{"id":4774,"date":"2020-12-02T06:35:43","date_gmt":"2020-12-02T09:35:43","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4774"},"modified":"2023-07-07T17:20:40","modified_gmt":"2023-07-07T20:20:40","slug":"o-que-aconteceu-com-os-outsiders-de-2018-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-aconteceu-com-os-outsiders-de-2018-no-brasil\/","title":{"rendered":"Brasil: e os outsiders de 2018?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>Co-autora Magna In\u00e1cio<\/strong> \/ Em novembro passado, os brasileiros foram \u00e0s urnas para votar em prefeitos e vereadores em 5567 munic\u00edpios de todo o Brasil; em 57 deles, a elei\u00e7\u00e3o de prefeitos foi definida em um segundo turno. Inicialmente adiadas devido \u00e0 pandemia da Covid-19, as elei\u00e7\u00f5es de 2020 decorreram de forma relativamente tranquila. Embora a absten\u00e7\u00e3o tenha sido significativa, 76,9% dos eleitores participaram. Por que prestar aten\u00e7\u00e3o a estas elei\u00e7\u00f5es? Por tr\u00eas raz\u00f5es. Primeiro, porque representam um term\u00f4metro para medir se o tsunami eleitoral de 2018, do qual os principais partidos pol\u00edticos sa\u00edram desidratados e os <em>outsiders<\/em> vitoriosos (com Jair Bolsonaro \u00e0 frente), foi uma situa\u00e7\u00e3o excepcional ou uma reviravolta mais duradoura na pol\u00edtica brasileira. Em segundo lugar, porque sob o impacto da pandemia, na qual os governos locais desempenharam um papel crucial diante da ina\u00e7\u00e3o do <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/caudilhos-mais-do-que-lideres\/\">governo<\/a> nacional, estas elei\u00e7\u00f5es tornaram-se a avalia\u00e7\u00e3o retrospectiva de seu desempenho. Terceiro, porque foi a primeira disputa eleitoral ap\u00f3s a reforma que aboliu uma das regras de ouro do multipartidarismo brasileiro, as coaliz\u00f5es eleitorais, que permitia que os partidos se aliassem entre si para superar a barreira eleitoral m\u00ednima e obter representa\u00e7\u00e3o legislativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es anteriores de 2018, o fato mais marcante foi a vontade de punir a elite pol\u00edtica, desprestigiada por den\u00fancias e esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, e a consequente inclina\u00e7\u00e3o da maioria dos cidad\u00e3os para discursos anti-Bras\u00edlia e os candidatos anti-sistema. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2018\/10\/23\/opinion\/1540317261_318460.html\">Jair Bolsonaro foi eleito presidente apresentando-se como um <em>outsider<\/em><\/a> (apesar de seus quase trinta anos como parlamentar do baixo clero) e se tornando o principal porta-voz dessa postura controversa. Ele n\u00e3o foi o \u00fanico. Importantes distritos eleitorais do pa\u00eds elegeram governadores autoproclamados como n\u00e3o pol\u00edticos, como o Rio de Janeiro (Witzel, PSC), Minas Gerais (Zema, Partido Novo) e Bras\u00edlia (Ibaneis Rocha, MDB).<\/p>\n\n\n\n<p>Para muitos, o <em>outsidesiderismo<\/em> tornou-se um estilo de governo, bem como uma janela eleitoral. Mas, paradoxalmente, os eventos de 2020, que culminaram nas elei\u00e7\u00f5es de novembro, deixaram em evid\u00eancia que os <em>outsiders<\/em> precisavam fazer pol\u00edtica para sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em minoria no Congresso e sem um partido, com sua postura negacionista diante da pandemia, a radicaliza\u00e7\u00e3o de sua agenda e os ataques \u00e0s institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, no in\u00edcio do ano Bolsonaro parecia se encaminhar para o isolamento pol\u00edtico. Sem \u00eaxito, ele tentou evitar o n\u00famero crescente de pedidos de impeachment e os riscos de crise institucional, alcan\u00e7ando os partidos do <em>centr\u00e3o<\/em>, uma coaliz\u00e3o legislativa de partidos \u00e1vidos de patronagem. Ao referir-se a estes partidos como a &#8220;velha pol\u00edtica&#8221;, Bolsonaro passou a aliment\u00e1-los com cargos no executivo, colocando-se assim nas ant\u00edpodas de suas promessas eleitorais de renova\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, embora Bolsonaro se recusasse a liderar uma estrat\u00e9gia para enfrentar a pandemia, em meados do ano ele tentou reverter a queda em sua popularidade atrav\u00e9s do impacto positivo do aux\u00edlio emergencial, um programa que o Congresso criou diante da ina\u00e7\u00e3o do governo e que atingiu 67 milh\u00f5es de brasileiros. Entretanto, as apostas que o presidente fez por conta pr\u00f3pria n\u00e3o funcionaram bem. Sua popularidade caiu novamente no per\u00edodo que antecedeu as elei\u00e7\u00f5es, desta vez em face de sua incapacidade de dar rumo \u00e0 economia.