{"id":4675,"date":"2021-04-10T08:45:00","date_gmt":"2021-04-10T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4675"},"modified":"2021-04-09T06:38:47","modified_gmt":"2021-04-09T09:38:47","slug":"migrante-empreendedor-o-grau-zero-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/migrante-empreendedor-o-grau-zero-do-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"Migrante Empreendedor: o grau zero do neoliberalismo?"},"content":{"rendered":"\n<p>As migra\u00e7\u00f5es s\u00e3o um fen\u00f4meno central do mundo contempor\u00e2neo que desafia todos os pa\u00edses envolvidos em n\u00edvel econ\u00f4mico, pol\u00edtico e social. Neste contexto, o empreendedorismo muitas vezes \u00e9 considerado como a solu\u00e7\u00e3o para integrar as pessoas migrantes na sociedade de chegada. Se trata de mais um mito neoliberal ou de uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel especialmente para os pa\u00edses do Sul global como os latino-americanos?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Migrantes empreendedores?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em \u201cO nascimento da biopol\u00edtica\u201d, Michel Foucault descreve o migrante como um empreendedor, j\u00e1 que um dos elementos constituintes do capital humano, conceito central no neoliberalismo, \u00e9 a mobilidade, isto \u00e9, a capacidade de um indiv\u00edduo se deslocar.<\/p>\n\n\n\n<p>Se migrar num primeiro momento representaria um custo, material, psicol\u00f3gico e de interrup\u00e7\u00e3o dos ganhos financeiros e aumento de gastos, esse custo com o tempo seria pass\u00edvel de se converter em investimento, em melhoramento de estatuto e de remunera\u00e7\u00e3o. Diz Foucault, \u201ca migra\u00e7\u00e3o \u00e9 um investimento, o migrante \u00e9 um investidor. \u00c9 um empres\u00e1rio de si mesmo que faz algumas despesas de investimento para obter um certo melhoramento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/america-do-sul-um-espaco-migratorio-quase-perfeito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Brasil tem se posicionado desde finais do seculo XX como um importante pa\u00eds de tr\u00e2nsito e destino para as migra\u00e7\u00f5es Sul-Sul<\/a>. Neste contexto, apesar de que, <a href=\"https:\/\/portaldeimigracao.mj.gov.br\/images\/dados\/relatorio-anual\/2020\/OBMigra_RELAT%C3%93RIO_ANUAL_2020.pdf\">segundo um recente relat\u00f3rio do Observat\u00f3rio das Migra\u00e7\u00f5es (OBMIGRA)<\/a>, no per\u00edodo 2010-2019, o n\u00famero de trabalhadores imigrantes com carteira de trabalho assinada passou de 55.1 mil para 147.7 mil, o que prevalece nesta categoria \u00e9 a informalidade e a vida ganha diariamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O emprendorismo se torna, portanto, uma sa\u00edda e, muitas vezes, \u00e9 proposto por governos e organiza\u00e7\u00f5es internacionais como a \u201cmelhor\u201d forma de inser\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica das pessoas migrantes e refugiadas. O car\u00e1ter, por excel\u00eancia \u201cempreendedor\u201d do migrante que destaca Foucault \u00e9, desta forma, utilizado e inclusive \u201cexplorado\u201d pela sociedade em termos econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 5 anos pesquiso programas de empreendedorismo destinados a incluir economicamente migrantes e refugiados no Brasil e os resultados do trabalho tem me permitido compreender em profundidade o mundo do empreendedorismo das pessoas migrantes e refugiadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas cidades de Bras\u00edlia, Rio de Janeiro e S\u00e3o Paulo, os coletivos\/ONGs que analisamos, anunciavam de maneira similar os seus objetivos: integra\u00e7\u00e3o de migrantes\/solicitantes de ref\u00fagio e refugiados na sociedade brasileira, por meio de treinamento, profissionaliza\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, e \u201cempoderamento\u201d pessoal. Os servi\u00e7os oferecidos pelas ONGs v\u00e3o de <em>catering<\/em> para empresas, palestras motivacionais dadas por migrantes e refugiados, al\u00e9m da participa\u00e7\u00e3o em feiras e eventos gastron\u00f4micos, com comida t\u00edpica dos pa\u00edses de origem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O crescimento desses coletivos visando ao empreendedorismo, tem aumentado muito nos \u00faltimos anos a partir de uma perspectiva que pensa o empreendedorismo como solu\u00e7\u00e3o para a integra\u00e7\u00e3o das pessoas migrantes, especialmente nos pa\u00edses do Sul global como os latino-americanos. Mas o que acontece com os migrantes intrarregionais (como os bolivianos e venezuelanos), ou extrarregionais (como os s\u00edrios e angolanos) depois dos treinamentos, anunciados como meio de empoderamento e independ\u00eancia financeira? Estas pessoas s\u00e3o, de fato, inclu\u00eddas economicamente? Ou, ainda, ocorre o propalado \u201cempoderamento\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mitos e realidade do empreendedorismo migrante<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao se transformar em sua pr\u00f3pria empresa, a hist\u00f3ria pessoal e cultural do migrante\/refugiado surge, nesse contexto, como fator de atra\u00e7\u00e3o e de aten\u00e7\u00e3o, tanto para o que est\u00e3o a