{"id":47144,"date":"2025-03-03T09:00:00","date_gmt":"2025-03-03T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47144"},"modified":"2025-03-03T07:40:10","modified_gmt":"2025-03-03T10:40:10","slug":"o-que-e-a-conservacao-inclusiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-e-a-conservacao-inclusiva\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 a conserva\u00e7\u00e3o inclusiva?"},"content":{"rendered":"\n<p>Estamos enfrentando uma crise ambiental e clim\u00e1tica sem precedentes. Grande parte dos ecossistemas naturais remanescentes do mundo est\u00e1 nos territ\u00f3rios dos povos ind\u00edgenas e das comunidades locais (IPLCs). Entretanto, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/por-que-as-terras-indigenas-sao-chave-para-conservar-a-biodiversidade-e-mitigar-as-mudancas-climaticas\/\">a conserva\u00e7\u00e3o tem exclu\u00eddo historicamente os IPLCs<\/a>, ignorando seus conhecimentos e saberes, bem como a gest\u00e3o territorial que eles t\u00eam sustentado por gera\u00e7\u00f5es. Ao se concentrar em esp\u00e9cies e ecossistemas amea\u00e7ados, a conserva\u00e7\u00e3o \u00e9 reduzida a um exerc\u00edcio biol\u00f3gico, sem considerar a din\u00e2mica econ\u00f4mica, pol\u00edtica ou cultural que determina o futuro dos ecossistemas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A vis\u00e3o ind\u00edgena da natureza<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nossa percep\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 moldada pela cultura e pela cosmovis\u00e3o. Na vis\u00e3o ind\u00edgena, a cultura e a natureza n\u00e3o est\u00e3o separadas. O territ\u00f3rio, com seus ecossistemas e biodiversidade, faz parte da identidade, da hist\u00f3ria e das pr\u00e1ticas cotidianas, sociais, de subsist\u00eancia e espirituais das comunidades. N\u00e3o se trata apenas de um recurso a ser explorado, mas de um espa\u00e7o vivo onde s\u00e3o tecidas rela\u00e7\u00f5es de reciprocidade e respeito, onde os seres humanos fazem parte de um todo interconectado. Esse conhecimento e suas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o s\u00e3o expressos de diversas maneiras e est\u00e3o t\u00e3o amea\u00e7ados quanto a biodiversidade e os ecossistemas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio da hist\u00f3ria, as sociedades humanas t\u00eam interagido e moldado seu ambiente e ecossistemas por meio de suas pr\u00e1ticas culturais. Assim, as paisagens que hoje consideramos intocadas foram ou s\u00e3o moldadas pelos IPLCs. No Chaco, por exemplo, as pastagens nativas altamente amea\u00e7adas j\u00e1 foram mantidas em grande parte pelas pr\u00e1ticas culturais e de subsist\u00eancia dos povos ind\u00edgenas. Al\u00e9m disso, os movimentos semin\u00f4mades desses povos influenciaram a din\u00e2mica da paisagem e, ao se estabelecerem temporariamente, modificaram as popula\u00e7\u00f5es de esp\u00e9cies ca\u00e7adas e coletadas. Mais importante ainda, eles mantiveram as aguadas, permitindo que a \u00e1gua da superf\u00edcie persistisse mesmo depois de sua partida. Em uma regi\u00e3o com uma esta\u00e7\u00e3o seca prolongada, sem essa interven\u00e7\u00e3o, as aguadas desaparecem rapidamente. Assim, as paisagens, sua din\u00e2mica e diversidade foram integradas \u00e0s pr\u00e1ticas dos povos ind\u00edgenas. Portanto, pensar em conserva\u00e7\u00e3o considerando que os IPLCs n\u00e3o fazem part da natureza \u00e9 um erro.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da crescente evid\u00eancia da import\u00e2ncia dos IPLCs na conserva\u00e7\u00e3o, a vis\u00e3o dominante invisibilizou seu papel e imp\u00f4s modelos de exclus\u00e3o, causando conflitos sociais, medidas autorit\u00e1rias e at\u00e9 mesmo viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos. Em todo o mundo, mais de um milh\u00e3o de pessoas foram expulsas de suas casas para a cria\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas. Na Argentina, por exemplo, o Parque Nacional El Impenetrable foi criado nos territ\u00f3rios da comunidade Wich\u00ed Nueva Poblaci\u00f3n. Sem a posse formal da terra, a comunidade perdeu o livre acesso \u00e0 \u00e1rea e a possibilidade de ca\u00e7a de subsist\u00eancia, agravando sua inseguran\u00e7a alimentar e corroendo seu patrim\u00f4nio cultural.<\/p>\n\n\n\n<p>Surgem ent\u00e3o as perguntas: para quem praticamos a conserva\u00e7\u00e3o? \u00c0s custas de quem? Com que autoridade e com base em que conhecimento?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao priorizar modelos de conserva\u00e7\u00e3o que excluem os IPLCs, violamos direitos e perpetuamos a concentra\u00e7\u00e3o de poder e o extrativismo nos territ\u00f3rios. A suposi\u00e7\u00e3o de que o \u00fanico m\u00e9todo v\u00e1lido de conhecimento \u00e9 o da ci\u00eancia convencional torna invis\u00edveis o conhecimento e a sabedoria ancestrais, aliados fundamentais no enfrentamento da crise ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>Algumas das pr\u00e1ticas dos IPLCs podem ser insustent\u00e1veis, mas a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 exclu\u00ed-los ou reproduzir narrativas que contribuam para sua marginaliza\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 que cientistas, governos, tomadores de decis\u00e3o, ONGs e outros atores apropriados trabalhem em conjunto com eles, horizontalmente, dando