{"id":46502,"date":"2025-01-26T06:00:00","date_gmt":"2025-01-26T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=46502"},"modified":"2025-01-27T05:47:34","modified_gmt":"2025-01-27T08:47:34","slug":"cerebros-podres-como-meta-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/cerebros-podres-como-meta-2\/","title":{"rendered":"C\u00e9rebros podres como Meta"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Brain rot<\/em> foi <a href=\"https:\/\/corp.oup.com\/news\/brain-rot-named-oxford-word-of-the-year-2024\/\">a \u201cpalavra do ano\u201d <\/a>de 2024, segundo a tradicional elei\u00e7\u00e3o anual da Oxford University Press, a maior editora universit\u00e1ria do mundo. Podendo ser traduzido por \u201cpodrid\u00e3o cerebral\u201d, <em>brain rot<\/em> nomeia a deteriora\u00e7\u00e3o do estado mental ou intelectual de uma pessoa, especialmente vista como resultado do consumo excessivo de material considerado banal ou pouco desafiador. O aumento de 230% na frequ\u00eancia do uso do termo entre 2023 e 2024, <a href=\"https:\/\/corp.oup.com\/news\/brain-rot-named-oxford-word-of-the-year-2024\/\">segundo a Oxford<\/a>, reflete preocupa\u00e7\u00f5es da sociedade a respeito dos poss\u00edveis impactos do uso prolongado de tecnologia digital para consumo de conte\u00fados irrelevantes, nada cr\u00edticos e de baixa qualidade. Mais especificamente, essa inquieta\u00e7\u00e3o aflige pais e respons\u00e1veis por crian\u00e7as e adolescentes que acessam redes sociais digitais em idade cada vez mais precoce e de forma cada vez mais viciante.<\/p>\n\n\n\n<p>Um sintoma dessa afli\u00e7\u00e3o parental est\u00e1 no fen\u00f4meno de vendas, no Brasil e no exterior, do livro \u201cA gera\u00e7\u00e3o ansiosa: Como a inf\u00e2ncia hiperconectada est\u00e1 causando uma epidemia de transtornos mentais\u201d, de Jonathan Haidt. O psic\u00f3logo social integra o grupo de pesquisadores que t\u00eam destacado a estreita rela\u00e7\u00e3o entre a explora\u00e7\u00e3o comercial de plataformas de comunica\u00e7\u00e3o digital e o aumento de taxas de depress\u00e3o, ansiedade e outros transtornos mentais nos \u00faltimos 15 anos \u2013 justamente o per\u00edodo em que se nota um acelerado desenvolvimento da intelig\u00eancia artificial, das redes sociais e do aprendizado de m\u00e1quina. Essas avan\u00e7adas t\u00e9cnicas que engendram a produ\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o em formato digital t\u00eam sido utilizadas pelos principais conglomerados de tecnologia para estimular a produ\u00e7\u00e3o intermitente de dados pessoais por parte dos usu\u00e1rios de seus servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p>Como j\u00e1 se sabe, em praticamente todos os modelos de neg\u00f3cios estruturados em torno de plataformas digitais, os dados produzidos pelos usu\u00e1rios da internet representam hoje um insumo indispens\u00e1vel, sejam esses dados de geolocaliza\u00e7\u00e3o (fundamentais para plataformas de transporte como Uber ou de entregas como iFood), de gostos e prefer\u00eancias (como os usados pela Amazon,&nbsp; YouTube e Netflix para sugerir mercadorias e recomendar conte\u00fado audiovisual), ou tudo isso junto e misturado com dados sobre curtidas, coment\u00e1rios e compartilhamentos, como s\u00f3i ocorrer em redes sociais como Facebook, X, Instagram e Tik Tok. Quanto mais tempo um usu\u00e1rio estiver interagindo em uma plataforma, mais dados pessoais ir\u00e1 produzir.