{"id":47483,"date":"2025-03-25T09:00:00","date_gmt":"2025-03-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47483"},"modified":"2025-03-24T11:47:06","modified_gmt":"2025-03-24T14:47:06","slug":"o-teatro-como-resistencia-frente-as-narrativas-imperialistas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-teatro-como-resistencia-frente-as-narrativas-imperialistas\/","title":{"rendered":"O teatro como resist\u00eancia frente \u00e0s narrativas imperialistas"},"content":{"rendered":"\n<p>Antes de abordar o que nos interessa com a obra <em>1903, O Musical<\/em>, falaremos do controle de massas atrav\u00e9s da propaganda pol\u00edtica, cujo fim \u00e9 persuadir em tempos de guerra, buscando influenciar emo\u00e7\u00f5es, ideologias pol\u00edticas ou culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>A propaganda pol\u00edtica surgiu com imperadores romanos, como J\u00falio C\u00e9sar e Ot\u00e1vio Augusto, que usavam monumentos, moedas e discursos p\u00fablicos para consolidar seu poder e promover suas conquistas. Em 1622, por iniciativa do Papa Greg\u00f3rio XV, foi criada a <em>Sacra Congregatio de Propaganda Fide<\/em> para controlar a evangeliza\u00e7\u00e3o mundial a partir de Roma, mas tamb\u00e9m para consolidar a autoridade papal em todo o mundo. Pouco a pouco, a propaganda foi se consolidando em regimes totalit\u00e1rios, como o de L\u00eanin, que estabeleceu o comunismo na R\u00fassia, e o dos nazistas, que chegaram ao poder na Alemanha.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, quando vemos uma bandeira estadunidense, ouvimos o nome \u201cTrump\u201d ou lemos a sigla \u201cMAGA\u201d, n\u00e3o importa o contexto, a primeira coisa que nossa mente relaciona ou conota, semioticamente falando, \u00e9 o <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/panama-um-quarto-de-seculo-que-pode-ir-para-a-lixeira-da-historia\/\">imperialismo vivo<\/a>. E no \u00e2mbito panamenho, isso se traduz em \u201csoberania\u201d, que tem sido t\u00e3o dif\u00edcil de sustentar nos livros de hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas\u2026 como isso se relaciona com a pe\u00e7a 1903, O Musical?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Harold Lasswell, pioneiro da ci\u00eancia pol\u00edtica e da teoria da comunica\u00e7\u00e3o, concebe esse mecanismo como um fluxo controlado de informa\u00e7\u00f5es que dirige ou influencia a opini\u00e3o p\u00fablica e fornece modelos ou padr\u00f5es de conduta. Isso n\u00e3o deve ser visto com obscuridade. Enquanto Donald Trump move suas fichas segundo seus interesses, o panamenho tem sua hist\u00f3ria vivida, representada em grandes palcos com centenas de espectadores que n\u00e3o deixam seu passado morrer.<\/p>\n\n\n\n<p>A pe\u00e7a <em>1903, O Musical<\/em> \u00e9 um grande exemplo de propaganda pol\u00edtica bem executada: desde os cen\u00e1rios, figurinos e atores, at\u00e9 a m\u00fasica que poderia se tornar um hino de soberania. A pe\u00e7a est\u00e1 representada como quem move estrategicamente as pe\u00e7as em um tabuleiro de xadrez. \u00c9 s\u00f3 no final do musical que o \u201cxeque-mate\u201d \u00e9 sentido, e n\u00e3o h\u00e1 emo\u00e7\u00e3o que n\u00e3o possa ser resumida em pelo menos uma l\u00e1grima.<\/p>\n\n\n\n<p>O roteiro come\u00e7a com Victoriano Lorenzo, um dos grandes her\u00f3is da hist\u00f3ria panamenha, deitado na cal\u00e7ada do que hoje \u00e9 conhecido como Plaza de Francia, uma figura esquecida da hist\u00f3ria, que \u00e9 revivida para recriar a separa\u00e7\u00e3o do Panam\u00e1 e da Col\u00f4mbia. Os personagens s\u00e3o bem pensados, incluindo os breves minutos de Theodore Roosevelt, ou a maneira ir\u00f4nica de olhar para Philippe Bunau-Varilla, que, se em algum momento quiserem apag\u00e1-lo dos livros de hist\u00f3ria, continuaria sendo um anti-her\u00f3i a quem o Panam\u00e1 \u201cdeve\u201d seu Canal, mas que, por sua vez, nos vendeu por 10 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O poder da m\u00fasica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o artigo de Eduardo Barreto Mart\u00edn, pesquisador da Universidade de Salamanca, sobre a rela\u00e7\u00e3o entre a mem\u00f3ria democr\u00e1tica e os espa\u00e7os culturais, a m\u00fasica n\u00e3o s\u00f3 refor\u00e7a as mensagens, mas tamb\u00e9m facilita sua memoriza\u00e7\u00e3o e cria conex\u00f5es emocionais em torno de um objetivo coletivo. No caso desta obra, os temas musicais t\u00eam um