{"id":47453,"date":"2025-03-22T09:00:00","date_gmt":"2025-03-22T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47453"},"modified":"2025-03-22T18:03:39","modified_gmt":"2025-03-22T21:03:39","slug":"africa-do-sul-sob-fogo-uma-oportunidade-para-a-america-latina-em-um-mundo-multipolar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/africa-do-sul-sob-fogo-uma-oportunidade-para-a-america-latina-em-um-mundo-multipolar\/","title":{"rendered":"\u00c1frica do Sul sob fogo: uma oportunidade para a Am\u00e9rica Latina em um mundo multipolar"},"content":{"rendered":"\n<p>Em um momento em que o tabuleiro geopol\u00edtico global est\u00e1 passando por uma reconfigura\u00e7\u00e3o acelerada, o recente confronto entre a administra\u00e7\u00e3o Trump e o governo sul-africano n\u00e3o apenas revela tens\u00f5es ideol\u00f3gicas, mas tamb\u00e9m abre uma janela estrat\u00e9gica para os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Para al\u00e9m das raz\u00f5es que levaram o presidente dos EUA a <a href=\"https:\/\/www.france24.com\/es\/ee-uu-y-canad%C3%A1\/20250208-trump-corta-la-ayuda-a-sud%C3%A1frica-tras-cuestionar-su-pol%C3%ADtica-de-tierras-y-su-postura-contra-israel\">atacar politicamente a \u00c1frica do Sul<\/a>, o certo \u00e9 que esse pa\u00eds africano est\u00e1 se consolidando como um ator decisivo e defensor dos interesses dos pa\u00edses mais vulner\u00e1veis do Sul Global. Portanto, a Am\u00e9rica Latina, em vez de limitar seu olhar aos polos tradicionais de poder, faria bem em aprofundar seu relacionamento com Pret\u00f3ria como parte de uma estrat\u00e9gia abrangente de desenvolvimento, paz e com\u00e9rcio sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que o Trump est\u00e1 atacando a \u00c1frica do Sul?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o retorno de Donald Trump \u00e0 presid\u00eancia dos Estados Unidos, suas decis\u00f5es t\u00eam sido marcadas por um nacionalismo econ\u00f4mico exacerbado, uma vis\u00e3o transacional da diplomacia e uma postura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos governos que ele considera contr\u00e1rios aos interesses geopol\u00edticos de Washington. A \u00c1frica do Sul n\u00e3o escapou dessa l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>O ponto de inflex\u00e3o mais recente foi a decis\u00e3o do governo sul-africano de avan\u00e7ar com uma pol\u00edtica de desapropria\u00e7\u00e3o de terras sem indeniza\u00e7\u00e3o como parte de seu programa de reforma agr\u00e1ria, que visa corrigir as profundas desigualdades herdadas do apartheid. Embora essa lei possa ser considerada problem\u00e1tica, o governo sul-africano deixou claro que ela s\u00f3 seria aplicada em casos espec\u00edficos, de forma gradual e com v\u00e1rias salvaguardas para garantir os direitos dos propriet\u00e1rios e dos destinat\u00e1rios subsequentes da terra. No entanto, Trump, em seu tradicional estilo provocativo e com base em uma narrativa promovida pela m\u00eddia de extrema direita, como a Fox News e grupos nacionalistas brancos, chamou essa medida de um ato de \u201cdiscrimina\u00e7\u00e3o racial reversa\u201d e um ataque \u00e0 propriedade privada, provocando uma ofensiva pol\u00edtica e econ\u00f4mica contra o pa\u00eds africano.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essa n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica coisa que incomoda Trump. A \u00c1frica do Sul tem adotado uma postura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pot\u00eancias ocidentais em quest\u00f5es importantes, como o conflito em Gaza, o papel da OTAN na Ucr\u00e2nia e a hegemonia do d\u00f3lar no com\u00e9rcio global. Soma-se a isso seu processo contra Israel por genoc\u00eddio perante a Corte Internacional de Justi\u00e7a e seu papel de lideran\u00e7a nos BRICS, um grupo que inclui Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China, Egito, Eti\u00f3pia, Indon\u00e9sia, Ir\u00e3 e Emirados \u00c1rabes Unidos, e que consolidou uma agenda contr\u00e1ria \u00e0 unipolaridade liderada h\u00e1 d\u00e9cadas pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resposta, o governo Trump suspendeu mais de US$ 400 milh\u00f5es em ajuda \u00e0 \u00c1frica do Sul, bloqueou acordos comerciais e ofereceu um \u201ccaminho r\u00e1pido\u201d para a cidadania estadunidense aos agricultores sul-africanos brancos, retratados como v\u00edtimas da nova lei de reforma agr\u00e1ria, em uma a\u00e7\u00e3o t\u00e3o simb\u00f3lica quanto estrat\u00e9gica, buscando refor\u00e7ar sua narrativa nacionalista.