<\/p>\n\n\n\n<p>No af\u00e3 de prender a aten\u00e7\u00e3o, o conte\u00fado apresentado em redes sociais e p\u00e1ginas de not\u00edcias muitas vezes apela para a rea\u00e7\u00e3o emocional, n\u00e3o mediada pela racionalidade, que se comunica com o inconsciente e com o n\u00e3o domesticado, para capturar o olhar, dilatar pupilas e mobilizar polegares e indicadores, ainda que por um momento fugaz. A arquitetura das plataformas tamb\u00e9m \u00e9 pensada com esse objetivo, como se v\u00ea no <em>scrolling<\/em> infinito das redes sociais, uma esp\u00e9cie de <em>gamifica\u00e7\u00e3o<\/em> inspirada nos ca\u00e7a-n\u00edqueis dos cassinos e das biroscas, que estimula dedos nervosos \u00e0 viciante ca\u00e7a por n\u00edqueis informacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O rev\u00e9s da economia da aten\u00e7\u00e3o, como disse o economista Herbert Alexander Simon, \u00e9 a riqueza de informa\u00e7\u00e3o resultar na pobreza de aten\u00e7\u00e3o. Eis a atual condi\u00e7\u00e3o de hiperinforma\u00e7\u00e3o que causa nos indiv\u00edduos desaten\u00e7\u00e3o, incapacidade de concentra\u00e7\u00e3o, compuls\u00e3o e ansiedade. Uma vez que as pessoas s\u00e3o constantemente lembradas, notificadas e cutucadas por dispositivos eletr\u00f4nicos que trazem informa\u00e7\u00e3o a granel e muitas vezes fatiada em pequenos espasmos de texto, v\u00eddeo ou meme, se torna cada vez mais dif\u00edcil manter o foco em atividades que requerem concentra\u00e7\u00e3o, como ler um livro ou mesmo assistir a um filme ou espet\u00e1culo musical. Sendo a cultura uma dimens\u00e3o que pressup\u00f5e a possibilidade de uma aten\u00e7\u00e3o profunda e contemplativa do ser humano, o fil\u00f3sofo Byung-Chul Han argumenta que o excesso de est\u00edmulos, informa\u00e7\u00f5es e impulsos das tecnologias de informa\u00e7\u00e3o, aliado \u00e0 cobran\u00e7a por desempenho (tanto no trabalho quanto na vida pessoal que se compartilha nas redes sociais), tende a deslocar a aten\u00e7\u00e3o profunda para uma forma de \u201chiperaten\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, uma aten\u00e7\u00e3o dispersa que muda rapidamente o foco entre diversas atividades e fontes de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de afetar a sa\u00fade mental e a capacidade de concentra\u00e7\u00e3o das pessoas, a circula\u00e7\u00e3o livre e desregulada de desinforma\u00e7\u00e3o e negacionismo cient\u00edfico e ambiental nas redes digitais alimenta ao extremismo fascista, alimenta movimentos antivacinas e cria um ambiente de polui\u00e7\u00e3o informacional que prejudica o combate contra o aquecimento global e alimenta o discurso de \u00f3dio contra grupos vulner\u00e1veis. O uso pol\u00edtico do que Marco Schneider chama de desinforma\u00e7\u00e3o digital em rede, com o direcionamento em escala macro de not\u00edcias falsas no intuito de manipular a opini\u00e3o p\u00fablica e interferir em pleitos eleitorais, p\u00f4de ser acompanhado na atua\u00e7\u00e3o da empresa Cambridge Analytica durante as campanhas de Trump, nos Estados Unidos, e do Brexit, no Reino Unido, ambas em 2016.<\/p>\n\n\n\n<p>Revelado em 2018 pelo ex-funcion\u00e1rio Christopher Wylie, o esc\u00e2ndalo da Cambridge Analytica envolveu a extra\u00e7\u00e3o de dados pessoais de mais de 80 milh\u00f5es de usu\u00e1rios do Facebook, o que obrigou o dono da plataforma, Mark Zuckerberg, a comparecer a uma sabatina de cinco horas diante do Senado norte-americano. O caso foi t\u00e3o grave que o interrogat\u00f3rio do bilion\u00e1rio foi transmitido ao vivo pela TV, e a Zuckerberg foi cobrado um maior empenho e investimento no combate \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o na modera\u00e7\u00e3o do discurso de \u00f3dio no ecossistema digital \u2013 sua empresa, a Meta, hoje controla quatro grandes plataformas de comunica\u00e7\u00e3o (Facebook, Instagram, Whatsapp e Threads), e s\u00f3 o Facebook possui mais de 3 bilh\u00f5es de acessos di\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>No interregno