{"id":47859,"date":"2025-04-17T15:00:00","date_gmt":"2025-04-17T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=47859"},"modified":"2025-04-19T05:44:13","modified_gmt":"2025-04-19T08:44:13","slug":"mario-vargas-llosa-nao-partira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/mario-vargas-llosa-nao-partira\/","title":{"rendered":"Mario Vargas Llosa n\u00e3o partir\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<p>Tive a oportunidade de conhecer Mario Vargas Llosa pessoalmente em Caracas, em 1993, durante um dos primeiros congressos organizados pela Associa\u00e7\u00e3o Latino-americana de Sociologia. Um conhecido editor convidou um grupo de jovens para a apresenta\u00e7\u00e3o que o autor faria na livraria Planeta para o lan\u00e7amento de seu romance \u201cLituma en los Andes\u201d, obra que acabara de receber o pr\u00eamio concedido pela editora.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela \u00e9poca, o Peru estava imerso em um contexto marcado pela ruptura da ordem democr\u00e1tica, ap\u00f3s o autogolpe de Alberto Fujimori \u2013 que, ali\u00e1s, havia derrotado Vargas Llosa em uma memor\u00e1vel campanha eleitoral. Ap\u00f3s essa derrota, Vargas Llosa optou por abandonar a pol\u00edtica e retornou ao seu territ\u00f3rio natural: a literatura. Diante da pergunta sobre a situa\u00e7\u00e3o do Peru, sua resposta foi generosa, otimista e marcada por uma polidez da qual ainda me lembro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 medida que sua obra foi se desenvolvendo, diferentemente de outros escritores latino-americanos \u2013 como Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez, Miguel \u00c1ngel Asturias ou o pr\u00f3prio Julio Cort\u00e1zar \u2013 Vargas Llosa n\u00e3o s\u00f3 cultivou um estilo liter\u00e1rio singular (como apontam os cr\u00edticos), mas tamb\u00e9m explorou a an\u00e1lise do poder em suas m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de suas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, no campo da sociologia pol\u00edtica pode-se notar um ponto de converg\u00eancia com Michel Foucault: ambos compartilham uma profunda preocupa\u00e7\u00e3o com o poder \u2013 com suas formas de exerc\u00edcio, reprodu\u00e7\u00e3o, legitima\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. No caso de Vargas Llosa, esta preocupa\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente de forma transversal em sua narrativa, tornando sua obra uma rica fonte de reflex\u00e3o sobre o pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seus primeiros anos, Vargas Llosa foi um entusiasta da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana. No entanto, rompeu com o regime ap\u00f3s o caso do poeta Heberto Padilla, preso em 1971 ap\u00f3s ter recebido o Pr\u00eamio Nacional de Poesia apenas tr\u00eas anos antes. Sua obra foi denunciada como subversiva e contrarrevolucion\u00e1ria, e sua pris\u00e3o marcou um ponto de inflex\u00e3o. Os escritores mediaram moderadamente a liberdade de Padilla e a resposta do governo foi acus\u00e1-los de serem agentes da CIA. A subsequente e humilhante autoincrimina\u00e7\u00e3o p\u00fablica \u00e0 qual Padilla foi for\u00e7ado a se submeter causou um profundo choque na intelectualidade internacional e foi um divisor de \u00e1guas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse epis\u00f3dio constituiu uma ruptura \u00e9tica e simb\u00f3lica entre o regime cubano e um amplo setor da comunidade intelectual. Figuras como Jean-Paul Sartre, Susan Sontag, Simone de Beauvoir, Italo Calvino e Carlos Fuentes, sob a lideran\u00e7a de Vargas Llosa, expressaram publicamente sua discord\u00e2ncia. A partir de ent\u00e3o, sua postura cr\u00edtica o distanciou gradativamente dos c\u00edrculos culturais hegem\u00f4nicos da Am\u00e9rica Latina, dominados por uma esquerda muitas vezes indulgente diante do autoritarismo revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A obra que me produziu maior impacto quando me estabeleci no Brasil em 2000 foi \u201cA guerra do fim do mundo\u201d. Embora publicada em 1981, surpreendentemente ainda n\u00e3o tinha uma presen\u00e7a forte \u2013 e ainda n\u00e3o