{"id":45965,"date":"2024-12-23T09:00:00","date_gmt":"2024-12-23T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=45965"},"modified":"2024-12-23T13:53:54","modified_gmt":"2024-12-23T16:53:54","slug":"america-latina-futuro-vip","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-futuro-vip\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina: Futuro V.I.P."},"content":{"rendered":"\n<p>O dicion\u00e1rio etimol\u00f3gico explica que o acr\u00f4nimo \u201cVery Important Person\u201d tem sua origem na d\u00e9cada de 1930. Os respons\u00e1veis por sua populariza\u00e7\u00e3o teriam sido os pilotos da&nbsp; <em>Royal Air Force<\/em> (brit\u00e2nica), que costumavam usar as iniciais para despistar o inimigo quando mobilizavam militares de alto escal\u00e3o em suas aeronaves.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, V.I.P. est\u00e1 associado a algu\u00e9m que desfruta de privil\u00e9gios concedidos por status social, influ\u00eancia ou import\u00e2ncia. Chefes de estado, magnatas, esportistas e artistas de classe mundial adquirem a cobi\u00e7ada distin\u00e7\u00e3o que os separa do resto dos mortais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A transposi\u00e7\u00e3o das iniciais do uso pessoal para o uso regional levanta quest\u00f5es: a Am\u00e9rica Latina ser\u00e1 uma zona VIP no concerto global em 2050 ou perderemos relev\u00e2ncia para outras regi\u00f5es? Seremos importantes devido ao crescente desenvolvimento econ\u00f4mico, poder financeiro ou import\u00e2ncia populacional?<\/p>\n\n\n\n<p>Vamos analisar isso letra por letra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>V.I.P. come\u00e7a com \u201cV.\u201d &#8211; de velha<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o demogr\u00e1fica est\u00e1 <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/por-que-a-economia-do-cuidado-e-importante\/\">envelhecendo as sociedades latino-americanas<\/a>. De uma popula\u00e7\u00e3o total de 170 milh\u00f5es em 1950, 40% (70 milh\u00f5es) tinham menos de 15 anos de idade e apenas 3% (pouco mais de 5 milh\u00f5es) eram representados por adultos com mais de 65 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2025, os menores de 15 anos representar\u00e3o 22% de uma popula\u00e7\u00e3o estimada de 668 milh\u00f5es, enquanto os maiores de 65 anos ter\u00e3o triplicado para 10%. O n\u00famero total de jovens atingiu o pico em 2000, chegando a 168 milh\u00f5es. Desde ent\u00e3o, esse segmento da popula\u00e7\u00e3o vem caindo em termos absolutos. Hoje s\u00e3o 148 milh\u00f5es (sim, 20 milh\u00f5es a menos).<\/p>\n\n\n\n<p>Daqui a pouco, em apenas 20 anos, as Na\u00e7\u00f5es Unidas projetam que o n\u00famero de adultos mais velhos ser\u00e1 igual ao n\u00famero de menores de 15 anos &#8211; 125 milh\u00f5es cada (cerca de 17% do total em cada caso). E ainda mais cedo, em 2040, estima-se que a popula\u00e7\u00e3o em idade ativa (de 15 a 65 anos) come\u00e7ar\u00e1 a se contrair.<\/p>\n\n\n\n<p>Est\u00e1 claro que o futuro da Am\u00e9rica Latina \u00e9 um cen\u00e1rio de cabelos brancos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cI.\u201d &#8211; de infecunda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As fam\u00edlias numerosas de nossas av\u00f3s, com seis ou mais filhos, s\u00e3o coisa do passado. Os almo\u00e7os entre gera\u00e7\u00f5es com mesas para doze pessoas e mais de vinte comensais s\u00e3o visualizados apenas em nossas mem\u00f3rias ( este autor tem 47 anos) ou em s\u00e9ries hist\u00f3ricas na Netflix.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados do Banco Mundial indicam que, em 1960, a Taxa de Fertilidade Total (TFT) estava pr\u00f3xima ou acima de 6 em todos os pa\u00edses, exceto Argentina, Chile, Cuba e Uruguai &#8211; onde era inferior a 5. M\u00e3es de 6 filhos s\u00e3o atualmente uma raridade. Na Figura, a TFT despencou durante as d\u00e9cadas de 1970-80 e continua sua tend\u00eancia de queda (TFT \u00e9 o n\u00famero m\u00e9dio de filhos que uma mulher teria se vivesse todo o seu ciclo reprodutivo e experimentasse os padr\u00f5es de fertilidade espec\u00edficos de cada ano que observamos empiricamente).