{"id":46923,"date":"2025-02-16T06:00:00","date_gmt":"2025-02-16T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=46923"},"modified":"2025-02-15T21:55:32","modified_gmt":"2025-02-16T00:55:32","slug":"trump-e-o-hemisferio-em-tensao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/trump-e-o-hemisferio-em-tensao\/","title":{"rendered":"Trump e o hemisf\u00e9rio em tens\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201c<em>Eles precisam de n\u00f3s mais do que n\u00f3s precisamos deles&#8230;<\/em>\u201d, declarou Donald Trump no Sal\u00e3o Oval ao se referir \u00e0 Am\u00e9rica Latina ap\u00f3s assumir a presid\u00eancia dos Estados Unidos. Essa frase deu o tom de uma administra\u00e7\u00e3o caracterizada por seu nacionalismo e enfoque transacional \u00e0 pol\u00edtica externa. Desde o in\u00edcio, Trump deixou claro que a estabilidade e a seguran\u00e7a da regi\u00e3o seriam tratadas como assuntos estrat\u00e9gicos alinhados aos interesses de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, os governos do hemisf\u00e9rio, incluindo os aliados mais pr\u00f3ximos dos Estados Unidos, enfrentam uma escolha: alinhar-se \u00e0 agenda de Washington ou enfrentar san\u00e7\u00f5es severas. Um exemplo imediato foi a crise diplom\u00e1tica dos avi\u00f5es entre Washington e Col\u00f4mbia, onde, em poucas horas, o governo Trump projetou seu poder e deixou claro que a coopera\u00e7\u00e3o com os EUA \u2013 nesse caso, a Col\u00f4mbia recebendo deportados \u2013 n\u00e3o era opcional. As repercuss\u00f5es foram r\u00e1pidas. O Panam\u00e1 renunciou a renovar os acordos com a China sobre o canal interoce\u00e2nico, o governo venezuelano liberou incondicionalmente os cidad\u00e3os estadunidenses detidos e tanto o M\u00e9xico quanto o Canad\u00e1 fortaleceram sua coopera\u00e7\u00e3o em migra\u00e7\u00e3o e seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>A mensagem para o restante do continente \u00e9 que Washington n\u00e3o tolerar\u00e1 a falta de alinhamento. Os pa\u00edses que n\u00e3o cooperarem enfrentar\u00e3o san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, incluindo tarifas que afetariam sua balan\u00e7a comercial, classifica\u00e7\u00f5es de risco e acesso aos mercados financeiros. No entanto, a realidade geopol\u00edtica sugere uma interdepend\u00eancia maior do que a apresentada por Trump. Embora os principais desafios de seguran\u00e7a e estabilidade para os EUA \u2013 como o crime organizado, o narcotr\u00e1fico e a migra\u00e7\u00e3o em massa \u2013 tenham origem na Am\u00e9rica Latina, a regi\u00e3o tamb\u00e9m det\u00e9m a chave para sua poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o. Diante dessa realidade, a Casa Branca faria bem em adotar uma pol\u00edtica menos agressiva e mais cooperativa, adaptada \u00e0 variedade de atores, interesses e situa\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Crime organizado: uma amea\u00e7a transnacional<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>O crime organizado \u00e9 um dos principais desafios de seguran\u00e7a no hemisf\u00e9rio. As redes criminosas n\u00e3o s\u00f3 controlam o tr\u00e1fico de drogas para os Estados Unidos, mas tamb\u00e9m participam no tr\u00e1fico de pessoas, no contrabando de armas e na minera\u00e7\u00e3o ilegal. No M\u00e9xico, os carteis evolu\u00edram de simples narcotraficantes para atores que controlam territ\u00f3rios, estabelecem economias paralelas com fortes conex\u00f5es globais e desafiam o Estado. Na Am\u00e9rica Central, gangues como a MS-13 e a Barrio 18 consolidaram redes transnacionais, apesar da pol\u00edtica \u201cpulso firme\u201d implementada pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele, cujo \u00eaxito na redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia segue gerando d\u00favidas sobre sua sustentabilidade em longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Col\u00f4mbia, longe de se pacificar ap\u00f3s o acordo com as FARC, a crise de seguran\u00e7a se agravou. A fragmenta\u00e7\u00e3o dos ex-combatentes e o fortalecimento de grupos armados, como o ELN e o Clan del Golfo, consolidaram economias il\u00edcitas que expandem sua influ\u00eancia para al\u00e9m das fronteiras da Col\u00f4mbia. O que antes era um problema concentrado em poucos pa\u00edses \u2013 M\u00e9xico, Col\u00f4mbia, Brasil e Tri\u00e2ngulo Norte da Am\u00e9rica Central \u2013 agora se espalhou para na\u00e7\u00f5es tradicionalmente consideradas est\u00e1veis. No Chile, os portos se tornaram os principais centros de contrabando de drogas, enquanto a viol\u00eancia associada ao acerto de contas aumentou a taxa de homic\u00eddios. A Costa Rica, historicamente uma \u201cilha de paz\u201d na Am\u00e9rica Central, registrou um aumento sem precedentes de assassinatos ligados a disputas de gangues locais. At\u00e9 mesmo o Uruguai, com sua reputa\u00e7\u00e3o de estabilidade, registrou um aumento na lavagem de dinheiro e na viol\u00eancia relacionada \u00e0s drogas.<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade dessas redes de se adaptar e penetrar novos mercados mostra que nenhum pa\u00eds est\u00e1 isento de seu impacto. Essa expans\u00e3o do crime organizado destaca a necessidade de respostas regionais coordenadas. Sem uma estrat\u00e9gia conjunta, as organiza\u00e7\u00f5es criminosas continuar\u00e3o a expandir sua influ\u00eancia, desafiando os Estados e corroendo a seguran\u00e7a regional.<\/p>\n\n\n\n<p>Pulso firme ou estrat\u00e9gias integrais?