aos povos ind\u00edgenas uma participa\u00e7\u00e3o real, significativa e vinculante. Isso n\u00e3o significa que os IPLCs tenham que assumir sozinhos a responsabilidade pela conserva\u00e7\u00e3o. Assim, tomando o exemplo acima, a comunidade de Nueva Poblacion n\u00e3o deveria ver suas pr\u00e1ticas banidas unilateralmente, mas participar da gera\u00e7\u00e3o e an\u00e1lise de dados para decidir, juntamente com outras partes interessadas, a melhor forma de evitar a extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conserva\u00e7\u00e3o com inclus\u00e3o social<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A conserva\u00e7\u00e3o com inclus\u00e3o social \u00e9 uma abordagem que reconhece os IPLCs como atores centrais e est\u00e1 ganhando impulso nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Por exemplo, em 2003, a IUCN criou uma nova categoria de \u00e1reas protegidas que permite que os IPLCs as ocupem e\/ou gerenciem. Hoje, ela mede o sucesso das \u00e1reas protegidas n\u00e3o apenas pelo seu impacto sobre a biodiversidade, mas tamb\u00e9m pelo respeito aos direitos e \u00e0 subsist\u00eancia dos IPLCs dentro e fora delas.<\/p>\n\n\n\n<p>Muitos organismos priorizam cada vez mais o bem-estar dos IPLCs, desde a plataforma IBPES at\u00e9 as Na\u00e7\u00f5es Unidas e a Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica. De fato, um estudo mostra que 86 iniciativas de conserva\u00e7\u00e3o lideradas por pelo menos 68 povos ind\u00edgenas em 25 pa\u00edses geraram benef\u00edcios socioculturais, pol\u00edticos e ecol\u00f3gicos, incluindo melhoria dos meios de subsist\u00eancia, fortalecimento da governan\u00e7a e recupera\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies e habitats. Os povos ind\u00edgenas estabeleceram \u00e1reas protegidas de forma aut\u00f4noma ou por meio de parcerias, \u00e0s vezes com o apoio do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar do progresso, a conserva\u00e7\u00e3o inclusiva enfrenta grandes desafios, como leis restritivas e excludentes, interesses privados, corrup\u00e7\u00e3o e ignor\u00e2ncia nos \u00f3rg\u00e3os governamentais, financiamento limitado e discrimina\u00e7\u00e3o estrutural. \u00c9 necess\u00e1rio reformar as leis e trabalhar em prol da equidade na conserva\u00e7\u00e3o. As IPLCs n\u00e3o devem ser relegadas a pap\u00e9is subordinados, limitados \u00e0 presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de ecoturismo, \u00e0 cozinha para turistas ou \u00e0 coleta de dados para cientistas. Os IPLCs s\u00e3o propriet\u00e1rios de vastos territ\u00f3rios onde os \u00faltimos ecossistemas naturais ainda est\u00e3o preservados, possuem conhecimento e sabedoria \u00fanicos, e trabalhar com eles pode ser a sa\u00edda para a crise ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da crise ambiental, a humanidade enfrenta novos desafios, como l\u00edderes mundiais e setores com apoio popular que negam essa crise e as evid\u00eancias cient\u00edficas, e o retrocesso nos direitos das mulheres, dos imigrantes, das diversidades, entre outros grupos. Nesse contexto, a conserva\u00e7\u00e3o deve avan\u00e7ar urgentemente para um desenvolvimento baseado na integra\u00e7\u00e3o, no respeito, na ci\u00eancia e tamb\u00e9m no conhecimento e na sabedoria dos IPLCs. Caso contr\u00e1rio, estar\u00edamos refor\u00e7ando um paradigma de exclus\u00e3o que est\u00e1 ganhando terreno globalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a conserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser definida pela comunidade cient\u00edfica, pelas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais ou pelos governos, mas deve ser constru\u00edda coletivamente, com justi\u00e7a ambiental e direitos territoriais em seu cerne. Nesse contexto, os IPLCs devem ser reconhecidos como atores leg\u00edtimos na gest\u00e3o de seus territ\u00f3rios. A ci\u00eancia e a pr\u00e1tica da conserva\u00e7\u00e3o devem assumir a complexidade dos sistemas socioecol\u00f3gicos; a sustentabilidade depende n\u00e3o apenas da gest\u00e3o do ecossistema, mas tamb\u00e9m de fatores pol\u00edticos, sociais, culturais e econ\u00f4micos.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 essencial adotar uma estrutura \u00e9tica na conserva\u00e7\u00e3o, em que os IPLCs sejam integrados desde o in\u00edcio e em p\u00e9 de igualdade; seus conhecimentos, habilidades, pr\u00e1ticas e direitos s\u00e3o essenciais para a prote\u00e7\u00e3o da biodiversidade. A integridade dos ecossistemas n\u00e3o pode ser garantida sem considerar aqueles que habitam e dependem deles. A conserva\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem a ver com empatia e respeito \u00e0 diversidade cultural e aos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Para garantir nossa pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, precisamos repensar nossa rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente e reconhecer que a diversidade biol\u00f3gica e cultural s\u00e3o interdependentes. No final das contas, cada um de n\u00f3s tamb\u00e9m \u00e9 natureza.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.\u00a0<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa percep\u00e7\u00e3o da natureza \u00e9 moldada pela cultura e pela cosmovis\u00e3o. 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