{"id":47824,"date":"2025-04-16T09:00:00","date_gmt":"2025-04-16T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47824"},"modified":"2025-04-16T01:11:30","modified_gmt":"2025-04-16T04:11:30","slug":"noboa-vence-e-com-ele-o-beneficio-da-duvida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/noboa-vence-e-com-ele-o-beneficio-da-duvida\/","title":{"rendered":"Noboa vence e, com ele, o benef\u00edcio da d\u00favida"},"content":{"rendered":"\n<p>O primeiro turno da elei\u00e7\u00e3o presidencial do Equador em 2025 foi um marco sem precedentes: duas for\u00e7as obtiveram quase 90% dos votos, refletindo um sistema pol\u00edtico cada vez mais polarizado. A defini\u00e7\u00e3o foi milim\u00e9trica, mas a vantagem que se projetava para um eventual segundo turno terminou com <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/daniel-noboa-se-impoe-ao-correismo-no-equador\/\">uma diferen\u00e7a de 10 pontos<\/a>. O que fez a balan\u00e7a desequilibrar? O que explica essa brecha entre o presidente e seu principal rival? Foi o medo do retorno do corre\u00edsmo que sustentou Daniel Noboa?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diferentemente das elei\u00e7\u00f5es anteriores, desta vez o corre\u00edsmo enfrentou um presidente em exerc\u00edcio, com o peso de um governo em vigor. Os resultados de Noboa no primeiro turno mostraram um retrocesso em rela\u00e7\u00e3o a 2023, o presidente pagou o pre\u00e7o por um governo considerado ineficaz: apag\u00f5es que duraram at\u00e9 14 horas, uma crise de seguran\u00e7a sem resultados vis\u00edveis e uma deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica sem dire\u00e7\u00e3o. Mesmo assim, no segundo turno, seus resultados foram suficientes para vencer com 55% contra 44% do candidato da Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3, que n\u00e3o parece ter crescido no segundo turno.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>1. O desejo de estabilidade e o medo da ruptura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A frase \u201cmais vale o mal conhecido do que o bem desconhecido\u201d resume o que aconteceu. Em um contexto de corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia normalizadas, o Equador preferiu a estabilidade, ainda que med\u00edocre, a arriscar o desconhecido. Os eleitores de Noboa est\u00e3o cientes das cr\u00edticas feitas a ele. Entretanto, muitos justificam sua administra\u00e7\u00e3o, minimizando seus erros ou transferindo a responsabilidade para fatores externos: \u201cdeixaram-lhe um pa\u00eds destru\u00eddo\u201d, \u201cele tem pouco tempo\u201d, \u201ca Assembleia e as m\u00e1fias o est\u00e3o impedindo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas temiam que uma mudan\u00e7a radical gerasse mais caos e incerteza, especialmente em um contexto t\u00e3o fr\u00e1gil. Em vez de apostar em uma transforma\u00e7\u00e3o incerta, muitos equatorianos preferiram uma administra\u00e7\u00e3o imperfeita, mas que oferecesse certezas m\u00ednimas. H\u00e1 elei\u00e7\u00f5es que tratam de mudan\u00e7as e outras que tratam de estabilidade. E o Equador escolheu a estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Deve-se lembrar que, no primeiro turno de 2025, o eleitorado manteve em grande parte as prefer\u00eancias de 2023. Tanto o corre\u00edsmo quanto Noboa contaram com votos emprestados, especialmente em cidades como Quito. A polariza\u00e7\u00e3o est\u00e1 na oferta pol\u00edtica, n\u00e3o na demanda. A sociedade troca apoio de uma for\u00e7a para outra com facilidade. O eleitorado brando, de um lado ou de outro, mostra uma volatilidade crescente: os eleitores mudam de elei\u00e7\u00e3o para elei\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o de muitos n\u00e3o foi ideol\u00f3gica, mas pragm\u00e1tica: quem pode trazer estabilidade? Quem pode resolver os problemas urgentes? O Equador est\u00e1 passando por uma crise estrutural &#8211; econ\u00f4mica, institucional, social &#8211; que leva os eleitores a buscarem certezas m\u00ednimas, n\u00e3o grandes promessas. E l\u00e1 estava Noboa. No fundo, os equatorianos n\u00e3o est\u00e3o pedindo milagres: eles est\u00e3o pedindo resultados. Seguran\u00e7a, estabilidade, paz. Noboa recebeu o benef\u00edcio da d\u00favida de que ele poderia entregar esses resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da falta de resultados concretos, seu curto mandato, sua imagem ainda fresca em compara\u00e7\u00e3o com seus advers\u00e1rios e a percep\u00e7\u00e3o de que \u201cele n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim\u201d lhe deram margem de manobra. Sua narrativa de que \u201co Equador est\u00e1 avan\u00e7ando\u201d permitiu que ele fosse avaliado n\u00e3o ainda pela efic\u00e1cia de suas decis\u00f5es, mas por seu potencial. O Equador lhe concedeu uma prorroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. As sombras do corre\u00edsmo: dolariza\u00e7\u00e3o, tr\u00e1fico de drogas e Venezuela<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Noboa n\u00e3o possui necessariamente atributos pr\u00f3prios que expliquem seu apoio, mas sua aceita\u00e7\u00e3o em determinados setores responde mais \u00e0 necessidade de evitar um cen\u00e1rio ainda mais rejeitado: o retorno do corre\u00edsmo. Para