{"id":4683,"date":"2021-04-11T05:00:00","date_gmt":"2021-04-11T08:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4683"},"modified":"2021-04-09T06:37:52","modified_gmt":"2021-04-09T09:37:52","slug":"sobre-os-quilombos-da-amefrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/sobre-os-quilombos-da-amefrica\/","title":{"rendered":"Sobre os quilombos da \u201cAm\u00e9frica\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos tempos, a partir das <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-que-2020-ensinou-sobre-racismo-ao-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">recentes mobiliza\u00e7\u00f5es antirracistas nos EUA e em pa\u00edses latino-americanos<\/a>, houve um fortalecimento dos movimentos negros e feministas no Brasil e em outras partes da Am\u00e9rica chamada \u201cLatina\u201d, bem como a retomada do debate sobre ra\u00e7a. Neste marco, houve um ressurgimento do interesse por ideias e teorias do passado, como as desenvolvidas por autores como Abdias Nascimento e L\u00e9lia Gonzalez. As ideias dos dois intelectuais brasileiros inovaram o pensamento sobre os negros na di\u00e1spora e a \u201cinterseccionalidade\u201d, particularmente as ideias de \u201cquilombismo\u201d (de Nascimento) e \u201camefricanidade\u201d (de Gonzalez), que reclamam por um lugar de destaque na teoria cr\u00edtica produzida no Sul Global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quilombos como espa\u00e7os de resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Abdias Nascimento (1914-2011) fundou o <a href=\"http:\/\/www.palmares.gov.br\/?p=40416\">Teatro Experimental do Negro<\/a> em 1944 e introduziu o movimento da negritude no Brasil. Foi professor de universidades dos EUA e da Nig\u00e9ria, participou da funda\u00e7\u00e3o do Movimento Negro Unificado em 1978, foi deputado federal e senador, al\u00e9m de escritor, artista pl\u00e1stico e ator. Sua obra \u201cQuilombismo: documentos de uma milit\u00e2ncia panafricanista\u201d, publicada em 1980, recebeu uma nova edi\u00e7\u00e3o em 2019. Neste e em outros trabalhos, Nascimento abordou a necessidade hist\u00f3rica de resist\u00eancia do negro da di\u00e1spora nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>Da\u00ed deriva a tradi\u00e7\u00e3o dos quilombos: um esfor\u00e7o por resgatar a liberdade e dignidade atrav\u00e9s da fuga do cativeiro e organiza\u00e7\u00e3o de uma sociedade livre. Os quilombos foram comunidades rurais formadas por escravos em fuga do cativeiro, onde eles se refugiavam e tentavam resistir \u00e0s tentativas de recaptura. Receberam esse nome no Brasil, mas em outras partes da Am\u00e9rica fen\u00f4menos semelhantes ficaram conhecidos como \u201ccimarrones\u201d, \u201cpalenques\u201d e \u201cmarrons\u201d. A forma\u00e7\u00e3o de quilombos se tornou um movimento geral e permanente, mesmo ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o da escravid\u00e3o. Mas para ele, a no\u00e7\u00e3o de \u201cquilombo\u201d ia muito al\u00e9m dos quilombos hist\u00f3ricos e daqueles que ainda sobrevivem: era uma met\u00e1fora de todos os espa\u00e7os de resist\u00eancia e sociabilidade negra.<\/p>\n\n\n\n<p>Consequentemente, o \u201cquilombismo\u201d transcende a exist\u00eancia f\u00edsica dos quilombos. Tamb\u00e9m estaria em modelos de organiza\u00e7\u00e3o mais ou menos tolerados: nas irmandades cat\u00f3licas de negros, em express\u00f5es sincr\u00e9ticas como o candombl\u00e9, nas sociedades esportivas, nas caixas de aux\u00edlio m\u00fatuo ou em institui\u00e7\u00f5es culturais como as escolas de samba.<\/p>\n\n\n\n<p>Independentemente de sua fun\u00e7\u00e3o declarada, todos estes espa\u00e7os cumpriram e cumprem um papel na sustenta\u00e7\u00e3o da comunidade africana como espa\u00e7os de resist\u00eancia. Todas essas atividades constituiriam uma unidade, uma pr\u00e1tica de liberta\u00e7\u00e3o, fazendo do negro um agente de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Nascimento, em todas elas a \u201ccomunidade\u201d seria o elemento central. Ela seria um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e psicossocial do negro-africano, entranhado em sua hist\u00f3ria, cultura, viv\u00eancia. Ecoando as ideias do movimento da negritude, o autor apostou na \u201creinven\u00e7\u00e3o de um caminho afro-brasileiro de vida fundado em sua experi\u00eancia hist\u00f3rica, na utiliza\u00e7\u00e3o do conhecimento cr\u00edtico e inventivo de suas institui\u00e7\u00f5es golpeadas pelo colonialismo e pelo racismo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em sua obra h\u00e1 um esfor\u00e7o deliberado de refletir sobre o Brasil a partir do negro, e de produzir conceitos originais. H\u00e1 uma clara inten\u00e7\u00e3o de superar a coloniza\u00e7\u00e3o mental euroc\u00eantrica, e substitu\u00ed-la pela \u201cliberta\u00e7\u00e3o quilombista\u201d. O africano escravizado teria trazido para o Brasil (e para as Am\u00e9ricas) o car\u00e1ter comunal da organiza\u00e7\u00e3o socioecon\u00f4mica que existia na \u00c1frica, e o reproduzido aqui. O quilombismo constituiria assim uma alternativa ao capitalismo: n\u00e3o era um projeto do passado, mas do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 na obra de Nascimento