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Al\u00e9m do conflito: o que a \u00c1frica do Sul representa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00c1frica do Sul n\u00e3o \u00e9 apenas mais um pa\u00eds da \u00c1frica Subsaariana. \u00c9 a economia mais industrializada do continente, membro do G20, uma pot\u00eancia regional e uma ponte natural entre os interesses do Sul Global e os debates no Norte desenvolvido. Tamb\u00e9m possui uma democracia robusta &#8211; embora imperfeita -, institui\u00e7\u00f5es consolidadas e uma sociedade civil vibrante que conseguiu lidar com desafios complexos, como a reconcilia\u00e7\u00e3o p\u00f3s-apartheid, a corrup\u00e7\u00e3o e a desigualdade estrutural.<\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista econ\u00f4mico, a \u00c1frica do Sul \u00e9 um ator com capacidade de promover parcerias estrat\u00e9gicas em setores como minera\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, energias renov\u00e1veis, agroneg\u00f3cios, educa\u00e7\u00e3o superior e tecnologia. Sua participa\u00e7\u00e3o ativa em f\u00f3runs multilaterais, como a ONU, a Uni\u00e3o Africana, a SADC e o pr\u00f3prio BRICS, faz dela um interlocutor privilegiado para qualquer pa\u00eds que busque diversificar suas parcerias globais.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, longe de ser uma na\u00e7\u00e3o \u201cproblem\u00e1tica\u201d, a \u00c1frica do Sul incorpora muitas das aspira\u00e7\u00f5es de uma globaliza\u00e7\u00e3o mais equitativa e inclusiva sustentada pela coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul. E \u00e9 nesse ponto que a Am\u00e9rica Latina tem muito a ganhar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Am\u00e9rica Latina: entre o pragmatismo e a aud\u00e1cia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Durante d\u00e9cadas, a pol\u00edtica externa de muitos pa\u00edses latino-americanos foi marcada por um alinhamento com Washington. E, embora essa alian\u00e7a tenha trazido benef\u00edcios importantes em termos de seguran\u00e7a, com\u00e9rcio e coopera\u00e7\u00e3o internacional, ela tamb\u00e9m limitou a capacidade da regi\u00e3o de construir uma agenda mais aut\u00f4noma e diversificada. Hoje, enquanto os Estados Unidos se envolvem em um confronto ideol\u00f3gico e estrat\u00e9gico com um pa\u00eds importante do hemisf\u00e9rio sul, a Am\u00e9rica Latina tem a oportunidade &#8211; e o dever &#8211; de repensar suas prioridades.<\/p>\n\n\n\n<p>O estabelecimento de um relacionamento mais pr\u00f3ximo e multidimensional com a \u00c1frica do Sul n\u00e3o s\u00f3 serviria para consolidar a autonomia estrat\u00e9gica regional, mas tamb\u00e9m abriria oportunidades concretas em v\u00e1rias \u00e1reas:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. Com\u00e9rcio e diversifica\u00e7\u00e3o de mercados<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00c1frica do Sul representa um mercado potencial de mais de 60 milh\u00f5es de pessoas com uma demanda crescente por produtos agr\u00edcolas, energ\u00e9ticos e industriais. Os pa\u00edses latino-americanos, com sua riqueza de recursos naturais, capacidade agr\u00edcola e setor terci\u00e1rio em crescimento, podem se posicionar como fornecedores importantes de alimentos, insumos e servi\u00e7os. O fortalecimento dessa rela\u00e7\u00e3o permitiria reduzir a depend\u00eancia excessiva do com\u00e9rcio com os Estados Unidos, a Uni\u00e3o Europeia e a China.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Transfer\u00eancia de conhecimento e coopera\u00e7\u00e3o Sul-Sul<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A \u00c1frica do Sul desenvolveu pol\u00edticas p\u00fablicas inovadoras em \u00e1reas como sa\u00fade p\u00fablica, educa\u00e7\u00e3o inclusiva, urbanismo sustent\u00e1vel e gest\u00e3o de recursos naturais. A Am\u00e9rica Latina poderia se beneficiar muito de interc\u00e2mbios t\u00e9cnicos e acad\u00eamicos com institui\u00e7\u00f5es sul-africanas, especialmente em quest\u00f5es relacionadas \u00e0 igualdade social, minera\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel e desenvolvimento rural.