<\/p>\n\n\n\n<p>Dois \u00e9 o n\u00famero \u201cm\u00e1gico\u201d de TFT que uma sociedade precisa para manter sua popula\u00e7\u00e3o constante no m\u00e9dio prazo. Substituir os falecidos por rec\u00e9m-nascidos. Como pode ser visto na Figura, desde 2018 a Am\u00e9rica Latina est\u00e1 <a href=\"https:\/\/www.swissinfo.ch\/spa\/latinoam%C3%A9rica-y-caribe-tuvo-en-2024-la-peor-tasa-de-fecundidad-de-la-historia,-seg%C3%BAn-cepal\/82625542\">um pouco abaixo desse n\u00famero<\/a>. Os pa\u00edses que lideraram essa queda s\u00e3o: Argentina, Brasil, Chile, Costa Rica, Col\u00f4mbia, Cuba, El Salvador, Jamaica e Uruguai. Algumas capitais, como Bogot\u00e1, Buenos Aires, San Jos\u00e9 e Santiago, exibem o que os dem\u00f3grafos chamam de taxas de fertilidade ultrabaixas &#8211; n\u00edveis de 1,5 ou menos.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro da fertilidade na Am\u00e9rica Latina \u00e9 incerto. Embora n\u00e3o tanto. A queda na fertilidade faz parte de um fen\u00f4meno mundial. Os especialistas dizem que isso se deve a uma causa b\u00e1sica que, em combina\u00e7\u00e3o com certos fatores contextuais, determina a velocidade com que os pais deixam de formar fam\u00edlias grandes. A causa principal opera em longo prazo e \u00e9 a queda na taxa de mortalidade da popula\u00e7\u00e3o, que geralmente se concentra na mortalidade infantil. \u00c0 medida que mais e mais filhos sobrevivem, os pais decidem produzir e criar menos filhos (presumivelmente com melhores condi\u00e7\u00f5es de vida).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 agravado por fatores importantes, como o aumento da educa\u00e7\u00e3o das mulheres e sua inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, a disponibilidade de tecnologias contraceptivas, campanhas de planejamento familiar e a influ\u00eancia dos valores ocidentais ligados \u00e0 autonomia individual e \u00e0 seculariza\u00e7\u00e3o. O ponto fundamental aqui \u00e9 que, uma vez que a fertilidade cai, ela n\u00e3o retorna \u00e0 sua trajet\u00f3ria hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo dos anos, os esfor\u00e7os de v\u00e1rios governos na \u00c1sia e na Europa para reverter a tend\u00eancia de queda da fertilidade n\u00e3o tiveram \u00eaxito. O mais not\u00e1vel foi o da China, que, ap\u00f3s a imposi\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica do filho \u00fanico, n\u00e3o apenas a relaxou e depois a eliminou, mas agora est\u00e1 patrocinando medidas pr\u00f3-natalistas para neutralizar seu recente decl\u00ednio populacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Dificilmente a Am\u00e9rica Latina escapar\u00e1 da estabilidade da fertilidade&nbsp; em n\u00edveis baixos.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cI.\u201d da infertilidade n\u00e3o s\u00f3 veio para ficar, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma causa subjacente do envelhecimento. Se as sociedades tivessem mais de dois filhos (digamos, 3), eles n\u00e3o apenas substituiriam os que falecem, mas tamb\u00e9m os rejuvenesceriam naturalmente (na aus\u00eancia de fluxos migrat\u00f3rios).<\/p>\n\n\n\n<p>Dito isso, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para sugerir que o futuro seja formular pol\u00edticas que restabele\u00e7am as taxas de fertilidade anteriores a 1960, uma vez que o avan\u00e7o socioecon\u00f4mico das mulheres tem sido amplamente mediado pela redu\u00e7\u00e3o do tamanho da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Pobre corresponde a \u201cP\u201d.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em termos relativos, a Am\u00e9rica Latina n\u00e3o fechou a lacuna material. Em 1950, o n\u00edvel m\u00e9dio de renda per capita era quase igual ao do mundo como um todo (cerca de US$ 3.700). Essa era a metade da renda da Europa Ocidental e um quarto da renda dos pa\u00edses mais desenvolvidos, os Territ\u00f3rios Ocidentais (EUA, Canad\u00e1, Austr\u00e1lia e Nova Zel\u00e2ndia). Naquela \u00e9poca, entretanto, a regi\u00e3o era tr\u00eas vezes mais rica que o Leste Asi\u00e1tico e 2,5 vezes mais rica que a \u00c1frica Subsaariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2022, a diferen\u00e7a com os mais ricos apresenta a mesma propor\u00e7\u00e3o, enquanto com a Europa Ocidental passou de duas para tr\u00eas (somos mais pobres, relativamente falando). O Leste Asi\u00e1tico nos alcan\u00e7ou em 2010 e, desde ent\u00e3o, criou outra lacuna regional &#8211; superior a US$ 7.000. O mundo agora \u00e9 mais rico do que a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>O que o futuro nos reserva?