das administra\u00e7\u00f5es de Trump, cuja conta do Facebook chegou a ser bloqueada por Zuckerberg na ressaca da invas\u00e3o do Capit\u00f3lio, o magnata das redes se gabava de trabalhar com mais de 100 organiza\u00e7\u00f5es em 60 idiomas para combater a desinforma\u00e7\u00e3o em suas plataformas. Agora, com Trump de volta ao poder, o dono da Meta vem a p\u00fablico \u2013 exatamente quatro anos ap\u00f3s ter banido o extremista republicano da rede azul \u2013 dizer que ir\u00e1 \u201ctrabalhar com o presidente Trump para combater os governos ao redor do mundo que est\u00e3o atacando empresas americanas e pressionando-as por mais censura\u201d, e declara que <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/seriam-as-community-notes-uma-solucao-real-para-a-garantia-da-liberdade-de-expressao\/\">ir\u00e1 se livrar dos <em>fact checkers<\/em><\/a> e abrandar os filtros que fazem a modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado no Facebook, Instagram e Threads, para \u201cgarantir que as pessoas possam manifestar suas cren\u00e7as e experi\u00eancias\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Zuckerberg e os acionistas da Meta, a medida significa n\u00e3o apenas uma economia imediata de bilh\u00f5es de d\u00f3lares que deixar\u00e3o de ser gastos com modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, mas tamb\u00e9m um potencial aumento dos lucros mediante o acirramento dos embates pol\u00edticos que geram \u201cengajamento\u201d nas redes. O efeito previs\u00edvel dessa medida \u00e9 uma maior permeabilidade da rede para a circula\u00e7\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o e discursos de \u00f3dio, especialmente direcionados \u00e0 comunidade LGBTQIAPN+, como fica evidente na permiss\u00e3o para que usu\u00e1rios, com base em suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas ou religiosas, possam compartilhar alega\u00e7\u00f5es de<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/live\/2025\/01\/07\/business\/meta-fact-checking\"> doen\u00e7a mental ou anormalidade quando baseadas em g\u00eanero ou orienta\u00e7\u00e3o sexual<\/a>. <\/p>\n\n\n\n<p>E para os bilh\u00f5es de indiv\u00edduos que usam as redes sociais de Zuckerberg, a consequ\u00eancia esperada \u00e9 o aumento da podrid\u00e3o cerebral discutida neste texto, acompanhada de transtornos obsessivo-compulsivos, agita\u00e7\u00e3o, depress\u00e3o, irritabilidade, insensibilidade emp\u00e1tica e toda sorte de perturba\u00e7\u00f5es psicossom\u00e1ticas. Resta saber se povos e governos ao redor do mundo est\u00e3o de acordo com essa Meta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com menos modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, o aumento da podrid\u00e3o cerebral \u00e9 a consequ\u00eancia que os usu\u00e1rios das redes sociais de Mark Zuckerberg podem esperar.<\/p>\n","protected":false},"author":443,"featured_media":46492,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16794,16795],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-46502","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desinformacion-pt-br","8":"category-redes-sociales-es-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46502","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/443"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46502"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46502\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46492"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46502"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46502"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46502"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=46502"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}