vender como para si mesmos. O s\u00edrio que fugiu da guerra ou a venezuelana que teve que abandonar seu pa\u00eds pela crise humanit\u00e1ria se torna, portanto, um empres\u00e1rio de si mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p>Migrantes e refugiados s\u00e3o apresentados e treinados para mobilizar o potencial de transforma\u00e7\u00e3o e inspira\u00e7\u00e3o que suas trajet\u00f3rias ensejam, que pode ser encontrado nos cat\u00e1logos de eventos e nos sites das ONGs ou em palestras do tipo TEDx, por exemplo. O que ressalta o trabalho comunicacional que o neoliberalismo operacionaliza, ao vincular a ideia de inspira\u00e7\u00e3o por meio de trajet\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o e sucesso. O migrante ou refugiado empreendedor torna-se personagem preferencial dessa narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Se concordamos que outra das marcas constitutivas do neoliberalismo \u00e9 a operacionaliza\u00e7\u00e3o da no\u00e7\u00e3o de liberdade em uma onde ao individualismo traduzido pela ideia de \u201cseja seu pr\u00f3prio chefe, seja dono do seu tempo, seja um empreendedor de si\u201d, ter\u00edamos assim o migrante ou refugiado empreendedor como personagem aglutinador do modelo neoliberal: aquele individuo que, sa\u00eddo de um contexto de perda, \u201cd\u00e1 a volta por cima\u201d como empreendedor de si.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, os relatos coletados na nossa pesquisa contradizem a imagem elaborada do migrante e o refugiado \u201cde sucesso\u201d sobre a tem\u00e1tica. Sem direitos trabalhistas assegurados, sem previsibilidade or\u00e7ament\u00e1ria, uma vez que se um evento \u00e9 cancelado o impacto na renda \u00e9 irremedi\u00e1vel, migrantes e refugiados empreendedores ficaram ainda mais vulner\u00e1veis pela pandemia. Ainda, como a maioria cozinha em casa, as fronteiras entre intimidade, tempo com a fam\u00edlia e lazer, s\u00e3o borradas e todos s\u00e3o tragados para a rotina de compra de insumos, cozinhar, embalar, levar para o evento, que passa a ser o elemento centralizador dessas vidas, cuja consequ\u00eancia \u00e9 o relato de cansa\u00e7o, adoecimento e, sobretudo, endividamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que essa descri\u00e7\u00e3o possa ser compartilhada por muitos brasileiros e latino-americanos em situa\u00e7\u00e3o semelhante, ressalte-se dois fatores peculiares aos migrantes e refugiados: a falta de uma rede de apoio familiar e de amigos, por serem estrangeiros, e as dificuldades de acesso ao cr\u00e9dito, que agudizam a vulnerabilidade e depend\u00eancia de fr\u00e1geis fontes de renda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O renascimento do sujeito de direitos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O que constatamos a partir da nossa pesquisa \u00e9 o que a pandemia descortina sobre o neoliberalismo. A realidade est\u00e1 composta por relatos de pessoas vivendo o presente sem ter assegurado minimamente um futuro, em condi\u00e7\u00e3o de precariedade permanente. Esta realidade se torna ainda mais complexa em pa\u00edses em desenvolvimento como os latino-americanos. Assim, o que precisamos discutir para uma transforma\u00e7\u00e3o da rotina exaustiva dessas pessoas, \u00e9 um outro tipo de trabalho comunicacional, que n\u00e3o tenha pudor de apontar o fracasso de um modelo que prima pelo sacrif\u00edcio como modo de existir.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de que os migrantes e refugiados empreendores constituem um setor espec\u00edfico e ainda s\u00e3o uma minoria, ao longo da pesquisa, uma das perguntas finais que realizamos foi se a pessoa se sente empoderado\/a? E a resposta era sempre a mesma: \u201cEu me sinto cansado\/a\u201d. Para superar esta realidade, desde uma abordagem integral do fen\u00f4meno migrat\u00f3rio como fen\u00f4meno social, \u00e9 o momento de reivindicar novos sujeitos, n\u00e3o o do empreendimento de si, mas o renascimento do sujeito de direitos: econ\u00f4micos, sociais e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto por PHOTOGRAPHY MML em Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A migra\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno central do mundo contempor\u00e2neo que desafia todos os pa\u00edses envolvidos. E a promo\u00e7\u00e3o do empreendedorismo \u00e9 freq\u00fcentemente vista como a solu\u00e7\u00e3o para integrar os migrantes na sociedade anfitri\u00e3. Este \u00e9 outro mito neoliberal ou \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o vi\u00e1vel?<\/p>\n","protected":false},"author":208,"featured_media":4672,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16784,16784,16764,16764,16750,16750],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-4675","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-neoliberalismo-pt-br","9":"category-migracion-pt-br","11":"category-economia-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/208"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4675\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4672"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4675"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=4675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}