{"id":45870,"date":"2024-12-17T09:00:00","date_gmt":"2024-12-17T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=45870"},"modified":"2024-12-16T12:49:11","modified_gmt":"2024-12-16T15:49:11","slug":"o-comercio-internacional-e-a-perda-da-biodiversidade-na-america-latina-parte-do-problema-e-da-solucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-comercio-internacional-e-a-perda-da-biodiversidade-na-america-latina-parte-do-problema-e-da-solucao\/","title":{"rendered":"O com\u00e9rcio internacional e a perda da biodiversidade na Am\u00e9rica Latina: parte do problema e da solu\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>O que um alem\u00e3o comendo suas tradicionais salsichas, um franc\u00eas degustando seus queijos t\u00edpicos e um italiano vestindo seus famosos sapatos de couro t\u00eam em comum? Todos eles, por meio de seu consumo e costumes, t\u00eam uma parcela de responsabilidade, conscientes disso ou n\u00e3o, pela perda acelerada da biodiversidade nas florestas secas e savanas do centro da Am\u00e9rica do Sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Gran Chaco Sul-americano se estende por Argentina, Paraguai, Bol\u00edvia e Brasil por mais de um milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados, uma \u00e1rea equivalente \u00e0 Fran\u00e7a e \u00e0 Alemanha juntas. Apesar de se estender por latitudes onde outros continentes t\u00eam s\u00f3 desertos, essa regi\u00e3o era coberta por florestas de madeira de lei, savanas e \u00e1reas \u00famidas at\u00e9 30 anos atr\u00e1s. Esses ecossistemas s\u00e3o capazes de absorver grandes quantidades de gases de efeito estufa da atmosfera e abrigam uma rica diversidade biol\u00f3gica e cultural.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desmatamento acelerado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde meados dos anos 1990, os benef\u00edcios que os ecossistemas dessa vasta regi\u00e3o davam \u00e0 sociedade est\u00e3o desaparecendo em um ritmo acelerado devido ao desmatamento para a expans\u00e3o da agricultura e da pecu\u00e1ria comerciais. De fato, o Gran Chaco Sul-americano det\u00e9m o triste recorde de ser uma das regi\u00f5es mais desmatadas do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse fen\u00f4meno \u00e9 impulsionado por donos de terras de Argentina, Paraguai, Bol\u00edvia e Brasil, que substituem florestas e savanas por monoculturas de soja e milho, ou pastagens para o gado.<\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte dos gr\u00e3os, da carne, do couro e do tanino produzidos no Gran Chaco sul-americano \u00e9 exportada para a \u00c1sia e Europa (cerca de 60% e 20%, respectivamente). Isso \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as a uma cadeia de suprimentos e exporta\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas bem azeitada, controlada por poucas empresas multinacionais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A rota das mat\u00e9rias-primas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Essas conex\u00f5es comerciais nocivas \u00e0 biodiversidade s\u00e3o geralmente invis\u00edveis para a sociedade. Felizmente, iniciativas como a Trase Earth (https:\/\/trase.earth) agora permitem rastrear a rota dessas mat\u00e9rias-primas, desde o local onde foram produzidas at\u00e9 o pa\u00eds onde s\u00e3o consumidas. Essa iniciativa sem fins lucrativos foi fundada pelo Stockholm Environment Institute e pela Global Canopy em 2015 para capacitar a sociedade civil e os governos na busca de cadeias de suprimento de mat\u00e9rias-primas livres de desmatamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa, Espanha e It\u00e1lia s\u00e3o os principais importadores de soja e milho do Chaco Argentino, embora o maior volume desses gr\u00e3os v\u00e1 para o Oriente M\u00e9dio e o Sudeste Asi\u00e1tico. Tanto na Europa quanto na \u00c1sia, s\u00e3o usados principalmente para alimentar vacas, porcos e galinhas criados em confinamento. Dessa forma, os produtos \u201cartesanais\u201d do Velho Mundo, como as salsichas alem\u00e3s ou os queijos franceses, s\u00e3o feitos de animais alimentados com gr\u00e3os, cuja produ\u00e7\u00e3o gera altos custos ambientais e sociais no Novo Mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A fabrica\u00e7\u00e3o e o consumo de cal\u00e7ados, bolsas e estofados de carros de luxo na Europa tamb\u00e9m provocam a perda de biodiversidade no Gran Chaco Sul-americano. A Uni\u00e3o Europeia importa dois ter\u00e7os dos couros produzidos no Chaco paraguaio, sendo a It\u00e1lia o principal importador, com 25.000 toneladas de couro por ano. Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, esses couros s\u00e3o curtidos com taninos extra\u00eddos de quebrachos, a principal esp\u00e9cie de \u00e1rvore de madeira dura das florestas do Chaco. No in\u00edcio do s\u00e9culo passado, os quebrachales foram dizimados pelos brit\u00e2nicos. Desde o in\u00edcio dos anos 2000, uma m\u00e9dia de 30.000 hectares de quebrachales no Chaco argentino tem sido cortada anualmente por empresas italianas para extrair tanino para o curtimento de couro.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A responsabilidade dos consumidores e produtores<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que os consumidores europeus e os produtores sul-americanos est\u00e3o fazendo para deter a perda acelerada da biodiversidade no Gran Chaco? As a\u00e7\u00f5es, incluindo as de seus governos, s\u00e3o diversas e dependem de tr\u00eas fatores principais.