{"id":47054,"date":"2025-02-25T09:00:00","date_gmt":"2025-02-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47054"},"modified":"2025-02-24T12:20:02","modified_gmt":"2025-02-24T15:20:02","slug":"o-papel-vital-da-diversidade-do-solo-para-uma-agricultura-sustentavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-papel-vital-da-diversidade-do-solo-para-uma-agricultura-sustentavel\/","title":{"rendered":"O papel vital da diversidade do solo para uma agricultura sustent\u00e1vel"},"content":{"rendered":"\n<p>O odor da terra molhada \u00e9 inconfund\u00edvel e desperta algo em todos os seres humanos. Mas por que gostamos tanto desse cheiro? Provavelmente porque ele \u00e9 mais do que um perfume: \u00e9 o cheiro do solo \u201cativo\u201d, com mat\u00e9ria org\u00e2nica, f\u00e9rtil e cheio de vida. Esse cheiro, o de um solo biologicamente saud\u00e1vel, \u00e9 o resultado da geosmina, um composto produzido por certas bact\u00e9rias. Mesmo com nossa sensibilidade olfativa limitada, poder\u00edamos sentir esse cheiro se uma \u00fanica colher de geosmina fosse dissolvida em 200 piscinas ol\u00edmpicas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora muitas vezes os imaginemos como meros punhados de terra inerte, os solos saud\u00e1veis s\u00e3o o lar de milh\u00f5es de organismos. Apenas alguns gramas de solo podem conter uma riqueza de biodiversidade, incluindo fungos, bact\u00e9rias, animais, plantas e muito mais. De fato, os solos abrigam mais da metade de todas as esp\u00e9cies do planeta. A intera\u00e7\u00e3o entre esses organismos, seus res\u00edduos e os minerais do solo resulta em mat\u00e9ria org\u00e2nica, o material que sustenta os muitos benef\u00edcios do solo para as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>A mat\u00e9ria org\u00e2nica permite que as plantas cres\u00e7am e nos forne\u00e7am alimentos, al\u00e9m de fornecer estrutura ao solo e regular os fluxos de \u00e1gua, facilitando a infiltra\u00e7\u00e3o da chuva e evitando que os rios sequem durante o per\u00edodo de seca. Al\u00e9m disso, a mat\u00e9ria org\u00e2nica cont\u00e9m mais carbono do que a atmosfera e toda a vegeta\u00e7\u00e3o do mundo combinadas. A forma\u00e7\u00e3o de nova mat\u00e9ria org\u00e2nica \u00e9, portanto, uma estrat\u00e9gia fundamental para o combate \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. O carbono da atmosfera que a mat\u00e9ria org\u00e2nica incorpora ao solo pode ficar preso nele por centenas ou milhares de anos e atenuar a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Entretanto, se essa mat\u00e9ria org\u00e2nica for perdida, seu carbono ser\u00e1 liberado no ar e contribuir\u00e1 para a mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a origem da agricultura, h\u00e1 cerca de 12.000 anos, a atividade humana tem afetado os solos e sua mat\u00e9ria org\u00e2nica, geralmente de forma negativa. Atualmente, a mat\u00e9ria org\u00e2nica do solo em quase todos os cantos do globo diminuiu como resultado do desmatamento, da expans\u00e3o das terras cultivadas, das pr\u00e1ticas agr\u00edcolas e do desenvolvimento urbano. Essas transforma\u00e7\u00f5es resultaram na perda de aproximadamente 116 bilh\u00f5es de toneladas de carbono do solo em escala global, uma quantidade equivalente \u00e0s emiss\u00f5es de di\u00f3xido de carbono produzidas pelo mundo inteiro em 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o \u00e9 exce\u00e7\u00e3o a esse padr\u00e3o. As perdas de mat\u00e9ria org\u00e2nica na regi\u00e3o foram registradas entre 5 e 15%, em m\u00e9dia. Entretanto, as \u00e1reas naturais que foram transformadas para a produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola ou pecu\u00e1ria intensiva apresentam perdas mais dr\u00e1sticas, entre 40 e 75%. Esse \u00e9 o caso, por exemplo, da Mata Atl\u00e2ntica e de certas \u00e1reas do Cerrado e da Amaz\u00f4nia no Brasil, do Chaco e dos Pampas na Argentina (e Paraguai e Uruguai, respectivamente), ou das \u00e1reas dos Andes e do Orinoco na Col\u00f4mbia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como podemos recuperar a mat\u00e9ria org\u00e2nica perdida? Para responder a essa pergunta, precisamos primeiro entender como ela \u00e9 formada. At\u00e9 alguns anos atr\u00e1s, pens\u00e1vamos que a mat\u00e9ria org\u00e2nica consistia principalmente de subst\u00e2ncias muito complexas. Hoje sabemos que ela \u00e9 composta tanto por subst\u00e2ncias simples e de r\u00e1pida decomposi\u00e7\u00e3o (como folhas macias e ra\u00edzes finas) quanto por subst\u00e2ncias complexas e de lenta decomposi\u00e7\u00e3o (como folhas duras, madeira e ra\u00edzes grossas). As subst\u00e2ncias simples podem se decompor e liberar seus nutrientes em quest\u00e3o de meses, mas partes delas tamb\u00e9m podem se ligar a pequenos minerais no solo, permanecendo presas por mil\u00eanios. Assim, as subst\u00e2ncias simples fornecem nutrientes e estabilidade a curto e longo prazo. As subst\u00e2ncias complexas, por outro lado, por n\u00e3o estarem presas aos minerais do solo, se decomp\u00f5em em quest\u00e3o de anos ou d\u00e9cadas, fornecendo nutrientes e estrutura ao solo em m\u00e9dio prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para recuperar <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-e-a-sindrome-da-floresta-vazia-e-por-que-devemos-nos-preocupar\/\">a mat\u00e9ria org\u00e2nica<\/a> perdida e ter solos saud\u00e1veis e f\u00e9rteis, precisamos incorporar diversos materiais, tanto de decomposi\u00e7\u00e3o lenta quanto r\u00e1pida, ao solo. Isso implica uma mudan\u00e7a em alguns paradigmas de gerenciamento agr\u00edcola e, em particular, uma reformula\u00e7\u00e3o da agricultura dominada por uma ou poucas culturas. At\u00e9 apenas alguns s\u00e9culos atr\u00e1s, os agricultores cultivavam v\u00e1rias esp\u00e9cies em seus lotes. Desde meados do s\u00e9culo XX, a maior parte da produ\u00e7\u00e3o se especializou em monoculturas (culturas de uma \u00fanica esp\u00e9cie, como soja, trigo ou milho). Esse modelo de agricultura busca maior efici\u00eancia e lucratividade, mas consome muito mais mat\u00e9ria org\u00e2nica (e seus nutrientes) do solo do que incorpora. Como resultado, muitos solos n\u00e3o conseguem produzir alimentos ou s\u00f3 conseguem faz\u00ea-lo com o uso de fertilizantes, herbicidas e outros insumos, porque perderam a mat\u00e9ria org\u00e2nica que os tornava f\u00e9rteis e est\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta a esse problema, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as pr\u00e1ticas tradicionais foram recuperadas e revalorizadas, integrando-as \u00e0 ci\u00eancia moderna. \u00c9 o caso da agroecologia, da agrofloresta e do uso de culturas de cobertura. Essas pr\u00e1ticas permitem que os solos recebam folhas e ra\u00edzes de diferentes esp\u00e9cies, que alimentam comunidades mais abundantes e diversificadas de organismos do solo, formando mat\u00e9ria org\u00e2nica diversificada. Essas pr\u00e1ticas tamb\u00e9m protegem os solos contra a eros\u00e3o e a insola\u00e7\u00e3o, mantendo-os cobertos por vegeta\u00e7\u00e3o e, assim, tamb\u00e9m os protegem contra os desafios da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, especialmente temperaturas extremas, chuvas e secas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, na Amaz\u00f4nia colombiana, o cultivo de cacau integrado ao cultivo de \u00e1rvores frut\u00edferas e esp\u00e9cies florestais nativas n\u00e3o s\u00f3 mant\u00e9m os solos mais f\u00e9rteis, mas tamb\u00e9m pode ser usado como estrat\u00e9gia para melhorar em at\u00e9 40% as m\u00faltiplas fun\u00e7\u00f5es dos solos de pastagens degradadas. Nos sistemas montanhosos da Am\u00e9rica Latina em geral, a agrossilvicultura n\u00e3o apenas conserva a mat\u00e9ria org\u00e2nica do solo, mas tamb\u00e9m contribui para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade vegetal e animal da regi\u00e3o e, ao mesmo tempo, sustenta os meios de subsist\u00eancia dos produtores locais. Mesmo na regi\u00e3o dos campos dos Pampas, no sul da Am\u00e9rica Latina, onde predominam monoculturas como a soja, a incorpora\u00e7\u00e3o de culturas de cobertura, como a aveia, poderia come\u00e7ar a recuperar a perda de mat\u00e9ria org\u00e2nica causada pelas monoculturas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os solos s\u00e3o a base silenciosa de nossas sociedades e definem nossas culturas. Sua fertilidade nos nutre e sua estabilidade nos protege. Mais do que um recurso, os solos s\u00e3o um reflexo de nosso relacionamento com a natureza. Entender como eles funcionam, especialmente o papel essencial da mat\u00e9ria org\u00e2nica e dos organismos que os comp\u00f5em, \u00e9 fundamental para repensar a forma como gerenciamos os ecossistemas. Essa \u00e9 a \u00fanica maneira de garantir que os solos continuem sendo uma fonte de vida e bem-estar para as gera\u00e7\u00f5es futuras.<\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.\u00a0<\/em><br><\/sub><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os solos s\u00e3o a base silenciosa de nossas sociedades e definem nossas culturas. 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