tamb\u00e9m uma clara no\u00e7\u00e3o de \u201ccolonialismo interno\u201d: o Estado colonial portugu\u00eas, e posteriormente o Estado brasileiro teria assumido um car\u00e1ter terrorista e ileg\u00edtimo em rela\u00e7\u00e3o aos negros. Sua inten\u00e7\u00e3o era elimin\u00e1-los, atrav\u00e9s do genoc\u00eddio que Nascimento analisa em sua outra obra fundamental, <em>O genoc\u00eddio do negro brasileiro<\/em> (1977). Esse Estado genocida deveria ent\u00e3o ser substitu\u00eddo por um \u201cEstado Nacional Quilombista\u201d, atrav\u00e9s de uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o quilombista\u201d, para \u201cassegurar uma vida saud\u00e1vel para as crian\u00e7as, as mulheres e os homens, os animais, as criaturas do mar, as plantas, as selvas, as pedras e todas as manifesta\u00e7\u00f5es da natureza\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>\u201cAm\u00e9frica\u201d para as \u201camefricanas\u201d<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As reflex\u00f5es de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2020\/11\/entenda-a-originalidade-da-obra-de-lelia-gonzalez-expoente-do-feminismo-negro.shtml\">L\u00e9lia Gonzalez<\/a> (1935-1994), historiadora, antrop\u00f3loga, ativista negra e feminista, oferecem originalidade ao pensamento negro e feminista. No final de 2020 se publicou \u201cPor um feminismo afro-latino-americano\u201d, reunindo as principais obras da autora. Nelas, Gonzalez aborda o eurocentrismo e o neocolonialismo, a forma inferiorizada pela qual o colonizado se v\u00ea em rela\u00e7\u00e3o ao colonizador. Desta maneira, procura alternativas \u00e0 ideia de \u201cAm\u00e9rica Latina\u201d, na qual ind\u00edgenas e negros n\u00e3o se encaixam. A \u201cAm\u00e9rica dos latinos\u201d se op\u00f5e \u00e0 dos \u201canglo-sax\u00f5es\u201d, mas qual seria o lugar dos n\u00e3o-brancos nesta equa\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Se seu destino j\u00e1 n\u00e3o pode ser o contestado projeto de dissolu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da mesti\u00e7agem, o que propor como alternativa? Gonzalez sugere uma \u201cAfro-Am\u00e9rica\u201d ou \u201cAm\u00e9frica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da quest\u00e3o racial, a autora reflete criativamente sobre o feminismo, propondo um feminismo que n\u00e3o \u00e9 branco, europeu, ocidental: mas afro-latino-americano, para \u201camefricanas\u201d. Segundo Gonzalez, as amefricanas (assim como as amer\u00edndias) s\u00e3o inicialmente conscientes de que sofrem opress\u00e3o por sua ra\u00e7a, para depois tomarem consci\u00eancia da discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>A explora\u00e7\u00e3o de classe e a discrimina\u00e7\u00e3o racial constituiriam os elementos b\u00e1sicos de uma luta comum aos homens e mulheres de uma etnia subordinada. Afinal, a escraviza\u00e7\u00e3o negra foi vivida por homens e mulheres, e \u201cfoi dentro da comunidade escravizada que se desenvolveram formas pol\u00edtico-culturais de resist\u00eancia que hoje nos permitem continuar uma luta plurissecular de libera\u00e7\u00e3o\u201d. O mesmo argumento poderia ser estendido \u00e0s comunidades ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Gonzalez, isso explica a consider\u00e1vel presen\u00e7a de amefricanas e de amer\u00edndias nos movimentos \u00e9tnicos. Mas esta participa\u00e7\u00e3o as levou a tomarem consci\u00eancia da discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero que sofrem: \u201cnossos companheiros de movimentos reproduzem as pr\u00e1ticas sexistas do patriarcado dominante e tratam de excluir-nos dos espa\u00e7os de decis\u00e3o do movimento\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso as levou a buscar o movimento feminista e suas teorias, \u201cacreditando a\u00ed encontrar uma solidariedade t\u00e3o importante como a racial: a irmandade. Mas o que efetivamente encontramos s\u00e3o as pr\u00e1ticas de exclus\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o racista\u201d. Com isso o ciclo se fechava: as opress\u00f5es de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero se sobrepunham. Gonzalez antecipou assim debates contempor\u00e2neos sobre interseccionalidade, patriarcalismo e sororidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A leitura de Abdias Nascimento e L\u00e9lia Gonzalez contribui para entender as m\u00faltiplas opress\u00f5es num contexto perif\u00e9rico, e fornece elementos para construir projetos de emancipa\u00e7\u00e3o que as superem. Estas obras antecipam diversos debates e podem contribuir \u00e0 nossa necess\u00e1ria descoloniza\u00e7\u00e3o mental. Al\u00e9m disso, destaca-se a sua atualidade, especialmente num contexto de regress\u00e3o social e aprofundamento do genoc\u00eddio da popula\u00e7\u00e3o negra e ind\u00edgena brasileira. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Midia NINJA<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde as recentes mobiliza\u00e7\u00f5es anti-racistas nos Estados Unidos e em pa\u00edses latino-americanos, houve um fortalecimento dos movimentos negros e feministas no Brasil, assim como uma retomada do debate sobre a ra\u00e7a. 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