<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, dependem de como os respons\u00e1veis percebem a perda de biodiversidade que causam. Os grandes donos de terras argentinos administram seus campos no Gran Chaco a partir de seus escrit\u00f3rios em Buenos Aires, a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. De l\u00e1, n\u00e3o veem os corpos de animais selvagens queimados pelo fogo que ordenaram utilizar para \u201climpar\u201d a terra e semear milho, soja ou pasto. O mesmo vale para os alem\u00e3es, que apreciam suas salsichas feitas de porcos alimentados com gr\u00e3os de campos desmatados e queimados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, alguns produtores e consumidores conseguem perceber as consequ\u00eancias negativas de suas decis\u00f5es, mas ainda assim n\u00e3o conseguem mudar sua l\u00f3gica. Esse \u00e9 o caso de muitos produtores que hoje veem como os solos de seus campos est\u00e3o degradados, e o que antes era uma floresta virou um deserto em algumas d\u00e9cadas, mas continuam expandindo o desmatamento cegos pelas extraordin\u00e1rias rendas que obt\u00eam no curto prazo. S\u00f3 especulando sobre o pre\u00e7o da terra, um propriet\u00e1rio pode comprar terras florestadas no Chaco boliviano por US$100 a US$250 por hectare e depois vender cada hectare desmatado por US$2.500.<\/p>\n\n\n\n<p>Em terceiro lugar, os respons\u00e1veis pela perda de biodiversidade no Gran Chaco podem querer reverter os danos causados por suas decis\u00f5es de produ\u00e7\u00e3o ou consumo, mas nem sempre conseguem contribuir efetivamente para a solu\u00e7\u00e3o. Por exemplo, um italiano que se conscientiza de que uma marca de sapatos em seu pa\u00eds usa couro curtido com taninos provenientes da extra\u00e7\u00e3o ilegal de \u00e1rvores de quebracho do Chaco pode optar por comprar outra marca. Entretanto, a decis\u00e3o de poucos compradores conscientes n\u00e3o ser\u00e1 suficiente para impedir que a It\u00e1lia importe couro e taninos de \u00e1reas desmatadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Transformando o com\u00e9rcio internacional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente, um n\u00famero crescente de consumidores europeus percebe que suas decis\u00f5es de consumo t\u00eam impactos negativos no outro lado do mundo. Muitos deles se importam e est\u00e3o dispostos a apoiar pol\u00edticas de regulamenta\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es. Por exemplo, a Uni\u00e3o Europeia promoveu uma normativa para que seus estados-membros deixem de importar gr\u00e3os e carne de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/devemos-deter-a-perda-da-biodiversidade\/\">\u00e1reas desmatadas<\/a> ap\u00f3s 2020, por exemplo, no Gran Chaco e em outras regi\u00f5es da Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, a entrada em vigor desta normativa da Uni\u00e3o Europeia, prevista para 2025, foi adiada em resposta ao lobby de multinacionais como Bunge, Cargill e JBS, ou da Sociedade Rural Argentina e do Partido Popular Europeu, entre outros. Essa postura demonstra claramente que muitos produtores sul-americanos, exportadores multinacionais e consumidores europeus ainda n\u00e3o est\u00e3o dispostos a interromper a perda acelerada de biodiversidade causada por suas a\u00e7\u00f5es, mesmo que isso coloque em risco seus pr\u00f3prios neg\u00f3cios e o bem-estar da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Devido \u00e0s regras atuais do com\u00e9rcio internacional de mat\u00e9rias-primas, temos produtores cegos por rendas extraordin\u00e1rias em um lado do mundo, causando danos ambientais invis\u00edveis aos consumidores do outro lado do mundo. Uma mudan\u00e7a nas regras do com\u00e9rcio internacional de mat\u00e9rias-primas pode reverter essa situa\u00e7\u00e3o? Para isso, cabe primeiro identificar quem tem o poder de transformar o com\u00e9rcio internacional e, em seguida, se eles t\u00eam incentivo ou press\u00e3o suficiente para fazer isso. Cabe a eles fazer com que o com\u00e9rcio internacional seja parte da solu\u00e7\u00e3o para a perda de biodiversidade, em vez de continuar a ser o principal causador do problema.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Texto produzido em conjunto com o Instituto Interamericano de Pesquisas sobre Mudan\u00e7as Globais (IAI). As opini\u00f5es expressas nesta publica\u00e7\u00e3o s\u00e3o de responsabilidade dos autores e n\u00e3o necessariamente de suas organiza\u00e7\u00f5es.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Gran Chaco Sul-americano \u00e9 capaz de absorver grandes quantidades de gases de efeito estufa da atmosfera e abrigar uma rica diversidade biol\u00f3gica e cultural.<\/p>\n","protected":false},"author":435,"featured_media":45865,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16742,17102],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-45870","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-comercio-pt-br","8":"category-biodiversidad-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45870","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/435"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45870"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45870\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45865"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45870"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45870"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45870"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=45870"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}