{"id":47215,"date":"2025-03-08T09:00:00","date_gmt":"2025-03-08T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47215"},"modified":"2025-03-07T10:20:49","modified_gmt":"2025-03-07T13:20:49","slug":"alem-das-cotas-de-genero-construir-a-paridade-a-partir-do-poder","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/alem-das-cotas-de-genero-construir-a-paridade-a-partir-do-poder\/","title":{"rendered":"Al\u00e9m das cotas de g\u00eanero: construir a paridade a partir do poder"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/issuu.com\/red_innovacion\/docs\/revista_red_informacion_2021_-_ed28_final_alta\/s\/14011483\">Mar\u00eda Elena Wapenka, ex-deputada do Paraguai<\/a>, acredita que as cotas de g\u00eanero foram uma ferramenta fundamental para que as mulheres tivessem acesso \u00e0 pol\u00edtica em um sistema tradicionalmente dominado por homens. Para ela, as cotas s\u00e3o um meio eficaz de aumentar a representa\u00e7\u00e3o feminina, pois permitem que as vozes das mulheres sejam ouvidas nos processos de tomada de decis\u00e3o, algo que antes era quase imposs\u00edvel devido \u00e0s barreiras estruturais. Ela acredita que, sem as cotas, muitas mulheres continuariam sendo exclu\u00eddas do sistema pol\u00edtico porque elas s\u00e3o uma ferramenta para equilibrar o poder e promover a equidade em um sistema patriarcal e, embora n\u00e3o sejam perfeitas, s\u00e3o uma resposta \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.clarin.com\/opinion\/patricia-patriarcado_0_7hjr4WZL6C.html?srsltid=AfmBOop0DeIrtqZSCiejzYaQOefZKYOllZNQooC-p9vfHKBjZq4nE8T0\">Patricia Bullrich<\/a>, por outro lado, Ministra de Seguran\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o do governo do Presidente Javier Milei na Argentina, expressou sua discord\u00e2ncia com a implementa\u00e7\u00e3o de cotas de g\u00eanero, argumentando que tais medidas podem ser percebidas como uma forma de discrimina\u00e7\u00e3o reversa e que a igualdade deve ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s do m\u00e9rito e da compet\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambas as posturas t\u00eam nuances e o debate continua sendo uma quest\u00e3o importante na pol\u00edtica global. As cr\u00edticas se concentram na ideia de que, em alguns casos, elas podem resultar na representa\u00e7\u00e3o de mulheres que n\u00e3o t\u00eam apoio popular ou experi\u00eancia suficientes, o que pode refor\u00e7ar os estere\u00f3tipos de que as mulheres s\u00f3 entram nesses espa\u00e7os por causa de seu g\u00eanero, n\u00e3o de sua capacidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O sistema de cotas tem sido efetivo para mudar os n\u00fameros da participa\u00e7\u00e3o das mulheres no poder?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia mundial, especialmente no continente americano, <a href=\"https:\/\/www.scielo.org.mx\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0187-57952011000200010\">demonstra a efetividade das cotas<\/a>, uma vez que, aparentemente e em princ\u00edpio, existem diferen\u00e7as num\u00e9ricas na presen\u00e7a feminina entre os sistemas pol\u00edticos em que elas s\u00e3o contempladas e aqueles em que n\u00e3o s\u00e3o. Atualmente, \u00e9 comum afirmar que elas tiveram \u00eaxito no sentido de aumentar mais ou menos rapidamente a presen\u00e7a feminina nos espa\u00e7os em que s\u00e3o aplicadas, uma vez que contribuem para criar uma \u201cmassa cr\u00edtica\u201d para a introdu\u00e7\u00e3o de temas femininos, que se considera que aparece quando h\u00e1 entre 30% e 40% de presen\u00e7a feminina.<\/p>\n\n\n\n<p>A democracia parit\u00e1ria na Am\u00e9rica Latina e no Caribe <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/nesse-ritmo-levaremos-quase-300-anos-para-alcancar-a-igualdade-de-genero\/\">ainda est\u00e1 longe de ser alcan\u00e7ada<\/a>, sendo que a participa\u00e7\u00e3o das mulheres na tomada de decis\u00f5es \u00e9, em m\u00e9dia, de 30%. Apesar dos avan\u00e7os nas leis de cotas e reformas constitucionais em v\u00e1rios pa\u00edses, os sistemas pol\u00edticos patriarcais continuam a limitar a igualdade. A representa\u00e7\u00e3o das mulheres nos gabinetes ministeriais \u00e9 de 28,7%, e a paridade \u00e9 