<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina tem oscilado entre enfoques repressivos e estrat\u00e9gias de seguran\u00e7a mais abrangentes. O sucesso imediato das pol\u00edticas pulso firme em alguns pa\u00edses gerou interesse em replic\u00e1-las, mas suas limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o evidentes. O caso de El Salvador com Bukele mostrou que um regime excepcional pode reduzir drasticamente os homic\u00eddios e desmantelar as estruturas criminosas em curto prazo. Sua alta popularidade parece validar esse enfoque, mas as den\u00fancias de viola\u00e7\u00f5es aos direitos humanos e a centraliza\u00e7\u00e3o de poder levantam d\u00favidas sobre sua sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Em contraste, pa\u00edses como M\u00e9xico e Brasil, com redes criminosas mais consolidadas e Estados enfraquecidos pela corrup\u00e7\u00e3o, enfrentam obst\u00e1culos adicionais para implementar estrat\u00e9gias similares. Sem investimento em desenvolvimento econ\u00f4mico e institucionalidade, as medidas punitivas podem levar a um efeito bumerangue: a diversifica\u00e7\u00e3o das atividades criminosas e o aumento da viol\u00eancia. A repress\u00e3o sem o acompanhamento de pol\u00edticas sociais e econ\u00f4micas tende a gerar reconfigura\u00e7\u00f5es no crime organizado em vez de seu desmantelamento definitivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Diversidade de atores e respostas desiguais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica de seguran\u00e7a na Am\u00e9rica Latina \u00e9 heterog\u00eanea e a rela\u00e7\u00e3o com os EUA varia segundo os interesses e alinhamentos pol\u00edticos de cada pa\u00eds. O M\u00e9xico adotou um enfoque pragm\u00e1tico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o e \u00e0 seguran\u00e7a, priorizando a coopera\u00e7\u00e3o com Washington, apesar da ret\u00f3rica soberanista de seus l\u00edderes. No extremo oposto, Venezuela e Nicar\u00e1gua optaram por uma postura de confronto, fortalecendo os la\u00e7os com China e R\u00fassia como um contrapeso geopol\u00edtico. O Brasil, com sua lideran\u00e7a no BRICS, equilibra seu relacionamento com os EUA com sua influ\u00eancia em f\u00f3runs internacionais alternativos. O Chile, apesar de historicamente ser um parceiro importante de Washington, tem oscilado entre estrat\u00e9gias de di\u00e1logo e medidas punitivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 seguran\u00e7a interna, especialmente no conflito mapuche.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse cen\u00e1rio ressalta a necessidade dos EUA adotarem estrat\u00e9gias diferenciadas segundo o contexto de cada pa\u00eds. A aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas uniformes em \u00e1reas como seguran\u00e7a, com\u00e9rcio ou coopera\u00e7\u00e3o seriam ineficazes. Em seu lugar, uma abordagem mais flex\u00edvel, adaptada \u00e0s realidades locais, levaria a melhores resultados na luta contra o crime organizado e na estabilidade do hemisf\u00e9rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma surpresa no segundo mandato de Trump?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O retorno de Trump \u00e0 Casa Branca coloca o hemisf\u00e9rio em uma encruzilhada. Seu governo poderia optar por pol\u00edticas punitivas e unilaterais, alinhado \u00e0 sua ret\u00f3rica inicial, o que aumentaria as tens\u00f5es com os governos da regi\u00e3o. No entanto, tamb\u00e9m existe a possibilidade de que Trump adote um enfoque mais pragm\u00e1tico, reconhecendo que a seguran\u00e7a regional depende da coopera\u00e7\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina e que a regi\u00e3o n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea. A luta contra o crime organizado e a conten\u00e7\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o ilegal exigem esfor\u00e7os conjuntos. Uma estrat\u00e9gia baseada apenas em press\u00e3o, sem incentivos para a colabora\u00e7\u00e3o, ser\u00e1 contraproducente para o interesse pr\u00f3prio dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina com os EUA atravessa uma fase de redefini\u00e7\u00e3o, em que a seguran\u00e7a e a estabilidade regional ser\u00e3o fatores-chave no novo equil\u00edbrio de poder hemisf\u00e9rico. Nesse contexto, o dilema para os governos latino-americanos n\u00e3o se resume a se ajustar \u00e0s press\u00f5es de Washington ou buscar outros aliados geopol\u00edticos. Se as solu\u00e7\u00f5es aos problemas apontados pelo pr\u00f3prio Trump podem ser encontradas na regi\u00e3o, h\u00e1 tamb\u00e9m mais oportunidades de colabora\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica do que parece \u00f3bvio \u00e0 primeira vista.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora os principais desafios de seguran\u00e7a e estabilidade para os EUA \u2013 como o crime organizado, o narcotr\u00e1fico e a migra\u00e7\u00e3o em massa \u2013 tenham origem na Am\u00e9rica Latina, a regi\u00e3o tamb\u00e9m det\u00e9m a chave para sua poss\u00edvel solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":356,"featured_media":46928,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16757,16762],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-46923","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-eeuu-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46923","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/356"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46923"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46923\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46928"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46923"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46923"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46923"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=46923"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}