papel fundamental na narrativa e na evoca\u00e7\u00e3o da identidade nacional. M\u00fasicas como <strong>\u201cNo se gana (pero se goza)\u201d<\/strong> conseguem se conectar com as emo\u00e7\u00f5es do p\u00fablico por meio de versos como:<em> Para Panam\u00e1, sai o sol, outro dia para o governo nos meter outro gol, una-se ao movimento, fa\u00e7a sua parte, que desta terra temos que tomar o controle<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro destaque \u00e9 <strong>\u201cEres mi hogar\u201d<\/strong>, que expressa um senso de pertencimento com versos como: <em>A terra que, quando partida, unir\u00e1 o mundo\u2026 \u00c9s meu lar, n\u00e3o h\u00e1 outro amor, n\u00e3o h\u00e1 outro lugar<\/em>. A can\u00e7\u00e3o <strong>\u201cBandera\u201d<\/strong> eleva o s\u00edmbolo patri\u00f3tico a uma representa\u00e7\u00e3o de esperan\u00e7a e sacrif\u00edcio: <em>Azul como as \u00e9guas que vamos unir, o vermelho da ferida a curar, o branco da paz que sonharam os m\u00e1rtires que te levantar\u00e3o<\/em>. E, finalmente, a ic\u00f4nica <strong>\u201cS\u00e9 para tu patria\u201d<\/strong> torna-se um hino de resist\u00eancia e coragem: <em>Deixe de lado o medo que te para, o guerreiro que h\u00e1 em ti hoje se levanta, levante-se e seja pelo Panam\u00e1, seja pela sua p\u00e1tria<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas can\u00e7\u00f5es funcionam como verdadeiros gatilhos propagandistas. Seu efeito pode ser comparado ao uso da m\u00fasica durante a Primeira Guerra Mundial, quando can\u00e7\u00f5es foram compostas para incentivar o p\u00fablico a apoiar o esfor\u00e7o b\u00e9lico, uma estrat\u00e9gia que tamb\u00e9m foi eficaz durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, a propaganda pol\u00edtica n\u00e3o deve ser necessariamente interpretada como algo negativo; pode ser um recurso poderoso para fortalecer a identidade e a mem\u00f3ria coletiva de um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Impacto social e contrapropaganda<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O teatro como ferramenta pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 novo. Isidora Aguirre contou como Salvador Allende pediu para incorporar sua obra \u201cLos que van quedando en el camino\u201d para fortalecer sua campanha presidencial. <em>1903<\/em> funciona de maneira similar: \u00e9 uma contra-narrativa que refor\u00e7a o orgulho panamenho frente a narrativas externas que hoje, em 2025, amea\u00e7am ressurgir. Pode n\u00e3o ser a m\u00e1quina de propaganda de Trump, mas no Panam\u00e1, pelo menos, continua a funcionar como um lembrete de nossa resili\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a representa\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, <strong>a cr\u00edtica social<\/strong>, a idealiza\u00e7\u00e3o de her\u00f3is ou vil\u00f5es, a simplifica\u00e7\u00e3o de ideias complexas, at\u00e9 a mobiliza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, tudo isso se reflete na obra, que consegue capturar a ess\u00eancia desses mecanismos. No final, a figura de Ascanio Arosemena, um l\u00edder estudantil assassinado em 1964 durante os incidentes do Dia dos M\u00e1rtires, quando um grupo de estudantes entrou na Zona do Canal do Panam\u00e1 sob administra\u00e7\u00e3o estadunidense, permanece como um s\u00edmbolo que abrange todas as gera\u00e7\u00f5es de panamenhos que lutaram pela soberania de sua p\u00e1tria, deixando uma profunda mensagem de unidade que ressoa fortemente nos cora\u00e7\u00f5es de todos os espectadores.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hoje, quando vemos uma bandeira estadunidense ou ouvimos o nome \u201cTrump\u201d, nossa mente relaciona de imediato, semioticamente falando, a ideia de um imperialismo em plena vig\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":733,"featured_media":47473,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16936],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-47483","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-panama-es-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/733"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47483"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47483\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47473"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47483"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=47483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}