tem, devido a preconceitos ideol\u00f3gicos \u2013 nos c\u00edrculos acad\u00eamicos brasileiros. A obra, que inicialmente poderia ser classificada \u2013 erroneamente \u2013 no \u00e2mbito do realismo m\u00e1gico, nos moldes de \u201cCem Anos de Solid\u00e3o\u201d, \u00e9 um romance hist\u00f3rico rigorosamente documentado comparado a \u201cGuerra e Paz\u201d, de Tolstoi, por sua ambi\u00e7\u00e3o narrativa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos aspectos marcantes do livro \u00e9 que ele est\u00e1 enquadrado no debate latino-americano sobre os desafios da modernidade e os dilemas da moderniza\u00e7\u00e3o. O romance antecipa uma trag\u00e9dia de fanatismos conflitantes, na qual se confrontam os fundamentalismos religioso e modernizador do estado republicano. Uma de suas maiores realiza\u00e7\u00f5es \u00e9, sem d\u00favida, ter dado voz aos marginalizados, o que, entre outras coisas, faz dele uma obra monumental.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando analisamos sua obra, com exce\u00e7\u00e3o de seus ensaios, notamos uma constante: a coer\u00eancia. Vargas Llosa surge como uma figura que irradia uma perspectiva interdisciplinar em permanente di\u00e1logo \u2013 e tamb\u00e9m em tens\u00e3o \u2013 com campos como a hist\u00f3ria, a \u00e9tica, a ci\u00eancia pol\u00edtica, a antropologia, a sociologia e at\u00e9 mesmo a psicologia. Por isso, suas leituras cr\u00edticas podem ter incomodado tanto setores de esquerda quanto de direita, em um continente marcado por evidentes contradi\u00e7\u00f5es. Por isso, suas posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas t\u00eam sido objeto de controv\u00e9rsia.<\/p>\n\n\n\n<p>Seus oponentes o rotularam de conservador, embora na Am\u00e9rica Latina ele tenha se posicionado em contextos polarizados como antipopulista. Mas, fundamentalmente, Vargas Llosa \u00e9 um liberal cl\u00e1ssico, tanto econ\u00f4mica quanto politicamente, e tamb\u00e9m cr\u00edtico de certos progressistas contempor\u00e2neos. Um liberal ao ponto de condenar o dogmatismo dos economistas que acreditam que o mercado \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas em suas mais diversas dimens\u00f5es e que seria o caminho por aquele que tamb\u00e9m seria levado ao autoritarismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra acusa\u00e7\u00e3o injusta feita ao escritor peruano \u00e9 de ter apoiado regimes autorit\u00e1rios. O que n\u00e3o \u00e9 verdade. Ao contr\u00e1rio, seu posicionamento pol\u00edtico serviu como catalisador para uma autocr\u00edtica obrigat\u00f3ria dentro da esquerda latino-americana, em especial respeito ao respaldo de regimes autorit\u00e1rios como Cuba, Nicar\u00e1gua e Venezuela. Quiz\u00e1s, seu dom\u00ednio preciso da l\u00edngua pode ter provocado confus\u00f5es diante de advers\u00e1rios menos qualificados.<\/p>\n\n\n\n<p>Vargas Llosa, sem d\u00favida, foi um <a href=\"https:\/\/letraslibres.com\/revista-mexico\/la-redencion-por-el-coraje\/\">advers\u00e1rio implac\u00e1vel<\/a>. Um liberal que chega a condenar o dogmatismo dos economistas que acreditam que o mercado \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para todos os problemas em suas mais diversas dimens\u00f5es e que tamb\u00e9m seria o caminho para o autoritarismo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vargas Llosa n\u00e3o s\u00f3 cultivou um estilo liter\u00e1rio singular &#8211; como apontam os cr\u00edticos -, mas tamb\u00e9m explorou a an\u00e1lise do poder em suas m\u00faltiplas manifesta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":207,"featured_media":47845,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16738,16958],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-47859","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-peru-pt-br","8":"category-cultura-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/207"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47859\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47845"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47859"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=47859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}