alcan\u00e7ada somente no Chile e na Costa Rica. Nos parlamentos nacionais, a participa\u00e7\u00e3o \u00e9 de 34,9%, com uma proje\u00e7\u00e3o de 40 anos para atingir a paridade. De acordo com o F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial, a regi\u00e3o fechou 74,3% de sua brecha de g\u00eanero, destacando as melhorias no empoderamento pol\u00edtico e nas oportunidades econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a realidade continua sendo que pouqu\u00edssimas mulheres chegam ao poder, pouqu\u00edssimas permanecem no poder (geralmente ocupam cargos hiperfeminizados com pouca influ\u00eancia) e quase nenhuma consegue incorporar uma perspectiva feminista em pol\u00edticas p\u00fablicas e a\u00e7\u00f5es governamentais que consigam mudar as condi\u00e7\u00f5es das mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Todos os informes e relat\u00f3rios e at\u00e9 mesmo o senso comum racional destacam como estar\u00edamos muito melhor como sociedade se as mulheres participassem e tomassem mais decis\u00f5es. Mas os n\u00fameros revelam que <a href=\"https:\/\/x.com\/FeminismoINC\/status\/1533838155895406597\">as mulheres continuam sendo exclu\u00eddas<\/a> de todos os espa\u00e7os de poder. O progresso \u00e9 lento e h\u00e1 retrocessos. A situa\u00e7\u00e3o das mulheres est\u00e1 sendo constantemente negociada. N\u00e3o h\u00e1 mudan\u00e7as estruturais, apenas mulheres que se masculinizam para manter o poder. A verdade \u00e9 que todos os dias, em todos os momentos, os direitos das mulheres est\u00e3o sendo ignorados, amea\u00e7ados e minados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Paridade como nova bandeira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, em outubro de 2024, a <a href=\"https:\/\/www.ohchr.org\/sites\/default\/files\/cedaw_SP.pdf\">Conven\u00e7\u00e3o sobre a Elimina\u00e7\u00e3o de Todas as Formas de Discrimina\u00e7\u00e3o contra a Mulher<\/a> (CEDAW) adotou o Regulamento Geral 40, que coloca a paridade 50-50 como foco principal. Nas palavras do Comit\u00ea, o fracasso em alcan\u00e7ar a paridade impedir\u00e1 que os Estados e a comunidade internacional enfrentem efetivamente os desafios nacionais, regionais e globais urgentes, especialmente aqueles relacionados \u00e0 paz, \u00e0 estabilidade pol\u00edtica, ao desenvolvimento econ\u00f4mico, \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e aos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos, como a intelig\u00eancia artificial.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles a definem como crucial para atingir os Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel at\u00e9 2030. At\u00e9 maio de 2023, nenhum dos 17 havia sido alcan\u00e7ado, especialmente o n\u00famero 5, Igualdade de G\u00eanero, que est\u00e1 aqu\u00e9m das expectativas globais. O RG 40 afirma que todas as desigualdades s\u00e3o exacerbadas pela discrimina\u00e7\u00e3o estrutural existente e pelas desigualdades de g\u00eanero nas esferas p\u00fablica e privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Com essa recomenda\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 apelo \u00e0 transitoriedade ou \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o positiva; a paridade se torna um princ\u00edpio universal e permanente. \u00c9 uma exig\u00eancia que o feminismo radical vem fazendo h\u00e1 muito tempo: \u201cSem paridade n\u00e3o pode haver democracia\u201d, \u201cA paridade \u00e9 um direito constitutivo da democracia\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse princ\u00edpio busca a verdadeira igualdade de oportunidades e participa\u00e7\u00e3o entre os dois g\u00eaneros, pois garantiria a equidade total, a transforma\u00e7\u00e3o estrutural por meio da mudan\u00e7a das din\u00e2micas de poder e o equil\u00edbrio igualit\u00e1rio da lideran\u00e7a de forma sustent\u00e1vel e duradoura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, alcan\u00e7ar a paridade pode ser complexo, pois representa uma meta mais ambiciosa. N\u00e3o se trata apenas de mudar as leis, mas de transformar profundamente as estruturas de poder e as mentalidades sociais. N\u00e3o se trata apenas de mudar os n\u00fameros, mas de gerar uma mudan\u00e7a cultural que deve romper com tradi\u00e7\u00f5es patriarcais profundamente enraizadas que limitam a aceita\u00e7\u00e3o da igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Pessoalmente, estou convencida de que a paridade \u00e9 uma luta por um direito semelhante ao do sufr\u00e1gio. N\u00e3o \u00e9 uma concess\u00e3o de partidos pol\u00edticos, diretorias ou l\u00edderes quando escolhem seu gabinete, \u00e9 um direito pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como fazer com que a paridade seja substantiva e n\u00e3o apenas formal?