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Seguran\u00e7a e paz<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tanto a \u00c1frica do Sul quanto v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos passaram por processos complexos de reconcilia\u00e7\u00e3o nacional. A \u00c1frica do Sul tornou-se uma refer\u00eancia global com sua Comiss\u00e3o da Verdade e seu modelo de justi\u00e7a restaurativa. Em contextos latino-americanos marcados por conflitos internos, desigualdade ou viol\u00eancia estrutural, a coopera\u00e7\u00e3o bilateral focada na constru\u00e7\u00e3o da paz, na mem\u00f3ria e na repara\u00e7\u00e3o pode gerar sinergias valiosas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4.&nbsp; Alian\u00e7as em f\u00f3runs multilaterais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crescente influ\u00eancia da \u00c1frica do Sul em blocos como o BRICS e sua lideran\u00e7a no continente africano podem abrir novas portas diplom\u00e1ticas para a Am\u00e9rica Latina como um todo. Em um mundo multipolar, a constru\u00e7\u00e3o de alian\u00e7as com pa\u00edses como a \u00c1frica do Sul pode expandir a capacidade de defesa global da regi\u00e3o, sem ficar presa a l\u00f3gicas de blocos ou lealdades geopol\u00edticas r\u00edgidas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que est\u00e1 em jogo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A crise entre Trump e a \u00c1frica do Sul n\u00e3o \u00e9 um epis\u00f3dio isolado. \u00c9 mais um exemplo de como <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-esperar-do-governo-trump-na-america-latina\/\">a ordem internacional est\u00e1 mudando rapidamente<\/a>. Nesse novo cen\u00e1rio, os pa\u00edses que conseguirem navegar com flexibilidade e vis\u00e3o estrat\u00e9gica ter\u00e3o mais chances de garantir seu bem-estar e estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina tem a possibilidade de ler corretamente o momento hist\u00f3rico, abandonando pol\u00edticas externas excessivamente reativas e construindo uma agenda baseada em princ\u00edpios de coopera\u00e7\u00e3o, equidade e pluralidade. Aproximar-se da \u00c1frica do Sul n\u00e3o significa romper com os Estados Unidos, mas sim acrescentar novas vozes e aliados a uma conversa global na qual o Sul pode &#8211; e deve &#8211; desempenhar um papel de lideran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Em tempos de tens\u00f5es globais, a ousadia diplom\u00e1tica \u00e9 um exemplo valioso de uma regi\u00e3o que acredita em um sistema internacional baseado na paz, no desenvolvimento e na soberania. A \u00c1frica do Sul n\u00e3o \u00e9 um inimigo a ser evitado, como pretende Trump, mas um parceiro estrat\u00e9gico a ser valorizado. E a Am\u00e9rica Latina, se agir com intelig\u00eancia coletiva, pode encontrar em Pret\u00f3ria um grande aliado nestes tempos de incerteza geopol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde o retorno de Donald Trump, t\u00eam impulsionado um nacionalismo econ\u00f4mico exacerbado, uma diplomacia transacional e uma postura cr\u00edtica em rela\u00e7\u00e3o aos governos contr\u00e1rios aos interesses de Washington, incluindo a \u00c1frica do Sul.<\/p>\n","protected":false},"author":732,"featured_media":47425,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16762,16797],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-47453","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","8":"category-polarizacion-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47453","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/732"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47453"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47453\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47425"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47453"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47453"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47453"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=47453"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}