{"id":46807,"date":"2025-02-10T09:00:00","date_gmt":"2025-02-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=46807"},"modified":"2025-02-10T10:58:34","modified_gmt":"2025-02-10T13:58:34","slug":"o-deja-vu-eleitoral-do-equador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-deja-vu-eleitoral-do-equador\/","title":{"rendered":"O d\u00e9j\u00e0 vu eleitoral do Equador"},"content":{"rendered":"\n<p>Em apenas tr\u00eas anos, o Equador passou por quatro processos eleitorais, um ritmo vertiginoso que reflete a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/leicoes-no-equador-entre-a-desconfianca-e-a-resignacao\/\">profunda instabilidade pol\u00edtica<\/a> do pa\u00eds. O resultado de ontem no primeiro turno confirma um cen\u00e1rio j\u00e1 conhecido: uma reedi\u00e7\u00e3o do segundo turno de 2023.<\/p>\n\n\n\n<p>De um lado, Daniel Noboa, herdeiro de um dos conglomerados mais poderosos do pa\u00eds, representa a continuidade de um projeto pol\u00edtico ainda em constru\u00e7\u00e3o. Por outro lado, Luisa Gonz\u00e1lez, figura emblem\u00e1tica da onda rosa que varreu a Am\u00e9rica Latina na primeira metade do s\u00e9culo XXI, busca devolver o corre\u00edsmo ao poder ap\u00f3s duas tentativas consecutivas fracassadas na corrida presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os candidatos somam mais de 88,62% dos votos, consolidando, assim, a elei\u00e7\u00e3o de primeiro turno mais polarizada do Equador desde o retorno \u00e0 democracia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O corre\u00edsmo ressurge: Luisa Gonz\u00e1lez conseguir\u00e1 romper o teto eleitoral?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O corre\u00edsmo, agrupado na Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 (RC), demonstraram mais uma vez sua capacidade de resili\u00eancia eleitoral. Desde a sa\u00edda de Rafael Correa do poder em 2017, o movimento tem enfrentado proscri\u00e7\u00f5es, persegui\u00e7\u00e3o judicial e um desgaste natural ap\u00f3s mais de uma d\u00e9cada no governo. No entanto, continua sendo uma das for\u00e7as pol\u00edticas mais bem organizadas do pa\u00eds, com uma base de apoio s\u00f3lida em setores populares e rurais, especialmente na costa, onde a RC \u00e9 vista como a \u00fanica alternativa com um projeto de prote\u00e7\u00e3o social no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta elei\u00e7\u00e3o marca um ponto de inflex\u00e3o. Com Luisa Gonz\u00e1lez obtendo 44,17% dos votos, a RC est\u00e1 em sua posi\u00e7\u00e3o mais forte desde 2017. Diferente das elei\u00e7\u00f5es anteriores, em que o teto eleitoral parecia intranspon\u00edvel, hoje h\u00e1 uma oportunidade real de super\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos fatores chave nesse processo \u00e9 a evolu\u00e7\u00e3o de Luisa Gonz\u00e1lez como figura pol\u00edtica. Em 2021, sua irrup\u00e7\u00e3o na cena nacional foi abrupta, era uma figura nova e, embora tenha conseguido se consolidar como candidata do corre\u00edsmo, sua falta de trajet\u00f3ria a impediu de se conectar al\u00e9m do voto duro. Hoje, sua hist\u00f3ria \u00e9 diferente. Ela demonstrou maior experi\u00eancia e maturidade, tentando construir uma identidade pr\u00f3pria que n\u00e3o s\u00f3 se baseia no legado da Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3, mas tamb\u00e9m projeta uma lideran\u00e7a aut\u00f4noma e renovada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, o contexto atual joga a seu favor. O Equador atravessa uma de suas crises mais profundas em d\u00e9cadas, marcada pela inseguran\u00e7a, precariza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e instabilidade pol\u00edtica. Nesse cen\u00e1rio, a demanda por estabilidade e prote\u00e7\u00e3o social tornou-se central na decis\u00e3o dos eleitores. Para uma parte significativa da popula\u00e7\u00e3o, a RC continua sendo a op\u00e7\u00e3o mais confi\u00e1vel para devolver ao pa\u00eds um senso de ordem e seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o desafio de superar o voto de rejei\u00e7\u00e3o e ampliar sua base eleitoral permane\u00e7a, a possibilidade de recuperar a presid\u00eancia \u00e9 mais real do que nunca. O apoio de um aliado chave, como Le\u00f4nidas Iza, l\u00edder ind\u00edgena com uma base eleitoral significativa e 4,76% dos votos no primeiro turno, pode ser decisivo. Com essa poss\u00edvel alian\u00e7a e uma estrat\u00e9gia eficaz para atrair indecisos, Luisa Gonz\u00e1lez tem a oportunidade de alcan\u00e7ar o que em 2021 e 2023 parecia imposs\u00edvel: levar o corre\u00edsmo de volta ao poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Daniel Noboa: a for\u00e7a de uma lideran\u00e7a em constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos <a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/global-development\/2024\/nov\/11\/ecuador-energy-generation-power-sources-cuts-blackouts-drought-reliance-hydropower-adapt-diversify-protests?utm_source=chatgpt.com\">apag\u00f5es<\/a> de 14 horas e uma crise de seguran\u00e7a sem precedentes \u2013 2024 terminou como um dos anos mais violentos, com <a href=\"https:\/\/es.statista.com\/estadisticas\/1402384\/tasa-de-homicidios-ecuador\/\">8.008 homic\u00eddios<\/a> \u2013 Daniel Noboa mant\u00e9m uma popularidade not\u00e1vel: 44,44% para um incumbente, um n\u00famero alto no atual contexto de crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua aprova\u00e7\u00e3o n\u00e3o se baseia na efici\u00eancia, mas na percep\u00e7\u00e3o de firmeza. A\u00e7\u00f5es como a militariza\u00e7\u00e3o das ruas ou a invas\u00e3o