafios singulares na luta contra os impactos clim\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um quarto resultado da pesquisa diz respeito \u00e0 confian\u00e7a generalizada na ci\u00eancia, como eixo central para a produ\u00e7\u00e3o de evid\u00eancias e insumos para a formula\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Apesar do negacionismo oficial praticado no governo Bolsonaro em mat\u00e9ria de meio ambiente, clima, vacinas e sa\u00fade em geral, as pessoas entrevistadas apontam para fortes \u00edndices de apoio ao desenvolvimento cient\u00edfico no enfrentamento da emerg\u00eancia clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em quinto lugar, entre as pol\u00edticas p\u00fablicas ressaltadas na pesquisa, a educa\u00e7\u00e3o se destaca como campo pol\u00edtico essencial para se imaginarem alternativas social, ambiental e economicamente sustent\u00e1veis no Brasil. Ao mesmo tempo, percebe-se crescente ceticismo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade do governo e de empresas de se engajarem em processos de transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica justa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esta <a href=\"https:\/\/obsinterclima.eco.br\/seminario-emergencia-climatica-e-politicas-publicas-uma-parceria-entre-oimc-e-opel\/\">contribui\u00e7\u00e3o do OIMC e do OPEL<\/a> confirma, assim que, na percep\u00e7\u00e3o de muitas brasileiras e brasileiros, a emerg\u00eancia clim\u00e1tica deixou de ser um problema do futuro distante, mas uma realidade presente que redefine as condi\u00e7\u00f5es de vida de milh\u00f5es de pessoas. O desafio brasileiro \u00e9, portanto, imenso. A transi\u00e7\u00e3o para um novo modelo de desenvolvimento, envolvendo produ\u00e7\u00e3o, circula\u00e7\u00e3o e consumo, n\u00e3o pode se limitar a discursos ou a medidas simb\u00f3licas, nem se inspirar de experi\u00eancias passados de um desenvolvimentismo predat\u00f3rio e reprodutor de injusti\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As consequ\u00eancias da emerg\u00eancia clim\u00e1tica exigem a\u00e7\u00f5es inovadoras, ousadas, concretas e justas que enfrentem os interesses de setores poderosos e construam alternativas reais para reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa, preservar os biomas, assegurar os direitos humanos e proteger as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, em sua maioria compostas de pessoas negras e pobres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A emerg\u00eancia clim\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 uma for\u00e7a que redefine o presente e exige respostas imediatas n\u00e3o mais pautadas em jogos de soma zero entre prote\u00e7\u00e3o ambiental e desenvolvimento. Planejar hoje com olho no futuro \u00e9 uma necessidade premente. No Brasil, isso significa n\u00e3o apenas lidar com os desastres que se acumulam, mas tamb\u00e9m transformar radicalmente as bases de sua economia pol\u00edtica, de seu modelo de desenvolvimento e suas pol\u00edticas ambientais, energ\u00e9ticas e clim\u00e1ticas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A emerg\u00eancia clim\u00e1tica j\u00e1 \u00e9 uma for\u00e7a que redefine o presente e exige respostas imediatas n\u00e3o mais pautadas em jogos de soma zero entre prote\u00e7\u00e3o ambiental e desenvolvimento.<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":45809,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16728],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-45814","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-brasil-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45814","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45814"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45814\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45809"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45814"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45814"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45814"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=45814"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}