<\/p>\n\n\n\n<p>A perspectiva n\u00e3o \u00e9 animadora. A principal fonte de crescimento econ\u00f4mico \u00e9 a produtividade, a efici\u00eancia com que combinamos recursos para produzir bens\/servi\u00e7os. Nesse aspecto, nenhum pa\u00eds da regi\u00e3o foi l\u00edder global no setor industrial ou de servi\u00e7os em qualquer momento da hist\u00f3ria. Conseguimos apenas competir (ocasionalmente dominar) em mercados internacionais associados a <em>commodities <\/em>como caf\u00e9, soja, cobre, metais preciosos ou petr\u00f3leo.<\/p>\n\n\n\n<p>A integra\u00e7\u00e3o \u00e0 economia internacional por meio desses produtos n\u00e3o foi a esperada: os ciclos de expans\u00e3o e retra\u00e7\u00e3o, a alta volatilidade e a depend\u00eancia de pre\u00e7os das economias industrializadas, o interc\u00e2mbio assim\u00e9trico e a alta vulnerabilidade a choques externos indicam que essa estrat\u00e9gia desenvolvimentista \u00e9 dif\u00edcil de ser conduzida com sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p>A alternativa \u00e9 adicionar mais terra, capital f\u00edsico e m\u00e3o de obra \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. Aqui os limites parecem mais finitos. A fronteira agr\u00edcola est\u00e1 esgotada e as terras amaz\u00f4nicas devem ser conservadas se n\u00e3o quisermos desestabilizar ainda mais os padr\u00f5es clim\u00e1ticos globais. A m\u00e3o de obra, como j\u00e1 observado, come\u00e7ar\u00e1 a se contrair a partir de 2040.<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, as possibilidades de aumentar o capital f\u00edsico (m\u00e1quinas e equipamentos tecnologicamente sofisticados e eficientes) ser\u00e3o limitadas pelo decl\u00ednio da nossa capacidade de poupar. Tanto no setor p\u00fablico quanto no privado, \u00e0 medida que a regi\u00e3o envelhece e a morbidade e a mortalidade se concentram em doen\u00e7as degenerativas (que s\u00e3o mais caras para tratar e cuidar), os gastos com pol\u00edticas sociais e de sa\u00fade s\u00f3 podem aumentar.<\/p>\n\n\n\n<p>Juntamente com o aumento dos gastos com a cobertura das popula\u00e7\u00f5es de aposentados\/pensionistas, isso significar\u00e1 um dreno na poupan\u00e7a que n\u00e3o se traduzir\u00e1 em investimento de capital &#8211; nem f\u00edsico nem humano. Em termos financeiros, \u00e9 prov\u00e1vel que precisemos de mais economias externas para sustentar o estado de bem-estar social e n\u00e3o aprofundar o atraso na infraestrutura. O futuro V.I.P. da Am\u00e9rica Latina (\u201cvelha, infecunda e pobre\u201d) n\u00e3o parece particularmente invej\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.\u00a0<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tanto no setor p\u00fablico quanto no privado, \u00e0 medida que a regi\u00e3o envelhece, os gastos com pol\u00edticas sociais e de sa\u00fade s\u00f3 podem aumentar.<\/p>\n","protected":false},"author":132,"featured_media":45954,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16750],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-45965","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-economia-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45965","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/132"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45965"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45965\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45954"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45965"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45965"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45965"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=45965"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}