muitos setores, a continuidade do partido no poder era menos temida do que o retorno do corre\u00edsmo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0s vezes, n\u00e3o cometer erros \u00e9 mais importante do que acertar. E foi isso que aconteceu com o corre\u00edsmo. Embora Luisa Gonz\u00e1lez n\u00e3o tenha proposto explicitamente a modifica\u00e7\u00e3o do regime de dolariza\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o dominou o debate no segundo turno devido \u00e0s declara\u00e7\u00f5es amb\u00edguas dos porta-vozes de seu partido. Desmobilizar os eleitores de Luisa era t\u00e3o importante quanto mobilizar os seus pr\u00f3prios eleitores e, na quest\u00e3o da dolariza\u00e7\u00e3o, Noboa encontrou uma grande oportunidade de semear d\u00favidas sobre o futuro econ\u00f4mico do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra quest\u00e3o fundamental era a seguran\u00e7a. A ideia de que a paz durante o governo de Correa foi alcan\u00e7ada gra\u00e7as a pactos com traficantes de drogas tornou-se parte do imagin\u00e1rio equatoriano. Embora essa ideia n\u00e3o seja apoiada por evid\u00eancias s\u00f3lidas &#8211; os especialistas falam de uma combina\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, condi\u00e7\u00f5es materiais e fatores externos &#8211; a narrativa do \u201cpacto\u201d tornou-se dominante.<\/p>\n\n\n\n<p>A campanha de Gonz\u00e1lez n\u00e3o conseguiu desmantelar essa percep\u00e7\u00e3o. Ela se limitou a denunciar as supostas liga\u00e7\u00f5es de Noboa com o mesmo mundo, mas sem provas convincentes ou uma estrat\u00e9gia narrativa alternativa. Al\u00e9m disso, o Corre\u00edsmo &#8211; como muitos projetos de esquerda &#8211; argumenta que a seguran\u00e7a deve ser tratada junto com a pobreza como dois lados da mesma moeda. Essa posi\u00e7\u00e3o, embora v\u00e1lida, \u00e9 dif\u00edcil de explicar a um eleitorado que deseja uma \u201cm\u00e3o dura\u201d e admira figuras como Bukele (Latinobarometro, 2024).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. Base heterog\u00eanea: um apoio que transcende o anticorre\u00edsmo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O apoio a Noboa \u00e9 heterog\u00eaneo: mulheres, jovens, classes m\u00e9dia e baixa, setores populares empobrecidos que buscam alguma estabilidade em meio ao caos. Em 2023, as prov\u00edncias empobrecidas da Serra Central votaram nele. No primeiro turno de 2025, esses votos foram absorvidos por Iza, mas no segundo turno voltaram para Noboa.<\/p>\n\n\n\n<p>As classes m\u00e9dias &#8211; que na realidade s\u00e3o classes populares com aspira\u00e7\u00f5es &#8211; desconfiam de projetos como a Revolu\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3. Elas encontram em Noboa uma figura personalizada, um jovem empres\u00e1rio, com proje\u00e7\u00e3o internacional (relacionamento com Trump, imagem global), marido de uma figura p\u00fablica percebida como pr\u00f3xima e altru\u00edsta. N\u00e3o se trata do DNA como um projeto ideol\u00f3gico de direita: \u00e9 o poder da personaliza\u00e7\u00e3o em um pa\u00eds onde a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es foi quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>A figura do self-made man, pai de fam\u00edlia, jovem, empres\u00e1rio, d\u00e1 a ele uma camada adicional de confian\u00e7a emocional. E esse apoio \u00e9 visto em \u00e1reas empobrecidas, como o Planalto Central. O apoio a Iza n\u00e3o foi forte o suficiente para consolidar uma frente unida contra Noboa. Sua lideran\u00e7a, embora simbolicamente poderosa, n\u00e3o alcan\u00e7ou uma vis\u00e3o unificada ou org\u00e2nica. Muitos dos que o apoiaram em 2023 retornaram a Noboa sem conflito ideol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p>Maquiavel disse que um governante bem-sucedido n\u00e3o depende apenas da sorte, mas de sua capacidade de dominar o azar com ousadia, virtude e prepara\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m advertia que o segredo do poder est\u00e1 no momento certo. Noboa aproveitou seu momento: ele colocou em pauta o medo do passado, n\u00e3o seu pr\u00f3prio projeto. Porque a hist\u00f3ria nem sempre recompensa o melhor, mas aquele que sabe como aproveitar sua oportunidade. E Noboa, desta vez, conseguiu.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Giulia Gaspar.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um contexto de corrup\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia normalizadas, o Equador preferiu a estabilidade, ainda que med\u00edocre, a arriscar o desconhecido.<\/p>\n","protected":false},"author":713,"featured_media":47821,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16711,16715],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-47824","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-elecciones-pt-br","8":"category-ecuador-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/713"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47824"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47824\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47821"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47824"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=47824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}