<\/p>\n\n\n\n<p>Obcecado com a reelei\u00e7\u00e3o, a atitude de Bolsonaro nas elei\u00e7\u00f5es foi err\u00e1tica. Ele apoiou alguns pol\u00edticos radicais e aliados pertencentes a partidos e regi\u00f5es com voca\u00e7\u00e3o presidencial, como no nordeste do pa\u00eds. Mas apenas dois dos 13 candidatos para os quais ele fez campanha foram eleitos prefeitos, e nenhum nas capitais estaduais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Outros <em>outsiders<\/em> nem chegaram a testar sua influ\u00eancia eleitoral&#8221; <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Outros <em>outsiders<\/em> nem chegaram a testar sua influ\u00eancia eleitoral. Duas das surpresas da onda antipol\u00edtica de 2018, os governadores de Santa Catarina (Mois\u00e9s, PSL) e do Rio de Janeiro (Witzel, PSC) foram suspensos este ano no processo de impeachment. Acusados de corrup\u00e7\u00e3o, e sem ter constru\u00eddo pontes com os partidos e legislaturas, ambos acabaram sendo desafiados pelos mecanismos de controle horizontal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em novembro passado, as urnas se distanciaram das posi\u00e7\u00f5es extremas do presidente, mas fortaleceram a direita pol\u00edtica. Os partidos do \u201ccentr\u00e3o\u201d como o PSD, PP, PL e Republicanos elegeram 34% dos prefeitos do pa\u00eds. Os partidos tradicionais de direita (DEM) e centro-direita (PSDB, MDB), a base das coaliz\u00f5es presidenciais desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, ganharam for\u00e7a: <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/711348-MDB,-PSDB-E-DEM-VAO-GOVERNAR-A-METADE-DAS-CAPITAIS-BRASILEIRAS\">conseguiram manter seu peso nacional e v\u00e3o governar metade das capitais estaduais<\/a>. Esta n\u00e3o \u00e9 necessariamente uma boa not\u00edcia para o presidente. Com a &#8220;velha pol\u00edtica&#8221; fortalecida, seu apoio no Congresso custar\u00e1 mais caro, o mesmo que o apoio a seu plano de reelei\u00e7\u00e3o, se o presidente n\u00e3o ficar no caminho como um presidente de mandato \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p>Os partidos que em 2018 serviram como porta de entrada para os <em>outsiders<\/em> ao Congresso n\u00e3o tiveram sorte na disputa eleitoral. O PSL, segundo em financiamento p\u00fablico, n\u00e3o elegeu nenhum prefeito nas 100 maiores cidades do pa\u00eds, e seus candidatos bem sucedidos em 2018 ficaram agora entre os que obtiveram o menor n\u00famero de votos. O Partido Novo, cujo <em>outsider<\/em> Amoedo disputou a presid\u00eancia em 2018 e que trouxe o empres\u00e1rio Zema ao governo de Minas Gerais, conseguiu eleger apenas um prefeito.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a causa da m\u00e1 sorte dos <em>outsiders<\/em> extremistas nas elei\u00e7\u00f5es locais tenha sido a pandemia e o fim das coaliz\u00f5es eleitorais. A pandemia renovou os incentivos para premiar a gest\u00e3o pol\u00edtica ou para valorizar a import\u00e2ncia de voltar a ela. A gest\u00e3o descoordenada da crise a n\u00edvel federal devido \u00e0 relut\u00e2ncia de Bolsonaro criou um espa\u00e7o para prefeitos e pol\u00edticos locais competirem pelas recompensas. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/voto-a-voto\/2020\/11\/eleicao-na-pandemia-tem-salto-de-prefeitos-candidatos-a-reeleicao-e-risco-de-abstencao-recorde.shtml\">Um indicio interessante foi a alta porcentagem que buscou a reelei\u00e7\u00e3o<\/a>. Com campanhas curtas e alto risco de absten\u00e7\u00e3o, os partidos apresentaram candidatos conhecidos e com votos. O fim das coaliz\u00f5es eleitorais, por sua vez, levou os partidos a apresentar seus pr\u00f3prios candidatos a prefeito a fim de enfrentar melhor uma elei\u00e7\u00e3o mais competitiva para vereadores.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a causa da m\u00e1 sorte dos <em>outsiders<\/em> extremistas nas elei\u00e7\u00f5es locais tenha sido a pandemia e o fim das coaliz\u00f5es eleitorais&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Os efeitos da elei\u00e7\u00e3o municipal sobre a disputa presidencial de 2022 devem ser tomados com cautela, mas seus resultados nos deixaram alguns sinais claros. Primeiro, o distanciamento dos eleitores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ret\u00f3rica antipol\u00edtica e extremista levada a cabo pelos radicais de direita em 2018. Segundo, a vit\u00f3ria dos partidos tradicionais de direita como oportunidades abertas para que Bolsonaro fa\u00e7a pol\u00edtica. Terceiro, o fraco desempenho da esquerda e a necessidade de uma nova pol\u00edtica de alian\u00e7as como a \u00fanica alternativa para chegar ao poder. N\u00e3o sabemos se estes sinais ou algum deles sobreviver\u00e3o at\u00e9 2022, mas eles t\u00eam o potencial de transformar 2018 em uma excepcionalidade, tr\u00e1gica para a hist\u00f3ria do Brasil, mas um ponto no tempo. <em>Os outsiders<\/em> e sua influ\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Co-autor Magna In\u00e1cio<br \/>\nAs recentes elei\u00e7\u00f5es locais no Brasil nos deixam tr\u00eas conclus\u00f5es: o distanciamento dos eleitores da ret\u00f3rica anti-pol\u00edtica dos radicais de direita em 2018, a vit\u00f3ria dos tradicionais partidos de direita e o fraco desempenho da esquerda. <\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":2946,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16728,16748,544],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-4774","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil-pt-br","8":"category-populismo-pt-br","9":"category-politica-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4774","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4774"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4774\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4774"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4774"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4774"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=4774"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}