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para mudar essa situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1ria uma transforma\u00e7\u00e3o estrutural dos pap\u00e9is e das responsabilidades de g\u00eanero nas esferas p\u00fablica e privada, a fim de promover um contexto no qual mulheres e homens possam conciliar suas obriga\u00e7\u00f5es e habilidades profissionais com suas responsabilidades familiares e outras responsabilidades de cuidado em p\u00e9 de igualdade, por exemplo, por meio de uma nova organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e da reconfigura\u00e7\u00e3o dos conceitos de produtividade, monetiza\u00e7\u00e3o e economia do cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a <a href=\"https:\/\/www.cepal.org\/es\">CEPAL<\/a>, a experi\u00eancia dos pa\u00edses onde a paridade foi efetiva (M\u00e9xico, Chile, Argentina, por exemplo) foi o resultado da defesa articulada de diferentes atores: \u201cas pr\u00f3prias mulheres pol\u00edticas, organizadas em coordena\u00e7\u00e3o intra e interpartid\u00e1ria; \u00f3rg\u00e3os de supervis\u00e3o eleitoral comprometidos com a promo\u00e7\u00e3o da igualdade de g\u00eanero; partidos pol\u00edticos e l\u00edderes aliados que demonstram um compromisso real com a paridade de g\u00eanero nos espa\u00e7os de tomada de decis\u00f5es pol\u00edticas; e o monitoramento e a den\u00fancia de casos de descumprimento por parte do movimento social feminista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em muitos casos, as duas estrat\u00e9gias poderiam ser combinadas: come\u00e7ar com cotas de g\u00eanero para gerar representa\u00e7\u00e3o e visibilidade imediatas e, ao mesmo tempo, trabalhar paralelamente para construir a paridade a longo prazo, garantindo que, uma vez que o progresso seja feito, as estruturas pol\u00edticas e sociais sejam capazes de sustentar a verdadeira igualdade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora alguns possam argumentar que as cotas n\u00e3o resolvem todos os problemas, como a representa\u00e7\u00e3o aut\u00eantica ou a qualidade da participa\u00e7\u00e3o, \u00e9 ineg\u00e1vel que elas abrem portas e tornam o talento feminino vis\u00edvel em um ambiente historicamente dominado por homens.<\/p>\n\n\n\n<p>A agenda feminista \u00e9 a agenda da igualdade, n\u00e3o da inclus\u00e3o. N\u00e3o se trata de se encaixar nesse sistema patriarcal que valoriza o masculino em detrimento do feminino, mas de projetar outro em que mulheres e homens vivam em igualdade de condi\u00e7\u00f5es. \u00c9 por isso que h\u00e1 uma necessidade urgente de um grande acordo nacional sobre paridade, em que o Estado, os partidos pol\u00edticos, o setor privado e a sociedade civil se comprometam a facilitar as condi\u00e7\u00f5es para que mais mulheres cheguem ao poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A experi\u00eancia demonstra a efetividade das cotas, uma vez que existem diferen\u00e7as num\u00e9ricas na presen\u00e7a feminina entre os sistemas pol\u00edticos em que elas s\u00e3o contempladas e aqueles em que n\u00e3o s\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"author":626,"featured_media":47204,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16782],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-47215","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/626"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47215\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47204"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47215"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=47215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}