da embaixada mexicana refor\u00e7aram sua imagem de \u201cpresidente que age\u201d, al\u00e9m de resultados concretos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo eventos traum\u00e1ticos, como o desaparecimento de quatro crian\u00e7as, n\u00e3o enfraqueceram seu apoio. Em uma sociedade que naturalizou a viol\u00eancia, a legalidade fica em segundo plano quando s\u00e3o exigidas solu\u00e7\u00f5es imediatas, independentemente do custo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seu apoio transcende o anticorre\u00edsmo e as altas elites econ\u00f4micas, atraindo a diversos setores da sociedade: mulheres, jovens, classes m\u00e9dia e baixa, bem como setores populares empobrecidos que buscam estabilidade em meio ao caos. Uma das ideias mais reveladoras da soci\u00f3loga <a href=\"https:\/\/thenewpress.com\/books\/strangers-their-own-land\">Arlie Hochschild<\/a> \u00e9 que a classe trabalhadora n\u00e3o necessariamente rejeita os ricos; pelo contr\u00e1rio, os admira quando percebe esfor\u00e7o e sucesso neles. O que eles valorizam \u00e9 a mobilidade social ascendente e a possibilidade de melhorar suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de vida. No entanto, desconfiam profundamente das elites urbanas com educa\u00e7\u00e3o superior, que consideram arrogantes e desconectadas da realidade cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o <a href=\"https:\/\/www.latinobarometro.org\/lat.jsp\">Latinobar\u00f3metro 2024<\/a>, muitos equatorianos mant\u00e9m a esperan\u00e7a de que sua situa\u00e7\u00e3o pessoal melhorar\u00e1 no futuro, embora mostram ceticismo sobre o progresso do pa\u00eds como um todo. Essa contradi\u00e7\u00e3o \u2013 otimismo individual versus pessimismo coletivo \u2013 ajuda a compreender o enraizamento de Daniel Noboa no imagin\u00e1rio popular. Seu \u00eaxito empresarial n\u00e3o \u00e9 interpretado como um privil\u00e9gio herdado, mas como um s\u00edmbolo de esperan\u00e7a e uma promessa personaliz\u00e1vel: se ele conseguiu, talvez outros tamb\u00e9m consigam. Essa narrativa refor\u00e7a sua conex\u00e3o com amplos setores da popula\u00e7\u00e3o, que veem em sua trajet\u00f3ria um reflexo de suas pr\u00f3prias aspira\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um Equador profundamente marcado pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 classe pol\u00edtica tradicional e pela desconfian\u00e7a generalizada nas institui\u00e7\u00f5es, Noboa n\u00e3o s\u00f3 representa a continuidade de um projeto pol\u00edtico ainda difuso e cheio de contradi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m encarna uma lideran\u00e7a percebida como inovadora e distante do tradicionalismo pol\u00edtico, instalando a ideia de um novo Equador; para muitos, sua figura se tornou um s\u00edmbolo de estabilidade e renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um Equador profundamente marcado pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 classe pol\u00edtica tradicional e pela desconfian\u00e7a generalizada nas institui\u00e7\u00f5es, Noboa n\u00e3o s\u00f3 personifica a continuidade de um projeto pol\u00edtico ainda difuso e cheio de contradi\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m representa uma lideran\u00e7a percebida como nova e distante do tradicionalismo pol\u00edtico. Sua figura conseguiu instalar a ideia de um \u201cnovo Equador\u201d, tornando-se, para muitos, um s\u00edmbolo de renova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Encerramento: um Equador em busca de um rumo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das diferen\u00e7as entre ambos candidatos, o que est\u00e1 por tr\u00e1s \u00e9 uma demanda comum: a necessidade de ordem e estabilidade em um pa\u00eds que viu a viol\u00eancia, a precariedade econ\u00f4mica e a desconfian\u00e7a institucional se tornarem realidades di\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>A polariza\u00e7\u00e3o entre Daniel Noboa e Luisa Gonz\u00e1lez, duas figuras que encarnam projetos pol\u00edticos antag\u00f4nicos mas igualmente enraizados no imagin\u00e1rio popular, evidencia das tens\u00f5es profundas que atravessam a sociedade equatoriana. A elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 definir\u00e1 o futuro pol\u00edtico do Equador, mas tamb\u00e9m a capacidade de seus l\u00edderes de responder \u00e0s expectativas de uma cidadania que, embora dividida, compartilha o desejo de mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Daniel Noboa e a candidata corre\u00edsta Luisa Gonz\u00e1lez somam mais de 88,62% dos votos, consolidando, assim, a elei\u00e7\u00e3o de primeiro turno mais polarizada do Equador desde o retorno \u00e0 democracia.<\/p>\n","protected":false},"author":713,"featured_media":46793,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16711,16715],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-46807","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-elecciones-pt-br","8":"category-ecuador-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46807","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/713"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46807"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46807\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46793"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46807"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46807"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46807"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=46807"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}